Centro Apologético Cristão de Pesquisas - CACP
As Doutrinas da Reforma
por João Alves dos Santos
No dia 31 de Outubro de 1517, na porta da Igreja do Castelo
de Wittenberg, na Alemanha, Lutero afixou as suas 95 teses que acabaram
provocando o grande movimento religioso, conhecido como a Reforma do
Século XVI. Nelas Lutero convidava os interessados a debater
a questão das indulgências (que eram vendidas para a construção
da Basílica de S. Pedro, em troca de perdão de pecados)
e os males que esse tráfico religioso podia acarretar. Era costume
na época afixar em lugares públicos temas ou teses para
debate e convidar os interessados para discuti-los. Embora ninguém
tivesse comparecido para o debate, em pouco tempo toda a Alemanha conhecia
as teses de Lutero, que lhe custaram a bula de excomunhão, mas
que representaram também o começo da obra de purificação
da Igreja e seu retorno à verdade.
Em suas teses, Lutero questionava o poder (ou mesmo a intenção)
do Papa de perdoar pecados ou de isentar alguém de penas, a não
ser aquelas por ele mesmo impostas. Negava que esse perdão (de
penas ou penitências) pudesse se estender aos que já haviam
morrido e que, porventura, estivessem no purgatório. Para ele,
só o arrependimento, seguido de atos de amor e penitência,
com ou sem carta de perdão (indulgência) podia realmente
perdoar pecados. Destacava o valor da Palavra de Deus, a qual não
deveria ser silenciada em benefício da pregação
das indulgências. A intenção do Papa, dizia, deve
ser esta: se a concessão dos perdões - que é matéria
de pouca importância - é celebrada pelo toque de um sino,
com uma procissão e com uma cerimônia, então o Evangelho
- que é a coisa mais importante - deve ser pregado com o acompanhamento
de cem sinos, de cem procissões e de cem cerimônias (tese
55) e, ainda, o verdadeiro tesouro da Igreja é o sacrossanto
Evangelho da glória e da graça de Deus (tese 62). Negava
que a cruz adornada com as armas papais (que era carregada pelos vendedores
de indulgências) tivesse o mesmo efeito que a cruz de Cristo (tese
79). Muitas outras questões foram levantadas nas teses, as quais
acabavam batendo na própria autoridade do Papa e na lisura de
suas intenções. Lutero afirmava: Essa licenciosa pregação
dos perdões torna difícil, mesmo a pessoas estudadas,
defender a honra do Papa contra calúnia, ou pelo menos contra
as perguntas capciosas dos leigos. Esses perguntam: Por que o Papa não
esvazia o purgatório por um santíssimo ato de amor e das
grandes necessidades das almas; isto não seria a mais justa das
causas, visto que ele resgata um número infinito de almas por
causa do sórdido dinheiro dado para a edificação
de uma basílica que é uma causa bem trivial? ... Que misericórdia
de Deus e do Papa é essa de conceder a uma pessoa ímpia
e hostil a certeza, por pagamento de dinheiro, de uma alma pia em amizade
com Deus, enquanto não resgata por amor espontâneo uma
alma que é pia e amada, estando ela em necessidade?... As riquezas
do Papa hoje em dia excedem muito à dos mais ricos Crassos; não
pode ele então construir uma basílica de S. Pedro com
seu próprio dinheiro, em vez de fazê-lo com o dinheiro
dos fiéis? ... Abafar esses estudados argumentos dos fiéis
apelando simplesmente para a autoridade papal em vez de esclarecê-los
mediante uma resposta racional, é expor a Igreja e o Papa ao
ridículo dos inimigos e tornar os cristãos infelizes (teses
81, 82, 84, 86 e 90).
Com essas e outras proposições Lutero alcançou
mais do que podia imaginar. Atingiu o ponto crucial do problema: a situação
de distanciamento do Evangelho em que se encontrava a Igreja. Os males
da Igreja não eram apenas os seus desvios morais, econômicos
e políticos, que a colocavam em descrédito perante o povo.
Seu problema principal, responsável também por estes,
era o afastamento das doutrinas fundamentais da Palavra de Deus. A Reforma
trouxe a Igreja de volta às Escrituras e ao Evangelho pregado
pelos apóstolos. O próprio Lutero, de início, não
estava totalmente livre dos erros pregados por sua Igreja, como muito
bem atesta sua crença no purgatório (teses 10, 11, 15,
16, 17, 22, etc), e no valor da penitência (sofrimento) e do perdão
do Papa para certos pecados (teses 6, 7, 8,12, 34, 38, 40, etc.). Foi
o estudo da Bíblia que revelou quão longe a Igreja estava
afastada da verdade e a trouxe de volta à pureza de sua crença
primitiva. A Reforma restituiu à Igreja a crença em doutrinas
chaves, que se tornaram essenciais para a sua pregação
e para distingui-la dos erros que continuaram e ainda são mantidos
pela Igreja Romana até os nossos dias. É a importância
dessas doutrinas, conhecidas por sua designação latina
Sola Scriptura, Solus Christus, Sola Gratia, Sola Fide e Soli Deo Gloria,
que queremos apresentar, ainda que de forma breve, neste estudo.
1. Sola Scriptura - "Somente a Escritura", ou a
autoridade e suficiência das Escrituras.
Para os reformadores, somente a Escritura Sagrada tem a palavra final
em matéria de fé e prática. É o que ficou
consubstanciado nas Confissões de Fé de origem reformada.
A Confissão de Fé de Westminster, que adotamos, afirma:
Sob o nome de Escritura Sagrada, ou Palavra de Deus escrita, incluem-se
agora todos os livros do Velho e do Novo Testamento, ... todos dados
por inspiração de Deus para serem a regra de fé
e de prática..
A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida
e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja,
mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu autor;
tem, portanto, de ser recebida, porque é a palavra de Deus...
O Velho Testamento em Hebraico... e o Novo Testamento em Grego..., sendo
inspirados imediatamente por Deus e pelo seu singular cuidado e providência
conservados puros em todos os séculos, são por isso autênticos
e assim em todas as controvérsias religiosas a Igreja deve apelar
para eles como para um supremo tribunal... O Juiz Supremo, pelo qual
todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas
e por quem serão examinados todos os decretos de concílios,
todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas
de homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo em cuja sentença
nos devemos firmar não pode ser outro senão o Espírito
Santo falando na Escritura.(I, 2,4,8,10).
