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Agostinho, Calvinismo e o Catolicismo

por Artigo compilado - qua ago 12, 11:55 am

NÃO HÁ DÚVIDA de que Calvino impôs à Bíblia certas interpretações errôneas oriundas da sua formação católica romana. Muitos líderes calvinistas concordam que os escritos de Agostinho eram a real fonte da maioria dos ensinos do que hoje é conhecido como Calvinismo. Os calvinistas David Steele e Curtis Thomas apontam que “as doutrinas básicas da posição calvinista foram vigorosamente defendidas por Agostinho contra Pelágio no século quinto”.[1]

Em seu livro revelador, The Other Side of Calvinism (O Outro Lado do Calvinismo), Laurence M. Vance detalhadamente documenta que “João Calvino não deu origem às doutrinas que levam o seu nome…”.[2] Vance cita numerosos e bem-conhecidos calvinistas para esse fim. Por exemplo, Kenneth G. Talbot e W. Gary Crampton escrevem, “O sistema de doutrina que leva o nome de João Calvino não foi, de maneira nenhuma, originado por ele…”.[3] B. B. Warfield declarou, “O sistema de doutrina ensinado por Calvino é apenas o Agostinianismo comum a todo o grupo dos Reformadores”.[4] Assim, é também reconhecido o débito que os credos oriundos da Reforma devem a Agostinho. Isto não é surpreendente diante do fato que a maioria dos Reformadores fez parte da Igreja Católica Romana, da qual Agostinho foi um dos mais conceituados “santos”. John Piper reconhece que Agostinho foi a maior influência tanto sobre Calvino quanto sobre Lutero, que continuaram a reverenciá-lo e também suas doutrinas, mesmo depois que se separaram do Catolicismo Romano.[5]

  • H. Spurgeon admitiu que “talvez o próprio Calvino o derivou [o Calvinismo] principalmente a partir dos escritos de Agostinho”.[6] Alvin L. Baker escreveu, “Dificilmente existe uma doutrina de Calvino que não leve as marcas da influência de Agostinho”.[7] Por exemplo, o seguinte trecho de Agostinho soa como um eco repercutindo através dos escritos de Calvino:

Assim como Ele os nomeou para serem regenerados… àqueles a quem Ele predestinou para a vida eterna, como o mais misericordioso doador da graça, enquanto que àqueles a quem ele predestinou para a morte eterna, Ele é também o mais justo recompensador da punição.[8]

  • Gregg Singer disse, “As principais características da teologia de Calvino são encontradas nos escritos de Santo Agostinho a tal ponto que muitos teólogos consideram o Calvinismo como uma forma mais completamente desenvolvida do Agostinianismo”.[9] Tais afirmações são declarações surpreendentes diante do fato indiscutível que, como salienta Vance, a própria Igreja Católica Romana tem uma melhor reivindicação sobre Agostinho do que os calvinistas.[10] O próprio Calvino disse:

“Agostinho está tão inteiramente comigo, que se eu quisesse escrever uma confissão de minha fé, eu poderia fazê-lo com toda a plenitude e satisfação para mim mesmo a partir de seus escritos”.[11]

Agostinho e o Uso da Força

Os donatistas[12] do quarto século acreditavam que a igreja deveria ser uma pura comunhão dos verdadeiros crentes que demonstravam a verdade do evangelho em suas vidas. Eles vieram a desprezar a apostasia que havia chegado à igreja quando Constantino casou o Cristianismo com o Paganismo a fim de unificar o império. O clero comprometido eram “sacerdotes maus trabalhando de mãos dadas com os reis da terra, que mostram que eles não têm rei senão César”. Para os donatistas, a igreja era um “pequeno corpo de salvos cercado pela massa não-regenerada”.[13] Esta é, obviamente, a visão bíblica.

Agostinho, por outro lado, via a igreja de seus dias como uma mistura de crentes e incrédulos, em que se devia permitir a existência da pureza e do mal lado a lado em prol da unidade. Ele usou o poder do Estado para obrigar a frequência à igreja (como Calvino também faria 1.200 anos mais tarde): “Quem quer que não fosse encontrado dentro da Igreja, não se perguntava o motivo, mas devia ser corrigido e convertido…”.[14] Calvino seguiu o seu mentor Agostinho ao forçar a frequência à igreja e à participação nos sacramentos através de ameaças (e coisas piores) contra os cidadãos de Genebra. Agostinho “identificou os donatistas como hereges… que poderiam ser sujeitos à legislação imperial [e à força] exatamente da mesma forma que outros criminosos e hereges, incluindo os envenenadores e os pagãos”.[15] Frend diz de Agostinho, “O jovem sensível e questionador tornou-se o pai da inquisição”.[16]

Embora tenha preferido a persuasão quando possível, Agostinho apoiava a força militar contra aqueles que eram rebatizados como crentes após a conversão a Cristo e outros supostos hereges. Em sua controvérsia com os donatistas, utilizando uma interpretação distorcida e não-cristã de Lc 14.23,[17]   Agostinho declarou:

Por que, então, a igreja não usaria a força ao compelir os seus filhos perdidos a retornar?… O próprio Senhor disse: “Saí pelos caminhos e valados a compeli-los a entrar…”. Portanto, é o poder que a Igreja recebeu… através do caráter religioso e da fé dos reis… o instrumento pelo qual aqueles que são encontrados nos caminhos e valados – isto é, em heresias e cismas – sejam compelidos a entrar, e que eles não reclamem de serem compelidos.[18]

Infelizmente, Calvino colocou em prática, em Genebra, os mesmos princípios de punição, coerção e morte que Agostinho defendeu e que a Igreja Católica Romana exerceu consistentemente ao longo dos séculos. Henry H. Milman escreve: “O Agostinianismo foi desenvolvido em um sistema ainda mais rígido e inflexível através do intelecto severo de Calvino”.[19] E ele se justificava através da interpretação errônea de Agostinho de Lc 14.23. Como poderia alguém que tem Calvino como um grande exegeta aceitar tal abuso dessa passagem?

Compelir? Não é esse o trabalho de Deus através da Eleição Incondicional e da Graça Irresistível? Compelir aqueles por quem Cristo não morreu e que Deus predestinou para o tormento eterno? Este versículo refuta o Calvinismo, não importa como ele seja interpretado!

A Influência Dominante de Agostinho

Não há dúvida quanto ao importante papel desempenhado por Agostinho na moldagem do pensamento, teologia e ações de Calvino. Isto é particularmente verdadeiro no que diz respeito às bases fundamentais do Calvinismo. Warfield refere-se a Calvino e Agostinho como “dois homens extraordinariamente talentosos [que] se elevam como pirâmides sobre o cenário da história”.[20] As Institutas da Religião Cristã de Calvino fazem repetidas referências favoráveis a Agostinho, frequentemente citando seus escritos como confiáveis e usando a expressão “Confirmado pela autoridade de Agostinho”.[21] Calvino frequentemente dá créditos a Agostinho por ter formulado os conceitos-chave, os quais ele em seguida expõe em suas Institutas. Os seguintes trechos são apenas uma amostragem muito pequena dessas referências:

“Chegamos”, diz Agostinho, “ao caminho da fé; mantenhamo-lo com firme constância”.[22]

Mais poderosa é a verdade de Deus, tanto neste aspecto como nos demais, para que recue ante a maledicência dos ímpios, como também vigorosamente contende Agostinho…. Agostinho não dissimula estar acostumado a ser censurado por pregar a predestinação com extrema franqueza, mas, porque lhe era fácil, refuta a acusação sobejamente…. Ora, também isso disse Agostinho (Sobre o Gênesis em sentido literal, livro V, capítulo III, 6) judiciosamente, a saber, que podemos seguir a Escritura com segurança….[23]

Agostinho, pois, diz retamente, explicando esta passagem….[24]

Com Agostinho afirmo que foram criados pelo Senhor aqueles a quem sabia, sem dúvida, de antemão que haveriam de ir para perdição, e que fez isto porque assim o quis..[25]

Se tua mente se sente perturbada, não te acanhes em abraçar o conselho de Agostinho….[26]

Portanto, não hesitarei, com Agostinho, em simplesmente confessar que… aquelas coisas que previu verdadeiramente haverão de vir à existência…. [E] é igualmente certo que a ruína [dos não-eleitos] em que caem pela predestinação divina é justa..[27]

O próprio Agostinho, em principalmente dois lugares, descreve [favoravelmente] a forma do monasticismo antigo. [Calvino então passa a citar as recomendações de Agostinho dos primeiros monges.][28]

Portanto, estas afirmações de Agostinho se enquadram mui esplendidamente….[29]

Tudo isso tomei fielmente de Agostinho. Mas, visto ser bem provável que suas

palavras sejam de mais autoridade que as minhas, então que venham a lume os próprios termos que nele se lêem….[30]

Agostinho quer que essa classe de pessoas, e com toda razão, não tem nada a ver com a Igreja, visto que carecem do dom de ensinar e atemorizam as pessoas simples ignorantes.[31]

Poderíamos multiplicar muitas vezes mais os exemplos acima da influência de Agostinho sobre Calvino entre as dezenas de vezes que Calvino extensivamente faz citações dos escritos de Agostinho. Líderes calvinistas admitem que as crenças básicas de Calvino já estavam formadas, através dos escritos de Agostinho, enquanto ele ainda era um devoto católico romano – uma influência que permaneceu com ele durante toda sua vida.

Os ensinamentos agostinianos que Calvino apresentou em suas Institutas incluíam a soberania que tornava Deus a causa de tudo (incluindo o pecado), a predestinação de alguns para a salvação e de outros para a condenação, a eleição e a reprovação, a fé como um dom irresistível de Deus – de fato, os conceitos-chave centrais do Calvinismo.

Procuramos em vão por evidências de que Calvino alguma vez desaprovou quaisquer das heresias de Agostinho. O calvinista Richard A. Muller admite, “João Calvino fazia parte de uma longa linhagem de pensadores que fundamentava a sua doutrina da predestinação na interpretação agostiniana de São Paulo”.[32] Em cada edição ampliada das suas Institutas, Calvino cita e se fundamenta em Agostinho mais do que nunca.

