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O DOGMA DA IMACULADA CONCEIÇÃO DE
MARIA I. DEFINIÇÃO E EXPLICAÇÃO O Papa Pio IX, na bula Ineffabilis Deus, em 8 de dezembro de 1854,
declarou como dogma da Igreja e artigo de fé o seguinte: "Ë
de Deus revelada a doutrina que sustenta que a bem-aventurada Virgem
Maria, no primeiro instante de sua conceição, por singular
graça e privilégio do Deus onipotente, em vista dos
méritos de Jesus Cristo, o Salvador do gênero humano,
foi preservada imune de toda mancha de pecado original, e dessa maneira
deve ser onda firme e constantemente por todos os fiéis." Os apologistas do dogma não dizem que Maria foi milagrosamente
concebida, sendo que ela teve seus país naturais. São
Joaquim e Santa Ana afirmam, sim, que ela nasceu sem pecado original,
entendendo-se que este consiste na privação da graça
sobrenatural imerecida, graça que Adão e Eva tiveram
a principio, mas que perderam por sua desobediência. II. HISTÓRIA No catolicismo, culto à Imaculada Conceição
de Maria está muito difundido. A dita festa começou
a celebrar-se já no século XII, muito antes da proclamação
do dogma. Uma lenda atribui sua origem à ordem dada por um
varão resplandecente, o qual, havendo aparecido a um abade
inglês, de nome Elpino, que se achava em perigo de naufragar
no marcom os seus companheiros,"... disse-lhes que prometessem
a Deus guardar cada ano a festa da Conceição de nossa
Senhora, e de exortar a outros que aguardassem ,e que desta maneira
sairiam daquele perigo e chegariam ao porto desejado". (1) III. DEFESA ROMANISTA Revisando a linha de argumentos invocados em defesa deste dogma,
salta à vista que são três os setores em que poderiam
ser classificados: tradição, Biblia e filosofia. Vejamo-los
nessa ordem. 1. Tradição Patrística Quanto a este ponto, se alega que os primeiros Pais expressaram--se
em termos altamente elogiosos sobre a pureza de Maria, do que resulta
incongruente o fato de ela ter sido manchada com o pecado original.
Maria é mencionada como "a segunda Eva - que, por sua
descendência, chegou a ser a causa da sua própria morte
e da raça humana - pois também Maria, levando em seu
seio o Homem predestinado, e sendo, no entanto, uma virgem, por sua
obediência, chegou a ser, tanto para ela mesma como para todo
o gênero humano, a causa de salvação." (1) 2. Argumento Bíblico Como base bíblica deste dogma citam-se as palavras do Proto-evangelho,
a saber, as ditas por Jeová Deus à serpente em Gênesis
3:15, e as da saudação angélica em Lucas 1:28.
Nestas passagens, no entanto, o argumento não está explícito,
senão que simplesmente se deduz. Quanto à passagem de Lucas, a Vulgata traduz as palavras do
anjo Gabriel a Maria assim: "Ave Maria, gratia plena...",
isto é, "cheia de graça", do que se estabelece
que, havendo Maria sido cheia de graça, era impossível
que ela alguma vez houvesse cometido pecado, resultando disso sua
imaculada Conceição. 3. Razões de Conveniência Segundo este ponto, era muito conveniente que a mãe do Senhor
fosse preservada do pecado original, e desta conveniência se
deduz que assim sucedeu. Se argumentam como razões as seguintes:
IV. REFUTAÇÃO EVANGÉLICA 1. Precisa de uma Consistente Tradição Eclesiástica O fio da tradição é realmente pouco resistente
para sustentar o tão grande peso deste dogma. O fato é
que os Pais primitivos da Igreja não creram na Imaculada Conceição
nem dela falaram. Os testemunhos citados a favor desta crença
(lrineu, Santo Efrém e Santo Agostinho) se poderia dizer que
a apóiam, só por contradição, e ainda
isto é duvidoso. A evidência é clara de que os
principais Pais não creram na impecabilidade de Maria. A. Rejeitada por Pais e Doutores da Igreja São muitos os testemunhos que se acham nos escritos dos Pais
e doutores que, por um lado, corroboram a impecabilidade de Cristo
e, por outro, admitem a participação que Maria teve,
igualmente com todos os homens, no pecado original da raça
humana. Desta maneira, o tão apetecido "consentimento
