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Do Sábado para o Dia do Senhor

por Prof. Paulo Cristiano da Silva - qua set 05, 9:57 pm

O SÁBADO E O DOMINGO NA HISTÓRIA DA IGREJA 

Estudos recentes nas ciências bíblicas demonstraram que o método de argumentação na base de “provas-texto” somente, é insuficiente na apologia. Não é difícil selecionar um grupo de textos para apoiar um tipo particular de argumentação. Tanto é fácil para o adventista catalogar vários textos para apoiar seu ponto de vista a respeito da guarda do sábado, como para os evangélicos apoiar o domingo.

A Bíblia inteira foi escrita dentro de um contexto histórico, e o que foi escrito por vezes foi condicionado por aquele contexto. Deus é um Deus da história, age dentro da história. Deus e seu plano salvífico não pode ser analisado como se Este, tivesse revelado em condições abstratas. Por exemplo, quando Paulo fala “Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também; se, porém, para a mulher é vergonhoso ser tosquiada ou rapada, cubra-se com véu.” I Co. 11:6 . Não podemos usar de maneira indiscriminada este versículo. Seu verdadeiro significado deve ser entendido sob o fundo histórico no qual foi produzido, dentro da situação da vida da igreja de Corinto. Corremos o risco de impor nossa forma de pensamento ocidental numa situação histórica e cultural diferente da nossa. O avanço da ciência secular tem ajudado às ciências bíblicas a desvendar detalhes da vida social, política e econômica do 1º século. Isso nos ajuda a entendermos melhor certas passagens do NT. Os rolos do Mar Morto, e as escavações arqueológicas recentes revelaram inscrições e documentos que ajudaram a entender melhor o quadro histórico na era apostólica. Novas luzes foram lançadas sobre velhas tradições. Como conseqüência disso, muitos argumentos arcaicos foram deixados de lado tornando-se inadequados e obsoletos. Por exemplo, desde que Eusébio escreveu sua história da Igreja houve uma tendência para idealizar a igreja primitiva como uma comunidade uniforme. Contudo, recentes pesquisas têm revelado que houve uma grande diversidade na igreja primitiva. As pessoas que ingressavam no Cristianismo procediam de uma vasta e diversificada camada cultural. Eles desenvolveram padrões diferentes de adoração e liturgia como também ênfases teológicas diferentes, sem, contudo, deixar de haver um principio unificador entre eles (unidade e não uniformidade). Admiti-se cada vez mais, que havia, no interior destes grupos, pelo menos quatro tendências diferentes e até mesmo de posição radical, a saber:

1. Tendência judaizante radical – Eram aqueles (convertidos do farisaísmo) que admitiam que sem a lei de Moises e a circuncisão os gentios não poderiam se salvar (Atos 15:1-5). Guardavam as festas, os sábados, oravam em hebraico, freqüentavam a sinagoga e eram devotos da Tora.

2. Tendência judaizante moderada – A segunda tendência era liderada por Pedro e Tiago. Tiago reflete muita aproximação com o espírito dos helenistas pois libera os gentios de observar as práticas judaicas (Atos 15:22-29).

3. Tendência helenista – A terceira tendência é formada pelos judeu-cristãos helenizados. Seus líderes eram Paulo e Barnabé. Admitiam que não havia necessidade de judaizar os gentios submetendo-os a lei de Moises.

4. Tendência dos helenistas radicais – A ultima dessas tendências é uma versão oposta dos primeiros. Eles interpretavam erroneamente a pregação de Paulo, transformando a liberdade em Cristo em libertinagem. Rejeitavam a lei de Moises, participavam de cultos pagãos e eram totalmente anti-semitas. Nesta tendência se radicalizará mais tarde Marcião e os nicolaítas.

UMA IGREJA, DUAS RAÇAS

OS CRISTÃOS DE FALA HEBRAICA 

Os primeiros lideres da Igreja eram todos vindos do judaísmo. Quando estes homens, hebreus de nacionalidade, tornaram-se seguidores de Cristo eles continuaram se considerando judeus ainda. Na verdade, eles acreditaram que faziam parte do remanescente escatológico de Israel. Eles não se consideravam como um grupo à parte do judaísmo. Eles viam em Jesus um cumprimento do judaísmo, não seu rompimento. Estes cristãos se esforçavam para provar a seus compatriotas que eram verdadeiros judeus. Aparentemente, eles tiveram êxito, pois Lucas registra que eles “caíram na graça do povo” (Atos 2:47). Tiago, irmão do Senhor e líder da Igreja de Jerusalém, cognominado, o Justo, teve grande prestigio entre o povo, e sua morte foi considerada um crime que trouxe sobre a nação, o julgamento de Deus (cf. H.E L: 2 cap. XXIII e Ant. Jud. XX, 200). Estes cristãos-judeus (Nazarenos) como eram chamados na palestina não romperam com a antiga tradição de seu povo. Eles continuaram freqüentando as sinagogas, adorando no templo, circuncidando seus filhos, abstendo-se de carne de porco (Atos 10:10-16), guardando festividades como: a páscoa, o pentecostes e o sábado. O conjunto das leis de pureza teve uma interpretação cada vez mais rigorista no judaísmo a tal ponto de os essênios chamarem os fariseus de “amenizadores” (Hinos, II, 16). Sendo a lei de Moises omissa neste ponto, introduziu-se o costume de proibir as refeições com os pagãos, pelo temor de manchar-se com a sua presença ou com os seus alimentos não Hasher. É sob este pano de fundo histórico que nós podemos entender o episódio de Gálatas 2:11-14. Até mesmo Paulo, teve que circuncidar Timóteo para não causar problemas com os judeus. E testemunhou que Ananias era “homem piedoso conforme a lei” (Atos 22:12). Aos judeus em Roma ele declarou que não havia feito nada que era contra a lei de seu povo(Atos 28:17).

