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Aniquilacionismo: uma doutrina grega e pagã

por Prof. Paulo Cristiano da Silva - qua jan 03, 10:27 am

Aniquilacionismo, uma Doutrina Grega e Pagã

Os adventistas costumam alegar que a doutrina da imortalidade da alma é uma doutrina originada na filosofia grega, portanto pagã.

Mas a questão colocada nestes termos além de ser simplória, é enganosa. Estamos falando de qual filosofia grega, afinal?

Antes de aparecer a filosofia, a religião grega apresentava duas expressões de crença: uma pública e outra privada.

1) A religião pública – baseada nos poemas de Homero – cuja antropologia era naturalista e acreditava na mortalidade do homem, é um exemplo de que os gregos nem sempre foram favoráveis à ideia da imortalidade inata da alma.

Afirma certo estudioso no assunto que: “Nos poemas homéricos (c. séc. VIII a.C.), os usos do termo psyché (ψυχή) podem ser reduzidos a basicamente dois: sombra (σκιά) e força vital, que se extingue com a morte e é aplicável somente aos humanos.” (ROBINSON, T. As Origens da Alma: os Gregos e o Conceito de Alma de Homero a Aristóteles. Anna Blume Editora, São Paulo, 2010., pp. 17–18)

2) A religião dos mistérios – “Orfismo” – que fazia separação entre alma e corpo. Era o fundamento da religião privada. O Orfismo acreditava na sobrevivência da alma e na reencarnação. É ela que irá influenciar posteriormente muitos filósofos gregos.

Filosofia

Na filosofia não era diferente, já que havia partidários das duas crenças:

3) A filosofia pré-socrática e clássica – com ênfase na imortalidade da alma. Essa de fato acreditava numa imortalidade inerente à alma. Essa doutrina foi melhor desenvolvida por Platão.

Mas a filosofia grega não se resumia apenas à filosofia de Platão. O que os adventistas não revelam é que a crença aniquilacionista também tem seus pés fincados na filosofia grega dos materialistas epicureus e estoicos.

4) Filosofia holística e materialista – escolas filosóficas que rejeitavam a imortalidade da alma. Entre elas estavam os seus maiores representantes: Epicureus  e Estoicos que influenciaram bastante a filosofia.

O que criam os Estoicos?

Os Estoicos, apesar de acreditarem em um tipo de alma corporal, ensinavam que, no final de tudo, ela seria extinta. Vejamos melhor essa crença nas palavras de certo estudioso:

“Pelo fato mesmo de não terem a natureza da alma, os estoicos antigos não são claros quanto à imortalidade da alma. Afirmam que não é espírito inato, que é corpórea, que é corruptível, mas permanece depois da morte […] Cleanto afirma que todos permanecem até “o incêndio do mundo”, mas Crisipo acha que subsistem só as almas dos sábios” (LAÊRTIOS, Diôgenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Tradução de Mário da Gama Kury. UNB, 1977. LAÊRTIOS, Diôgenes. Ibidem, VII, 107)

O que criam os seguidores de Epicuro?

“Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade […] A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui.” (Epicuro – Carta a Meneceu – destaque meu)

O epicurista romano, Titus Lucretius Carus, em sua De Rerum Natura foi além e afirmou que a alma é de natureza corpórea e está sujeita à morte. A alma do homem consiste em átomos diminutos que se dissolvem com o húmus quando este morre, dando, posteriormente forma às rochas, lagos ou flores.

“[…] ora, não vamos acreditar que as almas fogem do Aqueronte ou que espectros voejam entre vivos, ou que alguma coisa de nós pode ficar depois da morte, visto que o corpo e a substância da alma, aniquilados ao mesmo tempo, se dispersam nos seus elementos respectivos.” (LUCRÉCIO. Da natureza IV, 40-45– destaque meu)

