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A inspiração do Antigo Testamento

Bíblia-hebraica

Será que a Bíblia realmente se diz inspirada ou seria essa idéia mera reivindicação feita pelos crentes a respeito deste livro? Falando mais especificamente, será que cada parte ou cada livro da Bíblia se diz inspirado? Nos próximos dois capítulos estaremos tentando responder a essas perguntas. Primeiramente, examinemos a reivindicação do Antigo Testamento a favor de sua inspiração.

 

A reivindicação do Antigo Testamento a favor de sua inspiração

O Antigo Testamento vindica para si a inspiração divina, com base no fato de se apresentar perante o povo de Deus e ser por esse povo recebido como pronunciamento profético. Os livros escritos pelos profetas de Deus eram conservados em lugar sagrado. Moisés colocara sua lei na arca de Deus (Dt 10.2). Mais tarde, ela seria mantida no tabernáculo, para ensino das gerações futuras (Dt 6.2). Cada profeta, depois de Moisés, acrescentou seus escritos sagrados à coleção existente. Aliás, o segredo da inspiração do Antigo Testamento está na função profética de seus escritores.

 

O Antigo Testamento na qualidade de texto profético

O profeta era o porta-voz de Deus. As funções do profeta ficam esclarecidas nas várias menções que a ele se fazem. O profeta era chamado homem de Deus (1Rs 12.22), o que revela ser ele escolhido por Deus; era chamado servo do Senhor (1Rs 14.18), o que mostra sua ocupação; mensageiro do Senhor (Is 42.19), o que assinala sua missão a serviço de Deus; vidente (Is 30.10), o que revela a fonte apocalíptica de sua verdade; homem do Espírito (Os 9.7), o que demonstra quem o levava a falar; atalaia (Ez 3.17), o que manifesta sua prontidão em realizar a obra de Deus. Acima de todas as designações, entretanto, sobressai a de “profeta”, ou seja, o porta-voz de Deus.

Em razão do próprio chamado, o profeta era alguém que se sentia como Amos — “Falou o Senhor Deus, quem não profetizará?” (Am 3.8)— ou como outro profeta, que disse: “… eu não poderia desobedecer à ordem do Senhor meu Deus, para fazer coisa pequena ou grande” (Nm 22.18). Assim como Arão havia sido profeta ou porta-voz de Moisés (Êx 7.1), pois deveria falar “todas as palavras que o Senhor havia dito a Moisés” (Êx 4.30), assim também os profetas de Deus deveriam falar somente aquilo que o Senhor lhes ordenasse. Assim dissera Deus aos profetas: “Porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar” (Dt 18.18). Além disso: “Nada acrescentareis ao que vos ordeno, e nada diminuireis” (Dt 4.2). Em suma, profeta era aquele que dava a saber o que Deus lhe havia revelado.

Os falsos profetas eram identificados graças às suas profecias falsas e pela falta de confirmação miraculosa. Assim declara o livro de Deuteronômio: “Quando o tal profeta falar em nome do Senhor, e o que disse não acontecer nem se realizar, essa palavra não procede do Senhor” (Dt 18.22). Sempre que se punha em dúvida um profeta ou se exigia sua confirmação, Deus deixava claro, por meio de milagres, a quem havia chamado. A terra se fendeu e tragou a Core e aos demais que contestaram a vocação de Moisés (Nm 26.10). Elias foi exaltado sobre os profetas de Baal, quando estes pereceram no fogo caído do céu (1Rs 18.38). Até mesmo os magos do Egito reconheceram os milagres divinos realizados por meio de Moisés, quando disseram: “… Isto é o dedo de Deus…” (Êx 8.19).

Sempre ficou bem claro na função do profeta de Deus que o que dizia era palavra da parte de Deus. Veremos, pois, que as passagens do Antigo Testamento eram consideradas declarações proféticas. Há várias maneiras de comprovarmos tal enunciado.

As declarações proféticas eram escritas. Muitas declarações proféticas eram transmitidas oralmente, mas interessa-nos aqui o fato de que muitas delas eram registradas, sendo esses registros considerados declarações do próprio Deus. Não há a menor dúvida de que as palavras escritas de Moisés fossem consideradas dotadas de autoridade divina. “Não se aparte da tua boca o livro desta lei” (Js l.8) foi a exortação aos filhos de Israel.

