Centro Apologético Cristão de Pesquisas - CACP
BENTO XVI, O NOVO PAPA
Ratzinger um inquisidor na cadeira pontifícia
Por João Flávio Martinez
Habemus
Papa
Joseph Ratzinger, 78 anos, é o novo Papa da Igreja Católica
Apostólica Romana, denominado doravante de Bento XVI, título
escolhido por ele mesmo para homenagear seus antecessores. É
o tipo "linha dura" da Igreja, ultraconservador da direita
dogmática, foi considerado o mentor intelectual de João
Paulo II, na verdade foram "colegas intelectuais", por isso
pôde se transformar na mente doutrinária por trás
de seu antecessor polonês. Espera-se que ele dê continuidade
ao conservadorismo de João Paulo II em matérias de moral
e doutrina, mas com uma rigidez muito maior. Daremos aqui um resumo
da vida e do novo pontificado de Bento XVI.
A escolha do nome
Parece que a escolha do nome foi devido ao fato de Ratzinger
ter nascido no dia 16 de Abril de 1927 - dia de S. Bento. Com certeza,
a partir deste acontecido, a região da Baviera na Alemanha não
será mais a mesma, sua comunidade agora será marcada pela
gestação de um Papa depois de mil anos de espera! Também
foi relevante a figura e vida do italiano Giacomo della Chiesa, o último
papa a adotar o nome Bento. Entre 1914 e 1922, ele foi Bento XV, que
em seu pontificado se dedicou sobretudo a negociar a paz na Primeira
Guerra Mundial (empenho que lhe valeu o título de "papa
da paz"), reorganizar a administração da Igreja Romana
e estimular as missões. O lábaro do novo Papa deve ter
o mesmo teor missionário de seu antecessor, onde reconquistar
terreno será uma das suas marcas, principalmente no Brasil, onde
os protestantes minam a cada dia o poder do catolicismo.
*O primeiro papa a escolher o nome Bento era romano e foi eleito sumo
pontífice em 574. Bento 1º virou santo e seu dia é
comemorado em 7 de julho.
O papa Bento 14, por sua vez, foi Prospero Lambertini, eleito em 1740.
O envolvimento com o nazismo
Qual foi o abarcamento desse novo Papa com Hitler, será intricado
dizer, mas gostando ou não, é fato que Ratzinger lutou
pelo regime nazista e em prol do 3º reich.
Apesar de afirmar não ter sido simpatizante do nazismo em sua
autobiografia "Marco: Memórias: 1927-1977", Ratzinger
conta que ele e seu irmão Georg foram alistados pela Juventude
Hitlerista.
Fundada em 1922 e com sede na Baviera, Estado natal de Ratzinger, a
Juventude Hitlerista foi uma organização paramilitar do
partido nazista. Ela foi proscrita em 1923, mas recriada em 1926, um
ano depois do reconhecimento do Partido Nacional-Socialista.
Membros da Juventude Hitlerista usavam uniformes semelhantes aos do
partido nazista. Isso causou polêmica em alguns jornais (principalmente
israelense) que investigaram o passado do cardeal.
De liberal a conservador
Ratzinger inicialmente chamou a atenção como um teólogo
liberal, durante sua participação no Concílio Vaticano
Segundo (1962-65) do qual participou como um dos peritos. "Ele
participou de todo o debate responsável pela modernização
da Igreja Católica". Afirmou dom João Evangelista
Kovas, monge do Mosteiro de São Bento.
O Concílio Vaticano 2º é tido como
um divisor de águas do catolicismo na sua história recente.
Iniciado em 1962 pelo papa João 23, o encontro definiu mudanças
visando trazer a igreja para o mundo moderno. Com efeito, a liturgia
deixou de ser obrigatoriamente em latim e passou para as línguas
nacionais, foi "elevado" o conceito da mulher dentro do casamento
e na igreja e os leigos passaram a ter mais participação.
Mas o marxismo e o ateísmo dos protestos estudantis de 1968 na
Europa o levaram a adotar posturas mais conservadoras para defender
a fé contra um crescente secularismo.
Após períodos como professor de teologia e depois como
arcebispo de Munique, Ratzinger foi nomeado para chefiar a Congregação
para a Doutrina da Fé (onde exerceu o cargo durante 23 anos,
até a morte de João Paulo II), que tomou o lugar da Inquisição,
em 1981.
Ele e o papa João Paulo 2o. concordavam que, após um período
de experimentações, era importante resgatar a doutrina
e a teologia tradicionais.
Como chefe da Congregação, Ratzinger começou voltando
suas baterias contra a Teologia da Libertação, muito popular
na América Latina. Foi especialmente criticado em 1985 por condenar
seu ex-aluno brasileiro Leonardo Boff a um ano de silêncio, devido
a escritos tidos como marxistas.
O conservadorismo aplicado
Sob os modos cordatos deste alemão de 78 anos se
esconde um intelecto férreo, sempre pronto a dissecar trabalhos
teológicos em busca de sua pureza dogmática e a debater
acirradamente com dissidentes.
Suas opiniões tradicionalistas encantam outros conservadores,
mas horrorizam alguns católicos liberais e membros de outras
religiões.
