Centro Apologético Cristão de Pesquisas - CACP
O
PAPA É INFALÍVEL?
Uma
análise na doutrina da infalibilidade papal
Por Paulo Cristiano, do CACP
Esta é uma das doutrinas mais controvertidas criada pela igreja
católica romana. Foi proclamada como dogma de fé em 1870
no Concílio Vaticano I pelo então papa João Maria
Mastai Ferretti, Pio IX (1846-1878), através da Bula "Pastor
Aeternus".
Segundo a teologia católica essa prerrogativa é exercida
quando o Papa, como sucessor de Pedro, se pronuncia "ex- cathedra"[1],
em matéria de fé e moral. Em outras palavras: o Papa não
erra, pois é infalível quando fala ao povo católico.
Sem ela a igreja perde sua reivindicação de autoridade
apostólica e de guardiã da verdade.
Mas seria essa uma doutrina genuinamente cristã? Quais são
seus fundamentos e verdadeiras intenções? Eles resistem
ao escrutínio das Escrituras e da história eclesiástica?
Esse será o foco de nossa análise neste artigo sobre a
"infalibilidade papal".
Antecedentes históricos
Não são poucos os protestantes que pensam
ser este dogma uma criação ex nihilo[2] de Pio IX. Muito
embora algumas mentes ultramontanas da época já convergiam
para isso, podemos encontrar proponentes anteriores ao Vaticano I .
Diz o teólogo católico Hans Kung [3] que Peter Olivi [falecido
em 1298], padre franciscano, foi o primeiro a propor que os pronunciamentos
dos papas fossem considerados infalíveis. Isso porque o papa
Nicolau III havia favorecido os franciscano ao declarar que "a
renuncia aos bens materiais era um caminho a salvação".
Outros porém, afirmam que foram os jesuítas em 1661.
Seja como for, a questão é: O que teria levado Pio IX
a propor um dogma tão ousado assim? Parece que as razões
do Papa eram mais políticas que religiosas. Vejamos alguns motivos
que o levaram a propor uma doutrina sem precedentes na história
da igreja:
Um dos motivos para o estabelecimento definitivo do dogma foi para combater
o "galicanismo"[4]. Essa teoria já havia assombrado
o pontificado de Inocêncio XI. O contexto da época era
propício às aspirações de Pio IX. Ele estava
assistindo em seu pontificado a queda do poder temporal que tanto ardentemente
defendia. Os domínios papais começaram a perder para a
Itália a Romanha (1859), a região da Úmbria, Marcas
(1860) e finalmente Roma (1870). A situação não
era nada fácil. O Papa agora estava restrito ao Estado do Vaticano
e a igreja romana não era mais a senhora de mão-de-ferro
da Europa. Sem falar é claro dos fortes conflitos doutrinários
que dividiam os teólogos de escolas opostas e as novas idéias
seculares que emergiam - as quais o Papa condenou como "erros modernos".
Já que a igreja, considerada infalível, estava experimentando
sua derrocada, a solução então era consolidar o
resto do poder que ainda existia nas mãos de um agente único
- o Papa - o qual mais que depressa convocou um Concílio.
Nos bastidores do Concílio
Vaticano I é estereotipado como um concílio
de "cartas marcadas". Antes mesmo dos debates começarem
tudo já havia sido arranjado para a doutrina da "infalibilidade"
ser aceita. Durante o tempo transcorrido (1869-1870) as reuniões
foram marcadas por violentas controvérsias até que os
conciliares se dividiram em dois grupos: os antiinfalibilistas (que
não apoiavam o dogma) e os infalibilistas (que apoiavam o dogma),
liderado pela famigerada ordem dos Jesuítas. Mas mesmo entre
estes últimos havia sérias divergências quanto aos
limites e natureza desta infalibilidade.
Enquanto isso a mídia controlada pelo Papa e os jesuítas,
tentava passar uma imagem de unidade, apontando que em breve a aclamação
do dogma se faria por unanimidade.
A pressão dos infalibilistas pesou na votação e
o tema foi adiantado. Muitas alterações foram feitas durante
o Concílio de modo a favorecer esse grupo ultramontanista. [5]
A esta altura a corrente favorável e intransigente propôs
que o grupo contrário ao dogma fossem excluídos como hereges.
Dentre essas alterações devemos destacar aqui o fato de
que havia sido limitada a liberdade de expressão a ponto de cassar
a palavra daqueles que se alongassem no debate como fizeram com Strossmayer.
