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Caracteríticas dos discípulos de Jesus

por Artigo compilado - qua ago 20, 12:01 am

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Ilude-se quem pensa terem sido ideais e modelares as pessoas que Jesus ensinou, mesmo incluindo-se os doze após­tolos. Caracteres bíblicos muitíssimos distanciados de nós, temos que concebê-los em nossa imaginação. Certo foram muito hu­manos como nós, com essas imperfeições e fraquezas naturais à criatura humana, pois que esta é sempre a mesma em todas as épocas. Embora mudem as condições ambientais, a natureza humana em sua essência é sempre a mesma.

Isto é verdade no que respeita a todos os séculos, climas e graus de cultura. Will Rogers retratou perfeitamente isto, quando falando das conquistas da conferência da paz na Eu­ropa, assim se expressou: “Resta apenas uma pequena coisa a ser trabalhada agora: é o problema da natureza humana.” E assim é sempre. Examinando aqueles que Jesus ensinou, como mestres colheremos muita matéria informativa e sugestiva, e mesmo encorajadora. Jesus lidou com um grupo mais íntimo de seguidores, outro maior de discípulos e outro, maior ainda, de críticos e indiferentes.

1.     O Grupo de Imaturos

Este grupo de pessoas com que Jesus lidou estava mui longe da perfeição, quando Jesus iniciou sua obra junto deles. Mesmo ao contemplar sua obra, ainda eram imperfeitos. Eram – caracteres ideais apenas em embrião. Eram santos apenas em estágio de fabricação. Preenchiam muito bem um dos três re­quisitos que George A. Coe sugere para o ensino — a imaturi­dade. Assim tinham eles que caminhar muito e muito, com muita paciência, para se tornarem cristãos crescidos e maduros. Na longa estrada do aprendizado, experimentariam muitas de­cepções e desânimos. Somente alguém que tivesse uma alentadora visão do futuro, movido do infinito amor e paciência, e de persistente energia e perseverança, se aventuraria a tomar como alunos este grupo de pessoas e fazer deles o que o Mestre Jesus fez.

Não é preciso vasculhar muito o Novo Testamento para se ver quão imaturos e imperfeitos eram aqueles que Jesus tomou como discípulos. João, que depois se tornou o discípulo amado, não sabia controlar seu gênio, e falhou muito quando se en­colerizou contra os descaridosos samaritanos, aos quais Jesus queria revelar seu amor e o amor de seus discípulos. Simão, a quem se daria o nome de Pedro (pedra), não demonstrou possuir aquela solidez e firmeza que tal nome sugeria, pois prometera a Jesus que estaria firme a seu lado ainda que os mais desertassem, e dentro de poucas horas não só negou a Jesus, jurando por três vezes que nem o conhecia, mas o negou com uma linguagem desusada e lamentável.

Tomé mostrou-se tão duro e obstinado em não acreditar na ressurreição de Jesus que tal atitude exigiu esforços especiais do Mestre no sentido de lhe provar satisfatoriamente esse glo­rioso acontecimento. Judas, após vários anos de companheirismo e aprendizado com o Mestre, não progrediu tanto a ponto de sentir-se preparado para resistir à tentação de traí-lo por trinta moedas de prata! Os discípulos de Jesus sofriam a enfermidade de desenvolvimento retardado, quando não de perversidade progressiva.

Apanhar este pequeno grupo de indivíduos sem preparo e que quase nada prometiam, e formá-los em pessoas bem de­senvolvidas e preparadas, que constituíam gloriosa inspiração para o mundo, foi um verdadeiro milagre da arte de ensinar e exercitar. Jesus jamais foi suplantado por qualquer outro mestre; foi e é suprema inspiração e encorajamento para os mestres cristãos de todas as épocas. Ninguém pode avaliar devidamente as possibilidades latentes num moço ou numa moça aparente­mente inaproveitável, nem o que se possa fazer com eles. O velho professor dos Irmãos da Vida Simples ao tirar seu chapéu na presença de seus discípulos, e ao dizer-lhes que não sabia se tinha ali à sua frente alguém  que seria maior que o impe­rador, nem podia imaginar que naquela sua classe estivesse en­tre seus alunos o menino que, homem feito, iria abalar os fundamentos do mundo — Martinho Lutero!