A Igreja Católica Romana também aceita as Escrituras como
Palavra de Deus, mas não só as Escrituras. Ela acredita
que as decisões da Igreja através dos seus concílios
e do Papa, quando fala oficialmente (ex cathedra) em matéria
de fé e de moral, são igualmente a palavra de Deus, infalível.
É o que se chama de Tradição da Igreja. Sobre a
autoridade da Igreja e do Papa, assim diz um autor católico:
"Cristo deu à Igreja a tarefa de proclamar sua Boa-Nova
(Mt 28, 19-20). Prometeu-nos também seu Espírito, que
nos guia"para a verdade" (Jo 16,13). Este mandato e esta promessa
garantem que nós, a Igreja, jamais apostataremos do ensinamento
de Cristo. Esta incapacidade da Igreja em seu conjunto de extraviar-se
no erro com relação aos temas básicos da doutrina
de Cristo chama-se infalibilidade... A infalibilidade sacramental da
Igreja é preservada pelo seu principal instrumento de infalibilidade,
o Papa. A infalibilidade que toda a Igreja possui, pertence ao Papa
dum modo especial. O Espírito de verdade garante que quando o
Papa declara que ele está ensinando infalivelmente como representante
de Cristo e cabeça visível da Igreja sobre assuntos fundamentais
de fé ou de moral, ele não pode induzir a Igreja a erro.
Esse dom do Espírito se chama infalibilidade papal. Falando da
infalibilidade da igreja, do Papa e dos Bispos, o Concílio Vaticano
II diz: "Esta infalibilidade, da qual quis o Divino Redentor estivesse
sua Igreja dotada... é a infalibilidade de que goza o Romano
Pontífice, o Chefe do Colégio dos Bispos, em virtude de
seu cargo... A infalibilidade prometida à Igreja reside também
no Corpo Episcopal, quando, como o Sucessor de Pedro, exerce o supremo
magistério" (Lúmen Gentium, nº 25) -
(http://www.geocities.com/Augusta/3540/doutrina.htm).
Sobre a relação entre as Sagradas Escrituras e a Tradição,
diz esse mesmo autor: O Concílio Vaticano II descreve a Sagrada
Tradição e as Sagradas Escrituras como sendo "semelhante
a um espelho em que a Igreja peregrinante na terra contempla a Deus"
(Constituição Dogmática Dei Verbum, sobre a Revelação
Divina, nº 7). A palavra revelada de Deus chega até você
mediante palavras faladas e escritas por seres humanos. A Escritura
Sagrada é a Palavra de Deus "enquanto é redigida
sob a moção do Espírito Santo" (Dei Verbum,
nº 9). A Sagrada Tradição é a transmissão
da Palavra de Deus pelos sucessores dos apóstolos. Juntas, a
Tradição e a Escritura constituem um só sagrado
depósito da palavra de Deus, confiado à Igreja"(Dei
Verbum, nº 10). E mais adiante acrescenta: A Sagrada Tradição
é a transmissão da Palavra de Deus. Esta transmissão
é feita oficialmente pelos sucessores dos apóstolos, e
não oficialmente por todos os que cultuam, ensinam e vivem a
fé, tal como a Igreja a entende. (Ibidem).
No dias de Lutero a Igreja Romana já pensava assim e assim pensa
até hoje. Na prática, a Tradição está
acima da Bíblia para o catolicismo. Já que cabe à
Igreja transmitir e interpretar a Bíblia, com igual autoridade
e infalibilidade, é a palavra da Igreja, em última instância,
que tem valor. O escritor católico, acima referido, diz: O Vaticano
II fez o que a Igreja docente sempre tem feito: expressou o conteúdo
imutável da revelação, traduzindo-o para formas
de pensamento do povo de acordo com a cultura de hoje. Mas esta "tradução
do conteúdo imutável" não é como que
vestir notícias velhas com linguagem nova. Como afirmou o Vaticano
II: "Esta Tradição, oriunda dos Apóstolos,
progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo.
Cresce, com efeito, a compreensão tanto das coisas como das palavras
transmitidas... no decorrer dos séculos, a Igreja tende continuamente
para a plenitude da verdade divina, até que se cumpram nela as
palavras de Deus". (Dei Verbum, nº 8).
Pelo Vaticano II a Igreja deu ouvidos ao Espírito, empenhou-se
na sua "tarefa de perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los
à luz do Evangelho" (Constituição Pastoral
Gaudium et Spes sobre a Igreja no Mundo Moderno, nº 4). Nem sempre
é claro aonde o Espírito está nos conduzindo. Mas
o terreno no qual nós, a Igreja, caminhamos adiante da nossa
peregrinação é firme: o Evangelho de Cristo. Nesta
etapa da nossa história, um de nossos instrumentos básicos
de Tradição - de transmissão da fé - são
os documentos do Vaticano II (Ibidem).
Por este texto percebe-se que a Igreja Romana arroga a si não
só a autoridade de interpretar e contextualizar a Bíblia,
de modo infalível, mas a de continuar a sua revelação.
Por isso a leitura da Bíblia pelos leigos não é
vista como necessária; e, em alguns casos, é tida até
como perigosa. A Reforma ensinou o livre exame das Escrituras. Qualquer
pessoa tem o direito e até o dever de examinar, por si mesma,
se o ensino da Igreja está de acordo com as Escrituras. Foi o
que fizeram os crentes de Beréia, pelo que foram elogiados (At
17:11). A Igreja pode errar e tem errado. A infalibilidade deve ser
atribuída apenas ao texto bíblico, não aos que
o interpretam. Em nenhum lugar da Bíblia lemos que a promessa,
dada aos apóstolos, de que o Espírito os conduziria a
toda a verdade se estenderia aos demais líderes da Igreja, em
todos os tempos. Jesus prometeu-lhes que o Espírito não
só os guiaria a toda verdade (Jo 16:13), mas lhes ensinaria todas
as coisas e os faria lembrar de tudo o que lhes tinha dito (Jo 14:26).