E mais: “Assim, a substância do espírito não pode surgir sozinha sem o corpo nem pode estar afastada dos nervos e do sangue. Se, efetivamente, o pudesse, muito antes a própria força da alma poderia residir na cabeça ou nos ombros ou nas extremidades dos calcanhares e nascer em qualquer parte do corpo, visto que no fim ficaria no mesmo homem e no mesmo vaso. Ora, como parece haver no nosso corpo um lugar certo e determinado onde podem residir e crescer por si o espírito e a alma, é esta mais uma razão para negar que possam viver fora do corpo e duma forma viva, quer nas friáveis glebas da terra, quer no fogo do sol, quer na água, quer nas altas regiões do ar. Todos estes corpos não contêm qualquer sensibilidade divina, visto que nem sequer podem ser animados por uma alma.” (LUCRÉCIO. Da natureza V, 127-145– destaque meu)

Uma teologia condicionalista no épico sumeriano de Gilgamesh

Neste épico os deuses são os que detêm a imortalidade. Gilgamesh implora para que a imortalidade lhe seja concedida pelos deuses, mas Utnapishtim (o Noé da epopeia), o único humano que a possui, esclarece a Gilgamesh o seguinte:

Ó Gilgamesh, foi-te dada a realeza segundo o teu destino.
A vida eterna não era teu destino.
Quando os deuses criaram o homem
deram-lhe como atributo a Morte,
mas a Vida, a Vida Eterna, essa, só ficou para eles.

Ao contrário dos gregos que postulavam uma imortalidade inata da alma, aqui a imortalidade é condicionada à benevolência dos deuses. No caso, Utnapishtim a possuía, mas a Gilgamesh, foi-lhe negada. Resguardada as devidas proporções, esse conto pagão parece muito com a ideia condicionalista.

Influência da Filosofia Grega no ateísmo moderno

A crença aniquilacionista da filosofia grega sobre a alma influenciou diretamente um grande pensador ocidental moderno e suas ideias ateístas.

Mas lá pelo século II d.C, Tertuliano já denunciava alguns cristãos influenciados pelas ideias gregas aniquilacionistas dos epicureus:

“E  se  há  os  que  afirmam  que  a  alma  é  mortal,  é  porque  o  aprenderam  dos  epicureus;  se  há  os  que negam  a  ressurreição  do  corpo,  é  porque  o  tomaram  de  todas  as  escolas filosóficas  reunidas;  se  a  matéria  é  equiparada  a  Deus,  é  porque  tal  é  a  doutrina  de  Zênon;  e,  quando  se  fala  de  um  Deus  de fogo, isto se deve a Heráclito.  Hereges e filósofos soem tratar dos mesmos assuntos. Que  tem  a  ver  Atenas  com  Jerusalém?  Ou  a  Academia  com  a  Igreja? Ou os  hereges com os cristãos?  A  nossa  doutrina  vem  do  pórtico  de  Salomão,  que  nos  ensina  a  buscar  o  Senhor  na simplicidade  do  coração.    Que  inventem,  pois,  se  o  quiserem,  um  cristianismo  de  tipo  estoico, platônico  e  dialético! Quanto a  nós,  não  temos  necessidade de  indagações depois  da  vinda  de Cristo  Jesus, nem de pesquisas depois do Evangelho.” (De  Praescriptione Haereticorum, c.7)

A filosofia materialista de Epicuro também influenciou um jovem alemão por nome Marx, que viria ser um dos maiores ícones do ateísmo moderno do século XX.

O ateísmo de Marx foi em parte influenciado pela filosofia de Epicuro. A tese de doutorado de Marx teve como título “A diferença entre as filosofias da natureza em Demócrito e Epicuro.”

Mas outro autor muito influente no ateísmo de Marx foi o filósofo alemão materialista Ludwig Andreas Feuerbach. O primeiro livro de Feuerbach teve como título “Pensamentos sobre Morte e Imortalidade”. Nesse trabalho ele ataca a ideia da imortalidade, sustentando que, após a morte, as qualidades humanas são absorvidas pela natureza, semelhante ao que disse Lucrécio.


Cada autor é responsável pelo conteúdo do artigo.

1 Comentário

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  1. Qualquer semelhança das teorias materialistas dos epicureus com o holismo é mera coincidência…

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