É privilégio nosso, pelo ensino que transmitimos, mudar vidas hoje imaturas e aparentemente insignificantes, e desenvolvê-las em caracteres marcantes e notáveis. Um ferreiro aleija­do apanhou nas ruas um grupo de quatro meninos aparente­mente ociosos e que nada prometiam, e passou a ensiná-los pacientemente. Viveu o suficiente para ver tornar-se um deles missionário em terras estrangeiras, outro, membro do gabinete do presidente de sua pátria; o terceiro secretário particular também dum presidente; e o quarto aquele que chegou a ocupar a presidência dos Estados Unidos da América do Norte — Warren G. Harding!

2 .     Impulsivos ou Impetuosos

Os discípulos de Jesus não eram apenas imaturos. Pior que isso: haviam tido na vida um desenvolvimento errado e falho. Alguns deles eram mesmo gente governada só por im­pulsos. Pedro era assim, e foi o campeão dos impetuosos. “Era homem impulsivo e precipitado, qual regato que desce cé­lere e desabaladamente montanha  abaixo,  atirando-se de  encontro às rochas da baixada. Reagia repentinamente. Falava e agia, para depois pensar.” Temos exemplo vivo disso, quan­do se lançou ao mar, em certa manhã bem fria, c nadou até a praia para chegar perto de Jesus, quando poderia ter feito isso com seu barco (João 21:7). Outro exemplo temos quan­do pediu a Jesus que lhe banhasse também as mãos e o rosto, logo após haver dito a Jesus que lhe não consentiria lavar seus pés; e quando Jesus lhe disse que, nesse caso, Pedro não teria parte com ele, submeteu-se (João 13:9). E exemplo mais vivo ainda temos quando Pedro, com rápido golpe de sua espada, decepou a orelha direita do servo do sumo sacerdote (João 18:10).

João também não se mostrou menos impetuoso. Tanto que Jesus o chamou “filho do trovão”. Diz Carlos R. Brown: “Ele mostrou ser filho da tempestade. Houve ocasiões em que teve explosões fortes e terríveis. Certas vezes, em sua ira ou entusiasmo, agia qual redemoinho impetuoso,” qual poderoso fura­cão. Mui longe de se revelar homem calmo, paciente, sofredor e manso, era de caráter violento.” Manifestou isso quando, com outros discípulos, entrou numa vila de samaritanos para arru­mar pouso para o Mestre; ante a recusa de hospedagem, ele se indignou tanto que disse a Jesus: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para consumir esta gente?” (Luc. 9:54). Caminhou muito este apóstolo, até chegar a escrever em sua Primeira Carta, cap. 4, versículo 8: “Quem não ama, não conhece a Deus.”

Outros que não pertenciam ao círculo íntimo de Jesus mostravam-se igualmente impulsivos. Simão, chamado Zelote, como este apelido indica, pertencia a um partido político muitíssimo radical. Afirma Brown: “Podia ele ser vantagem ou desvantagem. Era como o vapor em alta pressão que pode levar de encontro aos arrecifes qualquer barco sem piloto, ou queimar seus passageiros, causando-lhes a morte.” Fosse ele pessoalmente radical, ou não, o fato é que pelo menos pertencia a um grupo revolucionário quando Jesus o chamou para segui-lo.

João Batista, por sua vez, era também homem de tempera­mento forte. Não nos parece de início um moderado conserva­dor, quando surge de seus jejuns e se movimenta de cá para lá a pregar o evangelho do arrependimento a uma geração má e perversa. “Apareceu ele com olhos flamejantes, e apre­sentar sua formidável mensagem. De linguagem escaldante, des­pertava e abalava as consciências mais empedernidas.”4 Tinha ele o temperamento dós reformadores. O próprio Mateus não se mostrava também muito conservador, não. Diz, no caso dele, T. R. Glover: “O publicano do grupo era também do mesmo tipo; mostrava-se pronto a deixar seus afazeres e os costumes de família — revelando também natureza impulsiva e coração quente.”

