CENTRO APOLOGÉTICO CRISTÃO DE PESQUISAS - CACP
NEM UNA, NEM APOSTÓLICA.
A falácia da unidade católica
Por
Paulo Cristiano da Silva
“para que sejam um,
como nós somos um...” (João 17.22)
Quando
Jesus proferiu estas palavras, ele contava com apenas algumas dezenas de
seguidores. Jesus deixou bem claro que uma das características pelas quais seus
seguidores seriam conhecidos seria a unidade.
Passados quase dois mil anos empós estas palavras serem ditas, o cristianismo
conta com cerca de 2,1 bilhões de adeptos, sendo que destes, 1 bilhão
pertencem à comunhão Católica Romana.
Diante desta enorme grei de fiéis, o catolicismo se ufana em ser a única
igreja verdadeira e um dos motivos invocados para sustentar tal alegação é
sua suposta unidade.
Por vezes as igrejas evangélicas são estereotipadas como instáveis,
dividindo-se, constantemente, em novas denominações, cada qual com suas
doutrinas, disciplinas e costumes. Eles mostram o contraste com a igreja católica,
a qual é retratada como sendo sólida e unificada.
Apontam ainda o credo Niceno que reza “Creio na Igreja, Una...”, para daí
tirarem a conclusão de que as igrejas evangélicas não fazem parte da
verdadeira Igreja de Cristo. Somente a Igreja Católica é Una!
Entretanto,
cabe aqui algumas perguntas oportunas, qual seja: a suposta unidade do
catolicismo é sinal de ortodoxia? Existe base lógica para condenar a
diversidade nas igrejas evangélicas como sinal de heresia? Até que ponto essa
unidade alegada pelo catolicismo é verdadeira? É realmente tão grave esta
diversidade no protestantismo a ponto de não nos enquadrarmos na perícope de
João 17.22? E a igreja cristã, sempre teve essa unidade que reivindica o
catolicismo?
Estas e outras questões serão claramente respondidas no desenrolar deste
artigo. Veremos que a falsa imagem das divisões protestante e a descrição da
unidade católica apontada pelo romanismo não passam de exageros.
Diversidade Eclesiástica
O
padre Alberto Luiz Gambarini (críticando às igrejas protestantes), afirma que
Pedro é o sinal visível da unidade da igreja. Conseqüentemente, a garantia
para a unidade da igreja repousa na sucessão apostólica chegando ao papa
atual. [1] O papa, portanto, é o sinal da unidade no catolicismo. Isso
também aparece de forma explícita no Catecismo Romano. [2]
Contudo,
convém esclarecer que ao contrário do que afirma a Igreja Católica, o
cristianismo primitivo não estava dividido hierarquicamente. Ademais, é um
fato incontestável que não houve episcopado monárquico no primeiro século.
As igrejas eram governadas por colegiados de bispos ou presbíteros que eram
termos usados de modo intercambiável (ver Atos 20.17 e 28; Tito 1.5 e 7). O teólogo
católico José Comblin, é concorde em dizer que: “No meio deles, Pedro tem
um papel de porta-voz.”, entretanto, alerta: “Mas ele não é como o
superior. São todos iguais.(ênfase acrescentada). Afirma ainda
que nas primeiras comunidades cristãs não havia hierarquia, pois todos estavam
unidos no colegiado apostólico e “cada igreja agia de modo independente” [3]
Um
bom exemplo disso podemos ver na carta que Inácio enviou à Igreja de Roma, no
começo do segundo século, onde diz : "Inácio...
à Igreja que preside na região
dos romanos..." (Inácio de Antioquia, 107 d.C, Carta aos Romanos [Prólogo]).
(ênfase nossa)
Deste
prólogo se depreende que cada igreja tinha a sua jurisdição limitada ao seu
território ou região. Possuía autonomia
eclesiástica. Definitivamente o Novo Testamento não apóia o arquétipo eclesiástico
de uma única
igreja, mas de igrejas distintas e independentes. Por outro lado, todas
elas, apesar desta diversidade, formavam a única igreja de Cristo.
As
igrejas de Corinto, Éfeso, Roma e as demais eram todas igrejas autônomas
governadas pelos líderes locais. A unidade das igrejas apostólicas repousava
no amor fraternal entre si e na doutrina dos apóstolos; Jesus era o único cabeça
da Igreja. Quando Cristo ordena João escrever às 7 igrejas da Ásia, não as
colocam sobre a jurisdição eclesiástica de nenhum apóstolo em particular a não
ser dEle mesmo.