Uma coisa fica clara analisando a questão: Paulo não nutria nenhuma objeção aos cristãos-judeus que continuaram o modo de vida deles de acordo com os costumes judaicos (Gálatas 2:9; Atos 21:20). Isto é ponto passivo entre evangélicos e católicos hoje em dia. Sammule Bacchiocchi, teólogo adventista, tem razão em afirmar em seu livro “Do Sábado para o Domingo” que a observância do Domingo em detrimento do sábado, não iniciou na Igreja de Jerusalém.


OS CRISTÃOS DE FALA GREGA

Fora da Palestina os judeus da diáspora se dividiam em duas categorias; (1) os hebraístas, não só retinham sua fé judaica, mas também seu idioma judaico e seus costumes palestinos, razão pela qual incorriam no ódio dos gentios (2) os helenistas, que haviam adotado o idioma, o estilo de vestes e os costumes gregos. Estes últimos tendiam por ser menos estrito e mais influenciados pela maneira gentílica de viver do que os da Palestina. Eles eram menos conservadores nos costumes judaicos do que seus irmãos de fala hebraica!

Não demorou muito e começou a surgir conflitos internos dentro da organização, os fiéis de origem grega começaram a queixar-se dos fieis de origem hebraica. Alguns estudiosos acreditam que o episódio registrado em Atos 6 envolveu mais que questões sociais, como no caso das viúvas. Realmente ao que parece, aquele incidente foi o embrião do desenvolvimento de dois movimentos diferentes dentro do cristianismo primitivo.

Como já mencionamos acima, os apóstolos ainda freqüentavam o templo e participavam de seus serviços. Mas certa feita, Estevão (um cristão helenista), em seu requisitório profético, condena o culto do templo e a lei de Moises, dizendo que a vinda de Cristo havia mudado tudo isto (Atos 6:8-15). A princípio, podemos deduzir com procedência, que Estevão foi o primeiro a entender a verdadeira missão do Cristianismo. Seus acusadores não titubearam em aplicar a sanção prevista no Deuteronômio contra aqueles que tentam desviar o povo da lei de Moises (Deut. 13:2-6). Isto porque, eles perceberam a atitude de Estevão em relação ao Templo. Era todo o sistema da lei que estaria ameaçado e, com ele, a existência do povo de Israel, pois a lei assegurava ao povo o quadro de sua existência. Como bem notou J. Dupont, a conduta de Saulo (“supõe que ele tenha visto no cristianismo uma apostasia em relação à lei e na fé cristã uma negação do seu ideal de estrita observância das prescrições da mesma lei”.

Há de se notar que a primeira perseguição contra a igreja de Jerusalém foi dirigida contra um helenista. Caso contrário como os apóstolos poderiam ter permanecido ainda em Jerusalém conforme Atos 8:1 ? O fato é que os cristãos hebreus foram tolerados na Palestina, com exceção de um breve período de perseguição por parte de Herodes, alguns anos depois. A expulsão dos helenistas de Jerusalém teve dois resultados significativos.

Primeiro, significou que a Igreja de Jerusalém foi purgada de seu elemento mais liberal e permaneceu uma igreja de judeus cristãos. Isto teve uma grande influência nos eventos subseqüentes.

Segundo, significou que os cristãos da frente missionária eram do movimento helenista. Os judeus cristãos não teriam sido tão ousados a ponto de quebrar um costume judaico da lei batizando um etíope (Atos 8:26-39 com Deut. 23:1). No entanto, a principal inovação missionária aconteceu em Antioquia. Aqui os helenistas não só teve êxito de pregar o evangelho aos judeus como também aos gentios (Atos 11:19-30). Os primeiros cristãos eram um tanto quanto relutantes em levar a mensagem além dos limites do judaísmo. Quando então, eles entenderam que os gentios faziam parte do plano de salvação, permaneceram apreensivos quanto a questão dos costumes e das tradições deles, isto porque, a Igreja-Mãe de Jerusalém, se via como um cumprimento do judaísmo. Mas Paulo não pensava assim, e já havia começado um trabalho transcultural entre os gentios!

Podemos encontrar um fundo histórico notável ao indagarmos a razão de Paulo ter se tornado o campeão do movimento helenista e o baluarte da doutrina da salvação pela fé, apesar de ostentar um rigoroso mas invejável curriculum (Filipenses 3:5,6,) de vida judaica. Porque Paulo sendo perseguidor ferrenho e quase um zelote, não se juntou aos seus amigos de Jerusalém no movimento de tendência mais radical do cristianismo primitivo ? Não era ele fariseu (parush) que denota “separação” ? Há duas razões obvias para isto:

• Paulo havia recebido seu evangelho diretamente de Jesus e não de homem algum (Gálatas 1:11,12). Certamente sua visão foi alargada, mais do que a de seus companheiros, pelo fato de suas constantes revelações ser dada diretamente por Jesus. Isto com certeza teve grande influencia em sua teologia. Isto se deu talvez, para suprir a carência de não ter andado com Jesus em seu ministério terreno como aconteceu com os demais apóstolos.