Isto só poderia aplicar-se a eles, os apóstolos. Só
eles ouviram o que Jesus disse para poder lembrar-se depois, não
os bispos nem os papas. A infalibilidade do Papa (e, por extensão,
da Igreja) só foi declarada como dogma em 1870, no Concílio
Vaticano I. Tal dogma, naturalmente, serviu ao propósito de dar
"legitimidade" aos inúmeros ensinos contrários
às Escrituras, tanto os já anteriormente estabelecidos
como outros que viriam depois, como a oração pelos mortos
(310), a instituição da missa substituindo o culto (394),
o culto a Maria (431), a invenção do purgatório
(503), a veneração de imagens (783), a canonização
dos santos (933), o celibato clerical (1074), o perdão através
da venda de indulgências (1190), a hóstia substituindo
a Ceia (1200), a adoração da hóstia (1208), a transubstanciação
(1215), a confissão auricular (1216), os livros apócrifos
como parte do cânon (1546), o dogma da Imaculada Conceição
de Maria (1854) e o dogma da Assunção de Maria (1950),
dentre outros.
Lutero se opôs naturalmente a esse ensino da Igreja. Já
nas suas teses proclamava que comete-se uma injustiça para com
a palavra de Deus se no mesmo sermão se concede tempo igual,
ou mais longo, às indulgências do que à palavra
de Deus (tese 54) e que o verdadeiro tesouro da Igreja é o sacrossanto
Evangelho da glória e da graça de Deus (tese 62). Comparava
o Evangelho como "redes com que, desde a antiguidade, se pescam
homens de bem" enquanto que as indulgências eram "redes
com que agora se pescam os bens dos homens" (teses 65 e 66). Mas
foi na Dieta de Worms, em 1521, que demonstrou estar totalmente convencido
de que as Escrituras eram a sua única autoridade reconhecida.
Quando perguntado se estava disposto a se retratar das afirmações
que fizera, negando autoridade a certas decisões de alguns concílios,
sua resposta foi: É impossível retratação,
a não ser que me provem que estou laborando em erro, pelo testemunho
das Escrituras ou por uma razão evidente; não posso confiar
nas decisões dos concílios e dos Papas, pois é
evidente que eles não somente têm errado, mas se têm
contradito uns aos outros. Minha consciência está alicerçada
na Palavra de Deus, e não é seguro nem honesto agir-se
contra a consciência de alguém. Assim Deus me ajude. Amém.
Tanto a autoridade única como também a suficiência
das Escrituras têm sido doutrinas preciosas para as igrejas reformadas.
Só a Escritura e toda a Escritura! Não precisamos de outra
fonte para saber o que devemos crer e como devemos agir. Hoje há
uma tendência para se colocar a experiência humana e supostas
revelações do Espírito no mesmo nível de
autoridade das Escrituras, por parte de alguns grupos evangélicos.
Na prática, às vezes essas experiências acabam se
tornando mais desejadas e tidas como mais valiosas do que o próprio
ensino das Escrituras. Tomam hoje o lugar que, no passado, tomava a
Tradição. É preciso que voltemos ao princípio
da Sola Scriptura, se queremos ser realmente reformados em nossas convicções
e práticas. A Escritura, e não a nossa experiência
subjetiva, deve ser o nosso critério de verdade. Nossa pregação
não deve visar o que agrada aos homens, mas o que agrada a Deus.
Já dizia Lutero que os tesouros das indulgências eram muito
mais populares dos que os tesouros do Evangelho (teses 63 e 64), e isso,
certamente, porque faziam as pessoas se sentirem bem, aliviadas do sentimento
de culpa, pela promessa, ainda que falsa, de perdão de pecados.
Só a pregação da Lei associada ao Evangelho pode
realmente trazer o homem ao arrependimento e ao perdão divino.
As Escrituras são a espada do Espírito. É por elas,
e não independente delas, que o Espírito age. Nossas experiências
espirituais só têm valor se forem produzidas pela persuasão
da Palavra.
2. Solus Christus - "Somente Cristo", ou a suficiência
e exclusividade de Cristo.
O Catolicismo Romano afastou-se do Evangelho e instituiu o culto a Maria,
já em 431, o culto às imagens, em 787, e a canonização
dos santos, em 933. Instituiu também a figura do sacerdote como
vigário de Cristo, a quem devem ser confessados os pecados e
a quem supostamente foi conferido poder para perdoá-los, mediante
a prescrição de penitências. Um dos pontos centrais
das teses de Lutero tinha a ver exatamente com o poder do Papa e dos
sacerdotes de perdoar pecados, que ele questionava, pelo menos no que
diz respeito aos mortos. Dizia ele: O Papa não tem o desejo nem
o poder de perdoar quaisquer penas, exceto aquelas que ele impôs
por sua própria vontade ou segundo a vontade dos cânones.
O Papa não tem o poder de perdoar a culpa a não ser declarando
ou confirmando que ela foi perdoada por Deus; ou, certamente, perdoando
os casos que lhe são reservados. Se ele deixasse de observar
essas limitações a culpa permaneceria. Os cânones
da penitência são impostos unicamente sobre os vivos e
nada deveria ser imposto aos mortos segundo eles (teses 5, 6 e 8). Mas
admitia o sacerdote como vigário de Deus, perante quem Deus podia
perdoar a culpa, mediante humilhação do penitente ( tese
7). Só mais tarde Lutero se libertou totalmente de alguns desses
ranços de sua formação católica. Nem poderia
ser diferente. Quando ele escreveu as teses, era ainda um monge católico
romano.
O que o catolicismo ensina a respeito de Cristo não é
diferente daquilo que professamos em nossos credos. A encarnação,
nascimento virginal, divindade, morte vicária e ressurreição
são cridos e ensinados. O problema é que a Igreja Romana
não crê na suficiência e exclusividade da obra de
Cristo para a salvação. Maria é erigida à
posição de intercessora e até co-redentora (não
oficialmente, ainda) e os santos entram também com os méritos
de sua intercessão para a obra salvífica. O autor católico,
acima citado, assim se refere a Maria: No seu livro "Maria em Sua
Vida Diária", o teólogo Bernardo Häring observa:
"O Concílio Vaticano II coroou a Constituição
Dogmática sobre a Igreja com um belo capítulo sobre Maria,
como protótipo e modelo da Igreja. A Igreja não pode chegar
a entender plenamente a união com Cristo e o serviço a
seu Evangelho, sem um amor e um conhecimento profundos de Maria, Mãe
de Nosso Senhor e nossa Mãe". Com uma visão penetrante
na natureza profundamente pessoal da salvação, o Vaticano
II abordou o influxo de Maria em nossas vidas.