Josué, sucessor de Moisés, também “escreveu estas palavras no livro da lei de Deus” (Js 24.26).    Quando o rei queimou a primeira mensagem escrita que Jeremias lhe enviara, o Senhor ordenou ao seu profeta: “Toma ainda outro rolo, e escreve nele todas as palavras que estavam no primeiro rolo” (Jr 36.28). O profeta Isaías recebeu esta ordem: “Toma um grande rolo, e escreve nele” (Is 8.1). De modo semelhante, Habacuque recebeu esta ordem da parte de Deus: “Escreve a visão, e torna-a bem legível sobre tábuas, para que aquele que a ler, corra com ela” (Hc 2:2).

Os profetas posteriores usavam os escritos dos profetas que os antecederam considerando-os Palavra de Deus escrita. Daniel ficou sabendo que o exílio babilônico de seu povo estava chegando ao fim ao ler a profecia de Jeremias. Assim escreveu o profeta Daniel: “Eu, Daniel, entendi pelos livros que o número de anos, de que falou o Senhor ao profeta Jeremias…” (Dn 9.2).

Os escritores do Antigo Testamento eram profetas. Todos os autores tradicionais do Antigo Testamento são denominados profetas, seja como título, seja como função. Nem todos eram profetas por ter estudado para isso, mas todos possuíam o dom da profecia. Assim confessou Amos: “… Eu não era profeta, nem filho de profeta […]. Mas o Senhor […] me disse: Vai, profetiza ao meu povo Israel” (Am 7.14,15). Davi, a quem se atribui a criação de quase metade dos salmos, exercia a função de rei. No entanto, assim testificou esse rei: “O Espírito do Senhor fala por mim, e a sua palavra está na minha boca” (2Sm 23.2). O Novo Testamento acertadamente o denomina profeta (At 2.30). De modo semelhante, o rei Salomão, autor dos livros de Cântico dos Cânticos, Provérbios e Eclesiastes, teve visões da parte do Senhor (1Rs 11.9). De acordo com Números 12.6, as visões eram um meio de Deus mostrar ao povo quem eram seus profetas. Embora Daniel fosse estadista, o próprio Senhor Jesus o denominou profeta (Mt 24.15).

Moisés, o grande legislador e libertador de Israel, é denominado profeta (Dt 18.15; Os 12.13). Josué, sucessor de Moisés, era considerado profeta de Deus (Dt 34:9). Samuel, Nata e Gade foram profetas que escreveram (1Cr 29.29), da mesma forma que Isaías, Jeremias, Ezequiel e os doze profetas menores.

Manteve-se um registro oficial dos escritos proféticos. Comprovadamente não há registros de escritos não-proféticos conservados a par da compilação sagrada, que teve início com a lei de Moisés. Parece que houve continuidade de profetas, e cada um acrescentava seu próprio livro aos escritos proféticos anteriores. Moisés guardou seus livros ao lado da arca.

A respeito de Josué está escrito que acrescentou seu livro à compilação existente (Js 24.26). Seguindo-lhe os passos, Samuel acrescentou suas palavras à compilação profética, pois a seu respeito está escrito: “E escreveu-O num livro, e o pôs perante o Senhor” (1Sm 10.25).

Samuel fundou uma escola de profetas (1Sm 19.20), cujos alunos mais tarde se chamariam “filhos dos profetas” (2Rs 2.3). Existem inúmeros testemunhos nos livros dás Crônicas segundo os quais os profetas guardavam com cuidado as histórias. A história de Davi havia sido escrita pelos profetas Samuel, Nata e Gade (1Cr 29.29). A história de Salomão foi registrada por Natã, Aías e Ido (2Cr 9.29). O mesmo aconteceu no caso das histórias de Roboão, de Josafá, de Ezequias, de Manasses e de outros reis (v. 2Cr 9.29; 12.15; 13.22; 20.34; 33.19; 35.27).

Na época do exílio babilônico, no século VI a.C, Daniel se referiu à compilação de escritos proféticos dando-lhe o nome de “livros” (Dn 9.2). De acordo com Ezequiel (13.9), havia um registro oficial dos verdadeiros profetas de Deus. Todo aquele que transmitisse profecias falsas era excluído do rol oficial. Só os verdadeiros profetas de Deus eram oficialmente reconhecidos, e só os escritos desses profetas eram guardados ao lado dos escritos inspirados. Desde os tempos mais remotos de que temos registro, todos os 39 livros do Antigo Testamento já compunham esse acervo de escritos proféticos. Voltaremos a esse assunto posteriormente (v. caps. 7 e 8).