Diversidade
nos Costumes
Podemos
através do livro de Atos e de algumas epístolas paulinas formar um perfil,
ainda que imperfeito, da igreja apostólica.
Existia não pouca diversidade entre elas sobre questões de disciplina e
costumes. A adoração espontânea na igreja de Corinto estava em nítido
contraste com a das igrejas palestinas que baseavam sua adoração no modelo da
sinagoga judaica. Por exemplo, enquanto na Igreja de Corinto foi aconselhado o
uso do véu, este mesmo uso não foi seguido por nenhuma outra. As pesquisas no
N.T apontam duas tendências dentro da igreja cristã: uma judaica e outra
helenista (grega); por causa dessa diversidade começou haver divergências
entre seus membros (Atos 6). O concílio de Jerusalém deixou claro que nenhum
costume judaico seria imposto nas igrejas gentias, enquanto os cristãos
judaicos poderiam livremente praticar os costumes de sua nação, como se abster
de certos alimentos, guardar dias, participar de festas, ir ao templo etc...
Ao
entrar o segundo e terceiro séculos essas diversidades não acabaram, pelo
contrário, aumentaram. Quem nos faz saber isso são os historiadores eclesiásticos
Eusébio de Cesaréia (c.265-340)
e posteriormente Sócrates (c.379-450) e Sozomen (c.375-447). Eles apontam
grandes diferenças quanto à celebração da páscoa, jejuns, casamento e
outros costumes seguidos pelas igrejas do oriente e ocidente. A divergência
entre as várias igrejas é sinal de que o cristianismo primitivo era
diversificado. O já citado padre comblim afirma que ainda pelo ano 150 “cada
Igreja segue o seu desenvolvimento próprio. Daí, uma notável variedade nas fórmulas
de fé, na liturgia e na organização.” [4]
De fato, havia unidade mais que uniformidade.
Diversidades
de Crenças
Também
a diversidade de crenças era um fato constante entre o cristianismo primitivo.
Convém salientar que o pilar onde se apóia a unidade doutrinária do
catolicismo é a chamada “tradição”; ela é a mãe de todas as doutrinas
extrabíblicas desta igreja. Os apologistas católicos afirmam que sua igreja
possui unidade doutrinária por se basear na fé comum dos pais da igreja. Dizem
que as doutrinas sustentadas hoje por eles sempre foram a mesma da igreja
primitiva dada e sustentada pelo consenso dos pais primitivos. Contudo, o
ex-padre Aníbal P. Reis, diz que a
assertiva da cúria papal de que havia unanimidade e consenso de opinião entre
os pais da igreja, tornou-se um tanto utópica, quando se
“constatou, porém, que só numa
coisa eles concordavam: - é que discordavam em tudo.” [5]
E realmente era assim, muitos pais da igreja sustentavam opiniões divergentes entre si, não havia essa alegada uniformidade doutrinária como quer passar o catolicismo. Observe algumas doutrinas em que eles divergiam:
Batismo
Infantil
Tertuliano
(contra)
Orígenes
(a favor)
Imaculada
Conceição de Maria
Anselmo,
São Bernardo, papa leão I, papa Gregório, Inocêncio III (contra)
Ireneu,
Santo Efrém (a favor)
Virgindade
Perpétua de Maria
Tertuliano,
Hegesipo, Ireneu, Eusébio (contra)
Jerônimo,
Orígenes, Epifânio (a favor)
Pedro
é a pedra da Igreja - Mt. 16.18
Dos
77 pais que comentaram este verso apenas 17 opinaram que se refere a Pedro.
Agostinho
um dos grandes vultos católicos era contra a interpretação sustentada hoje
pelo catolicismo.
Junta-se
a isto as questões sobre os livros Apócrifos, o dia da comemoração da páscoa,
o celibato, eucaristia e outras doutrinas que eram arduamente defendidas por uns
e com o mesmo zelo repudiadas por outros vultos da igreja. O que é sustentado
hoje pelo catolicismo como sinal de sua unidade doutrinária eram idéias
praticamente esfaceladas nos primeiros séculos da era cristã.
DIVISÕES NA HISTÓRIA DA IGREJA
As
divisões na história da igreja foram muitas. Mas apenas três merecem nossa
atenção:
No
século V houve a separação das igrejas da Síria e do Egito;
No
século XI houve o grande cisma entre as Igrejas do Oriente e do ocidente;
No
século XVI houve a Reforma Protestante liderada por Martinho Lutero.