• Paulo, como sabemos, era fariseu. Na época o movimento dos fariseus se ramificava em várias tendências. É o que dá a entender o tratado Pirqé Aboth ao dividir os doutores em pares. No tempo de Herodes houve dois mestres que marcaram profundamente a história do judaísmo: Hillel, originário de Babilônia, favorável ao proselitismo e célebre por suas tendências liberalizantes; e Shamai, mais rigorista e desconfiado em relação aos prosélitos. O mestre de Paulo, foi Gamaliel I (Atos 22:3), o Velho, que era da corrente teológica de Hilel. Em relação a novel igreja (Gamaliel) era de prudente expectativa (Atos 5:34-39). Isto mostra como Paulo foi influenciado por eles e em parte explica a sua tendência liberal aos gentios ( Gál. 1:15,16; I Tim. 2:7) em contraste com a de seus compatriotas.

Um dos companheiros de Paulo era o grego Tito. Quando alguns judeu-cristãos insistiram que Tito deveria se circuncidar, Paulo resistiu até o fim recusando-se a ceder aos caprichos dessas pessoas (Gálatas 2:3-5). Desta maneira iniciou-se uma batalha teológica entre Paulo e estes cristãos em cima da Lei e da circuncisão. O Concilio de Jerusalém, Atos 15, foi convocado para dar solução a este problema. Entretanto, observando as cartas paulinas vemos que o apostolo não levou isto ao pé da letra. Por exemplo, em I Co. 8 ele parece ter liberdade de opinar favoravelmente a respeito de comidas oferecidas a ídolos, e tão pouco ele menciona o acordo de Jerusalém em quaisquer de suas cartas. Depois disso, muitos cristãos zelosos da lei (judaizantes) continuaram a campanha nas igrejas fundadas por Paulo, tentando “corrigir” possíveis erros e complementar alguns pontos doutrinários que haviam sido supostamente “negligenciados” pelo apóstolo. Era um movimento para impor a ortodoxia e devoção ao gosto judaico. Doravante os conflitos iriam se intensificar cada vez mais. Ao que parece , os oponentes teológicos de Paulo procediam principalmente da Igreja em Jerusalém, pelo menos é o que se depreende lendo Atos 15:24.

O ROMPIMENTO FINAL

Nós já vimos que este rompimento teve inicio com a partida dos “helenistas” da palestina. Com isso a igreja de Jerusalém ficou com predominância judaica (cf. Hist. Ecle. IV, cap. VI). Com o tempo, muitos deles regressaram para o legalismo total judaico, isto em parte, devido às circunstancias do ambiente judeu onde viviam. A epistola aos hebreus foi endereçada justamente para fortalecer a fé daqueles cristãos, que estavam sendo pressionados a voltarem ao judaísmo! Nesta época as vigências da lei, do templo, sacerdotes e sacrifícios ainda estavam em vigor, é o que subentende dos tempos dos verbos no presente, dos seguintes versículos do livro de Hebreus, 7:12; 8:3-5,13. Até mesmo nas coisas mais simples, os cristãos judeus se apegavam a seus costumes como por exemplo, ter ainda os escritos neotestamentario em rolo (como era costume judaico) e não em códice (como era costume romano) como aconteceu posteriormente.

Todavia, as coisas começaram a mudar quando os eventos do ano 70 até 135 D.C, resultaram na dispersão completa dos judeus da Palestina. Depois de 70 os judeus começaram a ficar mais hostis para com os seus irmãos judeus cristãos. Eis algumas razões:

É notório que os judeus cristãos não romperam de imediato com os costumes de sua nação, pois isto dificultaria a pregação do evangelho aos da “circuncisão”. No entanto, bem antes de setenta, uma brecha intransponível se estabeleceu em 62 A.D, entre judeus e judeus cristãos. O líder deles (Tiago) havia sido assassinado por ordem do Sinédrio. O recado havia sido dado: eliminamos o seu líder, portanto, parem com a evangelização. Outro fator que pesou bastante, foi o fato de que em 66 AD, perdidas as ilusões, a comunidade cristã da Palestina retira-se para Pella, para escapar da catástrofe predita sobre Jerusalém, cumprida em 70 A.D no momento em que a guerra judaico-romana começava. Isto significou que a igreja de Jerusalém teve de funcionar como uma igreja em exílio O zelo pela lei se confundia com o ardor patriótico. Ás vésperas do conflito não se podiam tolerar deserções. Na época todos os partidos judaicos eram importantes, para somar forças contra Roma (cf.Guerra VII, Josefo). E justamente nesta época os judeus cristãos abandonam seu território rompendo assim toda ligação sociológica com o meio ambiente da Antiga Aliança. Após seis anos de combate, Jerusalém e o templo caíram diante dos romanos. Judea Capta – “A Judéia foi capturada” – lia-se nas moedas cunhadas pelos romanos em comemoração de sua vitória no ano setenta de nossa era. Com a destruição do templo, desapareceu o último local natural de contato entre judeus e judeus cristãos. E mais ainda, enquanto os judeus tinham que permanecer fora de Jerusalém, os cristãos de origem judaica, que não havia participado da revolta contra os romanos, tiveram permissão de retornar, fixando-se mais uma vez na colina a sudoeste, hoje monte Sião. Ali construíram sua primeira igreja.