Por ser mãe de Jesus, Maria é a Mãe de Deus. É
o que afirma o Vaticano II: "Na Anunciação do Anjo,
a Virgem Maria recebeu o Verbo de Deus no coração e no
corpo, e trouxe ao mundo a Vida. Por isso, é reconhecida e honrada
como verdadeira Mãe de Deus e do Redentor"(Lumen Gentium,
nº 53).
Como Mãe do Senhor, Maria é uma pessoa inteiramente singular.
Como seu Filho, ela foi concebida como ser humano (e viveu toda a sua
vida) isenta de qualquer vestígio do pecado original, isto se
chama sua Imaculada Conceição. Antes, durante e após
o nascimento de seu filho Jesus, Maria permaneceu fisicamente virgem.
No final da sua vida Maria foi assunta - isto é, elevada - ao
céu, de corpo e alma; a isso chamamos sua Assunção.
Na qualidade de Mãe de Cristo, cuja vida vivemos, Maria é
também a mãe de toda a Igreja. Ela é membro da
Igreja, mas um membro totalmente singular. O Vaticano II exprime sua
relação conosco como a de um membro supereminente e de
todo singular da Igreja, como seu modelo... na fé e na caridade.
"E a Igreja católica, instruída pelo Espírito
Santo, honra-a com afeto de piedade filial como mãe amantíssima"(Lumen
Gentium, nº 53).
Como uma mãe que aguarda a volta dos seus filhos adultos para
casa, Maria nunca cessa de influenciar o curso de nossas vidas. Diz
o Vaticano II: "Ela concebeu, gerou, nutriu a Cristo, apresentou-o
ao Pai no templo, compadeceu com seu Filho que morria na cruz... Por
tal motivo ela se tornou para nós Mãe, na ordem da graça"(Lumen
Gentium, nº 61). "por sua maternal caridade cuida dos irmãos
de seu Filho, que ainda peregrinam na terra rodeados de perigos e dificuldades,
até que sejam conduzidos à feliz pátria"(Lumen
Gentium, nº 62).
Essa Mãe, que viu seu próprio Filho feito homem morrer
pelo resto de seus filhos, está esperando e preparando seu lugar
para você. Ela é, nas palavras do Vaticano II, seu "sinal
da esperança segura e do conforto" (Lumen Gentium, nº
68) (Ibidem)
Com relação aos santos, diz esse autor: A igreja venera
também os outros santos que já estão com o Senhor
no céu. São pessoas que serviram a Deus e ao próximo
dum modo tão notável, que foram canonizados, isto é,
a Igreja declarou oficialmente heróicos, e nos exorta a rezarmos
a eles, pedindo sua intercessão por todos nós junto a
Deus. E ainda, A Comunhão dos santos é uma rua de mão
dupla:.. o Vaticano II afirma que, assim como você na terra pode
ajudar aqueles que sofrem o purgatório, assim os que estão
no céu podem ajudá-lo na sua peregrinação,
intercedendo por você junto de Deus (Ibidem).
Embora a Igreja Católica não tenha ainda proclamado oficialmente
o dogma de Maria como co-redentora, o que vem sendo buscado por muitos
de seus cultuadores (até agosto de 1997 o atual papa já
havia recebido 4.340.429 assinaturas de 157 países solicitando
que ele exercesse o poder da sua infalibilidade para proclamar o dogma
de que "a Virgem Maria é co-redentora, mediadora de todas
as graças e advogada do povo de Deus", cf. http://www.msantunes.com.br/juizo/odesvirt.htm),
na prática ela é assim considerada e com o apoio e ensino
explícito do clero. No boletim diocesano da cidade de Itabuna
(BA), assim se expressa Dom Ceslau Stanula, bispo da diocese: "Maria
Co-Redentora - Mês de maio, um dos mais lindos do ano, a humanidade
dedicou a Nossa Senhora. Quase em todas as igrejas e capelas diariamente
neste mês, o povo se reúne para cantar ladainhas e louvores
a nossa Senhora. Nossa Senhora é invocada, venerada e cultuada
pelas razões muito profundas e bíblicas. Maria é
a Mãe de Jesus que é Deus, Filho de Deus nosso Salvador,
e portanto ela é a Co-Redentora da humanidade". E para consusbstanciar
sua declaração cita documento do Concílio Vaticano
II que diz: "Assim de modo inteiramente singular, pela obediência,
fé, esperança e caridade, ela cooperou na obra do Salvador
para a restauração da vida sobrenatural das almas. Por
tal motivo ela se tornou para nós mãe na ordem da graça".
(LG 61) (http://www.snow.icestorm.net/siteverde/boletim1.htm)
Certamente este não é o ensino da Bíblia. Ela nos
diz que "há um só Deus e um só Mediador entre
Deus e os homens, Cristo Jesus, homem" (1Tm 2:5), que, "por
isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam
a Deus, vivendo sempre para interceder por eles" (Hb 7:25) e que
"não há salvação em nenhum outro; porque
abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre
os homens, pelo qual importa que sejamos salvos" (At 4:12). Não
precisamos de intercessão de Maria ou dos santos, nem têm
eles qualquer poder para tal. Quem disse "na casa de meu Pai há
muitas moradas... vou preparar-vos lugar", foi Jesus e não
Maria (Jo 14:2). A obra de Cristo é suficiente para a nossa salvação.
Maria e todos os demais crentes só puderam ser salvos pela graça
e mediação eficaz de Cristo. Assim cantou ela: "A
minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou
em Deus, meu Salvador, porque contemplou na humildade da sua serva.