Após
a Reforma as igrejas protestantes se subdividiram em muitas. David Barret,
em sua “Enciclopédia das Religiões”, registra a existência de
30.880 (trinta mil oitocentos e oitenta) denominações cristãs.
Contudo
essa cifra é veementemente contestada pelo apologista protestante Dr. Eric Svendsen em seu livro “Sobre
Esta Rocha Escorregadia”
(Calvary
Press, 2002), onde numa pesquisa
minuciosa reduz para menos de 10.000 esse número.
Por
exemplo, algumas são variações das mesmas denominações, a lista de Barret
apresentava várias espécies diferentes de igrejas batistas,
presbiterianas, luteranas etc...Mas eram apenas igrejas da mesma denominação
com a mesma doutrina. Uma comparação similar pode-se ver na natureza: existe
uma enorme diversidade entre os felinos, cães e peixes, mas todos sendo cada
qual da mesma espécie e não de espécies diferentes. Há por exemplo, dentro
da família dos felinos os tigres, as onças, os leões e os gatos. Ainda dentro
do grupo dos gatos existem os subgrupos ou raças, os siameses, angorás etc...
Os
apologistas católicos agem como se as diferenças entre as igrejas protestantes
fossem tão grandes, como as diferenças entre gatos e cavalos, e entre pássaros
e cães. Na realidade, elas são como as diferenças entre os diferentes tipos
de gatos “siamês" ou de "angorá" (ou seja, pequenas
variações em coisas que são essencialmente as mesmas, fato este já
notado em toda a história da igreja como mostramos acima).
Razões das divisões dentro do protestantismo
Nossos
antagonistas gostam de jogar em rosto a desagregação protestante, apontando
que ela é fruto do “livre exame da Bíblia” ensinado por Lutero. Contudo
esta acusação leviana desconsidera vários aspectos dentro do
contexto histórico protestante. Muitos católicos pensam que o
protestantismo foi fundado por Martinho Lutero e daí se fragmentou. Mas o caso
é que a reforma iniciou praticamente na mesma época em vários lugares
diferentes por líderes diferentes que às vezes nem ao menos se conheciam.
Martinho Lutero na Alemanha, Zuinglio
na Suíça, Calvino na França e Henrique VIII na Inglaterra é um exemplo
disso. Há uma diversidade de fatores que poderíamos citar como explicação
para este fenômeno, contudo, creio que a principal se encontra na liberdade de
expressão, de culto e consciência defendida pelos reformadores. É sabido que
o catolicismo na idade média erigiu uma verdadeira ditadura religiosa. Ninguém
podia discordar das doutrinas católicas, caso contrário, sofreria as conseqüências
nos tribunais da Inquisição. Assim o medo se espalhou por toda a idade média.
Muitos foram mortos devido a esta nefanda política religiosa sustentada por
Roma de proibir a liberdade religiosa. A unidade era imposta pelo terror!
Contra
a liberdade de Consciência se levantou o papa
Gregório XVI em sua Carta
encíclica “Mirari Vos” promulgada em 15 de agosto de 1832. Dizia ele sobre
a liberdade de consciência :
“Este
erro corrupto abre alas, escudado na imoderada liberdade de opiniões que, para
confusão das coisas sagradas e civis, se estendo por toda parte, chegando a
imprudência de alguém se asseverar que dela resulta grande proveito para a
causa da religião.” Também na mesma carta ele condena a liberdade de
imprensa.
Não podemos descartar que a virtude da liberdade está
dentro da própria filosofia protestante, talvez isto explique um pouco essa
diversidade dentro do universo protestante. Seja como for, não há de se negar
o fato de que é repugnante e inadmissível à qualquer espírito religioso
sustentar a unidade às escoras da censura. Os papas deveriam saber que não se
pode curar a dor de cabeça cortando fora o pescoço!
Outrossim,
o fato de que a verdade não pode coexistir com o erro é outro fator
preponderante na questão.
O
catolicismo nos acusa de termos separado da igreja romana onde supõe estar o
verdadeiro vínculo da unidade, a comunhão com o sucessor de Pedro – o bispo
romano. Porém, o que ocorreu, é que Roma, e não nós, que se separou da
verdadeira doutrina bíblica e apostólica. Ela tem sido a maior causadora de
schisma [divisões] nestes 15 séculos de cristianismo. Por isso o mandamento é
apartar daqueles que não andam conforme a doutrina (Romanos 16.17). “Porventura
andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?" (Amós 3:3).