Após os fracassos das revoltas contra Roma, em 70 (Eleazar Bem Jair) e 135 (Bar Cochba) d.C, o judaísmo da Palestina foi-se consolidando crescentemente na direção da uniformidade, seguindo as linhas de um farisaísmo que buscava purgar de seu meio, elementos apocalípticos; porquanto os saduceus haviam perdido a sua base de influência, que era o templo, e os romanos haviam destruído as esperanças de seitas menores de tendência apocalíptica, como eram os essênios. Com a perda dos últimos vestígios de soberania, teve início a diáspora, a dispersão do povo judeu, que encontrou na religião um fator de preservação e unidade. De acordo com o Talmude, Vespaziano permitiu que Johanan estabelecesse uma academia em Jâmnia. Após a destruição de Jerusalém o Sinédrio foi expulso, mudando-se para Jâmnia. Diz a Enciclopédia Britânica que: “… Iochanan be Zakai conseguiu escapar do cerco de Jerusalém, levado por seus discípulos num ataúde. Apresentando-se ao governador romano, prometeu-lhe obediência e, em troca, pediu que lhe fosse permitido criar um centro de estudos judaicos em Iavne. Reunindo sábios e escribas, Iavne foi o núcleo da preparação judaica para sobreviver à dispersão, tendo a lei e a tradição como território, onde quer que se encontrassem os judeus.” “O longo período rabínico, que os historiadores situam entre os séculos II e XVIII, caracterizou-se pela elaboração, pelos rabinos (mestres de judaísmo), do Talmude. Na primeira época, chamada dos professores (tanaim), surgiram figuras como Judá ha-Nasi, da Palestina, que no início do século III fixou por escrito a lei oral: coleção de regras, comentários, interpretações e paradigmas baseados na Torá, preparada pelos rabinos Akiva, Meir e outros.” (Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda).

Após a revolta de Bar Cochba. O centro de estudos judaicos mudou-se para Usha, na Galiléia, perto da moderna Haifa.

Durante a ultima porção do primeiro século (80 A.D), os judeus incorporaram na liturgia de suas sinagogas a assim chamada Birkat Haminim , a maldição sobre os hereges cristãos (minim), , das dezoito “bênçãos”.

Em um contexto social tão rígido, a maldição sobre os cristãos tinha conseqüências no dia-a-dia, particularmente a expulsão das sinagogas dos cristãos de origem judaica, que ainda freqüentavam esses locais comuns de culto. A própria teologia judaica sentiu a necessidade de uma profunda revisão, precisamente para não dar argumentos aos cristãos. Assim, podemos ler em Gen. R., VIII, 9: “R. Simlai disse: em todo o lugar onde encontrareis um texto utilizado pelos minim em apoio das suas opiniões, encontrareis a refutação ao lado.” O tratado Talmúdico Berakot dizia: “Que os apóstatas não tenham esperança e que o reino da impertinência seja extirpado em nosso tempo. Que os nozrim e minim desapareçam num piscar de olhos.” Os últimos locais de contato para evangelização que restavam após a destruição do templo em 70 A.D, se tornaram inacessíveis!

Mas não só foram rejeitados pelos judeus, como também pelos cristãos gentios. Sabemos que no princípio a igreja de Jerusalém teve grande destaque de autoridade no movimento infante cristão. Mas como previam temerosamente muitos hebraístas, os crentes gentios excederam em número os crentes da comunidade judaica.

Um fato importante é que enquanto o cristianismo parecia aos olhos de todos, apenas mais uma seita judaica, não havia nenhuma censura como religio illicita, pois o judaísmo gozava do privilégio de religio licita (religião legal) dado a todas as religiões já existentes no império pela Pax Romana, mas quando foi se solidificando cada vez mais como uma religião autônoma e separada do judaísmo, o Estado então, começou a perseguir os cristãos pois havia uma lei que interditava novas religiões por temer agitações sociais, provocadas por essas invasões religiosas. Um texto citado por Cícero (De Legibus II, 8) asseverava: “Que ninguém tenha deuses particulares, nem novos, se eles não tiverem sido admitidos pelo Estado”. Isto teve inicio em 64 quando Nero põe fogo em Roma e acusa os cristãos, os quais são perseguidos e mortos. Tertuliano em seu “Apologeticum 8-9” insinua que nessa época, Nero, proibiu o nome “cristão”. Esse foi apenas um preâmbulo do que aconteceria nos séculos posteriores.

No princípio, os cristãos gentios acataram as instruções de Paulo quanto a tolerância aos costumes judaicos (Romanos 14). Mas a tensão aumentou porque com o passar do tempo alguns tinham se tornado mais judeus do que cristãos, essa vertente cristã com crise de identidade, queria impor os costumes e tradições judaicas entre as igrejas gentias. Inácio, que foi bispo de Antioquia, alguns anos após o período apostólico (98-117), estava descontente com a influência de cristãos judeus na Ásia Menor, diz ele: “É absurdo professar Cristo Jesus e judaizar. O Cristianismo não precisa abraçar o Judaísmo, mas o Judaísmo deve abraçar o Cristianismo, para que toda língua possa professar a companhia de Deus.”(Inácio, Aos Magnésios, X). Em meados do segundo século, Justino, o Mártir, havia dito ao judeu Trifão, que conheceu judeus que acreditavam em Cristo e mantinham a lei sem insistir que todos os cristãos deveriam fazer o mesmo, em contrapartida ele também conheceu outros cristãos judeus que pregavam a obediência à lei para os crentes gentios. Justino afirmava que os cristãos judeus eram livres para guardar o sábado, mas ele admitiu que para os cristãos gentios não havia necessidade disto (Diálogo com Trifão).

