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A Falácia Genética de Leandro Quadros

por Prof. Paulo Cristiano da Silva - sáb jan 06, 12:28 am

A crença na imortalidade da alma é de origem grega? Pelo visto, é isso o que acredita o apresentador Leandro Quadros, do programa adventista “Na mira da verdade”. Tanto nos dois blogs que ele administra, quanto nos embates com evangélicos na TV, a crença na imortalidade da alma é constantemente ligada a uma suposta origem grega, portanto pagã. Ora, se é de origem pagã, os cristãos não deveriam tê-la em seu bojo doutrinário. Em que pesem as inúmeras provas fartamente documentadas sobre a crença na sobrevivência da alma após a morte dentro das três tradições cristãs – ortodoxa, católica e protestante – e os inúmeros textos bíblicos que a sustentam, Quadros insiste em creditar a origem da doutrina ao paganismo grego.

Não pretendo entrar no mérito teológico e bíblico da questão (pois para mim isso já é assunto resolvido), mas tão somente avaliar a falácia por trás do argumento de Quadros.

O que é falácia genética?

Ora, falácia genética “é uma falácia lógica que consiste em aprovar ou desaprovar algo baseando-se unicamente em sua origem. Ocorre quando alguém tenta ridicularizar uma ideia, prática ou instituição simplesmente tendo em conta sua origem (gênese) ou seu estado anterior.”

Acredito que o argumento da origem grega da crença na imortalidade da alma de Quadros é uma falácia genética pelas seguintes razões:

1) Mesmo que os cristãos viessem a crer na imortalidade da alma por meio da filosofia grega, isso não tornaria a crença inteiramente falsa. A origem da crença é irrelevante para a veracidade ou falsidade da doutrina. Não se pode invalidar uma crença simplesmente baseando-se no fato de como ela passou a ser aceita. Portanto, mesmo que a crença na imortalidade da alma tivesse origem na filosofia grega, ainda assim ela poderia estar correta.

2) Outro argumento decorrente do que foi exposto acima é que culturas pagãs, em alguns momentos da história, também tiveram seus lampejos de revelação. Por exemplo, as crenças básicas judaico-cristãs podem ser encontradas em praticamente todos os povos: a crença em um Deus, em um princípio cosmológico, no pecado (erros morais), em um paraíso, na esperança do além-túmulo e até em um dilúvio são elementos comuns na herança religiosa da humanidade. É claro que os pormenores diferenciam de povo para povo devido às influencias culturais, religiosas e sociais. A dispersão das raças na Torre de Babel e o consequente distanciamento do Deus verdadeiro fizeram com que o pecado deturpasse essas crenças básicas originais em todas as culturas.

Falando sobre a similaridade entre as cosmogonias existentes no mundo, o teólogo Merrill Unger traça a mesma linha de raciocínio ao declarar que “Muito cedo os povos se desviaram daquelas primeiras tradições da raça humana, e em climas e temperaturas variadas, têm-nas modificado de acordo com sua religião e modo de pensar. As modificações com o tempo resultaram na corrupção da tradição pura e original. O relato de Gênesis não é o único inalterado, mas em qualquer lugar sustenta a inerrante impressão da inspiração divina quando comparado às extravagâncias e corrupções de outros relatos. A narrativa bíblica, podemos concluir, representa a forma original que deve ter sido assumida por essas tradições.” [1]

3) Os cristãos têm reconhecido esses lampejos de revelação, ainda que pontuais, também na cultura grega (At 17:23-28). Podemos citar como exemplo a doutrina grega do “Logos”. A partir de Heráclito, logos também pode ser interpretado como a razão universal, fixa e imutável que ordena e organiza todas as coisas. João se apropria desse conceito grego e o adapta à teologia cristã identificando-o com Jesus, a razão pela qual Deus fez e organizou o mundo (Jo. 1.1-3). Hades, o submundo para onde iam as almas dos mortos na mitologia grega, foi outro conceito readaptado nos escritos neotestamentários para ensinar sobre o estado intermediário dos mortos (Lc 16.19). Isso nos ensina que toda verdade que é expressa por uma cultura pagã não deixa de ser verdade só pelo fato de ter sido propagada por meio dela.