 

Reivindicações específicas do Antigo Testamento a favor de sua inspiração

A inspiração do Antigo Testamento não se baseia meramente numa análise genérica dessa parte da Bíblia como escrito profético. Há numerosas reivindicações, nas páginas de cada livro, especificamente sobre sua origem divina. Examinemos tais reivindicações de acordo com a divisão aceita atualmente dos livros do Antigo Testamento em lei, profetas e escritos.

A inspiração da lei de Moisés. De acordo com Êxodo 20.1: “Então falou Deus todas estas palavras…”. Essa afirmativa de que Deus falou algo a Moisés se repete dezenas de vezes em Levítico (e.g., 1.1; 8.9; 11.1). O livro de Números registra incontáveis vezes:”… o Senhor falou a Moisés…” (e.g., 1.1; 2.1; 4.1). Deuteronômio acrescenta:”… falou Moisés aos filhos de Israel, conforme tudo o que o Senhor lhe ordenara a respeito deles…” (1.3).

O resto do Antigo Testamento declara em uníssono que os livros de Moisés foram outorgados pelo próprio Deus. Josué impôs imediatamente os livros da lei ao povo de Israel (1.8). Juízes refere-se aos escritos de Moisés como “mandamentos do Senhor” (3.4). Samuel reconheceu que Deus havia nomeado a Moisés líder do povo (1Sm 12.6,8). Nas Crônicas, os registros mosaicos são tidos por “livro da lei do Senhor, dada por intermédio de Moisés” (2Cr 34:14). Daniel diz que a maldição escrita na lei de Moisés é “o juramento que está escrito na lei de Moisés, servo de Deus […]. Ele confirmou a sua palavra, que falou contra nós…” (Dn 9.11,12). Até mesmo em Esdras e em Neemias existe o reconhecimento da lei de Deus dada a Moisés (Ed 6.18; Ne 13.1). O consenso unânime do Antigo Testamento é que os livros de Moisés foram outorgados pelo próprio Deus.

A inspiração dos profetas. Segundo a atual divisão do Antigo Testamento, feita pelos judeus, os livros dos profetas abrangem os antigos profetas (Josué, Juizes, Samuel e Reis) e os profetas posteriores (Isaías, Jeremias, Ezequiel e os doze profetas menores). Também esses vindicam autoridade divina. “Josué escreveu estas palavras no livro da lei de Deus” (Js 24.26). Deus falou aos homens em Juizes (1.1,2; 6.25) e em Samuel (3.11), que falou e escreveu a todo Israel (4.1, cf. 1Cr 29.29). Os profetas posteriores trazem inúmeras vindicações de inspiração divina. A célebre expressão “assim diz o Senhor”, com que encetam suas mensagens, ocorre centenas de vezes. De Isaías até Malaquias, o leitor é literalmente bombardeado por expressões revelador as da autoridade divina.

Sob o aspecto cronológico, o Antigo Testamento se encerra nessa seção, conhecida por profetas, não havendo testemunhos posteriores no Antigo Testamento sobre a inspiração dessa parte da Bíblia. No entanto, há referências dentro dos profetas a outros autores proféticos que escreveram seus livros em época anterior. Daniel considerou o livro de Jeremias inspirado (Dn 9.2). Esdras reconheceu a autoridade divina de Jeremias (Ed 1.1), bem como a de Ageu e a de Zacarias (Ed 5.1). Numa passagem de grande importância, Zacarias refere-se à inspiração divina de Moisés e dos profetas que o precederam, dizendo que seus escritos eram “palavras que o Senhor dos exércitos enviara pelo seu Espírito mediante os profetas que nos precederam” (7.12). Esses versículos eliminam toda dúvida quanto ao fato de os livros que estão na seção das Escrituras judaicas conhecida como profetas apresentarem ou não a vindicação de inspiração divina.

