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A Influência que marcou Darwin

por Enviado por email - seg ago 03, 11:06 am

Em novembro de 1826, Charles Darwin estava de volta a Edimburgo, longe de casa, sozinho, à deriva incerto sobre seu futuro. Sem tanta pressão da família para seguir nos estudos da medicina, com poucos compromissos e muito tempo livre, atirou-se nas sociedades estudantis e encontrou excitação nos lugares mais improváveis, algo que o nortearia, junto com a influência liberal da família, à formulação de sua famosa teoria. Adentrou a Sociedade Pliniana onde existiam debates acalorados, reuniões elétricas e tópicos que beiravam a responsabilidade penal. Esta sociedade fora fundada em 1823 pelo professor de História Natural Robert Jameson. As reuniões aconteciam às terças-feiras e todos os tipos de adolescentes de 16 anos a graduados antigos fluíam em um dos cômodos do porão para ouvir as discussões. Quando Darwin entrou, em 1826, estudantes radicais – ferozes democratas livres-pensadores que exigiam que a ciência fosse baseada em causas físicas, e não em forças sobrenaturais – faziam parte da sociedade. Darwin foi encaminhado para os plinianos por um de seus cinco presidente, William Browne, um militante, demagogo brilhante de 21 anos que se graduara em 1826 com um grande interesse pela loucura. Estava profundamente envolvido com a ciência radical antisobrenaturalista e a política anticlerical. Um sinal da influência recebida por Darwin por esses personagens foi que no dia que Darwin solicitou sua entrada na sociedade no dia 21 de novembro de 1826, ele ouviu uma palestra de Browne tentando refutar o livro Anatomy and Physiology of Expression, onde seu autor Charles Bell, sustentava que o Criador havia dotado suas criaturas com músculos específicos na face cuja intenção era expressar emoções e que isso refletia a natureza moral do ser humano. Browne não apenas repudiou esse ensino, como não via diferença alguma entre homens e animais. Darwin, seguindo seu “mentor”, atacou o mesmo livro em anos posteriores. Na semana seguinte Darwin foi eleito junto com William Greg, um estudante que tinha a mesma idade que ele. Greg era tão herético quanto Browne e ofereceu-se imediatamente para dar uma conferência provando que os animais inferiores possuem todas as faculdade e propensões da mente humana. Note a mesma herança religiosa de Darwin. Greg havia sido educado em uma escola unitarista e ali havia aprendido a ver a natureza puramente em termos de forças físicas, pois os unitaristas, como mostrado antes, evitavam deliberadamente a ciência criacionista ortodoxa, do tipo ensinado nas escolas anglicanas, que segundo os unitaristas, as espécies não eram criadas de modo miraculoso, nem o homem estava posicionado fora da natureza. Seus mestres haviam mesmo proclamado a mente humana como sujeita sujeita à lei da física – uma ideia que os anglicanos repudiavam, sabendo que a moralidade era um dom de Deus, não da natureza. Greg leu seu artigo sobre mente humana e animal e Darwin, com sua herança materna unitarista o escutou sem surpresa. As doutrinas da igreja estabelecida estavam sendo impugnadas nessas reuniões e a ciência dissidente sendo defendida. Isso deve, com certeza, ter afetado o impressionável garoto de 17 anos, pois foi essa herança que o guiou na sua jornada como naturalista e não demorou para tomar parte ativa na sociedade. Contudo, os novos amigos de Darwin não demonstravam “sabedoria” apenas na defesa do antisobrenaturalismo, Greg e Browne eram frenologistas ferozes e defendiam que cada faculdade de pensamento – Amor, Moralidade, Veneração – estava localizada em seu próprio “órgão” no cérebro e o tamanho de cada órgao era refletido na configuração da cabeça. Não havia arte ou mistério. Qualquer um poderia olhar para as saliências da cabeça de uma pessoa e ver seus dons. (DESMOND & MOORE, 2001, p. 50-52).

Darwin endureceu seu caráter antisobrenaturalista depois que conheceu Robert Edmund Grant. Ele se tornou mais íntimo de Darwin e o influenciou mais do que qualquer outra pessoa nesse período. Ele era dezesseis anos mais velho que Darwin e era um médico com muitos anos de prática, mas que havia abandonado a medicina para estudar a vida marinha. Era o mais radical com uma retificação da ciência e da sociedade. Alguns diziam que era homossexual, mas ninguém tinha isso por certo. O encontro deles foi decisivo. Darwin iria ser protegido e influenciado por um evolucionista intransigente. Agora, veja de onde vem boa parte do que Darwin defendeu em anos posteriores. Não havia nada sagrado para Grant. Como livre-pensador, da mesma herança da família Darwin, não via nenhum poder espiritual comandando o trono da natureza. A origem e a evolução da vida eram devidas simplesmente a forças físicas e químicas, todas obedecendo a leis naturais. Como seus heróis franceses, o difamado Jean-Baptiste Lamark e Etienne Geoffroy St. Hilaire – ambos evolucionistas – , Grant acreditava que uma nova visão imaginativa era necessária. Contudo, a evolução era quase universalmente condenada (fica claro que já existia) pela igreja e pelas autoridades científicas. Havia uma agenda clara por trás desse antisobrenaturalismo. Se a natureza e a cultura evoluíam por sí mesmas, se o clero não podia apontar para espécies criadas de maneira miraculosa como um sinal de seu poder operando das alturas, a legitimidade da igreja estaria solapada. A lógica era brutal – ainda que raramente fosse admitida. Isto é, no dia em que pessoas aceitassem que a natureza e a sociedade evoluíram sem ajuda, a igreja desabaria, a trama moral da sociedade seria despedaçada e o homem civilizado retornaria à selvageria (DESMOND & MOORE, 2001, p. 52, 53). Esta agenda oculta não era tão oculta assim e foi essa agenda que moldou o pensamento de Darwin por toda a sua vida.