Finalmente depois de muitas contradições,
ameaças, intrigas e pressões do partido infalibilista,
, foi definido o famigerado dogma da seguinte maneira:
"...definimos como dogma divinamente revelado que
o Romano Pontífice, quando fala ex cathedra, isto é, quando,
no desempenho do ministério de pastor e doutor de todos os cristãos,
define com sua suprema autoridade apostólica alguma doutrina
referente à fé e à moral para toda a Igreja, em
virtude da assistência divina prometida a ele na pessoa de São
Pedro, goza daquela infalibilidade com a qual Cristo quis munir a sua
Igreja quando define alguma doutrina sobre a fé e a moral; e
que, portanto, tais declarações do Romano Pontífice
são por si mesmas, e não apenas em virtude do consenso
da Igreja, irreformáveis. Se, porém, alguém ousar
contrariar esta nossa definição, o que Deus não
permita, - seja excomungado" [Concílio Vaticano I, "Primeira
Constituição dogmática sobre a Igreja de Cristo"
- sessão IV, cap. IV (18-7-1870)]
E foi assim que a 18 de julho de 1870 o Papa se tornou
infalível!
Os critérios da infalibilidade
Muitos pensam que qualquer pronunciamento do Papa é
automaticamente infalível. Não é bem assim. Os
teólogos católicos tiveram o cuidado de cercar cuidadosamente
com alguns critérios o uso desta prerrogativa. Elas são
tiradas do próprio documento transcrito acima:
Primeiramente, o papa só é infalível quando se
pronuncia "ex-cathedra", isto é, usando os poderes
da cadeira de Pedro como Pastor e doutor da igreja, isto define o cargo
de ação do dogma.
Por sua vez o objeto desta infalibilidade está restrito tão
somente a temas concernente à fé e moral.
Outrossim, que o sumo pontífice intencione pronunciar sentença
definitiva sobre o assunto focalizado, decidindo o que é certo
e condenando com um anátema quem se posicione contra.
E por último que ele queira ensinar a igreja inteira.
Segundo os estudiosos católicos, em qualquer documento
papal (bulas, constituição apostólica, encíclica)
estas condições precisam ser preenchidas para ser infalíveis.
Por exemplo, temos um pronunciamento ex-cathedra quando João
Paulo II na encíclica Veritatis Splendor se pronunciou dizendo
que estava usando os poderes de Pedro para aplicar aquelas proposições.
Por outro lado, quando ele asseverou na encíclica Fides et Ratio
que estava fazendo "considerações filosóficas"
não é para todos os efeitos objeto de infalibilidade.
Enfim, quando o Papa se pronuncia como filósofo, ou doutor em
outras áreas humanas e não como Papa, suas decisões
não estão no campo da infalibilidade, asseguram os defensores
do dogma. Curiosamente o Concílio Ecumênico Vaticano II
não é considerado infalível, pois tão somente
reafirmou sentenças de concílios anteriores e não
impôs nenhum anátema.
Dizem os teólogos católicos que este poder foi exercido
poucas vezes, apenas doze, durante todo o pontificado dos papas.
Todavia, é gritante a fragilidade deste critério. Este
dispositivo foi criado logicamente, para proteger o dogma de suas implicações
lógicas, de um impacto direto que ele poderia causar, se fosse
aplicado, na prática, na vida de muitos papas ao longo destes
séculos.
Os alegados fundamentos dessa doutrina
Analisando as proposições da sessão
IV do "Pastor Aeternus", fica patente que este dogma é
extraído de outras duas doutrinas a saber: o primado de Pedro
e a sucessão apostólica. Primeiro era necessário
transforma Pedro em chefe da igreja cristã universal e depois
coroa-lo com a infalibilidade. Assim a última engrenagem faltante
era colocar os papas na linha de sucessão do apóstolo
fazendo-os infalíveis.
Além das questões neotestamentarias, os católicos
apelam para a história da igreja, reivindicando a supremacia
da igreja de Roma sobre as demais e o apelo que muitas igrejas faziam
aos papas em questões de fé e doutrinas.
As passagens amiúde citadas são: "o
poder de ligar e desligar" (Mateus 16.19), "o poder de apascentar
o rebanho" (João 21.15-17) e "o poder de ensinar"
(Lucas 22.31,32). Em todas elas os teólogos católicos
dizem estar implícita a infalibilidade.
Objeções à infalibilidade
Dado ao pouco espaço que temos neste artigo, impossível
refutar de modo completo tal doutrina. Por isso teceremos alguns comentários
e refutações em suas principais bases. O dogma peca sob
diversos pontos: Primeiro, quanto às provas bíblicas,
não resiste a uma hermenêutica mais cuidadosa. Segundo,
carece de apoio histórico consistente e por último, de
todos os pontos de vistas lógico, é desnecessário.
1º - Carece de apoio unânime: De início
ressalta-se que a palavra "infalibilidade" está
ausente tanto na literatura cristã primitiva como na Bíblia.