Seu lado combativo ficou claro em 2000, numa polêmica em torno
de um documento da Congregação da Doutrina da Fé
intitulado Dominus Iesus, que acusava outras religiões
cristãs de serem deficientes ou de simplesmente não serem
igrejas de verdade.
Líderes anglicanos, luteranos e de outras denominações
protestantes, que durante anos mantiveram um diálogo ecumênico
com o Vaticano, ficaram chocados. Sua irritação aumentou
ainda mais quando Ratzinger qualificou de "absurdos" os protestos
dos luteranos.
Ratzinger, tido por seus auxiliares como alguém supremamente
autoconfiante, emitiu uma dura crítica do Vaticano à homossexualidade
e ao casamento gay em 1986. Na década de 1990, ele exerceu pressão
sobre teólogos, especialmente asiáticos, que viam as religiões
não-cristãs como parte dos planos de Deus para a humanidade.
Em um documento de 2004, atacou rispidamente o "feminismo radical",
por ser uma ideologia que, segundo ele, prejudica a família e
ignora as diferenças naturais entre homens e mulheres.
Por isso críticos do ex-cardeal o acusam de ter impedido discussões
internas em questões como celibato clerical, controle da natalidade,
sexualidade e papel das mulheres na Igreja.
O centro da polêmica
Com esta postura rígida era de se esperar uma reação
nada amistosa da ala liberal da Igreja. Mal começou seu pontificado
o novo papa já desperta polêmica por seu perfil conservador.
Pesquisa feita por uma emissora de TV brasileira apontou que 70% dos
entrevistados (católicos) não estavam satisfeitos com
a eleição de Ratzinger. Teólogos do mundo inteiro
expressaram sua decepção, pois esperavam um papa mais
liberal e flexível nas questões dogmáticas e de
moral e costumes. "Em parte estou decepcionado, deveria ter sido
de um país católico da América Latina, eu pensava
que do México ou da Argentina", disse Juan Méndez,
90. "eu preferia um papa latino, porque na Alemanha há muito
racismo", disse Filomena Gonzalez, 34
Na Argentina, Ruben Dri, filósofo, teólogo
e professor da Universidade de Buenos Aires, considerou que a eleição
de Ratzinger vai provocar uma crise na América Latina.
"Amplos setores da Igreja, em nível dos sacerdotes, estavam
esperando outra coisa, pelo menos um determinado espaço de abertura",
disse ele à Reuters.
Dri acrescentou que os fiéis continuarão abandonando a
Igreja Católica na América Latina por sua falta de abertura,
como ocorreu nas últimas décadas com o crescimento das
igrejas evangélicas e suas seitas.
"É evidente que (a eleição) é o trunfo
de uma direita completamente dogmática, capitalista. Ratzinger
expressa diretamente a inquisição, a censura."
Aqui no Brasil recebeu críticas do frei Leonardo Boff e até
do carismático "Padre Zezinho" por algumas declarações
feitas sobre a música Rock, "Nas mais diversas igrejas onde
é permitido, tem aparecido artistas jovens dizendo de maneira
jovem, para jovens que gostam dessa cultura, coisas muito profundas.
Merecem nosso respeito. Se você não ouviu, não julge.",
alfinetou Zezinho.
A fama
O alemão se comunica em dez idiomas [mas fala fluentemente alemão,
inglês e italiano] e recebeu sete doutorados honorários.
É considerado um excelente teólogo além de pianista,
e tem preferência por obras de Beethoven.
Mas o cardeal alemão começou a ganhar atenção
mesmo ao chegar a Roma, em 1962, como teólogo conselheiro do
cardeal Joseph Frings [de Colônia, Alemanha] no Segundo Concílio
do Vaticano.
Aos 35 anos se converte em uma espécie de "estrela"
da teologia. Mas foi em 1968 que Ratzinger ganhou destaque, quando travou
uma luta ferrenha contra o marxismo e o ateísmo, que cresciam
entre os jovens.
Pouco antes, em 1966, conseguiu uma cadeira em teologia
dogmática na universidade de Tübingen, onde sua indicação
foi fortemente apoiada e defendida pelo teólogo suíço
Hans Küng [que questiona a autoridade papal]. Ratzinger continuava
convicto sobre sua visão tradicionalista apesar da atmosfera
liberal de Tübingen, no Estado de Baden-Württemberg, e da
tendência marxista do movimento estudantil nos anos 60.
Três anos mais tarde, ele retornou para a Baviera
e foi para a Universidade de Regensburg, onde foi professor de teologia
dogmática e de história do dogma, além de vice-presidente
e reitor da universidade. Posteriormente transformou-se em conselheiro
teológico dos bispos alemães.
Cinco anos depois, em março de 1977, Paulo 6º
elegeu Ratzinger arcebispo de Munique e Freising e, em maio, foi consagrado
o primeiro padre diocesano a conquistar o Ministério Pastoral
da Grande Diocese da Baviera.