Era tão impetuoso o caráter daqueles discípulos e doutros mais, que Jesus sempre lhes frisava que deviam pesar bem as coisas antes de agir. Eram neles traços tão salientes que, se alguém os propusesse para o pastorado de alguma igreja im­portante de nossos dias, esta se veria na necessidade de im-por-lhes algumas condições. Lembremo-nos, no entanto, de que dantes como agora, não são os conservadores, os intelectuais c os calmos, e, sim, os agressivos, os aventureiros e os destemidos que fazem progredir mais a obra do Reino de Deus. O aluno que nos dá mais trabalho para conter”e orientar, c mesmo para disciplinar, pode ser justamente  aquele  que  mais  conseguirá na vida. Podemos agradecer a Deus pelos homens impulsivos, s quando sabiamente orientados.

3.     Pecadores

O Mestre não só teve que lidar com pessoas de caráter subdesenvolvido e de fortes impulsos, mas também de acen­tuadas tendências para o pecado. Conquanto alguns deles se tornassem depois cristãos de elevado caráter, nem sempre foram tão angélicos como os pinta a nossa imaginação ou alguns artistas da tela. Havia neles altos e baixos, instintos e impulsos que, não controlados pelos ideais cristãos, inevitavelmente os teriam arrastado a grandes e irremediáveis males. Assim acon­teceu em parte, e vemos que eles fizeram coisas que. mais tarde provavelmente desejariam ver retiradas dos registros.

Na verdade, alguns dos quais Jesus ensinou e cujas vidas foram transformadas por ele, tinham vivido em graves pecados. Basta lembrar que um deles, conquanto viesse a gozar por al­guns anos da companhia de Jesus,” tornando-se mesmo o te­soureiro do colégio apostólico, por fim chegou a vender o Mestre por trinta moedas de prata.

Mas Judas não foi o único, mesmo do círculo íntimo de Jesus, a ser arrastado por tendências pecaminosas, ao menos temporariamente. Pedro mentiu e jurou para ocultar sua iden­tidade e se escapar de situação embaraçosa. João não só deu asas a seu temperamento e preconceitos, mas também ao orgulho, e chegou a pleitear o privilégio de assentar-se à destra de Je­sus. E Tiago se associou a ele, igualmente desejoso de posição social e política. “Houve atritos entre eles, pois eram homens de não pequenas ambições. Mesmo na ocasião da Última Ceia, os corações deles giravam ao redor de tronos” (Mar. 9:33;10: 37; Luc. 22:24). De fato, o grupo todo de discípulos pen­sava mais em grandezas materiais.

Afora o círculo dos doze, vemos Zaqueu, o coletor de impostos, homem que tinha grande amor pelo dinheiro e que cobrava mais do que era devido, roubando assim ao povo ne­cessitado. E também Maria Madalena, com sete demônios a seu crédito. E ainda a mulher pecadora que lhe lavou os pés com suas lágrimas e os enxugou com seus cabelos. E ainda a mulher de vida livre a quem ensinou à.beira do poço, a qual tivera um rosário de cinco maridos. E ainda aqueles acusado­res da mulher adúltera, os quais desapareceram quando Jesus lhes disse que quem estivesse sem pecado fosse o primeiro a começar a apedrejá-la, conforme ordenava a lei. Não; aqui ve­mos perfeitamente que a classe de alunos ensinada por Jesus em nada apresentava aquelas condições ideais para um mestre ideal. Ao contrário, eram tais alunos gente das mesmas paixões nossas, e de paixões que não poucas vezes os dominavam por completo. Orgulho, ambição e luxúria argamassavam a vida deles, e tudo aquilo desafiava os preceitos e a influência de Jesus.