A inspiração dos escritos. É provável que o Antigo Testamento originariamente tivesse apenas duas divisões básicas: a lei e os profetas (v. Cap. 7). Esta última seção seria dividida posteriormente em profetas e escritos. Talvez essa divisão ocorresse com base na posição oficial do autor:

era ele profeta por ocupação ou simplesmente pelo dom divino? Os que fossem profetas pelo dom se enquadrariam na categoria de escritos. Salmos, o primeiro livro dessa coleção, fora escrito em grande parte por Davi, que dizia que seus salmos lhe haviam sido ditados — letra por letra— pelo Espírito (2Sm 23.2). Cântico dos Cânticos, Provérbios e Eclesiastes tradicionalmente são atribuídos a Salomão; seriam o registro da sabedoria que lhe fora concedida por Deus (v. 1Rs 3.9,10). Provérbios contém vindicações específicas de autoridade divina. Eclesiastes (12.13) e Jó (cap. 38) encerram-se com uma declaração de serem ensino autorizado. O livro de Daniel baseia-se numa série de visões e sonhos oriundos da parte de Deus (Dn 2.19; 8.1 etc).

Vários livros deixam de apresentar vindicação de inspiração divina: Rute, Ester, Cântico dos Cânticos, Lamentações, Esdras-Neemias e Crônicas. Se o livro de Rute foi escrito por Samuel, como parte de Juizes, fica sob a vindicação genérica de escrito profético. De semelhante modo, Lamentações, livro escrito por Jeremias, é profético. Já vimos que Cântico dos Cânticos é obra derivada da sabedoria concedida por Deus a Salomão. A tradição judaica atribui Crônicas, Esdras e Neemias a Esdras, o sacerdote, e a Neemias, que atuou com autoridade profética na repatriação de Israel, remindo essa nação do cativeiro babilônico (cf. Esdras 10 e Neemias 13). Não se menciona quem escreveu o livro de Ester, talvez para que se preservasse seu anonimato naquele ambiente pagão e hostil. A visão do livro de Ester é notadamente judaica; esse livro serve de autoridade escrita para a celebração da festa judaica do Purim. Tal fato significa vindicação implícita de autoridade divina.

Em suma, então, quase todos os livros do Antigo Testamento oferecem alguma vindicação de inspiração divina. Às vezes se trata de autoridade implícita, mas em geral há uma declaração explícita do tipo “assim diz o Senhor”. Do início ao fim, a doutrina da inspiração do Antigo Testamento está solidamente instalada em numerosos trechos, os quais sustentam sua origem divina.

 

Apoio do Novo Testamento à vindicação de inspiração feita pelo Antigo Testamento

Vemos três formas de abordagem ao examinarmos o ensino do Novo Testamento a respeito da inspiração do Antigo Testamento. Há as passagens que se referem à autoridade divina do Antigo Testamento como um todo, genericamente. Há as referências à inspiração de determinadas partes ou seções do Antigo Testamento. Finalmente, há citações de livros específicos do cânon judaico.

 

Referências do Novo Testamento à inspiração do Antigo Testamento

O Novo Testamento reconhece a inspiração do Antigo Testamento de muitas maneiras. Às vezes, o Novo Testamento usa expressões como “Escrituras”, “Palavra de Deus”, “a lei”, “os profetas”, “a lei e os profetas” e “oráculos de Deus”.

Escrituras é, de longe, o termo mais comum usado no Novo Testamento em referência ao Antigo. De acordo com Paulo, “Toda Escritura [Antigo Testamento] é inspirada por Deus” (2Tm 3.16). Disse Jesus: “A Escritura não pode ser anulada” (Jo 10.35). Com freqüência o Novo Testamento emprega o plural, Escrituras, para referir-se à coleção de escritos judaicos dotados de autoridade divina. Respondeu Jesus aos fariseus: “Nunca lestes nas Escrituras?” (Mt 21.42) e “Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus” (Mt 22.29). O apóstolo Paulo “discutiu com eles sobre as Escrituras” (At 17.2), e os crentes de Beréia examinavam “cada dia nas Escrituras” (At 17.11). Nessas e em muitas outras referências, o Novo Testamento reconhece que o Antigo Testamento como um todo são escritos inspirados por Deus.

Palavra de Deus é expressão que aparece menos comumente, mas talvez seja a alusão mais forte à inspiração divina do Antigo Testamento. Em Marcos 7.13, Jesus acusou os fariseus de invalidar “a palavra de Deus”, e empregou a expressão como sinônimo de “Escrituras”. Há numerosas referências à “Palavra de Deus”, embora nem todas identifiquem com clareza o Antigo Testamento. Paulo argumentou assim: “Não que a palavra de Deus haja falhado” (Rm 9.6). Em outra passagem ele se refere à sua recusa em falsificar a palavra de Deus (2Co 4.2). O autor de Hebreus declara que “a palavra de Deus é viva e eficaz” (Hb 4.12). A declaração do apóstolo Pedro — “Dele [i.e., de Cristo] dão testemunho todos os profetas” (At 10.43) — dificilmente se limitaria a algo que não fosse o Antigo Testamento como um todo, à vista de Lucas 24.27,44. Os textos que com máxima clareza identificam todo o Antigo Testamento como Palavra de Deus não deixam dúvida quanto à realidade de sua inspiração divina.

