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A mulher de Apocalipse 12 é Maria?

por Prof. Paulo Cristiano da Silva - sáb dez 02, 11:57 am

O décimo segundo capítulo do livro do Apocalipse, parece apresentar um resumo de toda a historia da Igreja. O capítulo abre com o nascimento iminente de um filho varão, geralmente interpretado como Jesus Cristo, devido ao seu destino de governar o mundo com uma vara de ferro (v. 5, ver Sl 2: 9). Um dragão, identificado como Satanás (v. 9), é visto antecipando o nascimento com a intenção de destruir a criança (v. 3-4). O fracasso do dragão em alcançar seu propósito e o resgate da criança para o trono de Deus (v. 5) resulta em uma batalha entre os “irmãos” de Cristo e o dragão (v. 11, 17), que podem representar a longa guerra espiritual entre a igreja e as forças das trevas.

O personagem mais proeminente ao longo da história, entretanto, é uma mulher grávida (vv. 1-2). Ela dá à luz a um menino (v. 5) e então é perseguida pelo dragão (v. 13), foge para o deserto (v. 6, 14) e dá à luz a outros filhos (v. 17).

Embora exista um consenso geral entre os comentaristas quanto à identificação do filho, não existe tal consenso na identificação da mulher misteriosa. Ela tem sido identificada com Israel, com a igreja, com o remanescente da fé dos tempos finais e com a Virgem Maria.

Essa última interpretação é amplamente divulgada entre os católicos romanos. Apareceu pela primeira vez nos escritos (Panarion – Haer. 78.10–11, 23) de Epifânio de Salamina, final do século IV e em livros apócrifos. 1 Não é a única visão defendida pela Igreja Romana sobre esse trecho, mas foi aprovada por dois papas (Pio X e Paulo VI) 2 e provavelmente é a visão mais abrangente a nível popular entre os católicos romanos. A identificação desta mulher com Maria, possibilitou a justificação para outras doutrinas católicas, tais como:

– O paralelo de Maria com a “arca da aliança”, devido à proximidade desta visão com a arca no céu (11:19);

– A menção de Maria como luz, uma vez que a mulher está vestida com o sol, tendo a lua embaixo de seus pés e coroada de estrelas (12: 1);

– A ideia de que Maria é a “mãe”, não só de Jesus, mas também de todos os cristãos, uma vez que são referidos como “resto de sua descendência” (12:17);

– A partir do último ponto, conjecturou-se que Maria é “a mãe de todos os viventes” (Gênesis 3:20) e deve ser reconhecida como a “nova Eva”, cujo papel em trazer a redenção é paralelo (contrário) ao papel de Eva na introdução do pecado no mundo.

A maioria dos protestantes não atribui a Maria estes títulos. No entanto, em diálogo com os católicos romanos, esses pontos muitas vezes são citados em apoio as doutrinas marianas como, se a identidade desta mulher com Maria, fosse um ponto de partida inquestionável para a discussão.

Além da questão da mulher, ser ou não, uma referência à Virgem Maria, deve-se ressaltar que a proximidade, no capítulo 11, da arca da aliança, não fornece base alguma para uma identificação da mulher com esse objeto. Nenhuma sugestão de tal conexão pode ser extraída de qualquer declaração no texto. Assim, não haveria razão exegética para ver a mãe de Cristo como uma “nova arca”.

A evidência que aponta para a identificação da mulher com Maria (por exemplo, que ela dá à luz a Cristo) não é conclusiva. No Apocalipse, a figura de mulher não precisa ser tomada literalmente. Há outra “mulher” retratada no capítulo dezessete, que recebe o nome de “Babilônia, a Grande” (v. 5). Não há um consenso entre os estudiosos sobre a identidade desta “Babilônia”, entretanto, uma coisa que todos concordam é que “Babilônia” não é uma mulher literal. O mesmo pode ser dito para a “mulher” representada em Apocalipse 21: 2, 9-10. Este uso de imagens femininas para representar entidades corporativas no Apocalipse deve guiar a nossa interpretação sobre a identidade da mulher que deu à luz ao filho varão.

Uma pista principal de sua identidade, além de dar à luz a Cristo, é encontrada nas imagens do sol, da lua e das doze estrelas (12: 1), que claramente retornam ao sonho de José em Gênesis 37: 9. O pai de José, Jacó reconheceu essas imagens como representando sua própria família (isto é, Israel). Por esse motivo, os intérpretes mais antigos interpretaram a mulher relativa a Israel – geralmente como o remanescente fiel ou Israel “espiritual”. Um comentário antigo (terceiro século) de Vitorino de Pettau afirmava que: “A mulher vestida com o sol, e tendo a lua debaixo de seus pés, e usando uma coroa de doze estrelas em sua cabeça e com dores de parto, é a antiga igreja dos pais, dos profetas e dos santos apóstolos… “.3 A Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos concorda com Vitorino ao dizer que: “A mulher adornada com o sol, a lua e as estrelas … simboliza o povo de Deus no Antigo e no Novo Testamento. O antigo Israel deu à luz ao Messias (Apocalipse 12: 5) e em seguida, tornou-se o novo Israel, a igreja” 4

No entanto, a Igreja romana passou a adotar uma dupla identificação da mulher como representando, em um nível, a igreja e em outro nível, a Virgem Maria:

“Existe uma longa tradição de interpretação na Igreja que vê essa mulher de duas perspectivas: como representante do povo de Deus e como a Mãe de nosso Senhor ” .5 Um respeitadíssimo comentário católico explica:” Por esta mulher, os intérpretes geralmente entendem a Igreja … Também pode, por alusão, ser aplicada a nossa abençoada Senhora “. 6

Os protestantes desconfiam que essa dupla identificação é improvável – e até mesmo teologicamente oportunista – ambas as ideias têm convicção prima facie . Mesmo que a mulher descreva o povo de Deus como as tradições mais antigas parecem sugerir, é possível ver Maria como um membro individual do remanescente fiel que gerou o Messias. Por outro lado, se é reconhecido que a mulher (como outras “mulheres” em Apocalipse) representa uma entidade corporativa, não parece necessário adicionar outra camada de interpretação identificando-a ao mesmo tempo com a igreja e Maria.

