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A invasão do oriente

por Pr. Eguinaldo Helio de Souza - qua set 09, 3:44 pm

O que seria de Portugal e da arte de navegação sem a bús­sola? Talvez estivesse ainda nas primeiras remadas e o mundo muito menos explo­rado e desenvolvido que hoje.

O que seria da arte e da escrita sem o papel? Talvez profunda, em termos de conteúdo, mas restrita em sua divulgação.

O que seria das guerras sem a pól­vora? Difícil dizer.

Todas estas invenções, no entanto, viajaram do Oriente ao Ocidente, e vice- versa, e transformaram o mundo.

Todavia, o Oriente sempre foi aves­so a intercâmbios com outros povos. E fácil notar isso na forma reservada com que os imigrantes japoneses, chineses e coreanos se relacionam com as outras pessoas aqui no Brasil.

Mas, de uns tempos para cá, este quadro vem mudando radicalmente. Não só o Ocidente parece querer absorver, com avidez e sem qualquer critério, tudo o que vem do extremo leste, como tam­bém os próprios orientais divulgam suas filosofias e conceitos religiosos com uma dedicação quase missionária.

Em 1935, o historiador Will Durant já havia detectado este fenômeno: “Em nossos tempos, a Europa recorre cada vez mais à filosofia do Oriente (alguns exemplos são: Bergson, Keyserling, Ci­ência Cristã, Teosofia). Por outro lado, o Oriente recorre cada vez mais à ciên­cia do Ocidente. Uma Segunda Guerra Mundial pode deixar a Europa aberta ao influxo da fé e filosofias orientais…”.1 E, de fato, isto aconteceu.

ASPECTOS FILOSÓFICOS E RELIGIOSOS

O Ocidente tem sido invadido maci­çamente por ideias filosóficas e religiosas importadas do Extremo Oriente, lembran­do que, ali, a linha divisória entre filosofia e religião é muito tênue. Mesmo quando negam a religiosidade de suas práticas, os mestres da ioga e da meditação oriental, entre outras, não conseguem esconder o elemento religioso por trás delas.

Shotaro Shimada, professor de ioga há quase 50 anos, afirmou: “Ioga não é exercício, não é religião nem psicolo­gia, porém, ao mesmo tempo, abrange tudo isto”. Depois prossegue em uma afirmação contraditória: “Ioga é a transformação da maneira de ser para o indivíduo entrarem sintonia com a nature­za e com Deus”. Em nosso conceito, isto é religião. O difícil é saber o que ele quer dizer com Deus, se é o Pai do Jesus Cristo pregado pelo cristianismo ou um deus im­pessoal do Oriente.

A medicina é um claro exemplo. Al­gumas medicinas alternativas, por exem­plo, têm sido aceitas até mesmo por cer­tas entidades médicas, embora os con­ceitos por trás delas apresentem elemen­tos totalmente estranhos à ciência oci­dental. Fundamentam-se em conceitos que não podem ser constatados empiricamente, pois derivam de noções místicas e não científicas.

Também o Feng Shui, uma antiga arte chinesa de criar ambientes harmoniosos, oferecendo, dessa forma, um sistema com­pleto ligado intimamente à natureza e ao Cósmico, vem sendo cada vez mais procu­rado, tanto para aplicações domésticas como para aplicações empresariais. Originou-se há cerca de 5000 anos, nas pla­nícies agrícolas da China Antiga. A tradu­ção literal do termo Feng Shui é “vento- água”. Mas, para os chineses, significa muito mais que isso. Acreditam que essa arte é como o vento, que não se pode en­tender, e como a água, que não se pode agarrar. Vemos, assim, a estranha aliança entre o pensamento ocidental, sempre tão lógico e objetivo, com o oriental, que, nes­te caso, se apresenta místico e subjetivo.

Outra vertente em que estes elemen­tos podem ser destacados é a prática de esportes. Algumas artes marciais difun­didas hoje adquirem contornos particu­lares aqui, diferenciando-se de seus conceitos místicos originais, porém, convém lembrar que nem mesmo as ati­vidades físicas praticadas no Oriente eram dissociadas de sua visão da vida. Não existe esta clara distinção entre vida secular e religiosa. Sem generalizar, es­tas práticas esportivas envolvem, mui­tas vezes, ritos e crenças.

Chacras, krishna, do-in, meditação transcendental, incensos, saris, ioga, ofurô, yin e yang, mantra, avatar, etc. Estas são algumas palavras que, pouco a pouco, passam a fazer parte do cotidi­ano do Ocidente e caracterizam a influ­ência espiritual que países como a ín­dia, China, Japão, etc, têm exercido so­bre a nossa cultura. Muitas práticas orientais não se constituem em uma reli­gião propriamente dita, mas envolvem conceitos religiosos. “Ser um com o Uni­verso”, por exemplo, nada tem a ver com “nossa comunhão com o Pai e com o seu Filho, Jesus Cristo” (1 Jo 1.3). A primeira admite um universo monista, no qual Deus é tudo e tudo é Deus, ressaltando que Deus, para um chinês, por exemplo, não é o mesmo que Deus para um judeu.