Apesar de Pio IX dizer que ela "foi sempre admitida pela igreja
católica", os anais da história mostram fatos totalmente
opostos a isto e provam que na verdade, ela nunca existiu na pessoa
de um líder eclesiástico. Quando o embrião desta
funesta doutrina começou a ser desenvolvido na idade média,
não faltaram adversários que a combatessem ferozmente.[6]
Muitos papas como Inocêncio III, Clemente IV, Gregório
XI, Adriano VI, Paulo IV - rejeitaram a doutrina da infalibilidade papal!
As igrejas da França e da Gália sempre se opuseram a ela,
reafirmando a independência para com a igreja romana. A elas seguiram-se
depois as igrejas inglesas e irlandesas. No Concílio Vaticano
I, líderes católicos gabaritados da envergadura do teólogo
e historiador alemão Ignaz von Döllinger (principal adversário
e líder da oposição a essa doutrina), Schwarzemberg,
Maret, Rauscher, Simor, Dupanloup, Hefele, Ketteler, Acton, Strossmayer
formavam a frente de oposição quanto ao novo dogma. Principalmente
Döllinger e Maret ambos, respeitados estudiosos eclesiásticos
sabiam mais do que todos que pela história da igreja o dogma
era indefensável. Os livros de Döllinger e o discurso eloqüente
de Strossmayer no Concílio atestam este fato. Depois disto, muitos
não só abandonaram o Concílio antes da votação,
como também a própria igreja romana formando a igreja
dos "Velhos Católicos".
2º - Carece de apoio histórico: A alegação
de que algumas igrejas apelavam para Roma em algumas decisões
não é prova de que o bispo romano fosse infalível.
Outras sés episcopais receberam a mesma honra. Podemos citar
a igreja de Alexandria resolvendo questões de disciplinas nas
igrejas espanholas, além de sua jurisdição. Era
comum as igrejas primitivas recorrerem umas às outras para estabelecer
decisões em questões polêmicas. Contudo, muitas
vezes as igrejas não admitiram a intromissão de Roma em
assuntos de suas jurisdições como no caso das igrejas
Africanas. Nota-se ainda que as apelações eram feitas
à igreja e não ao papa como infalível.
Nos primeiros dez séculos de Cristianismo nenhum dos pais da
igreja ou algum Concílio ecumênico jamais se posicionou
a favor da idéia da infalibilidade residir na pessoa do bispo
romano. É vão o malabarismo exegético praticado
pelos romanistas nesse sentido. Apesar de quererem reescrever a história
em causa própria, os fatos são gritantes contra esse dogma.
Nenhum dos primeiros concílios ecumênicos foram convocados
pelos papas e nenhuma sentença importante por parte deles foi
emitida como infalível por estes concílios. As principais
decisões dogmáticas do cristianismo foram tomadas pelos
Concílios e não pelos papas. Na verdade, muitos papas
estavam sujeitos aos Concílios.
Não obstante, apela-se para a frase de Agostinho "roma locuta
, causa finita est !", isto é, Roma falou, está encerrada
a questão. Todavia, quando Agostinho disse isso a respeito da
opinião do Papa contra Pelágio (seu adversário),
esta questão já havia sido decidida por dois Concílios.
Agostinho era da opinião de que só o julgamento de Roma
não era definitivo se não tivesse o assentimento de um
concilium plenarium. Isto ele deixou claro na questão do batismo
dos hereges, no qual foi contra a decisão de Estevão e
a favor dos Concílios africanos.
Não menos controvertida é a frase de Ireneu apelando para
a sé romana fazendo menção de sua "importantíssima
primazia". Mas Ireneu não apelara para o papa de Roma ,
mas para a igreja UNIVERSAL como um todo, ele apenas escolheu a romana
por ser a mais conhecida, pois ficava na capital do império.
Nada diz Ireneu sobre uma suposta infalibilidade papal. Isto estava
com certeza, fora de cogitação.
3º - Carece de apóio bíblico: Os argumentos
freqüentemente empregados pelos católicos para substanciar
biblicamente a infalibilidade são espúrios. Se não
vejamos:
Mateus 16.19 - Além de reivindicarem uma
suposta jurisdição de Pedro sobre as demais igrejas, alegam
que ele promete a infalibilidade pelo simbolismo das chaves. Contudo,
a interpretação de que Pedro é a "Pedra",
além de não provar nenhuma supremacia de Pedro, não
mostra também que seus supostos sucessores tivessem a primazia
sobre os demais. Além do mais, de todos os pais da igreja poucos
foram os que interpretaram que Pedro fosse de fato a Pedra. Outrossim,
o simbolismo das chaves foi dado não somente a Pedro, mas a todos
os apóstolos (18.18). Se os apologistas católicos querem
ver alguma infalibilidade neste trecho terão que estende-la também
aos outros. Ademais, o poder das chaves era exercido apenas na evangelização
e não na jurisdição. O que de fato Pedro e os demais
exerceram de modo eficaz. Nada de infalibilidade.