Lei em geral é palavra que se refere ao Antigo Testamento como forma abreviada de “lei de Moisés”. A lei representa apenas os cinco primeiros livros das Escrituras judaicas. No entanto, em certos casos, a palavra lei se aplica a todo o Antigo Testamento. João 10.34 provavelmente é um desses casos mais significativos. Visto que a citação é extraída de Salmos 82.6, fica bem claro que não se refere à lei de Moisés. A palavra “lei” é usada aqui em relação a “Escrituras” e a “Palavra de Deus”, mostrando que a referência se faz a todo o Antigo Testamento. Em João 12.34, as pessoas mencionam “a lei”, ainda que em outro texto Jesus faça referência a “sua [deles] lei” (Jo 15.25), e, em Atos, Paulo a identifique como “a lei dos judeus” (At 25.8). Paulo introduziu uma citação do Antigo Testamento com a seguinte frase: “Está escrito na lei” (1Co 14.21). Em seu famoso sermão do monte, Jesus empregou o termo lei como sinônimo de “lei e profetas”, expressão que, como vemos, refere-se claramente aos documentos inspirados por Deus, a que se dá o nome de Antigo Testamento (Mt 5.18).

A lei e os profetas, ou “Moisés e os profetas”, é o segundo título mais comumente atribuído às Escrituras judaicas. É designação que ocorre dezenas de vezes no Novo Testamento. Jesus a usou duas vezes em seu famoso sermão (Mt 5.17; 7.12), afirmando ter vindo à terra a fim de cumprir “a lei e os profetas”, os quais jamais haveriam de passar. Lucas 16.16 apresenta “a lei e os profetas” como a revelação divina até a época de João Batista. Em sua defesa perante Félix, Paulo declarou ser “a lei e os profetas” todo o conselho de Deus que ele, como judeu devoto, havia praticado desde sua juventude (At 24.14). Eram “a lei e os profetas” que eram lidos nas sinagogas (At 13.15), de que a Regra de Ouro, ou o maior dos mandamentos, é a súmula moral (Mt 7.12).

Os profetas vez por outra se referia a todo o Antigo Testamento. Visto ser o Antigo Testamento enunciação profética, não é de surpreender que seja chamado, às vezes, “os profetas”. O fato de o Antigo Testamento ser chamado às vezes “Escrituras dos profetas” mostra que se tem em mente um grupo de livros (Mt 26.56). Na verdade, o título “profetas” é usado em paralelo com a expressão “a lei e os profetas” (Lc 24.25,27), referindo-se claramente a todo o Antigo Testamento.

Oráculos de Deus sem dúvida é expressão que tenciona comunicar essa idéia. Aparece duas vezes e refere-se às Escrituras do Antigo Testamento. Disse Paulo a respeito dos judeus: “As palavras de Deus lhe foram confiadas”, isto é, aos judeus (Rm 3.2). Noutra passagem, declara-se a necessidade de alguém “ensinar os princípios elementares dos oráculos de Deus” (Hb 5.12). Portanto, a palavra escrita do Antigo Testamento é a Palavra de Deus.

Está escrito é expressão que se encontra mais de noventa vezes no Novo Testamento. A maior parte das ocorrências dessa expressão introduz citações específicas, mas algumas têm aplicação genérica ao Antigo Testamento como um todo. Eis alguns exemplos desta última aplicação: “Por que, pois, está escrito que o Filho do homem deve sofrer muito e ser rejeitado?” (Mc 9.12; cf. 14.21). Temos aqui um resumo do ensino genérico sobre a morte de Cristo no Antigo Testamento, em vez de uma citação veterotestamentária específica. Lucas 18.31 é uma referência mais definitiva ainda: “E se cumprirá no Filho do homem tudo o que os profetas escreveram”. Há outros textos ainda, como “Pois dias de vingança são estes, para que se cumpram todas as coisas que estão escritas” (Lc 21.22), que dão apoio à tese segundo a qual os escritos do Antigo Testamento como um todo eram considerados inspirados por Deus. Prediziam tudo a respeito de Cristo e era inevitável que se cumprissem.