O que foi verdade então, o é ainda hoje. Nunca se sabe o que serão os nossos alunos de hoje. Sabemos, no entanto, que instintos não controlados inevitavelmente arrastam à ruína. Num rapaz de belo físico podem estar aninhadas fortes ten­dências para o crime, forças que, não controladas, certamente o levarão para a penitenciária. E isso tem sucedido inúmeras vezes. Essa jovem culta e de modos gentis, que parece trazer no rosto a marca legítima da inocência, pode muito bem estar abrigando dentro de si certos ideais e paixões que, desenvolvi­das, a arrastarão a uma vida vergonhosa. Isso temos visto de contínuo na sociedade de que fazemos parte. Nenhum pro­fessor pode ler todos os maus pensamentos e propósitos ocultos no coração de seus alunos. Muitos de nós podemos dizer o que John Bradford disse de si próprio, ao ver passar por ele um criminoso conduzido por agentes policiais: “Não fora a graça de Deus, ali estaria John Bradford.” Urge aprendermos a es­magar sempre as tendências pecaminosas e imprimir em nosso caráter a semelhança de Cristo.

4.     Perplexos

As pessoas a quem Cristo ensinou viam-se muitas vezes desafiadas por inúmeras perplexidades e problemas, e assim procuravam a Cristo para que ele os resolvesse. Certo é que às vezes vinham a ele tangidos pela hipocrisia, pois queriam pegá-lo nalguma palavra. Jesus de imediato reconhecia isso, e, no entanto, lhes dava atenção, levando-os a tirar por si mesmos a conclusão certa. Traziam-lhe assuntos mui variados, tratando quase todos de problemas da vida cotidiana. Respondendo-lhes, Cristo não só ajudava a quantos ensinava pessoal­mente, mas a inúmeros outros pelos séculos em fora. O fato de João haver declarado que o mundo todo não poderia conter todos os livros necessários para o registro de todos os ensinos de Cristo nos leva a perceber que não conhecemos muitos assuntos então levados à consideração de Cristo.

Conhecemos, não obstante, bom número de problemas pessoais e íntimos, que tratam de modo vital de muitas fases da vida humana. Temos, por exemplo, o pedido feito por certo homem, para que Jesus tratasse da repartição da herança com o irmão dele, uma demonstração de legítima defesa. Também temos registrados vários casos de ambição e de prestígio social, apresentados pelos discípulos quando deram de querer saber de Jesus qual deles era o maior. Aliás, este é um desejo mui natural e humano. O moço rico desejava saber como poderia alcançar a vida eterna. Esse era o seu problema, e, ao que parece, também de Nicodemos. Outros queriam saber se Cristo era Deus, se deviam tolerar outros trabalhadores que não an­davam com ele, quando e como deviam prestar culto a Deus; queriam saber algo da ressurreição, dos maiores mandamentos, algo sobre o jejum, de como poderiam expulsar demônios, e outras coisas mais. Discutiam e lhe apresentavam também pro­blemas pessoais, como o orgulho, a ira, a luxúria, a aflição, a cobiça. Vemos que eram os mesmos problemas que hoje en­frentamos no século das luzes.

Também surgiram problemas de natureza social que di­ziam respeito às relações de uns para com os outros. Simão Pedro queria muito saber quantas vezes deveria perdoar a quem o houvesse ofendido: só sete vezes, ou deveria ir além? (Mat. 18:21-35). Os fariseus, maldosos, fizeram-lhe esta per­gunta perigosa: “É lícito a um homem repudiar sua mulher por qualquer causa?” (Mat. 19:3). Semelhantemente, os sa­duceus, sequiosos por demonstrar a impossibilidade da ressurrei­ção, perguntaram a Jesus a quem pertenceria no outro mundo a mulher que aqui houvesse desposado sete homens (Mat. 22: 23-33). Um doutor da lei, querendo justificar seu egoísmo, levantou diante de Cristo, uma questão mais larga sobre o problema da boa vizinhança, perguntando-lhe — “Quem é meu próximo?”

Outro problema, muitíssimo melindroso naqueles dias, di­zia respeito à deslealdade para com o governo, quanto ao paga­mento das taxas. Tal problema foi apresentado a Jesus quando os escribas e principais sacerdotes lhe perguntaram se era lí­cito pagar tributo a César (Luc. 20:22). Também surgiu a questão do sábado, quando os discípulos de Jesus lançou mão da imaginação, e lhes falou duma ovelha caída num valo e dum rei em caminho para a guerra. Outros problemas incluíam dar e receber, o orar, o serviço, o espírito de crítica, a vin­gança.

