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| Por Paulo Cristiano da Silva | |
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| Indubitavelmente, este é um assunto já resolvido no meio protestante tradicional devido à abundância de textos nas Escrituras neotestamentária que o elucidam. Poderíamos até considerá-lo obsoleto se não fosse pelo mariocentrismo, doutrina da Igreja Católica Romana que teima em admitir que Maria permaneceu virgem após o parto (virginitas post partum), o que torna parte dessa teologia um verdadeiro desvario e um grande óbice ao verdadeiro cristianismo ortodoxo. | |
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Durante séculos, a mariologia tem sofrido evoluções cada vez mais ousadas, e o tempo é testemunha disso:
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Em 400 d.C, Maria foi proclamada “Mãe de Deus”; •
Em 1854, a “Imaculada Conceição de Maria” torna-se dogma; • Em 1950, a “Assunção de Maria” vira artigo de fé. Hoje, cogita-se em colocar Maria junto à Trindade divina, formando assim uma quaternidade. O catolicismo está criando cada vez mais uma Maria totalmente diferente daquela apresentada pelos evangelhos. Ao inventarem supostos pais para Maria, Santa Ana e São Joaquim, baseados em livros apócrifos, os católicos ao mesmo tempo omitiram a verdadeira família de Maria e roubaram-lhe a nobre missão de mãe. |
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Origens dessa doutrina Não se sabe ao certo
onde e como começou a acreditar-se que os irmãos de Jesus, de quem tanto
a Bíblia fala e “de modo explícito”, eram apenas seus primos ou irmãos
em sentido espiritual (versão Romana)
ou meio-irmãos de um casamento anterior de José (versão Grega). Parece
que isso surgiu com uma deturpação da resposta de um soldado romano chamado
Pantera aos judeus que acusavam Maria de cometer adultério (Atos de Pilatos
11.3 e Talmud, séc. II). No ponto de vista judaico, Jesus seria um filho
bastardo desse suposto soldado.
O
fato é que essa doutrina ganhou força somente após o século IV, com
Jerônimo. Até então, era praticamente desconhecida pelos antigos
escritores pré-niceno. Como de praxe, é mais uma das invencionices da
Igreja Católica. Um
dos pais primitivos que mais colaborou para que essa distorção criasse
corpo foi Orígenes, que se baseou em duas obras apócrifas: o
“Proto-Evangelho de Tiago” e o “Evangelho de Pedro”, de meados do
século II. Não demorou muito, Epifânio seguiu os passos de Orígenes e
acabou abraçando tal idéia. É
interessante notar que Orígenes, Epifânio e Jerônimo eram adeptos do
ascetismo e da vida monástica que incluía a castidade. Orígenes,
segundo alguns historiadores, chegou a castrar-se! Mais tarde, porém,
essa teoria sobre os irmãos de Jesus foi desenvolvida e aperfeiçoada.
Empacotada de modo sofismável pelos teólogos católicos, é agora um dos
dogmas do catolicismo romano. O
que muitos protestantes talvez não saibam é que até mesmo os primeiros
reformadores como Lutero e Calvino criam na virgindade perpétua de Maria.
Mas, por outro lado, é bom frisarmos que muitos pais primitivos como
Hegesipo, Tertuliano, Irineu e, posteriormente, Eusébio e Helvídio
defendiam a idéia de que os irmãos de Jesus eram de fato seus irmãos
carnais. A mesma defesa é feita atualmente por uma maioria
esmagadora de protestantes e também por alguns teólogos católicos.
Analisando o evangelho de Mateus O texto de Mateus
1.25 afirma o seguinte: “e não a conheceu enquanto (até
que) ela não deu à luz um
filho; e pôs-lhe o nome de Jesus”. Para
os protestantes, a referência bíblica em apreço parece ser, a princípio,
uma fortaleza inexpugnável, e não é para menos, pois diz
categoricamente que José não a conheceu “até” ou “enquanto” (heos,
hou) ela não deu à luz. Ora, o que depreende e subentende-se é que,
após o parto, Maria teve relações sexuais com seu marido como qualquer
casal judeu normal de seu tempo! Parece ser esta a preocupação principal
do evangelista ao transmitir sua mensagem. Mas, por outro lado, devemos
concordar com nossos antagonistas romanos em que há casos em que Mateus
usa a preposição “até” para dizer que não houve mudança após a
ocorrência de determinado evento. Por exemplo, “Não esmagará a cana
quebrada, e não apagará o pavio que fumega, até
que faça triunfar o juízo” (Mt 12.20). É claro que o texto não
está dizendo que o manso Messias será um ditador cruel após o triunfo
do juízo. Outros
textos bíblicos, além de Mateus, podem ser usados como exemplo: Salmo
110.1 e 1 Timóteo 4.13. Mas podemos ver Mateus usando a preposição
“até” (que indica um limite de tempo, nos espaços, ou nas ações)
quando o contexto diz claramente que há mudança. Vejamos: “E, havendo
eles se retirado, eis que um anjo do Senhor apareceu a José em sonho,
dizendo: Levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egito, e ali
fica até que eu te fale;
porque Herodes há de procurar o menino para o matar” (Mt 2.13). Assim,
tomar este trecho de forma isolada não é de modo nenhum conclusivo para
ambas as partes; não resolve o problema. Se quisermos obter uma idéia
mais clara do assunto teremos de nos voltar para um contexto maior e achar
algo fora desse trecho que complete esta lacuna e dirima a incógnita. Será
que Mateus usou a preposição “até” para indicar mudança ou não?