O cristianismo judaico se distanciou tanto dos cristãos gentios que já no segundo século Ireneu considerou-o uma heresia realmente. Depois de 70 d.C os cristãos judeus se subdividiram em várias facções.. Alguns foram chamados de “Ebionitas” (que significa pobre) enquanto outros foram chamados de “Nazarenos”. Eles mantinham o modo judeu de vida incluindo a guarda do sábado. A maior heresia dos Ebionitas era negar a divindade de Cristo. Um fato notável é que eles remontavam a origem de sua linhagem ao tempo dos cristãos judeus primitivos e reivindicavam ser os sucessores legitimo deles. Por volta dos anos 130, encontravam-se várias seitas judeu-cristãs com as mesmas características dos ebionitas a saber: rejeitavam os escritos de Paulo, consideravam Jesus como mero homem e seguiam a lei judaica. Na época de Trajano (90-117) alguns deles seguiram a liderança de um certo Elchasai ou Elkasai, provinham da região dos partas e se opunham ferozmente à doutrina de Paulo, foram chamados de “Elcasaítas”. Observavam toda lei mosaica. Apesar das conexões importantes que ainda mantinham cristãos judeus e cristãos gentios, em comunhão ainda que tênua, ao final da segunda rebelião judaica liderada por Bar Kochba 132-135 d.C, o cristianismo tinha ficado completamente distinguido do judaísmo. Esta mudança está ilustrada dramaticamente pelo fato de que todos os escritores do NT (exceto um) são judeus, e todos os autores pós-neotestamentarios da literatura cristã são gentios. Antes de 150 d.C, os escritores cristãos tinham freqüentes debates contra os judeus, seus ensinos e cultos e os ensinos e cultos do cristianismo.Quando a igreja de Jerusalém deixou de exercer influência significativa na igreja universal, a lacuna foi preenchida pela igreja de Antioquia e posteriormente Roma. O primeiro sinal de implantação do cristianismo em Roma aparece no decreto do imperador Cláudio (49 d.C) relatado por Suetônio, “Judaeos implsore Chresto assidue tumultuantes Roma expulit” Expulso de Roma os judeus porque, incitados por Cresto, provocaram constantes tumultos. Quando Paulo escreveu, eles já eram importantes e gozavam de algum renome (Rm 1:8). Os fatores que favoreceram Roma a assumir o papel que outrora fora da igreja de Jerusalém parece ser como segue:

1. Roma foi um segundo centro de Jerusalém. viviam lá muitos judeus (aproximadamente 50,000) como em Jerusalém.

2. Roma era o centro do mundo romano.

3. Roma teve um das maiores comunidades Cristãs do mundo.

AS IGREJAS GENTIAS E A LEI JUDAICA

É em parte verdade, quando Bachiochi afirma que o sábado era guardado pela igreja primitiva. Como já vimos, a igreja judaica observava o sábado, quando muito, observava os dois dias; é o que apontam os fatos históricos.

Isto porque, a legislação teocrática de Moisés permanecia como sustentáculo da ordem, da estabilidade social e como garantia da paz, do trabalho e da propriedade.

Os judeus desde sempre foram sujeitos a um regime político teocrático, aceitavam também na prática o culto religioso como parte oficial da lei – pois as leis de uma teocracia são tanto civis como religiosas e, por isso, têm autoridade sobre todos os cidadãos.

Na sua conceituação, transgredir uma disciplina religiosa consistia também em infração à lei civil nacional (como se vê ainda hoje nos países muçulmanos). Recusá-la seria rebelião, subversão, anarquia.

Os cristãos judeus submetiam-se à legislação mosaica por serem súditos de uma nação que se regia por ela. Eles, quer nos limites da Palestina ou quer espalhados na diáspora, agiam com a mesma obediência como qualquer cidadão judeu à lei teocrática do país. Isto desfaz por completo os argumentos sabatistas, onde pretendem mostrar Jesus e os discípulos observando o sábado.

Todavia, percebemos nas páginas do NT que o apóstolo Paulo faz uma nítida diferença entre os cristãos gentios e a lei.

Paulo deixou bem claro sua identidade judaica em Filipenses 3:4-6 “Se bem que eu poderia até confiar na carne. Se algum outro julga poder confiar na carne, ainda mais eu: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei fui fariseu; quanto ao zelo, persegui a igreja; quanto à justiça que há na lei, fui irrepreensível.” E como judeu ele fazia de tudo para ganhar seu povo “Fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivesse eu debaixo da lei (embora debaixo da lei não esteja), para ganhar os que estão debaixo da lei” I Co. 9:20

Foi assim que ele como judeu:

• circuncidou a Timóteo Atos 16:3

• fez voto de rapar a cabeça segundo a lei Atos 18:18

• fez votos de purificação Atos 21:26

• Guardava toda a lei Atos 21: 24; 28:17 

Contudo, deixou explícito que os cristãos gentios não estão sujeito a lei mosaica, conforme combinado no concilio de Jerusalém:

“Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós pudemos suportar?… Por isso, julgo que não se deve perturbar aqueles, dentre os gentios, que se convertem a Deus, mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, da prostituição, do que é sufocado e do sangue. Porque Moisés, desde tempos antigos, tem em cada cidade homens que o preguem, e cada sábado é lido nas sinagogas… Porque pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo além destas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição; e destas coisas fareis bem de vos guardar.”

E assim essa carta primeiro foi lida em Antioquia (que era a base missionária para os gentios) e depois em todas as igrejas gentias:

“Então eles, tendo-se despedido, desceram a Antioquia e, havendo reunido a assembléia, entregaram a carta. E, quando a leram, alegraram-se pela consolação…Quando iam passando pelas cidades, entregavam aos irmãos, para serem observadas, as decisões que haviam sido tomadas pelos apóstolos e anciãos em Jerusalém. Assim as igrejas eram confirmadas na fé, e dia a dia cresciam em número.” Atos 15:10-31; 16:4,5

Tiago estava bem cônscio disso, pois após pedir a Paulo para cumprir os rituais da lei mosaica (Atos 21:24), no mesmo fôlego deixa bem claro que os gentios não estão sujeitos a mesma lei que Paulo.