Pois, desde agora, todas as gerações me considerarão
bem-aventurada, porque o Poderoso me fez grandes coisas. Santo é
o seu nome" (Lc 1:46-49). Quando o povo de Listra quis adorar a
Paulo e Barnabé, sua resposta foi a seguinte: Senhores, por que
fazeis isto? Nós também somos homens como vós,
sujeitos aos mesmos sentimentos, e vos anunciamos o evangelho para que
destas coisas vãs vos convertais ao Deus vivo, que fez o céu,
a terra, o mar e tudo o que há neles (At 14:15). Os verdadeiros
santos nunca reivindicaram qualquer poder, glória ou honra para
si mesmos. Certamente é falsa esta aspiração atribuída
a Maria: "Até que eu seja reconhecida no lugar em que a
Santíssima Trindade desejou que eu estivesse, eu não poderei
exercer meu poder totalmente, no trabalho materno de co-redenção
e de mediação universal das graças... (Nossa Senhora
a Padre Gobbi, 14/06/80)"
(http://www.geocities.com/Athens/Delphi/3665/milesp2.html)
Uma outra conseqüência do princípio do Solus Christus
foi a doutrina que ficou conhecida como a do "Sacerdócio
Universal dos Crentes". Não necessitamos de outro sacerdote
ou mediador entre nós e Deus que não seja o Senhor Jesus
Cristo. Cada um pode chegar-se a Ele diretamente, sem intermediários
humanos. Como diz o autor aos Hebreus: "Tendo, pois, a Jesus, o
Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus,
conservemos firmes a nossa confissão. Porque não temos
sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas;
antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança,
mas sem pecado. Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono
da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos
graça para socorro em ocasião oportuna" (Hb 4:14-16).
A Reforma trouxe à Igreja o Evangelho simples dos apóstolos,
centrado na suficiência e exclusividade da obra de Cristo para
a salvação. A velha confissão de Paulo foi de novo
a confissão dos reformadores: "Porque decidi nada saber
entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado"
(1Co 2:2)
3. Sola Gratia - "Somente a Graça", ou a
única causa eficiente da salvação
Intimamente ligado ao princípio do Solus Christus está
o da Sola Gratia. A Bíblia ensina que o homem é totalmente
incapaz de fazer qualquer coisa para a sua salvação. Está
espiritualmente morto em delitos e pecados. Um morto nada pode fazer
sem que antes seja vivificado. Paulo ensina como se operou a nossa salvação:
"Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos
e pecados ... e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu
vida juntamente com Cristo, - pela graça sois salvos" (Ef
2:1,5). Foi "pela graça", diz Paulo, que fomos vivificados,
estando nós mortos. A doutrina da inabilidade total do homem
para salvar-se foi um dos marcos da Reforma. No seu livro De Servo Arbitrio
("A Escravidão da Vontade"), Lutero nega que o homem
tenha livre arbítrio, ou seja, a capacidade de escolher entre
o bem e o mal, depois da queda. Vendido ao pecado, o homem não
tem mais a habilidade para escolher o bem, pois sua vontade está
presa ou escravizada pelo pecado. Só pode e só quer escolher
o pecado. A salvação é, portanto, exclusivamente
ato da livre e soberana graça de Deus. Não só Calvino,
como geralmente se pensa, mas também Lutero e os demais reformadores
deram grande ênfase na necessidade da graça soberana de
Deus para a salvação do homem. É por isso que a
eleição divina é incondicional.
Todavia, não era isso que a Igreja ensinava nos dias da Reforma.
O catolicismo, seguindo o pensamento de Pelágio e, principalmente,
de Tomás de Aquino, acreditava e ainda acredita que o homem não
está totalmente corrompido em sua vontade e natureza. Ele precisa
da graça de Deus, mas não no sentido regenerador, como
cremos. Segundo a teologia romana o homem pode conhecer a Deus através
de sua razão, conhecimento que é chamado de Teologia Natural.
O documento 1806 (Denzinger) do Concílio Vaticano I (1869-1870)
diz: "(Contra os que negam a teologia natural) - Qualquer que disser
que o Deus verdadeiro, nosso Criador e nosso Senhor, não pode
ser conhecido com verdadeira exatidão pelas coisas que foram
feitas, pela luz natural da razão humana, seja anátema
(cf. 1785) (Cf. Denzinger 1810, 1812, 1816) (cf F.H. Klooster, Introduction
to Systematic Theology (Grand Rapids: Calvin Theological Seminary, 1985,
pp. 182-183).
No artigo católico que temos citado, encontramos como eles entendem
o pecado original: Com exceção de Jesus Cristo e de sua
Mãe Maria, todo ser humano nascido neste mundo está contaminado
pelo pecado original. Como São Paulo declara em Rom, 5, 12: "Por
meio de um só homem o pecado entrou no mundo e pelo pecado a
morte, e assim a morte passou a todos os homens porque todos pecaram".
Embora continue a mostrar que há o mal neste mundo, a Igreja
não está sugerindo que a natureza humana esteja corrompida.
Ao contrário, a humanidade é capaz de fazer muito bem.
Não obstante sintamos uma "tendência para baixo",
ainda mantemos o controle essencial sobre nossas decisões. Permanece
a vontade livre. E - o que é mais importante - Cristo, nosso
Redentor, venceu o pecado e a morte pela sua morte e Ressurreição.
Essa vitória cancelou não apenas nossos pecados pessoais,
mas também o pecado original e seus propalados efeitos. A doutrina
do pecado original, portanto, entende-se melhor como um escuro pano
de fundo contra o qual pode ser aplicada, fazendo contraste, a brilhante
redenção adquirida para nós por Cristo, nosso Senhor.
(http://www.geocities.com/Augusta/3540/doutrina.htm).