À luz dessas muitas perguntas e problemas, parece-nos que Jesus gastou grande parte do seu tempo mais a resolver problemas pessoais do que mesmo a ensinar de modo geral. E parece que foi assim mesmo. Os problemas da vida humana quase sempre são os mesmos; e, resolvendo aqueles dos ho­mens do seu tempo, Jesus lançou muita luz sobre os nossos problemas de hoje, mormente quando vemos que ele tratou mais de princípios fundamentais que de remédios específicos. Assim, Jesus aparece como conselheiro e como instrutor, justamente como devemos ser, caso queiramos servir de maneira valiosa e vital àqueles de nossos alunos que hoje enfrentam problemas mui sérios e complicados. Ninguém jamais resolveu problemas e perplexidades como Jesus, e ninguém como ele apresentou princípios gerais de maior ajuda e valia. Ele se revelou mestre consumado e divino, tanto no aconselhar como no ensinar.

5.     Ignorantes

Asseverar que os discípulos de Jesus tinham mente obs­curecida e endurecida, bem como espírito perplexo, parece quase que adicionar insulto à injúria. Mas vê-se que não, quando buscamos ter uma visão completa da situação em que Jesus se viu frente a eles. Seus discípulos provinham em maior parte das baixas camadas sociais e não da classe alta, e por isso não tinham aquele fundo cultural que soem ter os de classe mais elevada. Eram, assim, gente mui imperfeita. Não estavam preparados para compreender muitas coisas, dado que a mente deles não estava habilitada a apanhar toda a verdade.

Mas não era esta a única dificuldade. Uma concepção materialista da via e a ideia ritualista da religião muito os prejudicavam, visto que as verdades espirituais se discernem espiritualmente. Tanto a ignorância, como errados pontos de vista, embaraçavam bastante o trabalho do Mestre. É coisa bem difícil erradicar a confusão mental e a rotina intelectual. E Jesus teve que enfrentar como nenhum outro mestre essas duas coisas. Conquanto fosse ele verdadeiro especialista no aclarar a verdade, registra-se que ele não foi bem compreendido por muitos ou foi mal interpretado por muito tempo pelo povo em geral, pelos líderes religiosos, e mesmo por aqueles do seu círculo íntimo. “Ele escolheu um grupo pequeno, visando prepará-lo para a liderança, embora não pudessem eles entender, e muito menos explicar a outros, os princípios que eram a pedra angular da fé que deviam propagar…. Nos três anos que Jesus gastou a ensiná-los,  tais discípulos foram para ele constante decepção.”

Forte exemplo dessa incompreensão vemos no que res­peita ao que Cristo lhes ensinou sobre a natureza do Reino. Apesar de tudo quanto lhes ensinara sobre a natureza pessoal, íntima e subjetiva do Reino, os discípulos continuaram a es­perar um reino temporal que se baseasse no poder material, como os demais reinos da terra. E isso era verdade mesmo em se tratando dos discípulos mais íntimos de Jesus, como Tiago e João, que chegaram a pleitear um lugar à direita e outro à esquerda — primeiro-ministro e secretário de estado.

Vê-se claro igualmente que Jesus não foi compreendido quanto ao que lhes ensinou acerca da ressurreição, tanto sua como nossa. Conquanto lhes houvesse dito que ressuscitaria ao terceiro dia, ninguém esperou tal acontecimento. Pelo con­trário, ficaram surpresos com a ressurreição de Jesus. Como vemos nos Evangelhos, um dos discípulos de Jesus, Tomé, exigiu provas cabais para se convencer. Até mesmo o propósito de sua morte não lhes ficara bem claro, pois que Paulo nos fala da cruz como pedra de tropeço para os judeus. Mesmo as exigências importantes e aparentemente simples para o discipulado parece não terem ficado bem claras na mente do próprio Nicodemos, um dos homens mais preparados do seu tempo!

A despeito da clareza do pensamento de Jesus e da viva­cidade com que o expressava, os seus discípulos mais brilhantes e mais interessados deixaram de apanhar todo o seu sentido. Creio não ser exagero afirmar que, durante todo o seu minis­tério, Jesus de contínuo se sentiu desapontado ante a inabili­dade e a vagarosidade demonstrada pelos discípulos em com­preender as verdades que lhes ensinava. Se isso se deu com Jesus, não devemos ficar admirados de que aconteça também conosco. E assim como ele jamais se sentiu desanimado por isso, também nós, como mestres, nunca devemos nos desenco­rajar, mas avançar pacientemente como ele fez. O que Jesus disse de Pedro devemos dizer também de cada aluno — “Tu és… tu serás.”