“Todavia, quanto aos gentios que têm crido já escrevemos, dando o parecer que se abstenham do que é sacrificado a os ídolos, do sangue, do sufocado e da prostituição.” Atos 21:25

Como cristão Paulo não admitia que impusesse os ritos e costumes judaicos sobre os gentios. E assim foi que:

• Mesmo circuncidando Timóteo, não permitiu circuncidar Tito que era gentio (Gálatas 2:3). Alguém poderá perguntar: Porque Paulo então circuncidou Timóteo se ele era gentio? O caso é que Timóteo era mestiço: grego por parte de pai e judeu por parte de mãe. Ele foi criado na lei da Torá desde a infância. Segundo a lei judaica, deveria ser circuncidado pois no caso era a ascendência materna que prevalecia. Segundo o rabino Yits’ chac Halevi Herzog, “somente é judeu o nascido de mãe judia. Se a mãe não for judia e o pai sim, o filho não é judeu”. Paulo para evitar dificuldades com os judeus, realizou o ato.

• Deixou claro que a circuncisão nada é I Co. 7:18,19.

• Não deixou os judeus cristãos impor seu modo de vida aos cristãos gentios Gálatas 2:14.

• Mesmo observando as festas nacionais como o pentecostes, na qualidade de judeu (Atos 20:16), todavia para os gentios, assegura que eles não precisariam fazer isso Colossenses 2:16,17.

Paulo sem misturar as áreas serviu as duas lealdades. Embora jamais haja imposto ou permitido que se impusesse cerimônia judaica alguma aos gentios. Um homem universal, vivendo sem confusão de consciência e de conduta, como judeu fiel à sua lei pátria, como cidadão romano ordeiro e como cristão submisso ao Senhor em convivência fraterna entre os gentios.

O CONCÍLIO DE JERUSALÉM 

Com a missão de Paulo aos gentios, muitos cristãos judeus ficaram alarmados. A mensagem do evangelho havia ultrapassado os limites de Jerusalém. Não era mais o caso de conversões individuais e esporádicas de pagãos, tais como as do centurião Cornélio e do Eunuco (Atos 8:26; 10:11). Agora porém, a igreja entre os gentios crescia e se multiplicava. Como lidar com este novo paradigma ? Os gentios haveriam de se tornar como um prosélito, aceitando os costumes judaicos como faziam os prosélitos do judaísmo ? Quando muitos observaram que Paulo não estava impondo o modo de vida judaico aos gentios, principalmente quanto a circuncisão, logo empreenderam uma campanha difamatória (cf. Atos 15:1,2).

QUAL A IMPORTÂNCIA DA CIRCUNCISÃO? 

É fácil imaginar como surgiu o litígio. Muitos judeus, e todos os judeus cristãos cujas idéias conhecemos, esperavam que os gentios fossem incorporados ao povo de Deus na era messiânica. Não havia, porém, nenhuma halaká determinando as condições para sua admissão. As passagens proféticas e poéticas (p. ex. Or. Sib. III, 772-5) que falam da entrada ou da submissão dos gentios nos últimos dias geralmente não trazem pormenores legais, se bem que em Isaias 56:6-8 parece denotar que a halaká é o sábado e a circuncisão. Todavia a exigência normal no judaísmo para entrar no povo de Deus era passar pela condição de prosélito. Obviamente muitos cristãos judeus pensavam que a mesma condição se devia impor inclusive nos últimos dias. Porventura não é justamente este o tema em lide na carta aos gálatas e romanos?

A circuncisão para o judeu não era apenas um mandamento, mas uma identificação pessoal e intransferível que o diferenciava de todos os demais povos. E até hoje é considerada a mais importante cerimônia do judaísmo. Nenhuma comemoração ou data deve impedir o menino judeu de fazer a circuncisão, nem mesmo o sábado ou o Dia da Expiação (Yom Kipúr ). A punição na Bíblia por violar a primeira é muito mais severa do que por violar a segunda. A quebra do sábado gera a morte, a do Dia da Expiação a excomunhão. Mas mesmo que o oitavo dia coincidisse com o Shabat, a criança deveria ser circuncidada (cf. João 7:22,23). Isto mostra como a circuncisão – considerada um mandamento cerimonial pelos sabatistas – é mais importante do que o mandamento “moral” do sábado!

Parece que a tese desses cristãos (judaizantes) partia da premissa de que ao estabelecer sua aliança com Abraão e sua descendência “para sempre”, Deus fizera da circuncisão o sinal da Aliança (cf. Gn. 17:11). A lei não valia só para os descendentes direto do patriarca, mas também para os escravos nascidos neste estado ou adquiridos a dinheiro. Por assimilação, aplica-se a lei também aos prosélitos, e a circuncisão aparecia assim como o sinal da entrada para o povo da promessa. Como duvidar da validade perpétua desta lei, quando Jesus nada dissera a este respeito?