Resolveremos isso usando dois princípios de interpretação: o contexto
imediato e o contexto mais lato. |
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A voz dos outros evangelistas Outro fator que
corrobora com a interpretação acima é o fato de Lucas ter usado a
expressão grega prototokos,
que significa “Primogênito”, em relação ao nascimento de Cristo:
“e teve a seu filho primogênito...” (Lc 2.7). Se
Lucas quisesse dizer que Jesus foi o único filho de Maria, teria usado,
de modo inequívoco, a expressão monogenes
(unigênito, em português) que significa “[filho] único gerado”,
como acontece em João 3.16. Mas não, ele usou, de modo consciente, o
termo certo: “primogênito”, indicando que Jesus foi apenas o
“primeiro” filho de Maria, e não o “único”. |
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O que diz o Novo Testamento Uma leitura
superficial do Novo Testamento, em especial dos evangelhos, mostrará, sem
sombra de dúvida, que Jesus Cristo teve irmãos e irmãs (Mt 12.46,47,
13.55-56; Mc 6.3). E ainda nos dão os nomes dos irmãos: Tiago, José,
Simão e Judas. E essas pessoas aparecem sempre relacionadas com Maria, mãe
de Jesus, o que nos dá a impressão de que os escritores e os
evangelistas quiseram nos transmitir o quadro de uma família composta por
mãe e filhos. Vejamos: “Enquanto ele ainda falava às multidões,
estavam do lado de fora sua mãe e seus irmãos, procurando falar-lhe.
Disse-lhe alguém: Eis que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, e
procuram falar contigo” (Mt
12.46-47). Depois
do milagre em Caná, Maria e os irmãos do Senhor aparecem juntos:
“Depois disso desceu a Cafarnaum, ele, sua mãe, seus irmãos, e seus
discípulos; e ficaram ali não muitos dias” (Jo 2.12). Em
outra ocasião, Maria e seus irmãos mandam chamá-lo: “Chegaram então
sua mãe e seus irmãos e, ficando da parte de fora, mandaram chamá-lo”
(Mc 3.31). João acrescenta que nem os seus criam em Jesus: “Pois nem
seus irmãos criam nele” (Jo 7.5). E, por último, os irmãos de Jesus
aparecem no cenáculo orando com Maria: “Todos estes perseveravam
unanimemente em oração, com as mulheres, e Maria, mãe de Jesus, e com
os irmãos dele” (At 1.14). Resposta a um suposto argumento Não conseguindo desmentir o consenso cristalino das Escrituras, os mestres romanistas acabam forjando sofismas cada vez mais mascarados de piedade que, aos poucos, vão alcançando a mente e o coração dos adeptos católicos. Todavia, quando confrontados com a Bíblia, tais disparates revelam ser apenas paliativos ardilosos que, por vezes, acabam sendo pulverizados diante dos fartos argumentos bíblicos. Na tentativa de esquivar-se dos argumentos protestantes, os líderes católicos desenterram, das ruínas medievais, teses falaciosas floreadas com terminologias teológicas modernas para causar impressão. Uma dessas teses tenta transferir os irmãos de Jesus para uma outra Maria e, para alcançar esse objetivo, faz verdadeiro malabarismo com os nomes bíblicos. Consegue fazer uma combinação engenhosa com os textos de Marcos 6.3, 3.18, 15.14, 16.1 e João 19.25. Diz que Maria, mãe de Tiago (o menor) e de José é irmã de Maria (a mãe de Jesus) e mulher de Cleofas, a quem confundem com Alfeu. Resumindo: esses “irmãos” (Tiago e José) de Marcos 6.3, segundo essa teoria, na verdade seriam primos de Jesus. Uma explicação plausível e uma suposta base “bíblica” para a questão. Ledo engano! |
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Um argumento de fácil refutação Contudo, não há
nada no texto que insinua ser Alfeu cunhado de Maria! Naquela época,
esses nomes eram comuns! Demais disso, a Bíblia não relata o nome da irmã
de Maria, e é pouco provável que duas irmãs tivessem o mesmo nome.