unânime dos Pais" se levanta antes contra a idéia
de imaculada conceição que a favor dela. Citamos os
mais importantes. Eusébio de Cesaréia (265-340):
"Ninguém está isento da mancha do pecado original,
nem mesmo a mãe do Redentor do mundo. Só Jesus achou-se
isento da lei do pecado, mesmo tendo nascido de uma mulher sujeita ao
pecado." (1)
Santo Ambrósio, Doutor da Igreja e Bispo de Milão (século IV), comentando Salmos 118: "Jesus foi o único a quem os laços do pecado não venceram; nenhuma criatura concebida pelo contato do homem e da mulher foi isenta do pecado original; só foi isento Aquele que foi concebido sem esse contato e de uma virgem, por obra do Espírito Santo." (2) Santo Agostinho, Doutor da Igreja (354-430), comentando Salmos 34:3, diz: "Maria, filha de Adão, morreu por causa do pecado; e a carne do Senhor, nascida de Maria, morreu para apagar o pecado." (3)
(4) Os Escolásticos Transcrevemos integralmente duas citações de obras
católicas romanas: "Em certo estado de desenvolvimento,
a questão foi estudada pelos escolásticos e, coisa rara,
quase todos creram que a doutrina da imaculada não estava em
harmonia com a universidade do pecado original e da redenção.
Sto. Anselmo, Sto. Alberto, Pedro Lombardo, Alexandre de Hales, São
Boaventura, Santo Alberto Magno e São Tomás, ainda que
ternamente devotos da Mãe de Deus e prontos a defender seus
muitos privilégios, contudo, ensinaram que havia sido concebida
em pecado original." "Entretanto, ainda que os escolásticos
mais conspícuos antes do século XIV se opusessem terminantemente
à Imaculada Conceição, não faltaram outros,
de menos fama, que com igual resolução defenderam esta
prerrogativa da Virgem por todos os meios que estavam ao seu alcance."
(4) a) Sto. Anselmo, Doutor da Igreja, Arcebispo de Canterbury
(1033-1109) disse a respeito: (1) Teófilo Gay, Dlcclonârlo de Controversia, Junta Bautista de Publicaciones, Buenos Aires, p. 423. (2) lbid., p. 423 (3) Santo Agostinho, Enarr. em Salmos 34:3. Rev. Ricardo Federico Littledate, Razones Sencillas contra los Errares Y Ias Innovaciones dei Romanismo, p. 16. (4) Juan Rosanas, S.1. Historia de los Dogmas, iii, Ed. cultural, Buenos Aires, 1945, pp. 173 e 174. (5) Enciciopedia de ia Reilgión Católica, Art. "Concepciõn lmmaculada de lá Santissima Virgen".
B) Rejeitada por vários papas (1) leão I (440-461) diz: "Assim como nosso Senhor
não encontrou a ninguém isento de pecado, assim também
veio para o resgate de todos" 3 Se fosse certa a imaculada conceição
de Maria, esta afirmação papal seria falsa. 2. Necessita de uma Base Bíblica Apesar de a fórmula dogmática declarar que esta doutrina foi revelada por Deus, o certo é que nas páginas das Sagradas Escrituras não há nem a mais leve insinuação de que a mãe do Senhor houvesse sido concebida imaculadamente. O testemunho positivo da Bíblia faz, sim, impossível a afirmação deste dogma. a. Nos Evangelhos Uma leitura cuidadosa das 23 passagens do Novo Testamento que direta ou indiretamente aludem a Maria nos permitirá ver que apesar de, nos Evangelhos, a posição dela não ser em alto grau especial ou proeminente, sua distinção, no entanto, se faz ostensiva em seu caráter humilde e piedoso. Sua pessoa nos está apresentada dentro de um limite impressionantemente humano. Ela é mãe solicita, esposa fiel e uma israelita temente a Deus. Os relatos evangélicos não a rodeiam de adornos artificiosos; não lhe rendem homenagem desnecessária nem a recomendam como salvadora ou milagreira. Seu maior favor recebido foi o de haver sido escolhida do Senhor para abrigar em seu seio virginal a forma humana do Verbo eterno; seu maior gozo foi haver-se submetido voluntariamente aos desígnios misteriosos de Deus; e sua maior glória foi haver crido em seu próprio Filho Jesus como o Salvador de sua alma. Se ela não cometeu pecado durante sua vida terrena, é de todo ponto de vista incompreensível o silêncio absoluto que sobre tal coisa guardam os Evangelhos. Por que no caso de Jesus as Escrituras são claras com respeito a sua perfeição moral, mas no caso de sua mãe guarda silêncio? A razão é óbvia. (1) ibid., p. 425. b. Na doutrina de que todos os homens são pecadores A Bíblia é igualmente clara em mostrar a doutrina da