A
unidade básica entre os protestantes
Existem
algumas crenças que definem o Cristianismo. Estas incluem algumas doutrinas que
consideramos essenciais como a hamartiologia (doutrina sobre o pecado), a
soteriologia (doutrina da salvação), cristologia (doutrina sobre Cristo)
teologia (doutrina sobre Deus), a pneumatologia (a doutrina sobre o Espírito
Santo). Dependendo de como a pessoa encara alguns assuntos doutrinários tais
como Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, a morte vicária de
Cristo, a salvação através da fé, a ressurreição de Jesus e a nossa, a
autoridade única das Escrituras, a mediação única de Cristo, o Inferno de
fogo; fornece o parâmetro para aferirmos se uma pessoa é Cristã ou não.
Estes itens não são negociáveis. Qualquer pessoa que não acreditar neles não
é cristã.
Por
outro lado, algumas coisas são negociáveis. Estas incluem assuntos como o
batismo, o tipo de música na adoração, a forma da estrutura e organização
da igreja, a definição da relação entre o livre arbítrio e a predestinação,
a escatologia. Estes itens são importantes. Contudo, não determinam se
uma pessoa é ou não é cristã. São áreas em que os cristãos podem
concordar ou não (Romanos 14).
As
diferenças entre os protestantes genuínos ocorrem na segunda área, nos itens
negociáveis.
Os
primeiros Credos cristãos como o credo dos Apóstolos e os Credos Nicenos também
fornecem uma base para o protestantismo atual, pois neles está a fórmula de fé
professada pelas igrejas primitivas. Muitas crenças abordadas pelo catolicismo
atual não encontram guarida nestes credos. Contudo, o credo obedecido hoje
pelas igrejas protestantes é concorde com aqueles. Em outras palavras: pode
haver união em tudo o que é mais importante, embora haja diferença em alguns
pontos secundários.
Unidade
ou uniformidade ?
A falta de uniformidade no universo protestante não
prejudica sua unidade. É uma unidade no Espírito,
pois é a
vontade de Deus para seu povo (Efésios
4.3 - João
17. 11,20,21).
Assim,
a verdadeira igreja de Cristo é invisível e espiritual composta de todas as
demais igrejas visíveis pelo vínculo da paz (Hebreus 12.23).
Contudo
essa unidade não implica em uniformidade total. É um fato independente da
diversidade exterior. A igreja é comparada a um corpo diversificado (I Coríntios
12.13-26) com diversos ministérios e dons; é a diversidade na unidade.
Um
bom testemunho disso tem sido a “Marcha para Jesus”, um evento que é
realizado no mundo todo e tem tido um crescimento vertiginoso a cada ano. Essa
manifestação que inclui centenas de denominações evangélicas é um fato
incontestável do que estamos falando. [6]
Todavia,
essa unidade é mediante a fé. Deve haver não só unidade espiritual, mas também
unidade bíblico-doutrinária; e isso, com exceção das falsas igrejas
(seitas), as igrejas evangélicas possuem de fato.
Por
isso o catolicismo labora em grave erro ao definir o termo “unidade” de
forma particular.
A
DIVERSIDADE DENTRO DO CATOLICISMO
John
Ankerberg e John Weldon distinguiram nove categorias de grupos católico romano
no mundo inteiro. Dos quais destacamos os principais. Todavia, alertam que “As
diferenças entre as mesmas não são claras, porque se sobrepõe ou se fundem
entre si”. Ei-las:
Catolicismo
nominal ou social:
o catolicismo romano da maioria não comprometida, aqueles que talvez
nasceram ou se casaram na Igreja, mas têm pouco conhecimento da teologia e
que são, na prática, católicos somente de nome.
Catolicismo
Sincretista ou eclético: o
catolicismo que está misturado ou foi absorvido, em diferentes graus, pela
religião pagã da cultura nativa em que ele existe [como, por exemplo, no México,
Brasil - Bahia]
Catolicismo
tradicional ou ortodoxo: o
ramo poderoso e conservador do catolicismo romano que sustenta as doutrinas
históricas da Igreja, tais como as que foram reafirmadas no Concílio de
Trento no século XVI.
Catolicismo
moderado: o
catolicismo romano do Vaticano II, o qual não é completamente tradicional
nem inteiramente liberal.