Suponhamos, por um momento, que isso fosse verdade! Não é estranho que
esses personagens apareçam sempre junto a Maria, sua “tia”, e nunca
junto à sua verdadeira mãe ?! Outros
ainda insistem no fato de que aqueles irmãos de Jesus na verdade seriam
seus discípulos, simplesmente porque na igreja todos os discípulos de
Cristo são chamados de “irmãos”. |
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O significado de irmãos na Bíblia Em Mateus 12.47, na Bíblia
católica, versão dos “Monges Maredsous”, o tradutor teceu o seguinte
comentário sobre os “irmãos” de Jesus no rodapé da página: “Irmãos:
na língua hebraica esta palavra pode significar também ‘parentes
próximos’ ou ‘primos’,
como neste caso. Exemplo: Abraão, tio de Lot, chama-o com a designação
de irmão (Gn 11.27; 13.8)”. Outro
estudioso católico afirma: “Assim
sendo, é possível que por detrás dos ‘irmãos’ e ‘irmãs’ de
Jesus estejam seus ‘primos’ ou ‘parentes’1. Refutação
bíblica: Não
existe um só caso na Bíblia, e principalmente no Novo Testamento, em que
a palavra grega adelphós (irmão)
é traduzida por primo ou parente. Das 343 vezes em que o N.T usa o termo adelphós,
ele apresenta dois sentidos
para a palavra “irmão”: a de irmão legítimo (carnal) e o metafórico. Sentido
metafórico:
Neste sentido, enquadram-se todos os textos sobre os seguidores de Jesus
(Mc 3.35), os cristãos da igreja (1Co 1.1), os judeus (Rm 9.3) e os seres
humanos em geral (Hb 2.11,17). É obvio que as referências nos evangelhos
e nas epístolas aos “irmãos” (filhos de Maria) de Jesus não se
enquadram nesta categoria. Sentido
literal:
É justamente neste sentido que a palavra irmãos (no plural) é usada, em
sua grande maioria, na Bíblia. Nenhum estudioso católico jamais traduziu
esta palavra como primos ou irmãos espirituais. As Escrituras não deixam
nenhuma dúvida quanto a esse assunto. Duvido que alguém leia os textos
que seguem e consiga empregar o sentido de primo ou irmão espiritual onde
aparece a palavra irmãos. “E,
passando mais adiante, viu outros dois (irmãos) Tiago, filho de Zebedeu,
e seu irmão João, no barco com seu pai Zebedeu, consertando as redes; e
os chamou” (Mt 4.21). “E
todo o que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou
filhos, ou terras, por amor do meu nome, receberá cem vezes tanto, e
herdará a vida eterna” (Mt 19.29). A
Bíblia deixa patente que quando a palavra “irmãos” aparece junto aos
termos “pai” e “mãe” ela denota filiação legítima de sangue, e
isto ninguém consegue eclipsar. Compare: “Não é este o filho do
carpinteiro? E não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, José,
Simão, e Judas?” (Mt 13.55). Nas
quinze ocorrências em que é empregado o termo adelphós
em relação a Jesus o sentido básico é de irmãos legítimos. Mas
alguns podem objetar dizendo que a palavra hebraica ah
(irmão) aparece várias vezes significando irmãos não de sangue, mas
primos ou sobrinhos. É verdade que a língua hebraica tinha um vocabulário
um pouco pobre e, por isso, não possuía uma palavra específica para
primos ou parentes. Então utilizava a expressão “irmão” de modo
lato (Gn 29.12, 24.48) Esse
artifício, no entanto, não é suficiente para que os católicos se
esquivem da derrocada teológica! A palavra “irmão”, no hebraico,
pode significar primo, mas, mesmo neste caso, temos de tomar cuidado.
Geralmente, quando a palavra “irmão” é empregada no sentido de
parente próximo o contexto esclarece a questão (1Cr 23.21-22). Além
disso, o Novo Testamento foi escrito em grego, e não em hebraico. Será
que no grego Coiné, língua na qual foi escrito o Novo Testamento,
existia esta distinção praticamente ausente no hebraico? Vejamos. Termos
do Novo Testamento para Não devemos nos
esquecer de que quando o Novo Testamento faz referências aos irmãos de
Jesus o contexto não traz nenhum tipo de esclarecimento adicional, como
acontece no Antigo Testamento. Além disso, os escritores sabiam a diferença
entre os termos irmão (adelphós),
primo (anepsiós) e parentes (sungenes).
Mesmo Paulo, que usava bastante metáfora, sabia usar com distinção
essas palavras. Tanto é que escreveu sobre os “irmãos” de Jesus sem
deixar nenhuma dúvida ao laço carnal entre o Senhor e seus irmãos.
Vejamos: “Não temos nós direito de levar conosco esposa crente, como
também os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas?” (1Co
9.5). “Mas não vi a nenhum outro dos apóstolos, senão a Tiago, irmão
do Senhor” (Gl 1.19). Como
já falamos, e isso é interessante, o apóstolo Paulo sabia perfeitamente
usar a palavra correta para primo (anepsiós)
e parente (sungenes) em suas epístolas.
Não havia motivo de confusão! “Saúda-vos Aristarco, meu companheiro
de prisão, e Marcos, o primo de Barnabé...” (Cl 4.10). “Saudai a
Herodião, meu parente” (Rm 16.11). |
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Argumentos contraproducentes Diante do exposto, a
única consideração plausível a que podemos chegar é que os “irmãos”
de Jesus eram realmente seus irmãos legítimos. É justamente esse o
sentido do termo adelphós
no Novo Testamento. Apesar de todo o esforço empregado pelos católicos
para defender a virgindade perpétua de Maria, seus argumentos são
totalmente contraproducentes. | |