6 .     Cheios de Preconceitos

Parece que tudo quanto já dissemos é suficiente, mesmo para Jesus.

Eram seus discípulos imaturos, pecadores, intempestivos, de mente tardia e apoucada. Mas não podemos parar aqui, visto que o quadro ainda não está completo. As atitudes men­tais deles em nada favoreciam a recepção das verdades apre­sentadas por Jesus. Pelo menos é o que depreendemos acerca deles, ou da mor parte deles, no que respeita a certas coisas.

João abrigava dentro de si tais preconceitos que não ad­mitia que pessoa fora do seu grupo expulsasse demônios e fi­zesse o bem (Mar. 9:38). Na verdade, o preconceito subjazia à raiz de muitos dos problemas já mencionados. Na Parábola do Semeador, a primeira qualidade de solo descrita é o que fica à   beira do caminho – terra dura e impenetrável,   na   qual a semente não entra muito facilmente (Mat. 13:3-23). Te­mos aqui uma descrição perfeita da atitude assumida por indiví­duos cheios de preconceitos e de mente fechada, os quais não querem nem pensar na verdade que lhes é apresentada. Evi­dentemente, Jesus teve que lidar com pessoas assim, quando disse, essa parábola, visto haver ensinado como enfrentar as necessidades da vida. O professor de Escola Bíblica Dominical tem também que enfrentar situações idênticas. Assim, trate-se de ensinar a conversão, o dízimo, a temperança ou qualquer outro assunto, o professor encontrará nos seus alunos práticas e preconceitos tais que fortemente os impedirão de encarar com coração aberto tais assuntos. Dificilmente encontrará o professor um aluno completamente despido de preconceitos. A intolerância é pior do que a ignorância.

Quando Jesus falou da ressurreição, encontrou a desde­nhosa oposição dos saduceus aristocratas e racionalistas, os quais, tentando levar Jesus ao ridículo, apresentaram a ques­tão do futuro esposo da mulher que nesta vida se casara sete vezes. Os saduceus eram os críticos intelectuais do tempo de Cristo. Quando Jesus buscou mostrar o amor de Deus para com toda e qualquer criatura, ainda que pecadora, viu-se dian­te das intelectuais adagas dos orgulhosos fariseus, que se jul­gavam muito bons para se associarem com pecadores e publicanos. Assim, Jesus teve que forjar a Parábola do Filho Pró­digo, ou apresentar o contraste entre o fariseu e o publicano em oração diante de Deus. Quando o jovem rico se ajoelhou a seus pés e humildemente lhe indagou como alcançar a vida eterna, pareceu-lhe estar na presença de uma pessoa de cora­ção aberto. Mas, dizendo-lhe que vendesse tudo e .desse aos pobres, e o 6eguisse, viu mudar-se o rosto do moço e “ele se foi triste, porque possuía muitos bens” (Mar.   10:22).

Jesus teve que lidar igualmente com alunos cheios de preconceitos. Queriam muitos deles ter cheio seu estômago e ver curadas suas doenças, mas sem qualquer interferência em seus interesses e sem qualquer mudança em seus hábitos. E o mundo age assim ainda hoje. Todos querem ser curados e libertos do castigo eterno. Mas, quando se lhes fala em arrependimento, em servir a Cristo, em sacrifício e na cruz, perdem todo o interesse e se vão. É coisa mui difícil convencer um homem e levá-lo a negar-se a si mesmo. Os maiores obstáculos encontrados por professores e mestres são essas mentes fechadas e cheias de preconceitos.

