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Ap 3.10 diz que a Igreja estará na Tribulação?

por Itard Víctor Camboim de Lima - sex nov 05, 9:40 am

Como guardaste a palavra da minha paciência, também eu te guardarei da hora da tentação que há de vir sobre todo o mundo, para tentar os que habitam na terra. Apocalipse 3.10

De acordo com alguns adeptos da visão escatológica denominada de Pós-Tribulacionismo, o texto contido em (Ap 3.10), é mais uma referência de que Deus manterá sua Igreja na Terra no período da Grande Tribulação. Esta ideia é fundamentada por eles com base no sentido da preposição ἐκ (Gr. ek) a qual existe no texto grego:

ὅτι ἐτήρησας τὸν λόγον τῆς ὑπομονῆς μου, κἀγώ σε τηρήσω ἐκ τῆς ὥρας τοῦ πειρασμοῦ τῆς μελλούσης ἔρχεσθαι ἐπὶ τῆς οἰκουμένης ὅλης πειράσαι τοὺς κατοικοῦντας ἐπὶ τῆς γῆς.[1].

De acordo com o gramático, Daniel Wallace, a preposição, a qual ocorre no Texto no caso genitivo, tem os seguintes significados: para fora delonge dedesde depor causa deporpor meio de[2]. Então, com base no sentido de para fora de ou longe de, os pós-tribulacionistas entendem que o Senhor não irá livrar a Igreja da Tribulação, mas na Tribulação, ou seja, os salvos serão preservados em meio ao caos.

Todavia, não pensamos que tal interpretação seja a melhor à luz de outras passagens do Novo Testamento. Por quê?

Bem, em (Ap 3.10) temos a expressão τηρήσω ἐκ (tērēsō ek) traduzida por gardarei de. τηρήσω vem de τηρέω (tērēō). Todavia, há um detalhe que não pode ser deixado de fora. Já somos cientes que a preposição ek é de movimento ou deslocamento. Porém, quando uma preposição de movimento ocorre junto a um verbo estático, sua força é anulada. Exemplo: em (Lc 6.47) o verbo ἐρχόμενος (vir) e a preposição πρός (para) se combinam, pois ambas indicam movimento. Já em (Jo 1.1), a mesma preposição πρός, traduzida como (com), não combina com o verbo (estava), já que este é estático e a preposição transitiva. Da mesma maneira ocorre com a preposição de movimento de fora para dentro εἰς (eis) e o verbo estático τηρέω (tēreō) em (At 25.4), onde vemos Paulo sendo mantido na cadeia[3].  Aliás, a preposição εἰς poderia também ter sido inserida por João, caso quisesse indicar a entrada da Igreja na Tribulação. Em (Mc 1.29) lemos Jesus e os discípulos saindo da sinagoga e em seguida entrando na casa de Pedro e André.

“…ἐκ τῆς συναγωγῆς ἐξελθόντες ἦλθον εἰς τὴν οἰκίαν…”

“…saindo da sinagoga vieram para a casa…”

Seguindo a regra, em (Ap 3.10) a preposição ek tem sua força anulada pelo verbo estático tērēō. Logo, não se pode exegeticamente entender que o apóstolo prometeu aos leitores do seu livro que a Igreja será guardada e retirada na – Tribulação. À luz de outros versículos sobre o arrebatamento, podemos entender que a Noiva do Cordeiro continuará mantida na zona a qual hoje se encontra, a saber, distanciada da hora da – Tribulação.

Se a intenção do apóstolo João era avisar que Deus iria manter os salvos dentro da Grande Tribulação, ele poderia ainda ter feito uso da preposição ἐν (en) ou διὰ (dia), as quais têm os significados temporais: dentro de e durante[4].  Por exemplo: no Novo Testamento, en é usada pelo menos em duas ocasiões junto ao verbo tēreō indicando permanência. Ex: temos Pedro sendo mantido ou guardado dentro da prisão (At 12. 5), e a herança de Deus, da mesma maneira, guardada (dentro) no céu (1 Ped. 1. 4). Certamente João tinha conhecimento desta preposição; mas não a quis usar.

Portanto, (Ap 3.10) não tem força pós-tribulacionista, sobretudo porque a ideia de preservação dos salvos também não encaixa com a revelação bíblica dos mártires mortos em grande tribulação (Ap. 6, 7).  Além disso, a ira vindoura da Tribulação será um castigo de Deus sobre os que o rejeitou, não para a Igreja fiel, Noiva do Cordeiro (Rm 5.9; 1Ts 1.10, 5.9).

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[1] ALAND, Kurt; ALAND, Barbara; KARAVIDOPOULOS, Johannes; MARTINI, Carlo M; METZGER, Bruce M. O Novo Testamento Grego. Quinta edição revisa. Edição com aparato crítico e introdução em português. Barueri: SBB, 2018.

[2] WALLACE, Daniel B. Gramática Grega, Uma Sintaxe Exegética do Novo Testamento. 1ª edição em português, 2009. P. 371. EBR

[3] Op.Cit. p. 359.

[4] Op.Cit. p. 369, 372


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