Tal era o companheiro de caminhadas de Darwin e um bom companheiro de passeios também. Grant já havia cruzado os alpes sete vezes a pé, visitando as universidades da França, Alemanha, Itália e Suíça. Eles marchavam juntos em direção à costa, guarda-chuvas à mão, arrebatados em conversas e um inquisitivo Darwin aprendia as perguntas a serem feitas. Durante o inverno de 1827 Darwin conseguiu conhecer bem Grant. Darwin o achava rígido e formal a príncipio, pois Grant estava sempre vestido formalmente com fraque e cachecol. Porém, por baixo dessa indumentária era gentil, entusiástico e divertido, com um humor mordaz que a nada perdoava, nem mesmo às Escrituras. Uma sucessão de estudantes, Darwin entre eles, escutava as piadas de Grant sobre a Providência divina. Grant era um pesquisador das Lesmas-do-mar e semelhantes. Passava o inverno inteiro, no frio, coletando e observando estes pequenos seres vivos. Ele os colhia, criava desde o ovo, passava semanas decruçado sobre eles os observando. O resultado foi uma série de vinte artigos nos periódicos de Edimburgo em 1826 e 1827. O tutor não oficial de Darwin era agora um especialista mundial em invertebrados marinhos, admirado até pelos franceses, líderes mundiais no assunto. Grant apontava o que procurar, e Darwin encheu um caderno de anotações em março e abril de 1827. O que aprendeu de Grant nesses meses iria configurar sua própria abordagem inicial da evolução, dez anos depois (DESMOND & MOORE, 2001, p. 54, 55).

Darwin, absorvendo tudo isso, começou a fazer suas próprias observações originais e a primeira delas foi anunciada em outra sociedade estudantil – A Sociedade Werneriana de História Natural. Esta sociedade era mais antiga e mais pretigiada. Ali, Grant, membro do conselho, dera quinze palestras desde 1825. No final de 1826 Grant começou a levar Darwin às reuniões, pois apenas doutores em medicina podiam fazer parte da sociedade, os estudantes iam como convidados. Foi em uma dessas reuniões que Grant literalmente promoveu Darwin, pois em 24 de março de 1827 ele anunciou que Darwin havia desvendado o mistério dos corpos negros semelhantes a pimentas encontrados dentros das conchas das ostras, os quais os pescadores pensavam que fossem esporos de algas. Eram ovos de sanguessuga. Grant publicou uma descrição do parasita e congratulou seu “zeloso jovem amigo, o sr. Charles Darwin”, por sua descoberta. A partir daí, Grant empurrou-o mais fundo nos escritos dos evolucionistas (DESMOND & MOORE, 2001, p. 56).

Ao ler System of Invertebrate Animals de Lamarck, Darwin percebeu o que os franceses não haviam percebido e essa observação ajudou a confirmar a crença de Grant de que as larvas de todos aqueles animais marinhos minúsculos eram capazes de nadar livremente. Ele expôs sua descoberta em 27 de março na Sociedade Pliniana durante um encontro e anunciou que as larvas dos corais eram capazes de nadar e que os pequenos pontos negros nas ostras velhas eram ovos de sanguessuga. Essa foi sua primeira apresentação pública e ele reagiu com imenso orgulho ao ser solicitado a exibir seus espécimes diante da Sociedade. Contudo, durante esse encontro ficou explícito o que motivavam essas sociedades estudantis da época de Darwin, pois Browne, o belicoso radical, apresentou uma polêmica tão inflamada sobre mente e matéria que desencadeou um debate furioso. Ele provocou os estudantes ao defender que a mente e a consciência não eram entidades espirituais separadas do corpo, mas que eram simples subprodutos da atividade cerebral. A implicação antirreligiosa e antisobrenaturalista era clara: se a vida não era um dom sobrenatural, se a mente não era alguma entidade incorpórea, o que seria feito da alma? Sem nenhuma alma, sem pós-vida, sem punição nem recompensa, onde estava o impedimento contra a imoralidade? Existem provas de que alguém ficou enraivecido ao ponto de apagar das atas tanto o artigo, quanto o anúncio na semana anterior. Esta foi a primeira apresentação de Darwin ao livre pensamento militante – e à tempestade que ele desencadeara. A notícia desta reunião se espalhou por todo o país (DESMOND & MOORE, 2001, p. 57).