Para que se cumprissem as Escrituras é expressão encontrada com muita freqüência no Novo Testamento em referência ao Antigo Testamento como um todo. Jesus disse “que era necessário que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito” na Lei, nos Profetas e nos Salmos (Lc 24.44). Em outra ocasião, disse o Senhor: “Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim para destruí-los, mas para cumpri-los” (Mt 5.17). Essa fórmula mais de trinta vezes introduz uma citação específica do Antigo Testamento ou uma referência a essa parte da Bíblia. Sempre se referem à natureza profética das Escrituras, outorgadas que foram por Deus, e, necessariamente, devem ser cumpridas.

 

Referências do Novo Testamento a seções específicas do Antigo Testamento

O segundo indício no Novo Testamento de que o Antigo Testamento era considerado inspirado por Deus são as referências à autoridade de certos trechos das Escrituras hebraicas (e.g., a lei, os profetas e os escritos).

A lei e os profetas, como mostramos acima, referem-se a uma divisão do Antigo Testamento em duas partes. Essa referência ocorre dezenas de vezes no Novo Testamento. Indica todos os escritos inspirados, desde Moisés até Jesus (Lc 16.16), considerados Palavra eterna de Deus (Mt 5.18). Além das referências às duas partes em conjunto, há outras que tratam da lei e dos profetas de modo separado.

A lei em geral designa os primeiros cinco livros do Antigo Testamento, como ocorre em Mateus 12.5. Às vezes a expressão é “a lei de Moisés” (At 13.39; Hb 12,5). Em outras passagens esses livros são chamados simplesmente, “Moisés” (2Cor 3.15), “os livros de Moisés” (Mc 12.26) ou “os livros da lei” (Gl 3.10). Em cada caso recorre-se à autoridade divina do ensino mosaico. O Pentateuco como um todo era considerado proveniente de Deus.

Os profetas em geral identifica a segunda metade do Antigo Testamento (v. Jo 1.45; Lc 18.31). Empregam-se também as expressões “as escrituras dos profetas” (Mt 26.56) e “o livro dos profetas” (At 7.42). Nem sempre fica claro que esses títulos se referem apenas aos livros escritos após o ministério de Moisés, embora às vezes isso esteja muito bem especificado, como revela a separação dos dois títulos. No que concerne ao título profetas, exatamente o fato de significar porta-vozes de Deus revela a inspiração divina dos livros que levam essa designação (2Pe 1.20,21).

Os escritos não é termo neotestamentário. Trata-se de designação não-bíblica usada para dividir os escritos proféticos em duas partes: a escrita por profetas profissionais (“os profetas”) e a escrita por outros tipos de profetas (“os escritos”). Existe apenas uma alusão no Novo Testamento a uma possível divisão do Antigo Testamento em três partes. Jesus referiu-se a “tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24.44). Não ficou claro aqui se o Senhor estava destacando os Salmos, em vista de seu significado messiânico especial, como parte da “lei” e dos “profetas”, a que ele se referiu anteriormente no mesmo capítulo (v. 27), ou o primeiro livro da seção conhecida agora como “escritos”. Seja qual for o caso, a natureza messiânica e profética dessa suposta terceira parte do Antigo Testamento faz que ela se destaque como inspirada por Deus. E, se houver apenas duas seções no cânon do Antigo Testamento (como veremos no cap. 7), o resto das Escrituras inspiradas já foi estudado quando tratamos do designativo “profetas”.

 

Referências do Novo Testamento a livros específicos do Antigo Testamento

Dos 22 livros do cânon judaico mencionados por Josefo (Contra Ápion, i, 8), cerca de 18 são citados no Novo Testamento como autorizados. Não se encontram menções a Juizes, a Crônicas, a Ester e ao Cântico dos Cânticos, ainda que haja referências a acontecimentos de Juizes (Hb 11.32) e de Crônicas (Mt 23.35; 2Cr 24.20). Pode haver uma alusão a Cântico dos Cânticos 4.15 na referência que Jesus faz a “águas vivas” (Jo 4.10), mas tal citação não seria apoio à autoridade do livro. De maneira semelhante, a provável referência à Festa do Purim, de Ester 9, em João 5.1, ou a similaridade entre Apocalipse 11.10 e Ester 9.22 não poderiam ser consideradas apoio à inspiração de Ester. A autoridade divina investida sobre o livro de Ester é satisfatoriamente atestada de outra forma (v. cap. 8), não, todavia, mediante citações do Novo Testamento.