Será que o Calvinismo É Realmente uma Crença Protestante?

Que hoje muitos evangélicos proeminentes ainda estão sob o feitiço de Agostinho é evidente – e surpreendente, considerando suas numerosas heresias.  Agostinho disse, “Eu não deveria crer no Evangelho a não ser que eu fosse movido a fazê-lo através da autoridade da Igreja [Católica]”.[34] Essa declaração foi citada com grande satisfação pelo Papa João Paulo II, no ano de 1986, na festa de aniversário do décimo sexto centenário da conversão de Agostinho. O Papa passou a dizer:

O legado de Agostinho… são os métodos teológicos a respeito dos quais ele permaneceu absolutamente fiel… integralmente unido à autoridade da fé… revelada através da Escritura, da Tradição e da Igreja…. Da mesma forma o profundo senso de mistério – “pois é melhor”, ele exclama, “ter uma ignorância fiel do que um conhecimento presunçoso…”. Quero expressar mais uma vez o meu desejo ardente… de que a autoridade do ensino desse grande doutor e pastor possa florescer sempre mais satisfatoriamente na Igreja….[35]

Em meu debate com James White, ele afirma que “Calvino refutou esta mesma passagem nas suas Institutas e qualquer leitura honesta dos próprios escritos de Agostinho desmente essa deturpação de Hunt”.[36] De fato, Calvino reconheceu a autenticidade da declaração e tentou defendê-la como raciocínio legítimo para aqueles que não tinham a certeza da fé dada pelo Espírito Santo.[37]

Vance oferece inúmeras citações surpreendentes dos calvinistas elogiando Agostinho: “Uma das maiores mentes teológicas e filosóficas que Deus assim achou por bem dar à Sua Igreja”.[38] “O maior cristão desde os tempos do Novo Testamento… o maior homem que já escreveu em latim”.[39] “[Suas] obras e escritos, mais do que os de qualquer outro homem na época em que viveu, contribuíram para a promoção da sã doutrina e para o restabelecimento da verdadeira religião”.[40]

Warfield acrescenta, “Agostinho estabeleceu de uma vez por todas a doutrina da graça”.[41] No entanto, ele [Agostinho] acreditava que a graça vinha através dos sacramentos da Igreja Católica Romana. Essa abundância de elogios calvinistas a Agostinho facilita compreender por que eles amontoam os mesmos elogios sobre Calvino.

Quanto à formação das doutrinas e práticas do Catolicismo Romano, a influência de Agostinho foi a maior da história. Vance nos lembra que Agostinho foi “um dos quatro originais ‘Doutores da Igreja’ do Catolicismo [com] um dia de festa [dedicado a ele] na Igreja Católica em 28 de agosto, o dia de sua morte”.[42] O Papa João Paulo II chamou Agostinho de “o pai comum da nossa civilização cristã”.[43] William P. Grady, por outro lado, escreve, “O iludido Agostinho (354-430) foi tão longe a ponto de anunciar (através de seu livro, A Cidade de Deus) que Roma tinha tido o privilégio de inaugurar o reino milenar (de outra forma conhecido como a ‘Idade das Trevas’).”.[44]

Extraindo de um Córrego Poluído

Sir Robert Anderson lembra que “a Igreja [Católica] Romana foi moldada por Agostinho na forma que desde então ela tem mantido. De todos os erros que séculos mais tarde desenvolveram nos ensinamentos da igreja, dificilmente há um que não seja encontrado de forma embrionária em seus escritos”.[45] Esses erros incluem o batismo infantil para a regeneração (bebês que morrem sem batismo estão condenados), a necessidade do batismo para remissão dos pecados (o martírio, como no Islã, também faz remissão de pecados), purgatório, salvação somente na Igreja através de seus sacramentos e perseguição daqueles que rejeitam os dogmas católicos. Agostinho também aceitou os livros apócrifos (que ele admitia que até mesmo os judeus rejeitavam), a interpretação alegórica da Bíblia (assim, o relato da criação, os seis dias, e outros detalhes em Gênesis não são necessariamente literais) e a rejeição do reinado literal e pessoal de Cristo na Terra durante o milênio (nós estamos agora, supostamente, no reino milenar de Cristo, com a Igreja reinando e o demônio atualmente amarrado).

Agostinho insiste que Satanás está agora “amarrado” baseado em que “até agora os homens são, e sem dúvida até o fim do mundo serão, convertidos da incredulidade, na qual ele [Satanás] os mantém, à fé”. Que ele vê a prometida amarração de Satanás no “abismo” (Ap 20.1-3) de forma alegórica está claro. Surpreendentemente, Satanás “está amarrado em cada caso no qual ele é saqueado de um dos seus bens [isto é, alguém que crê em Cristo]”. E ainda mais surpreendente, “o abismo no qual ele está amordaçado” é algo interpretado por Agostinho como estando “nas profundezas” dos “corações cegos” daqueles que rejeitam a Cristo. É assim que Satanás está continuamente amordaçado como em um abismo.[46]

Agostinho não tenta explicar como ele chegou a essa incrível conclusão, muito menos como um abismo poderia existir em milhões de