7.    Instáveis

Se os discípulos de Jesus se mostrassem dispostos a levar avante de modo fiel aquilo que houvessem entendido e recebessem tudo com mente aberta, já seria coisa mui maravilhosa. Mas, assim não fizeram. A perversidade humana é ta­manha que a vontade, bem como o intelecto e os afetos, se mostram depravados. Isto é verdade quanto aos discípulos da­quele tempo, e também quanto aos de nossos dias. Muitos não tiveram coragem de abandonar outros interesses e encarar cora­josamente as durezas e decepções naturais do caminho cristão. Assim, diminuiu o interesse de muitos, e até mesmo os maiores amigos de Jesus hesitaram em avançar com ele. O quadro que Jesus nos pinta do solo raso e fraco, onde a semente cresceu rápido, mas logo murchou ao sol abrasador, é ótima descrição dessa instabilidade.

Então, como agora, a tentação, a tribulação, a persegui­ção, mui logo dizimam as fileiras. Marquis diz: “Bom nú­mero de gente se apresentou para seguir o Mestre, mas logo es­friou seu entusiasmo e o deixou. Jesus não podia retê-los. Após três anos desse ensino — o melhor que o mundo já conheceu — tendo falado Jesus a milhares de pessoas, ficou apenas este número de 120, e muitos destes ainda precisaram de ser reanimados pelo Seu ministério pós-ressurreição.”  Que quadro do resultado de toda uma vida do maior professor que o mundo já viu! Até cultos sem valor parecem ter conseguido mais em nossos dias.

Bom exemplo de fraqueza é o caso do jovem rico, a que nos referimos há pouco, o qual, embora interessado e inte­ligente, não se sentiu com forças para abrir mão dos seus bens e ir após Cristo. Que estupenda oportunidade perdeu ele, de companheirismo com Cristo, de servir a Deus, e mesmo de celebrizar-se como cristão! Outro caso já referido é o de Pe­dro que, após prometer ser fiel até o fim ainda que os outros desertassem, voltou as costas a Jesus e o negou com jura­mento, vendo-se rodeado por pessoas estranhas.

Em certa época do seu ministério, a debandada de discí­pulos foi tal que Jesus pateticamente se voltou para os poucos que lhe ficaram fiéis, e perguntou: “Não quereis vós também vos retirar?” (João 6:67). Mesmo depois de sua crucificação, vemos que seus amigos mais leais voltaram ao seu primitivo ofício, tendo dado a causa como completamente perdida. Aque­les onze homens corriam de cá para lá, como ovelhas assusta­das, emboscando-se nas trevas, para fugir ao dedo indicador dos inimigos de Cristo em Jerusalém.”

Se todas essas coisas se deram com Jesus, que esteve sempre muito além daquilo que podemos ser, e, se sua obra no tempo foi tida como decepção e derrota, em nada nos de­vemos surpreender quando vemos que nossos esforços pare­cem não render coisa alguma. Quando se faz muito, mais fá­cil tomar uma classe do que conservá-la, e quando não poucos alunos e alunas deixam as classes da Escola Bíblica Domini­cal, mal chegam à juventude, urge lembrar do Grande Mestre, e tomarmos alento.

Se o leitor sentir que este capítulo é desencorajador, lembre-se de que, apesar de todas aquelas dificuldades, e obstá­culos, Jesus avançou pacientemente e conseguiu fazer daquele grupo o mais eficiente corpo de discípulos e mestres que o cristianismo já teve em toda a sua história. T. R. Glover diz: “O maior milagre da história parece ter sido este: a transformação que Cristo conseguiu operar naqueles homens.”  Fortalecidos por seus ensinos, pela sua.-ressurreição e pelo Es­pírito, saíram a transformar o mundo, e dez deles deram sua própria vida para levar avante aquela divina cruzada. Assim iniciaram  eles a cristandade na obra da  evangelização  mundial. “A julgar pelos resultados, Jesus lançou a maior geração de mestres que o mundo conheceu — doze homens, que mais tarde viraram o mundo de pernas para o ar.” Como conseguiu Jesus formar neles esse caráter invencível é o que iremos ver nos capítulos seguintes. Até aqui procuramos ver nossos discípulos à luz daqueles aos quais Jesus ensinou, e compreender mais claramente a nossa tarefa de mestres, bem como buscamos ânimo e coragem para ensinar com fidelidade e paciência.

Extraído do livro A PEDAGOGIA DE JESUS, J. M. Price


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