João 21.15-17 e Lucas 22.31,32 - A prerrogativa
dada a Pedro de "apascentar seus irmãos", não
era privilégio somente de Pedro. Outros como Paulo disseram a
mesma coisa (At. 14:22 - 15:32,41). Este e o próprio Pedro admitiam
que isto não era exclusividade suas (Atos 20.28 - I Pedro 5.1,2).
Com certeza Pedro lembrando-se das palavras do mestre em Lucas 22.24-26
(cf. Mat. 20.25-27), soube aconselhar o rebanho tempos depois afim de
que ninguém exercesse a primazia sobre as igrejas I Pedro 5.1-3.
A simples tarefa de apascentar e confirma não traz inerentemente
nenhum mérito de infalibilidade, pois Jesus já havia rogado
por eles todos (João 17.11,12).
Conclusão
O cuidado em proteger essa doutrina com subtilezas de
termos cuidadosamente arranjados, encontra sua razão na história
desastrosa do papado durante todos estes séculos. Poderíamos
falar extensamente de papas condenados como hereges tais como Honório,
Libério, Hildebrando. Ora, se ensinaram heresias está
claro que não eram infalíveis. Houve papas que anularam
os decretos de outros, tido como dogmáticos. E o que dizer de
vários papas tidos ao mesmo tempo como legítimos?[7] Sem
falar na vida imoral que muitos deles levavam. Seria correto papas imorais
não errarem em questões morais? Seriam estes também
infalíveis? Claro que não!
Isto posto, a infalibilidade foi um estratagema que não deu certo,
antes aumentou mais um erro no bojo dogmático do catolicismo.
Ela não só perverte a doutrina cristã como contraria
os fatos da história. Definitivamente o Papa não é
infalível, isso cabe somente a Deus e a sua Palavra - a Bíblia.
Obras Consultadas
O Papa e o Concílio - Janus - Obras Completas de
Ruy Barbosa Vol. IV Tomo I,II 1877, Ministério da Educação
e Cultura (fundação Casa de Ry Barbosa - Rio de Janeiro
- 1978)
Collete, Carlos Hastings. Inovações do Romanismo.
Ourinhos: Edições Cristãs, 1ª ed. 2001.
Almeida, Abraão de. Babilônia, Ontem e Hoje.
Rio de Janeiro, CPAD - 1979.
Hunt, Dave. A Mulher Montada na Besta: a Igreja Católica
Romana e os últimos dias. Vol. I. Porto Alegre, Actual edições,
2001.
Silveira, Horácio. Santos Padres, Santos Podres.
Existem ambos? Belo Horizonte: Dynamus, 2001.
Obras católicas
Alberigo, Giuseppe. História dos Concílios
Ecumênicos. São Paulo: Paulus, 1995 - 2ª ed.
Grasso, Dominico. O Problema de Cristo, São Paulo:
Ed. Loyola 1967.
Catecismo da Igreja Católica, São Paulo:
Ed. Loyola, 1999.
Pintonello, Aquiles. Os Papas: síntese histórica,
curiosidades e pequenos fatos. São Paulo Ed. Paulinas 1986.
Notas
[1] expressão latina que significa "da cadeira" referindo-se
a cadeira de Pedro.
[2] Criação do nada - referente ao ato criativo de Deus
em Gênesis.
[3] teólogo jesuíta suíço que foi excluído
por João Paulo II a mando de Ratzinger por apoiar a teologia
da libertação e outras idéias teológicas.
[4] Originada na França, propunha a diminuição
da autoridade papal e o aumento do poder do Estado sobre a igreja. As
4 proposições do Galicanismo eram: 1) Total independência
do rei em assuntos temporais em relação ao papa; 2)a autoridade
papal é inferior à do Concílio; 3)obrigação
por parte do papa de respeitar as antigas tradições da
igreja francesa; 4) necessidade de consentimento da Igreja Universal
para a ratificação dos dogmas proclamados pelo papa.
[5] partido que defendia a infalibilidade papal e a supremacia da sé
romana. Era a antítese do galicanismo.
[6] Segundo pesquisa de opinião pública divulgada pela
Folha de S. Paulo, em 1997, quase dois terços dos católicos
brasileiros (74%) não crêem na infalibilidade papal. Só
22% acreditam nela. O assunto voltou a ser muito discutido no meio religioso
e acadêmico em 1998, com a publicação da encíclica
"Fé e Razão".
[7] No início do século XV havia 3 homens afirmando ser
o papa, é a chamada controvérsia de Avignon. Esse dilema
foi resolvido por um Concílio, o de Constança.
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