O papa Paulo 6º também nomeou Ratzinger cardeal
no consistório [assembléia de cardeais presidida pelo
sumo pontífice], em 27 de junho de 1977. Depois disso, ele e
se tornou bispo de Velletri-Segni e Ostia --que tradicionalmente é
a "ante-sala" para o trono do papado.
Em 25 de novembro de 1981, o papa João Paulo 2º
nomeou Ratzinger encarregado da Congregação para a Doutrina
da Fé, anteriormente conhecida como Tribunal da Santa Inquisição,
que foi renomeado em 1908 pelo papa Pio 10º. Ele também
presidiu as comissões bíblica e pontifícia internacional
teológica.
Sua vida
O cardeal nasceu em um Sábado de Aleluia em Marktl am Inn, na Baviera,
em 16 de Abril de 1927, e foi batizado no mesmo dia. Filho de um policial
e uma dona de casa, Ratzinger morou em diversas cidades devido às
intermináveis transferências de local de trabalho impostas
a seu pai.
Em dezembro de 1932, devido às críticas
abertas do pai de Ratzinger contra os nazistas, sua família foi
obrigada a se mudar para Auschau am Inn, nos alpes da Baviera.
Cinco anos mais tarde, com a aposentadoria de seu pai,
a família de Ratzinger se mudou para Hufschlag, nos arredores
da cidade de Traunstein (Baviera), onde Ratzinger passou a maior parte
de sua adolescência.
Ratzinger começou a estudar latim e grego ainda
no ginásio. Em 1939, aos 12 anos, dá o primeiro passo
para sua carreira eclesiástica e entra para o pequeno seminário
de Traunstein.
Quatro anos mais tarde Ratzinger e seus colegas de seminário
foram convocados para o Flak [corporação antiaérea],
responsável pela proteção de uma fábrica
da BMW em Munique, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Ainda
assim, continua freqüentando as aulas no Maximilians-Gymnasium
(Munique) três vezes por semana.
Em setembro de 1944, quando atingiu a idade militar, Ratzinger
foi liberado da Flak e voltou para casa. Em novembro do mesmo ano, Ratzinger
se alistou no treinamento básico da infantaria alemã,
mas por motivos de doença [não-divulgados] foi dispensado
da maioria das obrigações militares severas.
Na primavera de 1945 [final de abril], com a aproximação
das forças aliadas, Ratzinger desertou do Exército e se
dirigiu para sua casa em Traunstein. Quando os americanos finalmente
chegaram a seu vilarejo, eles resolveram estabelecer um quartel-general
na casa de Ratzinger --que foi identificado como um soldado alemão
e preso num campo para prisioneiros de guerra.
Em junho do mesmo ano foi libertado e voltou mais uma
vez para sua casa em Traunstein, seguido por seu irmão Georg,
em julho. Em novembro, finalmente, Ratzinger e seu irmão retornaram
ao seminário.
Em 1947, Ratzinger entrou no Herzogliches Georgianum,
um instituto teológico associado à Universidade de Munique.
Paralelamente, estudou filosofia e teologia na universidade de Munique
e na Escola Superior de Freising.
No dia 29 de junho de 1951, Ratzinger e seu irmão
foram ordenados padres pelo cardeal Faulhaber de Munique na Catedral
de Freising, durante a festa de São Pedro e São Paulo.
Uma eleição predestinada
Sem dúvida Ratzinger deve sua eleição à
João Paulo II, que mudou as diretrizes para a eleição
de seu sucessor, alterando a Constituição Apostólica
idealizando facilitar o processo do novo legatário, favorecendo
a um Papa conservador. Entre essas mudanças, a mais significativa
diz respeito à participação do Papa na escolha
de seu sucessor. O artigo 79 da Constituição Apostólica
reza - "Confirmando as prescrições de meus predecessores,
eu da mesma forma proíbo qualquer um, mesmo se for cardeal, durante
a vida do Papa e sem consultá-lo, de fazer planos para a eleição
do seu sucessor, ou prometer votos ou tomar decisões a esse respeito
em encontros privados". O trecho "sem consultá-lo (ao
Papa)" faz diferença na medida em que abre caminho para
que os cardeais façam planos em torno do próximo líder
católico, desde que com o aval do Papa, ou seja, a eleição
de Bento XVI não passou de um jogo de cartas marcadas!
Conclusão
Na verdade Ratzinger pode surpreender a muitos com uma mudança
brusca de diretrizes em vários setores da igreja. Mas por enquanto
uma das dificuldades do novo papa será a de conquistar a simpatia
do povo como fez João Paulo II.
Se ele seguir sua linha conservadora talvez haverá um racha dentro
da igreja católica em breve, principalmente nas alas carismáticas
e mais liberais na América.
Fora isso terá que ter jogo de cintura ao lidar com assuntos
cada vez mais complexos como por exemplo, as questões de ciência
tais como células tronco, clonagem, aborto. Também o diálogo
inter religioso deverá fazer parte da agenda dele. Se ele vai
ser bom ou ruim, conservador ou mais flexível só o tempo
dirá. É esperar para ver!
Bibliografia
Barsa;
Jornal Folha de São Paulo, edição de 2 de Abril/05.
Folha ONLINE 19/04/05 ( várias matérias)
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