Catolicismo
modernista ou liberal: o
catolicismo romano “progressista”, posterior ao Vaticano II, que rejeita
até certo ponto a doutrina tradicional. [7]
“Ele
terá de se esforçar para amolecer as facções em conflito até que a Igreja
possa chegar a um novo concílio, ou pelo menos a uma reunião dos bispos do
mundo, que decida as atuais disputas, como afirmo em Quebra da fé.” [8]
Sublinha-se ainda que esta confissão não é caso isolado, mas uma constante
cada vez mais presente dentro do novo perfil católico. Veja esse depoimento
logo abaixo que colhemos em um site católico de tendência conservadora:
“Recentemente
um médico amigo meu contou-me que, no hospital em que trabalha, algumas
enfermeiras lhe perguntaram qual era a sua religião. Ele respondeu com ufania:
"Sou Católico Apostólico Romano". E elas, então, como se não
entendessem, lhe disseram: "Mas católico... de que tipo?".
E
a pergunta deixava clara a tragédia causada pelo Vaticano II: depois desse Concílio
surgiram tantas divisões entre os católicos, nasceram tantos tipos diferentes
e tantos modos diversos de ser católico, que a definição normal já não diz
nada para as pessoas comuns. Ficou necessário acrescentar um outro adjetivo à
expressão da única religião e da única fé verdadeiras. E o acréscimo
necessário para se definir qual a religião católica que se tem, demonstra que
se perdeu a unidade da Fé.” [9]
A
aparência de unidade entre os católicos é mal conduzida. Na realidade,
existem diferenças importantes em sua teologia e prática. Vou discutir apenas
algumas delas, como exemplo. O livro mais recente de Malachi Martin (padre católico,
teólogo e professor, residente no Vaticano e confessor do papa João XXIII),
"Windswept House" (A Casa Em Desordem) trata de algumas outras
diferenças. Embora seja uma novela, ele trata de assuntos da vida real.
Os
protestantes que têm diferenças nas crenças e nas práticas identificam-se
por nomes diferentes. Reconhecem publicamente suas diferenças. Contudo,
os católicos que têm diferenças nas práticas e nas crenças, continuam
se chamando pelo mesmo nome (católicos romanos), afirmando que o papa é o seu
líder. Isso dá uma falsa impressão de unidade.
Apesar
de afirmarem verbalmente que o papa é o seu líder, existem padres e teólogos
católicos que desafiam, publicamente, a autoridade do papa. Malachi
Martin fala de alguns destes em seu livro "The Jesuits:The Society of
Jesus and the Betrayal of the Roman Catholic Church" (Os Jesuítas: A
Sociedade de Jesus e a Traição à Igreja Católica Romana). Também existem as
freiras feministas que desafiam publicamente o papa.
Um grupo ultraconservador conhecido
como "True Cahtolic" (Católicos Verdadeiros) acredita que João Paulo
II não é um papa legítimo, porque ele tem promovido a "heresia" (o
que contraria a doutrina católica, a qual foi declarada
"infalivelmente" pelos papas que o antecederam). Eles crêem que, em
razão disso, a cadeira papal ficou vaga. E para sanar esta situação, elegeram
um outro papa.
Como
veremos, alguns padres e freiras católicos ensinam coisas totalmente contrárias
à doutrina católica. Contudo ainda lhes permitem ensinar em nome da ICR,
mantendo posições de influência e autoridade. [10]
Como
se já não bastasse por volta de 1945 o catolicismo se dividiu mais uma vez.
Estamos falando da criação da Igreja Católica Apostólica Brasileira fundada
pelo ex-bispo católico romano Dom
Carlos Duarte Costa. Fora esta existe ainda a Igreja Católica
Liberal e outras.
Muitos
desconhecem que a diversidade de igrejas que comporta hoje o catolicismo romano
é cada vez maior. Trata-se de igrejas cismáticas ou até mesmo consideradas
heréticas que voltaram ao seio da igreja romana, mas que ainda permaneceram com
seus ritos e fórmulas de fé variados. [11] Ao se submeteram à
autoridade do papa, a qual é considerada a
pedra de toque da verdadeira unidade passam a ser consideradas parte da igreja
católica romana. A título de ilustração, temos as mais diferentes igrejas
com uma enorme e complexa diversidade de ritos dentro da Igreja Católica que se
proclama “Una”.
Por
exemplo, alguns da Igreja Nestoriana voltaram para o seio da igreja romana, mas
conservando o rito caldeu e malabar. [12]
Parte
dos Jacobitas, ou monofisitas sírios, voltaram ao catolicismo, mas voltaram com
seu rito próprio, formando o chamado rito siríaco puro.