Ora, fazer prosélitos dentre os gentios como já dissemos, não era nenhuma novidade entre os judeus, até mesmo os fariseus eram proselitistas (Mateus 23:15). Tibério inquietava-se com o sucesso do proselitismo judaico na alta sociedade, e isso explica em parte, a expulsão dos judeus de Roma, 49 A.D. Outras expulsões ocorreram posteriormente (Ant. Jud. XVIII). No entanto, a maioria dos pagãos permaneciam “tementes a Deus”, por que observavam a lei de Noé, não haviam dado o passo decisivo da circuncisão e, portanto não estavam obrigados a observar toda a Tora. Entretanto, quando um gentio tornava-se um prosélito do judaísmo, algumas exigências eram impostas a eles tais como: circuncisão, banho cerimonial na presença de testemunhas (um tipo de batismo), oferecer sacrifícios, guardar o sábado e observar as leis alimentares (Isaias 56:6,7). Para a conversão de uma mulher, é necessária apenas a imersão (micvá). Havia uma tradição bem estabelecida que dizia que só deveria ser esperado dos gentios piedosos, que guardassem apenas os mandamentos de Noé. Certa obra diz: “Os mandamentos de Deus estão resumidos no Decálogo (os Dez Mandamentos) transmitido a Moisés, mas os adeptos de outras religiões se salvarão se observarem os mandamentos dados por Deus a Noé, que incluem o repúdio à idolatria e à imoralidade.” (Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda).Um caso típico que exemplifica a importância da circuncisão no judaísmo é narrado por Flavio Josefo a respeito da conversão do rei Izates de Adiabene. (cf. Ant. Jud. XX, 38-49). Aos olhos dos judeus cristãos de Jerusalém, os pagãos convertidos ao cristianismo, mas não circuncidados, corriam assim o risco de aparecerem como cristãos de segunda classe, pois segundo criam, a porta para entrarem para o povo escolhido de Deus era a circuncisão. Já em Antioquia (Atos 11:26) os crentes helenistas foram chamados de “cristãos” pela primeira vez, porque seus inimigos identificaram a religião deles como algo separado do Judaísmo, livre da Tora.

A questão era: como a igreja poderia se defender da acusação de que gentios estavam tendo comunhão com judeus (pois judeus e gentios não se misturavam) sem ter passado pelo processo de conversão tradicional do judaísmo? Ligado a isto estava outro problema: como então eles poderiam provar que eram o verdadeiro remanescente israelita se seus conversos gentios não haviam se tornado prosélitos?

Porque os gentios não deveriam se conformar com os mesmos padrões dos primeiros cristãos? Como poderia uma parte da igreja aderir ao sistema judaico enquanto a outra não fazia caso disso ? Entretanto, Paulo era um desses “rebeldes” que via o plano de Deus de acordo com o Evangelho da liberdade. A igreja de Antioquia desfrutou uma liberdade que ele, Paulo, estava preparado para ir até as ultimas conseqüências a fim de defendê-la.

Alguns adventistas apelam para esta passagem dizendo que o silêncio quanto ao sábado no concílio, prova que não havia nenhuma controvérsia quanto a este assunto sendo, portanto, ponto passivo entre judeus e gentios, segundo dizem, as duas igrejas estavam em comum acordo em guardá-lo. Eles argumentam ainda que se a circuncisão causou um alvoroço entre os dois movimentos que dirá do sábado se houvesse sido questionado! Concluem então que não houve nenhuma discussão em cima da questão da guarda do sábado, pois era guardado por todos, gentios e judeus. Contudo, existe uma falha fatal em cima do “argumento do silêncio”, pois para o judeu, sendo cristão ou não, a circuncisão representava sujeição à lei ( cf. Romanos 2:25). A circuncisão de um prosélito era o símbolo de que ele havia aceitado o jugo da lei sobre si, como já falamos anteriormente. Era obrigado a obedecer a lei inteira (gálatas 5:3). Muitas passagens colocam a Lei e a circuncisão em justaposição (Atos 15:5; 21:21). O objetivo da reunião era para ver se os crentes gentios estavam sujeitos a lei toda e deveria viver como judeus ou não! Também é um erro de raciocínio supor que o debate do concílio girava em torno de aspectos rituais da lei. A lei para o judeu era considerada “Una”. Não há de se supor que dentro da teologia judaica havia separação entre lei moral e cerimonial. A única diferença que faziam era quanto “a lei escrita” (Torah) e “a lei oral” (Halakoth) e mesmo assim essa nuança era muito tímida. Até mesmo Flavio “Josefo parece estar bem próximo da concepção rabínica da Tora total: como a lei escrita, a Tradição também vem de Moises e, portanto de Deus” (Flavio Josefo Uma Testemunha do Tempo dos Apóstolos pág. 38, Contra Apião II). Veja que até mesmo a “Tradição” na concepção judaica, era considerada como parte da lei dada por Deus.

Demais disso, o NT não fala em nenhum lugar quais partes da lei eram consideradas rituais e quais eram morais. O Concílio tratou da lei como um corpo completo e não apenas parte dela. Maimônides, teólogo judeu-espanhol do século XII, resumiu a fé judaica em 13 artigos, que foram incorporados aos livros de oração um deles diz respeito à lei: “(8) Creio firmemente que a Lei que possuímos agora é a mesma que foi dada a Moisés; (9) Creio firmemente que essa Lei não será modificada, e que não haverá outra Lei (ou dispensa dela) dada pelo Criador, abençoado Seu Nome” (Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.).

É razoável pedir aos adventistas evidências que mostram Paulo impondo a guarda do sábado entre as igrejas gentias! O argumento do silêncio poderia favorecer a tese adventista, caso as cartas de Paulo fossem enviadas a cristãos judeus, mas estas cartas foram enviadas a cristãos gentios que nunca tiveram contato com os costumes judaicos e o sábado. Se o sábado fosse parte do aspecto moral da lei, o apostolo teria advertido os novos crentes contra este tipo de pecado (a quebra do sábado) como ele fez com os demais pecados em suas epístolas. Porque então este “pecado” (de não guardar o sábado) que segundo os adventistas, é o mais negligenciado de todos os mandamentos, ficou fora desta lista catalogada por Paulo em suas epistolas, após ele mesmo admitir que havia transmitido “TODO O CONSELHO DE DEUS” (Atos 20:27)? As evidências históricas apontam para o fato de que no império romano a escravidão era algo consumado, dentre esses escravos havia muitos deles que eram cristãos. Se as igrejas gentias houvesse guardado o sábado haveria uma total reprimenda por parte do Estado contra esses cristãos! Não foi por causa justamente do sábado que os judeus eram escarnecidos pelos romanos? Não diz Sêneca, irmão de Galião (Atos 18:15): “Os costumes desta nação muito criminosa (sceleritissimae gentis) se difundiram tanto que atualmente são aceitos em todas as nações…” (citado por Sto. Agostinho em ‘Cidade de Deus’, VI 11). Mas não encontramos na história nenhuma acusação contra os cristãos a respeito do sábado por parte de autoridades romanas.