AS RELIGIÕES ORIENTAIS E A NOVA ERA

Os elementos cristãos nos ensinos cor­rentes da Nova Era nada mais são do que uma forma de maquiar seus verdadeiros fundamentos, para que ser tomem mais aceitáveis ao pensamento ocidental. Uma espiritualidade que não inclua Jesus Cris­to, não inclua a fé ou os evangelhos, de algum modo será automaticamente olha­da com desconfiança.

Mas estes conceitos são enfraqueci­dos por noções estranhas. Os adeptos da Nova Era afirmam que Jesus esteve, dos doze aos trinta anos, entre os sábios da índia e do Tibete. Com isso, transfor­mam Jesus em um guru oriental, ao invés de um Messias judaico. A fé é apenas fé, mas não uma fé em Cristo ou nos evan­gelhos. Não é uma fé objetiva, ligada aos fatos, porque a religião oriental é bas­tante relativista e intimista; ou seja, está mais ligada ao que cada um pode perce­ber do que aos fatos propriamente ditos. A revelação cristã, contida em suas Es­crituras, é colocada em pé de igualdade com os livros sagrados das demais reli­giões. Se há alguma dose de cristianismo na Nova Era, certamente trata-se de um cristianismo segundo a visão oriental.

Os verdadeiros fundamentos deste movimento estão relacionados à religião oriental. Os verdadeiros critérios que re­gem sua espiritualidade e concepção do mundo e da vida se encontram no hinduísmo, no budismo e no taoísmo. A reencarnação, a doutrina do carma, o yin e o yang, a vinda de Maytréia. a meditação ao estilo hinduísta, etc., são elementos religiosos orientais. Embora outros elemen­tos se acrescentem à Nova Era, como, por exemplo, a crença em discos voadores ou em figuras da mitologia nórdica ou animista, as principais bases são exatamente estas que acabamos de referir.

Não se pode dizer que esteja sendo realizada uma fusão entre o cristianismo e as religiões orientais. Na fusão não ocorre perda de valores e de conceitos. Podem ser agregadas certas noções, mas os fun­damentos não se alteram. O cristianismo fez uma fusão com a filosofia grega em cer­tos aspectos, mas continuou com os seus fundamentos. Tudo o que não se harmo­nizava com o cristianismo foi rejeitado.

É impossível haver uma fusão entre o cristianismo e as religiões orientais porque ambos são auto-excludentes. O Deus do cristianismo é transcendente à sua criação; ou seja, está além dela. Nas religiões orientais, Deus e natureza, cri­ação e Criador se confundem, sendo um só. A salvação no cristianismo é um even­to único, realizado de uma única vez, por meio da posse das promessas da graça pela fé. No Oriente, a salvação é um processo longo, que pode levar mi­lhares de anos, realizado pelo auto-esforço. O cristianismo prega a ressurreição, que fundamenta uma única exis­tência para cada ser. No hinduísmo, a reencarnação estabelece múltiplas exis­tências da alma em diferentes corpos.

Devido a isso, nenhuma fusão é pos­sível, e também não foi levada a efeito. Os elementos cristãos permanecem à margem dos fundamentos gerais e, mesmo assim, são distorcidos, para que possam ser adaptados às noções hindus e budistas.

Ainda deve ser levado em conta que a síntese é cultural e não religiosa em seus aspectos. Claro que, culturalmente, o cris­tianismo assume certos aspectos locais, quando floresce no seio de nações orien­tais. No norte da índia, ou na China, ou mesmo na Coréia do Sul, o cristianismo evangélico floresce e apresenta contor­nos de acordo com sua localização, mas continua mantendo os mesmos funda­mentos do cristianismo em geral, de modo que pode ser identificado e comparado com õ cristianismo evangélico de qual­quer outra parte do mundo. Não é o caso do cristianismo da Nova Era, que não pas­sa de uma mistura do budismo, do taoísmo e do hinduísmo, mas de forma disfarçada.

O CARÁTER EXCLUSIVISTA DO CRISTIANISMO

O cristianismo bíblico é exclusivista em sua natureza, o que significa que não aceita sincretismos e misturas. Quando isso acontece, perde sua essência e dei­xa de ser cristianismo. Veja que o catoli­cismo apresenta, tanto na América do Sul como na Central, alto grau de sincretismo com as religiões pré-colombianas e afri­canas. A maioria dos elementos dessas religiões foi adaptada ao cristianismo.

No caso do protestantismo, houve aculturação ou síntese cultural, mas não sincretismo. A fundamentação bíblica do cristianismo evangélico impede que ele­mentos não-cristãos venham se sobre­por aos conceitos revelados nas Escritu­ras Sagradas. Por isso, jamais as religiões orientais poderão reformular o cristianis­mo. Podem até distorcê-lo, mas, neste caso, deixará de ser cristianismo.