Já
os melquitas se separaram do catolicismo em 1054, seguindo as demais igrejas de
rito bizantino. No entanto, em 1724 o novo Patriarca Melquita de Antioquia
decidiu voltar ao Catolicismo. E voltou, formando o rito Melquita.
Fora
estes ainda existe os de ritos maronitas, o Ambrosiano, existente só na cidade
de Milão, o Ítalo-Greco, que é rezado em latim ou italiano, mas seu ritual é
bizantino. Nasceu da parte sul da Itália, que sempre teve forte influência
bizantina e finalmente o moçárabe, existente na Espanha, e rezado em árabe.
Todas
elas realizam de modos diferentes, com cerimônias diferentes e em línguas
diferentes seu culto. A eucaristia é celebrada numa diversidade assombrosa. Uma
diversidade que nunca se viu entre as igrejas evangélicas.
Além
destas diferentes igrejas, que comporta o catolicismo debaixo de seu lábaro
papal, ainda temos as mais variadas ordens dentro do catolicismo romano tais
como os Jesuítas, dominicanos, carmelitas, franciscanos, agostinianos, marianos
e outras mais, com uma rica diversidade de regras de vida, ritos, fórmulas,
festas, deveres religiosos, dias santos, práticas e pontos de vistas
diferentes. É notória a diferença destas ordens entre si, muitas vezes com
uma rivalidade vituperiosa, a ponto de chegarem a se digladiar por pontos periféricos
de disciplina. Um exemplo prático disso foram as constantes disputas entre jesuítas
e dominicanos e entre estes e os franciscanos.
Diferença
aparente ou real ?
Os
católicos levantam a acusação de que existem muitas igrejas protestantes
diferentes umas das outras, na liturgia e disciplina, por isso não há unidade,
conseqüentemente não poderia ser a igreja verdadeira que Cristo deixou. Apesar
de os católicos alardearem de que conservam a mais perfeita união, contudo, não
há assunto divergente dentro das igrejas evangélicas que não o seja também
entre os romanistas.
Muitos
ficaram surpresos quando Mel Gibson revelou que estava construindo uma igreja
para ele mesmo, apelidada pela mídia de San Mel. Mas não se trata de uma nova
seita, e sim de um outro tipo de catolicismo que a maioria dos católicos
desconhecem. Gibson segue a linha conservadora do catolicismo oposta ao Vaticano
II, por isso as missas na igreja de Gibson serão rezadas em latim, fiel ao rito
tridentino. [13]
Este
é apenas um exemplo da divisão dentro do catolicismo que os teólogos católicos
não querem admitir, mas que é fato notório. As igrejas que voltaram à comunhão
católica, mencionadas acima, tem a total liberdade de praticar liturgias
diferentes, e ter idéias diferentes em relação a pontos periféricos de
doutrinas contanto que se submetam à sede papal.
Indubitavelmente,
nem a diversidade e muito menos a unidade católica é substancialmente
diferente da nossa. Pondere por um instante sobre a diferença que há entre o
protestantismo tradicional e o pentecostal, porventura não seria a mesma que há
entre o catolicismo tradicional e o carismático?
Ainda
dentro da Renovação Carismática podemos distinguir dois grupos, os de tendência
pentecostal e os notadamente de raízes católicas [14]
Uma
diferença que poderíamos mencionar aqui também é quanto à conservação de
alguns artefatos religiosos como o crucifixo que perduraram nas igrejas
luteranas e anglicanas, mas que estão ausentes nas demais igrejas evangélicas.
Não
consta o mesmo entre as igrejas católicas dos países latinos que geralmente são
repletas de imagens, mas que estão praticamente ausentes entre os católicos
norte-americanos?
É
digno de nota que enquanto os católicos brasileiros se dobram perante pedaços
de ossos e panos antigos qualificados como relíquias, os católicos ingleses
repudiam tal prática. Pergunto: onde está a tão famigerada unidade apregoada
pelo catolicismo? Na prática, simplesmente, ela não existe!
Todavia,
alguém poderia objetar dizendo que as diferenças se concentram apenas no campo
das disciplinas, mas nunca no da fé ou doutrina.
Mais
uma vez esta objeção falha por não corresponder aos fatos. E para surpresa e
decepção de nossos antagonistas, divergências doutrinárias sempre estiveram
presentes dentro do catolicismo romano, ainda que de modo camuflado.