universalidade do pecado. Adão, o progenitor do gênero
humano, pecou, e pelas leis da herança ele transmitiu a todos
os seus descendentes a natureza pecaminosa e as conseqüências
nefastas da transgressão. "Eis que eu nasci em iniqüidade,
e em pecado me concebeu minha mãe" (Salmos 51:5). "Pois
não há homem justo sobre aterra, que faça o bem,
e nunca peque" (Ecl. 7:20). "Porque todos pecaram e destituídos
estão da glória de Deus" (Rom. 3:23; 5:12). 3. Necessita de Suficiente Base Racional Ao ler as obras literárias dedicadas a exaltar Maria, logo
se percebe que é neste ponto de supostas razões lógicas
que os defensores do dogma da Imaculada fazem apoiar com mais força
e mais confiança sua tese concepcionista. Esgrimem com habilidade
o argumento da conveniência, isto é, que pelo fato de
que Maria foi a escolhida para ser a mãe do Senhor, ou de Deus,
como prefere dizê-lo a fraseologia romanista, era então
muito conveniente sua imaculada conceição; e ainda as
outras crenças sobre Maria, como a da Assunção
se fazem depender desta mesma conveniência ou suposição. a. Porque teria que haver uma conceição Imaculada em cadeia Se para Jesus ser imaculado fosse necessário que sua mãe também o houvesse sido, logicamente entende-se que as mesmas razões existem para que houvessem sido imaculadas a mãe de Maria e sua avó, e assim sucessivamente, até chegar a Eva. Esta é uma conseqüência teórica que, ainda que repugne ao bom sentido, temos que admitir, se aceitamos como válidas as suposições apologéticas dos concepcionistas marianos. b. Porque a santidade de Jesus não dependo de sua relação com sua mãe Jesus foi santo, mesmo não o tendo sido sua mãe, pois ele não recebeu sua santidade por herança ou associação. Ele foi sem mácula alguma, em primeiro lugar, porque ele não foi concebido de varão, senão por obra do Espírito Santo; e, em terceiro lugar, porque era Deus encarnado, apesar de nunca ter usado de sua deidade para ganhar a vitória, vencendo apenas como homem. Não se trata de uma santidade a ele concedida em forma mecânica e milagrosa; a santidade do Senhor foi o ambiente natural de uma vida que, além de sua origem divina, se submeteu totalmente à influência e direção do Espírito de Deus. c. Porque se desumaniza a Maria Um derivado da tese concepcionista é que, ao pretender que Maria tenha sido imaculada em sua conceição e necessariamente em sua vida também, quer dizer que ela nunca chegou a ser, propriamente falando, uma criatura humana nem viveu uma verdadeira vida humana. Este dogma erradica a Virgem da família humana, a reduz a um quase bosquejo de personalidade humana e faz de sua vida um fantasma. A despoja, realmente, do fundamento de sua verdadeira grandeza, qual seja, a de que, sendo ela uma criatura como todas, embelezou, no entanto, seu caráter e imortalizou seu nome com as virtudes de sua abnegação, de sua piedade e de sua obediência. Os Evangelhos nos apresentam uma Maria humana, santa e humilde por esforço próprio, o que reclama admiração e respeito, e não uma Maria divinizada e artificialmente sem pecado. V. EXEGESE DEFEITUOSA Interpretação de Gênesis 3:15 e Lucas 1:28 Foi dito anteriormente que estas duas passagens são citadas
pelos teólogos católicos como o baluarte bíblico
a favor da Imaculada Conceição, apesar de admitirem
que o argumento o é por implicação. a) Gênesis 3.15 A versão em espanhol de Torres Amat traduz Gênesis 3:15
assim: "Eu porei inimizade entre ti e a mulher, e entre tua semente
e a sua semente; esta te ferirá na cabeça, e tu lhe
ferirás no calcanhar." Quem esmagará a cabeça
da serpente, isto é, do diabo? Tanto a tradução
como a exegese católicas dão a entender que a promessa
de vitória sobre o inimigo das almas aqui é dada à
mulher, que não é outra senão a Virgem Maria.