A seguir, alguns fatores que atestam o caráter exclusivista do cristianismo:

Jesus é único

Primeiramente, Jesus é a pedra angular e o alicerce do edifício cristão. Isto signifi­ca que é impossível um cristianismo verda­deiro sem um Cristo verdadeiro. E um Cris­to verdadeiro só pode ser extraído dos documentos do Novo Testamento.

  • “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (At 4.12).
  • “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (Jo 14.6).
  • “… mas veja cada um como edifica sobre ele. Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cris­to” (1 Co 3.10,11).

A fé cristã se fundamenta em fatos

Em segundo lugar, a fé cristã se apoia em fatos. E uma fé histórica. Não está fundamentada em experiências particu­lares e subjetivas. As religiões orientais, ao contrário, fundamentam-se na expe­riência individual. Cremos que a nossa salvação se fez efetiva porque Jesus Cristo, o Filho de Deus, tornou-se ho­mem, viveu neste mundo, morreu pelos nossos pecados na cruz, ressuscitou ao terceiro dia e subiu aos céus. Estes são os principais eventos nos quais se apoiam i nossa fé e a nossa esperança.

  • “Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio, e foram ministros da palavra, pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelente Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio” (Lc 1.1-3).
  • “E, se Cristo não ressuscitou, log é vã a nossa pregação, e também é vã vossa fé” (1 Co 15.14).
  • “Porque não vos fizemos saber virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmen­te compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade” (2Pe 1.16).

As religiões orientais não fazem distin­ção entre fatos e lendas. Rama e Krishna, deuses importantes do panteão hindu, ti­veram suas vidas narradas entre os homens, embora não haja nenhuma fundamenta­ção histórica para isso. E, dentro do con­ceito hindu sobre verdade religiosa, isso não faz nenhuma diferença. O mesmo se dá com as lendas em tomo da pessoa de Sidarta Gautama, o Buda. História e lenda se misturam sem que isso faça qualquer diferença para os conceitos budistas. Da mesma forma, o taoísmo introduziu diver­sas lendas populares no seu desenvolvi­mento histórico sem qualquer constrangi­mento. Essa gritante diferença de visão de mundo, da história e dos objetos da fé tor­na impraticável qualquer associação entre as religiões orientais e o cristianismo.

A BÍBLIA É ÚNICA

O último ponto que desejamos ressal­tar é a singularidade da Bíblia Sagrada Ela é taxativa em defender sua inspiração e em recusar alterações posteriores. Coloca-se como único instrumento de revelação es­crita à humanidade.

  • “Toda a Palavra de Deus é pura; escudo é para os que confiam nele. Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda e sejas achado menti­roso” (Pv 30.5,6).
  • “A lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles” (Is 8.20).
  • “Errais, não conhecendo as Escritu­ras, nem o poder de Deus” (Mt 22.29).
  • “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últi­mos dias pelo Filho” (Hb 1.1).
  • “Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar algu­ma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro; e, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta pro­fecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro” (Ap 22.18,19).

Não existe lugar no cristianismo para concordância com os diversos livros sa­grados das mais variadas religiões e sei­tas. Duas afirmações contraditórias não podem estar certas, ao mesmo tempo. As proposições bíblicas se chocam com as proposições dos livros sagrados das reli­giões orientais. Se para as religiões de ori­gem oriental isso não faz diferença, para o pensamento cristão sim. A Bíblia, por sua inspiração, é o único livro que mere­ce ser considerado a Palavra de Deus!

SEPARANDO O JOIO DO TRIGO

Claro que não podemos nos tomar xenófobos  2, temendo e discriminando tudo o que vem do Oriente. O intercâm­bio entre o Leste e o Oeste é útil, inevitá­vel e necessário. Mas temos de ser total­mente conscientes do conteúdo daqui­lo com o que estamos travando contato. É como um filme ou um livro. Teremos de assisti-lo ou lê-lo, mas cabe entender como o seu conteúdo está atingindo nossa maneira de ver e de pensar. A me­lhor solução não é o ascetismo, o isola­mento, mas o discernimento que vem com o conhecimento e a reflexão: “Examinai tudo. Retende o bem” (1 Ts 5.21).

Nem tudo o que é do Oriente é mau, assim como nem tudo o que é do Oci­dente é bom. Mas tudo o que vem da Palavra é bom e ela deve ser a nossa “peneira”, com a qual distinguiremos a verdade da mentira. A tolerância é sem­pre uma faca de dois gumes. Quando ausente, leva o homem a conflitos des­necessários. Quando excessiva, leva-o a perder a identidade. E perder a identi­dade é algo que a Igreja de Jesus Cristo não se pode permitir, de forma alguma.

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NOTAS

1 História da civilização, nossa herança Oriental, Will Durant, Record, 1935/63, p. 373.

2 Aversão a pessoas e coisas estrangeira

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EGUINALDO HÉLIO, FONTE: REVISTA “DEFESA DA FÉ” ANO 9 – N° 72


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