Diz
certa obra católica que “O longo pontificado de Pio VI foi marcado por
profundas divergências no campo doutrinal”. Ainda essa mesma obra afirma que
o papa João Paulo II foi atacado por um padre de uma ordem rival ligado a uma
corrente contrária a reforma do Concílio Vaticano II em uma de suas viagens à
Fátima. [15]
Os
“Flagelantes” foi duramente combatido pelo papa Alexandre IV que os
considerou heréticos. Eles faziam parte do grande movimento do
“pauperismo”, que foi uma reação contra a vida de enriquecimento do clero
na idade média. Francisco de Assis sairá deste movimento para fundar sua ordem
que depois também iria se subdividir. Outra questão de divisão foi quanto ao
“conciliarismo”, teoria que prevaleceu por algum tempo, a qual pretendia a
superioridade do Concílio sobre o papa. O papa Martinho V chegou a se submeter
a esta doutrina.[16]
Considere
mais alguns exemplos:
Na
época em que foi proposto o dogma da infalibilidade papal houve não pouca
divergência entre os líderes católicos de diversos países. Sinal que não
havia nenhum consenso doutrinário ainda entre eles. Assim também foi em relação
aos livros apócrifos dogmatizados no concílio de Trento e com o dogma da
“Imaculada Conceição” de Maria. Sempre havia disputas teológicas em cima
destes pontos considerados essenciais para a fé católica atual. É sabido que
quanto a este último houve uma acerada disputa entre os franciscanos e
dominicanos se vilipendiando mutuamente.
Ora,
a mesma controvérsia doutrinária que houve entre Jesuítas e Jansenitas não
foi a mesma que houve entre Calvinistas e armenianos a respeito da predestinação?
Hoje
em dia existem os teólogos católicos que pregam a teologia da libertação
cujo evangelho difundido por eles é contextualizado com ideais socialistas. Um
dos representantes mais proeminentes desta corrente aqui no Brasil é o frei
Leonardo Boff que não poupa críticas quanto a postura da igreja católica
frente ao evangelho socialista apregoado por esta corrente doutrinária.
Sem
falar nos polêmicos padres parapsicólogos que além de ir contra muitas
doutrinas da igreja católica, chegam até mesmo a desmentir a própria Bíblia
Sagrada. O mais popular deles aqui no Brasil, o jesuíta Oscar G. Quevedo, foi
até proibido pelo Vaticano de pregar suas teorias, pois colidia com os ensinos
da igreja. [17]
Outra:
enquanto, algumas paróquias católicas realizam a festa de “santo reis”
perpetuando a crença nessa religião popular, ela é repudiada por tantos
outros dessa mesma igreja. Aliás, nunca foi oficializada pelo papa.
Enquanto
a igreja católica do México sanciona tradições religiões bárbaras como as
auto-flagelações e auto-crucificações com o fito de apagar os pecados dos fiéis,
isto é altamente repudiado pela igreja católica brasileira.
Poderíamos
aumentar essa lista com mais exemplos, como o do teólogo católico
alemão Eugen Drewermann, crítico ferrenho do Vaticano,
mas por enquanto
ficamos somente com estes. Contudo, já deu para perceber que a suposta unidade
católica rui por terra ante a verdade dos fatos. Ela não funciona na prática...
Qual
a verdade dos fatos?
Depois
de tudo que foi exposto acima concluímos que a igreja romana não tem
envergadura moral e menos razão do que qualquer outra da cristandade para
acusar às outras igrejas de suas diferenças e divisões. [18] É
hipocrisia apelar para a diversidade das outras, acusando-as de falta de unidade
enquanto tolera estas mesmas diferenças em seu próprio seio debaixo de
eufemismos terminológicos.
A
verdade é esta: os católicos têm suas divergências e diferenças, mas não
admitem, pois concordam em submete-las todas à decisão da sede papal, que é
para eles o centro da unidade.; os evangélicos têm também as suas, mas
submetem-nas todas ao único líder – Jesus – cuja autoridade das
Escrituras, compõe o centro dessa unidade.
Quanto
às diferenças entre as igrejas evangélicas, não passam de meras diferenças
na forma de seu culto. São coisas que não afetam os principais artigos de fé
de nossas igrejas. Estas e outras são os únicos ou principais pontos de divergências
que existem entre os evangélicos. Importante ressaltar que quando falamos em
artigos de fé estamos nos reportando aos nossos credos. Assim as igrejas evangélicas
ou protestantes seguem na mesma linha reta em relação ao que crêem. É claro
que pode haver diferença a respeito da aplicação de algumas palavras, mas
todas estão de acordo no principal. É só comparar os credos das várias
denominações protestantes entre si.