Professores vigilantes temiam que os jovens rebentos fossem empesteados por essas ideias venenosas. Era conhecido de que os rumores de que os estudantes de medicina se degeneravam em ateus materialistas do maior desregramento pessoal era verdade. Ali estava o Darwin adolescente, misturando-se exatamente com essas pessoas, assistindo a debates que tocavam nos assuntos mais polêmicos de sua época. As minúsculas larvas de Darwin eram mais importantes do que ele mesmo acreditava. Eram um esteio central na pesquisa evolucionária de Grant, que rejeitava a explicação convencional de que os animais eram projetados por Deus. Grant acreditava que todos os animais eram relacionados estruturalmente e por isso podiam ser alinhados em uma cadeia e era isso que dava aos humildes seres da base uma importância fundamental, pois segundo ele, seus tecidos eram versões mais simples dos tecidos humanos e poderiam ser usados para  explicar os órgãos humanos – para revelar sua origem primitiva e sua função primordial. Grant formulou uma linha parental real e elogiou Lamarck diante de Darwin e segundo os biógrafos em tela, Darwin ficou surpreso, pois a concepção tradicional era de que cada espécie fora criada de maneira direta [um erro de interpretação da época]. Pois é, no teatro de Edimburgo, era defendido que os animais superiores haviam evoluído, no sentido moderno do termo, dos vermes mais simples (DESMOND & MOORE, 2001, p. 58). Também causa surpresa ver os biógrafos de Darwin afirmarem que ele ficou surpreso, tendo em vista sua herança intelectual da família ser totalmente antisobrenaturalista. Veremos também que não existe uma sequência fóssil que se coadune com o “relato” da evolução.

Grant, o evolucionista radical que agora influenciava Charles Darwin, mencionou com muita paixão que o livro Zoonomia de Erasmus Darwin, avô de Charles, havia aberto sua mente para algumas das leis da vida orgânica e que havia citado a obra na sua tese de doutorado. Uma ironia incrível. Grant era tão radical, daí estar claro a influência sobre Darwin, pois ele traçou um curso reverso de desenvolvimento dos reinos animal e vegetal até os pólipos (larvas) e algas mais simples, aceitava que eram relacionados e que tinham um ponto de partida evolucionário comum. Aqui ele se afasta da ciência da observação e parte para o argumento da especulação, pois defendia e acreditava que os ovos desses vegetais primitivos eram análogos às “mônadas” ou partículas vivas elementares que forneciam um relance dos blocos básicos de construção da vida. Logo, ele acreditava que essas mônadas também podiam emergir espontaneamente da matéria inorgânica e que detinham a chave para as leis finais da vida. Perceba que para os evolucionistas, onde os reinos convergem está o território mais fétil para o naturalista filosófico. Outro fato claro era que esses homens que encaminhavam Darwin às suas pesquisas eram selvagemente anticristãs. Darwin levaria esse ponto de vista ao extremo (DESMOND & MOORE, 2001, p. 59). Vale ressaltar, apenas para preparar o leitor para as páginas seguintes que o naturalismo filosófico é o distanciamento da ciência propriamente dita apenas para o campo da filosofia, da interpretação e da suposição. Está claro pois o tutor de Darwin defendia que a vida surgiu de matéria inorgânica, algo inaceitável para a ciência da vida e em nada diferente de um milagre.

A imagem de Darwin dissecando, empalhando, anotando, observando, assumindo posições, fazendo descobertas mostra que seu segundo ano não foi um período estéril. Seu treinamento intelectual havia começado. O melhor zoólogo de invertebrados o havia ensinado a estudar os detalhes ao mesmo tempo em que fazia as perguntas mais amplas. Darwin havia se tornado um observador geológico, tanto de rochas quanto de debates ásperos. Contudo, questões mais inflamadas o engolfaram: mente e matéria, um incômodo lamarckismo, censura e autoridadade. Esses eram assuntos que incendiavam paixões e revelavam que a ciência era algo mais que observação precisa – era uma completa obra de negociação política. Contudo, apesar de tentar, se desiludiu de vez com a medicina e em abril de 1827 ele abandonou o curso sem se formar. Seus companheiros de descobertas e muitas conversas seguiram seus caminhos. Grant foi lecionar em Londres. Browne foi para Paris. Greg foi administrar as fábricas do pai. Esses amigos haviam mostrado a Darwin o significado da dissidência intelectual. Em nenhum outro lugar a tensão entre explicações naturais e sobrenaturais, capitalismo e privilégio era mais aparente do que nesses debates em Edimburgo. A luta para redefinir o homem como um ser material, e a natureza como um mercado competitivo e secular era uma iniciativa contra a oligarquia religiosa dda época. Entretanto, Darwin vislumbrara o lado social da ciência e talvez até mesmo um novo mundo em formação (DESMOND & MOORE, 2001, p. 62, 63).

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Fontes citadas:

DESMOND, Adrian; MOORE, James. Darwin: A Vida de um Evolucionista Atormentado (Tradução Cyntia Azevedo). 4ª edição revisada e ampliada. São Paulo: Geração Editorial, 2001

Por Walson Sales

 


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