Assim, o catolicismo estabeleceu os sacramentos da Igreja (que para
eles são sete e não dois) como meios pelos quais o problema
do pecado pode ser tratado e a graça recebida. A Igreja torna-se
medianeira ou mediadora da graça de Deus. Daí o ensino
de que "fora da Igreja não pode haver salvação",
entendida "Igreja" aqui não como o número total
dos eleitos (sentido espiritual) mas como a organização
(visível) que, supostamente, detém o poder de distribuir
e administrar a graça de Deus. No século XVI o cardeal
Roberto Belarmino assim descreveu a Igreja Romana: "A única
e verdadeira Igreja é a comunidade de homens reunidos pela profissão
da mesma fé cristã e pela comunhão dos mesmos sacramentos,
sob o governo dos legítimos pastores e especialmente do vigário
de Cristo na terra, o Romano Pontífice" (Ibidem). Mas vem
de longa data esse ensino. Assim se expressaram alguns dos papas do
passado: Papa São Gregório I (590-604): "Agora a
Santa Igreja Universal proclama que apenas dentro dela Deus pode ser
realmente adorado, e que fora dela ninguém pode ser salvo."
Papa Inocêncio III (1198-1216): "Realmente, existe apenas
uma Igreja Universal dos fiéis, fora da qual ninguém é
salvo. (...) Cremos com nossos corações e confessamos
com nossos lábios que existe apenas uma Igreja, não a
dos hereges, mas a Santa Igreja Católica e Apostólica
Romana, fora da qual acreditamos que ninguém pode ser salvo."
Papa Bonifácio VIII (1294-1303): "Nós declaramos,
dizemos, definimos e proclamamos que é absolutamente necessário
para a salvação de toda a criatura humana estar sujeita
ao Pontífice Romano." Papa Eugênio IV (1431-1439):
"A Santa Igreja Romana acredita, professa e prega que todo aquele
que permanece fora da Igreja Católica, não apenas os pagãos,
mas também judeus, heréticos e cismáticos, não
tomarão parte da vida eterna, mas irão para o fogo perpétuo,
que foi preparado para o diabo e seus anjos, a não ser que antes
da morte eles se unam à Igreja. É de tal modo importante
a união com o corpo da Igreja, que seus sacramentos são
úteis para a salvação apenas para aqueles que permanecem
dentro dela, e jejuns, esmolas e outros trabalhos piedosos, assim como
a prática da guerra cristã, só proporcionarão
recompensas eternas a eles tão-somente." Papa Leão
X (1512-1517): "Onde a necessidade de salvação se
referir a todos os fiéis de Cristo, deverá estar sujeita
ao Pontífice Romano, como nos foi ensinado pelas Sagradas Escrituras,
pelo testemunho dos santos padres e pela constituição
do nosso predecessor de feliz memória, Bonifácio VIII."
http://www.msantunes.com.br/juizo/odesvirt.htm.
E não pensemos que a Igreja Romana mudou. Recentemente o cardeal
Joseph Ratzinger, da Congregação para a Doutrina da Fé,
o novo nome da velha "Congregatio Propaganda Fide", mais conhecida
como Inquisição, "causou escândalo" por
afirmar na declaração Dominus Iesus, aprovada pelo papa,
que "a Igreja Católica é o verdadeiro caminho para
a salvação" (Folha de S. Paulo, de 27/09/2000, p.
E8). Os mais ingênuos, que acreditam na sinceridade do diálogo
do Vaticano com as outras religiões (ecumenismo), consideraram
isso um retrocesso. Nada mais óbvio para a Igreja Católica,
que jamais abdicará desta posição, sob pena de
admitir seus erros e reconhecer-se falível.
É por essa razão que a Igreja se julgava no direito de
distribuir o perdão de pecados através da venda das indulgências,
pela prescrição de penitências e outros atos de
contrição. Foi a Reforma que trouxe à luz a verdade
da Sola Gratia, ensinada nas Escrituras. Onde a total inabilidade do
homem for negada e os pretensos méritos humanos forem cridos,
não haverá verdade bíblica. O homem nem mesmo pode
cooperar com a graça regeneradora do Espírito. A salvação
não é, em nenhum sentido, obra humana. Não são
os métodos ou técnicas humanas que operam a salvação,
mas tão somente a graça regeneradora do Espírito.
A fé não pode ser produzida por uma natureza decaída
e morta. "Pois nós também, outrora, éramos
néscios, desobedientes, desgarrados, escravos de toda sorte de
paixões e prazeres, vivendo em malícia e inveja, odiosos
e odiando-nos uns aos outros. Quando, porém, se manifestou a
benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com todos, não
por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua
misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador
do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente,
por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador" (Tt 3:3-5)
4. Sola Fide - "Somente a Fé", ou a exclusividade
da Fé como meio de Justificação.
Falando da eleição, Paulo argumenta: E, se é pela
graça, já não é pelas obras; do contrário,
a graça já não é graça (Rm 11:6).
A graça exclui totalmente as obras. O homem nada pode e nada
tem para oferecer a Deus por sua salvação. A única
coisa que lhe cabe fazer é aceitar o dom da salvação,
pela fé, quando esta lhe é concedida. Fé na obra
suficiente de Cristo, que lhe é imputada (creditada em sua conta)
gratuitamente. Essa obra consiste na sua vida de perfeita obediência
à lei de Deus, em lugar do homem, obediência que nem Adão
nem qualquer de sua descendência pôde prestar, dada a sua
condição de morte espiritual. Por isso Cristo é
chamado de o segundo ou o último Adão (1Co 15:45). Ela
consiste também, e principalmente, de sua morte sacrificial em
lugar do pecador eleito, através da qual é pago o preço
exigido pela justiça de Deus para a justificação.
A justiça de Deus exige punição do pecado. Ele
é aquele que "não inocenta o culpado" (Ex 34:7).
Exige justiça perfeita. Para que Deus pudesse punir o pecador,
mas ao mesmo tempo declará-lo justo (que é o significado
bíblico de justificar), foi preciso que alguém, sem culpa
e com méritos divinos, assumisse o seu lugar. Foi o que o próprio
Deus fez através de Cristo. Assumiu a culpa do pecador eleito
e morreu em seu lugar, satisfazendo assim a justiça de Deus,
ofendida pela pecado. Nada menos do que isso foi suficiente para justificar
o pecador. É o que se chama na teologia de "expiação".
Desta forma, Paulo pôde falar em Deus como "aquele que justifica
o ímpio" (Rm 4:5) e da morte de Cristo como a manifestação
da sua justiça, para que ele pudesse ser justo e o justificador
daquele que tem fé em Jesus. Diz ele: "sendo justificados
gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção
que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue,
como propiciação, mediante a fé, para manifestar
a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado
impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação
da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e
o justificador daquele que tem fé em Jesus" (Rm 3: 24-26).