Muito embora a visão que mostra a mulher dando à luz ao Messias, possa ser um fator que poderia apontar para Maria, a descrição subsequente das circunstâncias da mulher parece descartar qualquer referência a Maria. A mulher aparece sendo perseguida pelo dragão (Apocalipse 12:13), mas nada no livro dos Atos dos Apóstolos, onde Maria é vista pela última vez (1:14), indica que ela passou por alguma perseguição.

Como resultado desta perseguição, a mulher foge e encontra refúgio no deserto (Apocalipse 12: 6, 14). Entretanto, nenhuma informação histórica aponta para esse fato. No entanto, o fiel remanescente judeu (a Igreja da Judéia), que em outros aspectos parece ser uma boa candidata para a identificação da mulher, fugiu para o deserto antes do cerco de Jerusalém em 70 d.C. e encontrou refúgio da invasão romana nessa cidade. Eusébio, escrevendo em 325, relata: “Também o povo da igreja de Jerusalém, por seguir um oráculo enviado por revelação aos notáveis do lugar, receberam a ordem de mudar de cidade antes da guerra e habitar certa cidade da Peréia chamada Pella. “. 7

Apocalipse 12:17, subentende que a mulher teria outros “filhos” que experimentaram igualmente a perseguição. Embora pareça provável que Maria e José tenham gerado outros filhos após o nascimento de Jesus (por exemplo, Mateus 13: 55-56), nada indica que esses filhos tenham experimentado perseguição de qualquer tipo no deserto. Por outro lado, se a mulher é vista como a igreja judaica, os cristãos gentios, “que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus Cristo”, seriam aqueles referidos como “a sua semente”. A mulher, então, é aquela que é “a mãe de todos nós” – uma dignidade em outro lugar atribuída a “Jerusalém celestial” (Gálatas 4:26), que é a igreja (Heb 12: 22-23).

Embora o fato de dar à luz a Cristo identifique aparentemente a mulher de Apocalipse 12 com Maria, não há nada mais no capítulo que se correlacionaria com ela e, como observamos, há uma tendência no Apocalipse de usar mulheres como símbolos para algumas entidades corporativas e não para pessoas individuais.

A identificação que melhor se adequaria a todos os fatos conhecidos dentro e fora da passagem de Apocalipse 12, seria a dos remanescentes judeus fiéis (que foram seus primeiros discípulos), por meio dos quais, Deus trouxe o Messias ao mundo. O restante judeu tornou-se assim a igreja da Judéia. O livro de Atos documenta o início da perseguição da mulher pelo dragão, e a história da igreja (Eusébio) registra sua fuga para o deserto.

Esta identificação acomoda facilmente a referência aos “demais filhos”, uma vez que esta é uma maneira muito boa de falar das igrejas dos gentios, que foram geradas pelo trabalho missionário dos irmãos judeus.

Quanto à ideia de uma “nova Eva”, isso não seria aplicável a Maria, pois Adão é um tipo de Cristo (Rom. 5:14), e Eva era a esposa de Adão, não sua mãe. O casamento de Adão e Eva parece ser identificado por Paulo como um tipo de Cristo e Sua noiva, a igreja (Efésios 5: 31-32), o que, novamente, tornaria a igreja, e não Maria, a “nova Eva ” e “a mãe de todos os viventes”.

Assim, a identificação da mulher com a Virgem Maria é hermeneuticamente tênue, tornando inútil esse capítulo de Apocalipse na defesa de qualquer doutrina mariana específica.

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Steve Gregg transmite o programa de rádio “The Narrow Path” (www.thenarrowpath.com) e é o autor do livro Revelation: Four Views (Thomas Nelson, 1997, 2013).

Este artigo apareceu pela primeira vez na coluna do Christian Research Journal , volume 38, número 03 (2015).

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NOTAS

  1. JND Kelly, Early Christian Doctrines , rev. ed. (San Francisco: HarperCollins, 1978), 495.
  2. Citado pelo Pe. John Echert, “Catholic Q and A,” Global Catholic Network, http://www.ewtn.com/vexperts/showmessage.asp?number=385115.
  3. Victorinus, Comentário sobre o Apocalipse (versão online), http://www.newadvent.org/fathers/0712.htm.
  4. “Apocalipse, Capítulo 12,” Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, http://www.usccb.org/bible/revelation/12:7.
  5. Pe. Echert, “Catholic Q and A.”
  6. Comentário da Bíblia Católica de Haydock , edição de 1859 (in situ), http://haydock1859.tripod.com/id298.html.
  7. Eusébio, História Eclesiástica , Livro 3, Cap. 5, em Philip Schaff e Henry Wace, eds., Nicene e Post-Nicene Fathers , Vol. 1 (Segunda Série) (Peabody, MA: Hendrickson, 1994), 138.

Cada autor é responsável pelo conteúdo do artigo.

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