Quanto aos pontos de disciplina é difícil determinar em qual das igrejas há
maior divergência! [19]
Notas
bibliográficas
[1] Ganbarine, Alberto Luiz, Quem
Fundou a sua Igreja? Itapecirica da Serra: Ágape pp. 21-25.
[2] “O Novo Catecismo”, São Paulo: Ed. Herder, 1969, pp.424-26. Obs:
Curiosamente o “Catecismo da Igreja Católica” - edição revisada de acordo
com o texto oficial em latim. São Paulo: Ed. Loyola, 1999, pp.233-36, quando
toca na questão da unidade da Igreja, não enfatiza tanto a figura do papa.
Influências do ecumenismo?!
[3] Comblin, José, A Hierarquia – curso
popular de história da igreja. São Paulo: Ed. Paulus
1993 2ª ed. pp. 18,19.
[4] Ibid., p. 20.
[5] Reis, Aníbal Pereira dos, O Vaticano e a Bíblia, São Paulo: Ed. Caminho
de Damasco, 1969 p.58.
[6] Segundo o site oficial, a
“Marcha para Jesus” reuniu em 2004 só na cidade de São Paulo, mais
de dois mil evangélicos de centenas de denominações. Site: http://www.marchaparajesus.com.br/
[7] Ankerberg,
John e Weldon, John, Os Fatos sobre o Catolicismo Romano, Porto Alegre Obra
Missionária Chamada da Meia-Noite 1997 pp. 19-20.
[8]
Op. Cit., edição de
09/08/2002, sob o título “É Preciso Unir a Igreja”.
[9] http://www.montfort.org.br/index.html
[10] Citado no livro “O
Espírito do Catolicismo”, da
ex-freira Mary Ann Collins,
traduzido por Mary Schultze, versão on-line. Este livro está disponível no
site www.cacp.org.br.
[11] Os católicos costumam
distinguir entre heréticos e cismáticos. Herético é aquele que ensina
doutrinas errôneas, seria o apóstata. Já o cismático é aquele que apesar de
estar no cisma com o catolicismo, não ensina, todavia, erros doutrinários.
Obs: Enquanto o Concílio de Trento considerou os protestantes heréticos, o
Vaticano II revogou esse termo para um menos ofensivo de “irmãos
separados”.
[12] O site desta igreja: http://www.chaldeansonline.net/.
[13] http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0%2C%2COI273197-EI312%2C00.html.
[14] Miranda, D.Antonio Afonso
de, O que é preciso saber sobre a Renovação Carismática. Aparecida–SP, Ed.
Santuário, p. 58.
[15] Pintonello, Aquiles, Os
Papas. São Paulo: Ed. Paulinas 1986 2ª edição, pp. 140-98.
[16] Ibid pp.55-85
[17] Aquino, Felipe Rinaldo Queiros de, Falsas Doutrinas – Seitas & Religiões.
Lorena: Ed. Cléofas 2002, p.47.
[18] Entre os anos de 50 e 60 houve grandes disputas entre as facções católicas
aqui no Brasil, especialmente em Belo Horizonte como mostra a “Revista de História
Regional” sob um enfoque sociológico. O trabalho na íntegra pode ser visto
no site http://www.rhr.uepg.br/v3n1/matta.htm#34.
Outra opção para quem queira se aprofundar no assunto é ler o livro de
Arnaldo Lemos Filho, “Os Catolicismos Brasileiros” da editora Alínea, onde
mostra os diferentes tipos de catolicismos existentes no Brasil.
[19] Seymour, M.H, Noite com os Romanistas – Coleção Vaticano II. Ourinhos:
Edições Cristãs 1998.
Paulo
Cristiano, é presbítero da Igreja Evangélica Assembléia de Deus e há
mais de dez anos pesquisador de seitas;palestrante co-fundador e vice-presidente
do CACP (Centro Apologético Cristão de Pesquisas). É membro da comissão
revisora do curso teológico do Instituto Bíblico das Assembléias de Deus em São
José do Rio Preto(IBADERP). Já desenvolveu pesquisas e escreveu artigos sobre
temas relacionados à fé cristã em diversos
periódicos evangélicos e seculares.
Dentre os muitos publicados na revista Defesa da Fé. Leciona
Heresiologia, Angelologia e Novo Testamento na Faculdade de Teologia da Assembléia
de Deus do Calvário (FATAC).
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