É por isso também que os reformadores chamavam o crente
de simul justus et peccator - ao mesmo tempo justo e pecador.
Esta foi a doutrina central da Reforma. Lutero, de início, não
podia compreender como a "justiça de Deus se revela no evangelho"
("visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de
fé em fé, como está escrito: O justo viverá
por fé". Rm 1:17). Para ele, a justiça de Deus só
poderia condenar o homem, não salvá-lo. Tal justiça
não seria "boas novas" (evangelho). Só quando
compreendeu que a justiça de que Paulo fala nesse texto não
é o atributo pelo qual Deus retribui a cada um conforme os seus
méritos (o que implicaria em condenação para o
homem), mas o modo como Ele justifica o homem em Cristo, é que
a luz raiou em seu coração e a verdade aflorou em sua
mente. Tornou-se, então, um homem livre, confiante e certo do
perdão dos seus pecados. Compreendeu o evangelho! O Evangelho
é a manifestação dessa justiça de Deus,
que é recebida somente pela fé. Não é produzida
pelas obras, pois o homem não as tem. ("Visto que ninguém
será justificado diante dele por obras da lei, em razão
de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado"... "concluímos,
pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente
das obras da lei" Rm 3:20,28).
É pela fé que o justo viverá. Quando Paulo cita
esta passagem de Habacuque, ele a usa para ensinar que é através
da fé, e não das obras, que alguém é declarado
justo em Cristo. Isto está mais claro na outra citação
em Gl 3:11, quando ele diz: "E é evidente que, pela lei,
ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá
pela fé". Cristo é a justiça de Deus ("mas
vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte
de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação,
e redenção" - 1Co 1:30) e pela fé nele nós
também somos feitos "justiça de Deus" ("Aquele
que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para
que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus" (2Co 5:21).
A fé, todavia, é apenas o meio, dado pelo próprio
Deus, pelo qual essa justiça é imputada ao pecador, não
a sua causa ou motivo. Do contrário, a própria fé
seria "obra humana". Per fidem propter Christum - "pela
fé, por causa de Cristo", como deixou claro a Reforma. A
fé não é a base nem a causa meritória da
justificação, mas o meio pelo qual ela é comunicada.
Quão longe estava a Igreja dessa verdade simples do Evangelho
quando ensinava que o perdão podia ser comprado com dinheiro
e a salvação adquirida com o mérito dos santos.
Tetzel, o vendedor das indulgências do Papa Leão X na Alemanha,
dizia que "ao som de cada moeda que cai neste cofre, uma alma se
desprende do purgatório e voa até o paraíso",
refrão que seus ridicularizadores rimaram no que em português
equivaleria a "no que a moeda na caixa cai, uma alma do purgatório
sai"("sobald das Geld im Kasten Klingt, di Seele aus dem fegfeuer
springt")
(http://www.infohouse.com.br/usuarios/zhilton/Luteranismo.html).
Mas não pensemos que a Igreja Católica mudou. Ainda agora,
neste ano considerado o do Jubileu 2000, o Vaticano criou novas indulgências
para reduzir ou anular as penas dos pecados. Um "Manual de Indulgência",
de 115 páginas, apresenta algumas das obras que podem aliviar
a punição dos pecadores no purgatório, dentre as
quais estão um dia sem fumar, rezar com o Papa em frente à
televisão, ajudar refugiados, orar mentalmente com surdos-mudos,
não comer carne, etc, (cf. artigo "Igreja Católica
cria novas indulgências", Folha de S. Paulo de 19/09/2000),
além das que são permanentemente concedidas como visitar
o Vaticano e peregrinar por lugares sagrados. Isto na mesma época
em que a Igreja assinou, juntamente com luteranos da Federação
Luterana Mundial, um acordo em que os dois grupos professam que : "
a salvação decorre da graça de Deus e não
das boas obras; só se chega à salvação pela
fé; e, embora não levem à salvação,
as boas obras são conseqüência natural da fé"
(cf. artigo "Católicos e luteranos se reconciliam",
da mesma edição da Folha de S. Paulo, já citada).
O acordo não é levado a sério pelos que conhecem
o catolicismo e o modo como age, e recebeu críticas inclusive
da parte de igrejas luteranas fiéis à sua origem. É
visto apenas como uma manobra para promover o ecumenismo e, principalmente,
para combater o mercantilismo das igrejas neo-pentecostais, que vêm
tirando adeptos das igrejas tradicionais, principalmente do catolicismo,
com sua pregação da "teologia da prosperidade"
(cf. artigo "Acordo visa combater 'mercantilismo'", da referida
edição da Folha).
A ênfase na doutrina da justificação somente pela
fé é tão oportuna e necessária agora quanto
nos dias de Lutero, e não só porque o catolicismo não
mudou, mas porque o protestantismo mudou. São poucos os evangélicos
hoje que ainda dão ênfase ao aspecto objetivo da justificação
unicamente pela fé. Experiências subjetivas, avivamentos
emocionais, respostas a apelos e outras práticas estão
tomando o lugar da pregação dos temas chaves da Reforma.
As doutrinas do pecado original, da expiação vicária,
da eleição incondicional e da justificação
somente pela fé estão sendo negadas hoje por muitos evangélicos
que buscam uma acomodação à cultura da modernidade.
5. Soli Deo Gloria - "A Deus somente, a glória",
ou a exclusividade do serviço e da adoração a Deus.
Coroando estes temas que a Reforma nos legou está o da "glória
somente a Deus". Dar glória somente a Deus significa que
ninguém, nem homens nem anjos, deve ocupar o lugar que pertence
a Ele, no mundo e em nossa vida, porque somente Ele é o Senhor.
É o que exige o 1º mandamento: "Eu sou o SENHOR, teu
Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não
terás outros deuses diante de mim" (Ex 20:1-2). A história
do homem é uma história de quebra desse mandamento. Depois
do pecado, o homem tem constituído deuses para si em lugar do
Deus verdadeiro. Geralmente, esse deus é ele próprio.