Seria ignorância demais rejeitarmos a bondade de Deus, só pelo fato de saber que a filosofia grega de Platão, Sócrates ou Aristóteles a ensinou. A ideia continuará sendo verdadeira, independente de ter sido dita por um grego pagão ou um cristão.

Calvino dizia que toda a verdade é a verdade de Deus. A verdade é sempre verdade, mesmo sendo dita pela boca de um herético, assim como a heresia sempre será errada mesmo sendo proferida por um cristão ortodoxo.

Justino, o Mártir chamava isso de “germes” da verdade: “Em geral, tudo o que os filósofos e poetas disseram sobre a imortalidade da alma e da contemplação das coisas celestes, aproveitaram-se dos profetas, não só para poder entender, mas também para expressar isso. Daí que parece haver em todos algo como germes da verdade. Todavia, demonstra-se que não o entenderam exatamente, pelo fato de que se contradizem uns aos outros.” (Apologia I, 44)

4) É lamentável que muitos estudiosos cometem constantemente essa falácia. No começo dos estudos da História das Religiões comparadas, muitos como o antropólogo James G. Frazer perceberam certos paralelos interessantes entre as crenças religiosas pagãs com o cristianismo. Por exemplo, a crença num ciclo de morte e ressurreição de vários deuses, tais como Adônis e Osíris, levaram-no à falsa conclusão de que a doutrina cristã da ressurreição derivava destas crenças pagãs. Hoje se sabe que, apesar de alguma semelhança, o conceito de ressurreição destes deuses mitológicos é extremamente grosseiro e não reflete de modo algum o conceito cristão de ressurreição que é único entre todas as religiões.

5) Semelhantemente as Testemunhas de Jeová quando, desesperadamente, tentam ligar a crença na Santíssima Trindade com o paganismo, cometem o mesmo erro lógico.

Por exemplo, o historiador Edward Gibbon é citado na brochura antitrinitária “Deve-se Crer na Trindade?” publicada pela Sociedade Torre de Vigia da seguinte maneira: “Se o paganismo foi conquistado pelo cristianismo, é igualmente verdade que o cristianismo foi corrompido pelo paganismo. O puro deísmo dos primeiros cristãos….foi mudado, pela Igreja de Roma, para o incompreensível dogma da trindade. Muitos dos dogmas pagãos, inventados pelos egípcios e idealizados por Platão, foram retidos como sendo dignos de crença.”

Percebe-se logo que o raciocínio é o mesmo usado por Quadros quando vai argumentar na base da origem grega da crença na imortalidade da alma. Ambos são falaciosos.

6) Levando a lógica de Quadros às suas últimas consequências, poderíamos dizer que até mesmo as doutrinas da ressurreição e do juízo final podem ser colocadas na conta dos pagãos.

Lembremos que no Antigo Testamento as duas doutrinas são praticamente desconhecidas na Torá e na teologia do primeiro templo; neste último aparecem apenas inferências textuais em alguns livros proféticos tais como Isaías (26.19), Ezequiel (Ez 37.1-14) e poéticos: Jó (19.25-27), Salmos (49.15; 73.24, 25) e Provérbios (23.14), mas, sobretudo, se referem a um escape do Sheol.

Contudo, a noção escatológica de vida no pós-morte com céu e inferno, de um julgamento a ser realizado no final dos tempos, começa praticamente com Daniel na época do império medo-persa (Dn 12.2).

Baseados neste pormenor histórico, muitos acreditam que tanto a escatologia de Daniel, quanto a do 2º Templo, receberam influências do Mazdeísmo, religião persa de Zoroastro que ensinava sobre a recompensa de ímpios e justos em um juízo final, inferno e paraíso e a parousia de Saoshyant (o “que restaura a vida”).

O conceito judaico do 1º templo é bem concreto, não existe o conceito de vida  no pós-morte. A vida diz respeito àquilo que pode ser usufruído das bênçãos materiais de Javé aqui e agora na terra. Tanto é assim que os saduceus, que só aceitavam a Torá, não acreditavam na ressurreição (Mt 22.23; At 23.8).

Diz o teólogo Mackintosh: “Forte evidência existe em favor da hipótese de que a ideia da ressurreição entrou na mente hebraica vinda da Pérsia” (H. R. Mackintosh. Immortality and the Future: The Christian Doctrine of Eternal Life. p. 34).