Em nota de rodapé desta passagem, Torres Amat explica: "ou
então: Quebrantará tua cabeça a mulher, que,
cheia de graça, dará à luz o Filho de Deus." b) Lucas 1.28 As versões católicas da Bíblia traduzem a passagem
de Lucas 1:28 assim: "Entrando, pois, o anjo onde esta estava,
disse-lhe: Deus te salve, cheia de graça! O Senhor é
contigo!" (Nácar-Colunga). Novamente temos aqui um erro
de tradução, com o qual se quer justificar todas as
chamadas "glórias de Maria". A frase "cheia
de graça" não é exatamente o que diz o grego
original do Novo Testamento, senão que se trata do particípio
perfeito do verbo xaritoo, que significa "favorecida", "ser
o objeto de um gracioso convite" (literalmente, agraciada). A
Revisão de 1960 traduz corretamente: "E entrando o anjo
onde ela estava, disse: Salve agraciada; o Senhor é contigo."
A mesma nota que aparece no rodapé da página em Nácar-Colunga
é uma cândida profissão do verdadeiro sentido
da frase em grego, de modo que a tradução da dita frase
no texto aludido resulta tendenciosa. "Cheia de graça"
é a tradução que dão as antigas versões
ao particípio "agraciada", "gratificada"
em sumo grau. O anjo emprega este particípio à maneira
de nome próprio, o que aumenta a força de seu significado.
A piedade e a teologia cristãs afastaram daqui todas as exaltações
de Maria. A análise lingüística superficial demonstra,
por conseguinte, que não se trata da concessão de alguma
virtude especial para não pecar, senão simplesmente
de um favor, de uma graça imerecida, qual é a de ser
a mãe do Salvador. VI. A IMACULADA CONCEIÇÃO E O CONCÍLIO VATICANO II No "Esquema sobre a Constituição Dogmática
da Igreja", no Capitulo VIII, os Pais conciliares trataram sobre
o tema "O Papel da Bendita Virgem Maria, Mãe de Deus,
no Ministério de Cristo e da Igreja". Propriamente falando,
a discussão não girou em torno do dogma da Imaculada
Conceição. No entanto, a redação do capitulo
não deixa margem a dúvidas de que o Concílio
confirmou o dogma Mariano. Afirmações, como as seguintes,
o demonstram: "Devido a este dom de graça sublime, ela
sobrepassa a todas as demais criaturas, tanto no céu como na
terra." (1) "Não é de estranhar, então,
que o uso prevaleça entre os santos Padres, pelo qual eles
chamaram a mãe de Deus inteiramente santa e livre de toda mancha
de pecado, formada pelo Espírito Santo em uma classe de nova
substância e nova criatura."(2) "Adornada desde o
primeiro instante de sua conceição com os esplendores
de uma santidade inteiramente única, a Virgem de Nazaré
é, pelo mandato de Deus, saudada por um anjo mensageiro como
'cheia de graça'." (3) "Corretamente, portanto, os
santos Padres a vêem como usada por Deus não meramente
em uma maneira passiva, senão como cooperando na obra da salvação
humana através de fé e obediência livres."
(4) "Esta união da Mãe com o Filho na obra da salvação
se manifestou desde o tempo da concepção virginal de
Cristo até sua morte." (5) "Finalmente, preservada
e livre de toda culpa de pecado original, a Virgem Imaculada foi levada
em corpo e alma à glória celestial, ao terminar sua
peregrinação terrenal." (6) (1, 2, 3, 4, 5, 6) Walter M. Abbott, S.J.: The Documenta of Vaticano II - Guild Press: CONCLUSÃO Concluímos, pois, que o dogma da Imaculada Conceição
de Maria é insustentável porque ele não tem nenhum
valor prático para a teologia cristã ou para a salvação
do homem; e porque, em lugar de este dogma nos aproximar da fonte
pura do evangelho e da suprema pessoa de Jesus Cristo, antes nos afasta,
para fazer-nos incorrer no pecado de "honrar à criatura,
antes que ao Criador, o qual é bendito pelos séculos". Gostou desta matéria?
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