Quando decide o que deve ou não crer, o que pode ou não
ser verdadeiro, está dizendo que ele é o seu próprio
deus. Sua razão (distorcida pelo pecado) é o seu critério
de verdade. Quando a Igreja se coloca na posição de julgar
o que deve ou não aceitar da Bíblia, e se arvora em sua
intérprete infalível, está assumindo para si o
lugar de Deus. Quando ela prega a devoção a Maria e aos
santos (ainda que diga que venera mas não adora), está
usurpando a Deus da prerrogativa de sua glória exclusiva ("Eu
sou o SENHOR, este é o meu nome; a minha glória, pois,
não a darei a outrem, nem a minha honra, às imagens de
escultura"; Isa 42:8). A doutrina católica, com sua ênfase
nos méritos e obras humanos, rouba a Deus de sua glória
exclusiva.
A glória de Deus é o fim para o qual Ele criou todas as
coisas. Não é só o fim principal do homem (conforme
o nosso Breve Catecismo), mas o fim de todas as coisas. É o fim
do próprio Deus, como crê John Piper, porque Ele é
o bem supremo (cf. Desiring God, Leicester: Inter-varsity Press, 1990,
p. 13). Todas as coisas, e isso inclui a salvação, visam
a glória de Deus, não o bem estar dos homens (Ef 1:6,12,14).
Por isso Deus é glorificado também nos que se perdem.
É o que chamamos de "teocentrismo".
Michael Horton afirma que Lutero lutou para distinguir sua obra de 'reformas'
anteriores. Semelhantes a muitos dos movimentos frenéticos de
reforma, renovação e avivamento dos nossos dias, as outras
reformas se preocupavam com moralidade, vida da igreja e mudanças
estruturais, mas Lutero disse: 'Nós visamos a doutrina'. Não
que fossem sem importância essas outras áreas, mas seriam
secundárias. Contudo, com sua 'Revolução Copernicana',
nasceu um movimento teocêntrico que teve enormes efeitos sobre
a cultura mais ampla. A orientação da vida e do pensamento
centrados em Deus começou no culto, em que o enfoque era na ação
de Deus em sua Palavra e sacramento, em vez de estar em deslumbrar e
entreter as pessoas com pompa e aparato. Quando os crentes estavam centrados
em volta de Deus e sua obra salvífica em Cristo, seus cultos
ajustavam sua visão a outro grau: deixavam de servir como pessoas
mundanas para verem-se como pecadores redimidos, cuja vida só
poderia ter um propósito: glorificar a Deus e gozá-lo
para sempre" (Reforma Hoje, São Paulo: Editora Cultura Cristã,
1999, p.124).
E foi devido a esse conceito de que vivemos para Deus e de que para
ele devemos fazer o melhor que a Reforma contribuiu para uma grande
revolução não só no campo religioso, mas
no mundo das artes, da ciência e da cultura em geral. Soli Deo
Gloria passou a ser o lema não só de reformadores, mas
de músicos (como Bach), pintores (como Rembrandt) e escritores
(como Milton), que apunham às suas obras esta expressiva dedicatória
( Ibidem)
Esta visão teocêntrica a Reforma encontrou na Bíblia.
Depois de tratar das doutrinas da salvação, Paulo declara:
"Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas.
A ele, pois, a glória eternamente. Amém!" (Rm 11:36)
e, ao concluir sua epístola aos Romanos, louva ao Senhor com
estas palavras: "ao Deus único e sábio seja dada
glória, por meio de Jesus Cristo, pelos séculos dos séculos.
Amém! (16:27). A glória de Deus também foi o tema
do cântico dos anjos ao redor do trono, dos seres viventes e dos
anciãos, e de todas as criaturas que João ouviu em suas
visões, os quais diziam: "Digno é o Cordeiro que
foi morto de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força,
e honra, e glória, e louvor" (Ap 5:12) e '"Àquele
que está sentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra,
e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos"
(Ap 5:13) e ainda "Ao nosso Deus, que se assenta no trono, e ao
Cordeiro, pertence a salvação...O louvor, e a glória,
e a sabedoria, e as ações de graças, e a honra,
e o poder, e a força sejam ao nosso Deus, pelos séculos
dos séculos. Amém!" Ap 7:10-12.
Quero concluir citando a esse respeito as palavras de James M. Boice,
ex-pastor da 10ª Igreja Presbiteriana da Filadélfia, recentemente
falecido. Ele diz: Meu argumento é que o motivo pelo qual a igreja
evangélica atual está tão fraca e o porquê
de não experimentarmos renovação, embora falemos
sobre nossa necessidade de renovação, é que a glória
de Deus foi, em grande, parte esquecida pela igreja. Não é
muito provável vermos avivamento de novo enquanto não
recuperarmos as verdades que exaltam e glorificam a Deus na salvação.
Como podemos esperar que Deus se mova entre nós, enquanto não
pudermos dizer de novo, com verdade: "Só a Deus seja a glória"?
O mundo não pode dizer isso. Ao contrário, está
preocupado com sua própria glória. Como Nabucodonozor,
ele diz: Veja essa grande Babilônia que construí pelo meu
poder e para minha glória" . Os arminianos não podem
dizê-lo. Podem dizer "a Deus seja a glória",
mas não podem dizer "só a Deus seja a glória",
porque a teologia arminiana tira um pouco da glória de Deus na
salvação e a dá para o indivíduo, que tem
a palavra final em dizer se vai ou não ser salvo. Mesmo aquelas
pessoas do campo reformado não podem dizê-lo, se o principal
que estão tentando fazer nos seus ministérios é
edificar seus próprios reinos e tornar-se importantes no cenário
religioso. Nunca vamos experimentar a renovação na doutrina,
no culto e na vida enquanto não pudermos dizer honestamente:
"só a Deus seja a glória" (Reforma Hoje, pp.
192-193).
A Reforma nos legou esses grandes temas, que são doutrinas preciosas
da Bíblia. Cabe a nós hoje, seus legatários, dizer
se somos ou não dignos herdeiros dessa herança e continuadores
dessa obra. O que cremos e o que pregamos representa nossa resposta.
Fonte: site 'Fé Reformada' (Biblioteca Reformada)
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