7) Ademais, fica difícil, se não impossível, não notar o silêncio de Quadros quanto a confessar a real diferença entre o conceito grego e o cristão de imortalidade da alma. Se foi por ignorância ou má-fé que ele deixou de mencionar, eu não tenho condições de dizer. O fato é que a crença básica de ambos os conceitos se restringe apenas ao pormenor de que essa alma é imortal. Só isso. A similaridade acaba por aí. Fatos como a origem da alma, a sua essência, o modo de como ela adquire a imortalidade, seu destino e sua relação com o corpo são questões que separam drasticamente as duas concepções – são como água e óleo.  Mas, Quadros, não menciona isso.

8) Finalmente, Quadros omite outro fato que é elementar na teologia cristã, mas que ajuda a jogar luz sobre o debate, isto é, que a revelação doutrinária é progressiva (Dt 32.2; Is 28.10). Muitas doutrinas que aparecem no Novo Testamento estão embutidas de modo embrionário no Antigo Testamento. Exemplos clássicos são: a doutrina da Trindade, da personalidade do Espírito Santo, do céu e inferno, dos demônios, da ressurreição e também da imortalidade da alma que foram mais plenamente desenvolvidas na teologia bíblica do Novo Testamento.

Portanto, o argumento aniquilacionista de Quadros só surtirá efeito, e tão somente, se ele conseguir provar que: 1) essa crença é invenção exclusiva dos gregos e, 2) que a Bíblia oferece um ensino claro e direto contrário à existência da alma fora do corpo.

Concluímos, baseados nestas oito razões que o argumento de Quadros para refutar a crença na imortalidade da alma, baseando-se numa crença parecida entre os gregos, é de debilidade evidente, melhor dizendo: uma falácia genética.

 

[1] Merrill F. Unger, Archaeology and the Old Testament, p. 37, citado por DEFFINBAUG, Bob, The creation of Heavens em the Earth (Gênesis 1.1-2.3). Disponível em: http://bible.org/seriespage/creation-heavens-and-earth-genesis-11-23. Acesso em: 06out16.

 


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9 Comentários

Comentários 1 - 9 de 9Primeira« AnteriorPróxima »Última
  1. creio na imortalidade da alma do homem, pois, quais os motivos para o diabo ainda está vivo???
    Assim como o homem, o diabo também pecou e nunca morreu, ou ele “come escondido o fruto da árvore da vida”, no qual é motivo para os asd sustentarem a tese de o homem ser mortal??????

    1. voce esta mais perdido que cachorro em dia de mudança. vai se recompor e começa de um ponto para estudar … começa pelo começo e vai indo sem pressa ..

  2. pq vc fala isso? acho q vc nao entedeu minha argumentação.

  3. Não sou adventista (graças a Deus) e nao afirmei q o diabo comia do fruto da arvore da vida, somente disse q fica difícil encaixar a tese q os asd afirmam de que a alma do homem (parte espiritual) é mortal e o diabo (um ser espiritual) nao morre.

    1. debater detalhes muito minuciosos “do porque” das teses sustentadas por seitas é perda de tempo, o motivo está explanado aqui 1 Timóteo 4:1 basta os artigos que argui o suficiente para rebater os tais, e logicamente o estudo pessoal da Bíblia.

  4. Quando o autor do artigo diz que no Antigo testamento não existe esperança no pós vida esquece do texto de hebreus 11:10 é 13 que afirmam que Abraão bem como os outros heróis da fé almejavam uma herança futura. Concordo que a verdade é progressiva mas não contraditória.

    1. você não leu direito o artigo, e principalmente este :

      a noção escatológica de vida no pós-morte com céu e inferno, de um julgamento a ser realizado no final dos tempos, começa praticamente com Daniel na época do império medo-persa (Dn 12.2).

    2. a verdade é progressiva ?! parece testemunha de jeová que “a verdade é uma cousa que vai raiando até chegar dia perfeito” mal interpretando um texto de provérbios para maquiar o erro geral deles. os adventistas também se dizem “progressivos na verdade” porém no erro continuam.

  5. Acho que não foi analisado corretamente sua interpretação que Leandro Quadro acredita na imortalidade da Alma, ao contrario disso ele acredita na mortalidade da Alma

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