Quase todos os 18 livros restantes do cânon hebraico são citados com autoridade no Novo Testamento. A criação do homem em Gênesis (1.27) é citada por Jesus em Mateus 19.4,5. O quinto mandamento de Êxodo 20.12 é citado como Escritura em Efésios 6.1. A lei da purificação dos leprosos, registrada em Levítico 14.2-32, é citada em Mateus 8.4. Números é mencionado indiretamente, pois em 1Coríntios há referência a acontecimentos registrados naquele livro, referência essa para admoestação dos cristãos (1Co 10.11). Números 12.7 registra a fidelidade de Moisés, sendo essa passagem mencionada com autoridade em Hebreus 3.5. Deuteronômio é um dos livros mais citados do Antigo Testamento. Jesus o menciona duas vezes em sua tentação (Mt 4.4 e 4.7; cf. Dt 8.3 e 6.16).

Josué recebeu a promessa da parte de Deus: “… não te deixarei, nem te desampararei” (1.5), a qual é citada em Hebreus 13.5. Jesus citou o incidente de 1Samuel 21.1-6, em que Davi comeu os pães da proposição, em apoio à autoridade do Senhor de exercer certas atividades no dia de sábado. A resposta de Deus a Elias, em 1Reis 19.18 é citada em Romanos 11.4. Esdras-Neemias provavelmente são citados em João 6.31 (cf. Ne 9.15), ainda que a provisão de “pão do céu” a Israel por parte de Deus também seja citada em outras passagens (Sl 78.24; 105.40).

A autoridade divina do livro de Jó (5.12) é demonstrada de modo claro por Paulo: “Gomo está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia” (1Co 3.19). O livro de Salmos é outro do Antigo Testamento que se menciona com muita freqüência. Era um dos favoritos de Jesus. Compare Mateus 21.42 — ” A pedra que os edificadores rejeitaram, essa se tornou a pedra angular” — com Salmos 118.22. Pedro citou o salmo 2 em seu sermão do Dia de Pentecostes (At 2.34,35). Hebreus apresenta abundância de referências aos Salmos; o primeiro capítulo cita os salmos 2,104,45 e 102. Provérbios 3.34 — “Ele escarnece dos escarnecedores, mas dá graça aos humildes” — é citado com toda clareza em Tiago 4.6. Não existe citação literal de Eclesiastes, mas algumas passagens contêm doutrinas aparentemente confiáveis. A declaração de Paulo “Tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7) é parecida com a de Eclesiastes 11.1. O desafio para que se evite a luxúria da juventude (2Tm 2.22) reflete Eclesiastes 11.10. Outros exemplos são os seguintes: a morte é determinada por Deus (Hb 9.27; cf. Ec 3.2); o amor ao dinheiro é a fonte do mal (1Tm 6.10; cf. Ec 5.10); não devemos multiplicar palavras vãs em nossas orações (Mt 6.7; cf. Ec 5.2).

Isaías é outro autor do Antigo Testamento muito citado no Novo. João Batista, em Mateus 3.3, apresentou Jesus com a citação de Isaías 40,3. Na sinagoga de sua cidade natal, Jesus leu Isaías 61.1,2: “O Espírito do Senhor está sobre mim” (cf. Lc 4.18,19). Paulo citava Isaías com freqüência (cf. Rm 9.27; At 28.25-28). Jeremias 31.15 é citado em Mateus 2.17,18, e a nova aliança de Jeremias (cap. 31) é citada duas vezes em Hebreus 8.8 e 10.16. Lamentações, apenso a Jeremias na relação dos 22 livros da Bíblia hebraica, é mencionado em Mateus 27.30 (cf. Lm 3.30). Ezequiel é citado em diversas ocasiões no Novo Testamento, ainda que nenhuma citação seja literal. O ensino de Jesus a respeito do novo nascimento (Jo 3.5) pode ter-se originado em Ezequiel 36.25,26. Romanos 6.23 declara: “o salário do pecado é a morte”, o que reflete Ezequiel 18.20: “A alma que pecar, essa morrerá”. O uso que João faz das quatro criaturas viventes (Ap 4.7) reflete com clareza Ezequiel 1.10. Daniel é identificado pelo nome no sermão do monte, pregado por Jesus (Mt 24.15; cf. Dn 9.27; 11.31), e Mateus 21.30 reflete Daniel 7.13. Os doze profetas menores foram agrupados no Antigo Testamento hebraico. Há muitas citações desse grupo de escritos. A famosa expressão de Habacuque “O justo pela sua fé viverá” (Hc 2.4) é mencionada em três ocasiões no Novo Testamento (Rm 1.17; Gl 3.11; Hb 10.38). Mateus 2.15 cita Oséias 11.1: “Do Egito chamei a meu filho”.

Diante disso, verificamos que só Juízes-Rute, Crônicas, Ester e Cântico dos Cânticos deixam de ser mencionados com clareza no Novo Testamento. No entanto, Juizes apresenta acontecimentos históricos a que a Novo Testamento faz alusão como autênticos (Hb 11.32). E talvez Jesus tinha Crônicas em mente ao fazer referência ao sangue de Zacarias (Mt 23.35). Isso faz que apenas Ester e Cântico dos Cânticos fiquem sem uma referência explícita no Novo Testamento; e isso ocorreu, sem dúvida, porque os autores do Novo Testamento não tiveram oportunidade de mencionar tais livros. Ester é o livro básico da Festa do Purim, e Cântico dos Cânticos era lido na grande Festa da Páscoa, que reflete a estima que a comunidade judaica lhe votava.

O Novo Testamento dá apoio à vindicação de inspiração divina do Antigo Testamento como um todo, de todas as suas partes e de quase cada um de seus livros. Além disso, há referências diretas e repletas de autoridade a muitas das grandes personalidades e dos grandes acontecimentos do Antigo Testamento, dentre os quais a criação de Adão e de Eva (Mt 19.4), o dilúvio do tempo de Noé (Lc 17.27), o chamado miraculoso de Moisés (Lc 20.37), a miraculosa provisão material para Israel no deserto (Jo 3.14; 6.49), os milagres de Elias (Lc 4.24,25) e Jonas no ventre do grande peixe (Mt 12.41).

 

Confirmação ou conciliação?

A despeito do grande número de citações do Antigo Testamento e de sua autoridade, houve quem cresse que nem Jesus, nem os apóstolos confirmaram, de fato, a inspiração e a confiabilidade dessa parte da Bíblia. Em vez disso, afirmam tais estudiosos, os autores do Novo Testamento estariam conciliando seus textos às crenças judaicas aceitas na época. Trata-se de hipótese refinada, mas sem substância. É teoria que não se coaduna com os fatos das Escrituras, nem com as vindicações de Cristo. As referências mais numerosas e significativas quanto à genuinidade e à inspiração divina do Antigo Testamento vêm dos lábios do próprio Jesus, que jamais demonstrou tendência para a conciliação. A expulsão dos cambistas de dinheiro de dentro templo (Jo 2.15), a denúncia dos “guias cegos” (Mt 23.16) e dos “falsos profetas” (Mt 7.15) e a advertência aos mestres em evidência (Jo 3.10) dificilmente seriam tidas como sinais de conciliação.

Aliás, Jesus repreendia sem rodeios as pessoas que se aferravam às tradições e não à Palavra de Deus (cf. Mt 15.1-6). Seis vezes num único capítulo (Mt 5), Jesus contrapôs a verdade a respeito das Escrituras às falsas crenças que haviam surgido e se expandiam. O Senhor as denunciou assim: “Ouvistes que foi dito” (e não “está escrito”) e “eu, porém, vos digo”. Jesus não hesitava em declarar “Errais” (Mt 22.29), quando os homens estavam errados. Mas, quando os homens entendiam a verdade, o Senhor os estimulava, dizendo-lhes: “Respondeste bem” (Lc 10.28). O ensino de Jesus a respeito da autoridade divina do Antigo Testamento é tão incondicional e tão isento de transigências, que não se pode rejeitar esse ensino sem rejeitar as palavras de Jesus. Se alguém não aceitar a autoridade do Antigo Testamento como Escritura Sagrada, tal pessoa põe em dúvida a integridade do Salvador. Seja o que for que se diga a respeito da inspiração do Antigo Testamento, uma coisa é certa: o próprio Antigo Testamento reivindica a própria inspiração. E o Novo Testamento a confirma de modo maravilhoso.

Extraído do livro  Introdução Bíblica, Norman L. Geisler & William E. Nix

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