O fato é que a decisão dos apóstolos foi uma completa vitória para os cristãos gentios e principalmente para Paulo, pois ficaram isentos da lei mosaica, mesmo sendo um acordo, com o intuito de haver comunhão de mesa entre ambos. Apenas foram privados de poucas coisas tais como: carne sufocada, prostituição e sangue que basicamente reflete os “Mandamentos de Noé”.

PAULO ENSINOU GUARDAR O SÁBADO?

O adventista Arnaldo B.Christianini, autor do livro “Subtilezas do Erro”, tentando refutar o pastor batista R. Pitrowsky autor do livro “O Sabatismo à Luz da Palavra de Deus”, sobre a omissão de mandamentos no NT a respeito da guarda sabática, sai pela tangente com a seguinte explicação esdrúxula: “Os adversários da verdade apresentam um quadro comparativo, ardilosamente engendrado e incompleto em que procuram demonstrar que o quarto mandamento não consta do Novo Testamento. Será que não lêem com atenção o Novo Testamento?” (Subtilezas do Erro, pág. 187 CPB 2º ed. 1981). Depois de tal pomposo aparato textual esperaríamos ler algum argumento realmente convincente, mas o único argumento apresentado são 90 reuniões catalogadas por ele de Jesus e Paulo nas sinagogas no dia de sábado! Paupérrimo silogismo!!!

PAULO, AS SINAGOGAS E O SÁBADO

A menção das reuniões sabáticas por Paulo no NT faz parte do catálogo dos argumentos invocados pelos sabatistas com o fito de provar sua tese. Todavia, tais sofismas não resistem a mais leve análise. Mas acompanhe porque Paulo entrava nas sinagogas no dia de sábado:

No período apostólico havia mais judeus habitando as terras estrangeiras do que o próprio Israel. Tem-se calculado que mais de quatro milhões de judeus viviam no Império Romano durante os dias do NT. Dificilmente o número de judeus que viviam na Palestina, atingia a cifra dos setecentos mil. Havia mais judeus na Síria do que na Palestina. A cidade de Alexandria, habitada por judeus desde a sua fundação em 331 a.C. registrou uma população próxima de um milhão de judeus entre 30 a.C. e 50 A.D. Existia lá uma sinagoga tão grande que o “amém” coletivo tinha de ser comandado por bandeiras.

Urgi rememorar ainda que as sinagogas eram de extrema importância para um devoto judeu. Mais ainda do que para os judeus de Jerusalém, que podiam ir ao templo, a sinagoga constituía para os judeus da diáspora, o centro de sua vida religiosa e social. Por causa disso, Paulo procurará, durante toda a sua vida, freqüentar os ofícios da sinagoga. Pois a liturgia era muito propícia ao apóstolo. Após orarem, cantarem um Salmo, lida uma passagem profética ou da lei, o chefe da sinagoga convidava algum visitante competente para pregar e explicar as escrituras, essa prática abriu muitas oportunidades para a pregação do evangelho nas sinagogas.

Outro fator interessante era que nestes lugares aglomerava-se grande quantidade de gentios (prosélitos ou “tementes a Deus”). A fecundidade da missão cristã se explica em boa parte por causa deste vasto reservatório de “tementes a Deus”. Os cristãos colheram com fartura onde o judaísmo havia semeado (cf. Atos 13:15).

Outrossim, o apóstolo havia recebido a incumbência de pregar primeiro aos judeus (cf. Atos 13:46). E desta maneira ele entrava na sinagoga para “disputar” com os judeus (cf. Atos 17:2; 18:4).

Veremos que quando ele se dirige para pregar aos judeus (primeiramente) Lucas faz menção da sinagoga e do sábado (Atos 13:14,42,44; 16:13; 17:2; 18:4); mas quando o apostolo volta-se para os gentios não há menção alguma destas duas coisas. Isto é significativo, pois se Paulo ensinasse os conversos gentios a guardarem o sábado haveria menção disto nos escritos neotestamentario. Um exemplo disso foi quando Paulo se dirigiu a sinagoga dos judeus em Corinto (Atos 18). Após a menção do sábado e da sinagoga, Lucas registra que o apostolo foi expulso pelos judeus. Deste momento em diante o ambiente textual muda com a declaração de Paulo: “…desde agora parto para os gentios.” (v.6) Lucas historia que Paulo ficou entre os gentios “UM ANO E SEIS MESES” (v.11). No entanto, não há mais menção sequer de sábado ou sinagoga alguma!

A questão crucial é que Lucas ao registrar as passagens de Paulo pelas sinagogas aos sábados não quer dar a entender com isso que tal ato serviria como exemplo de aprendizado prático para as igrejas gentias. Longe disso, ao estudarmos a questão com mais afinco veremos que as atividades de Paulo no determinado dia de sábado tem o seu motivo explicado a seguir:

1. As sinagogas propiciavam vantagens na difusão do evangelho.

2. Nestes lugares de culto, reunia-se considerável quantidade de gentios, já familiarizados com as leis judaicas.

3. A primazia da pregação era dada aos judeus.

4. O sábado e a sinagoga era o dia e o lugar ideal para maior rapidez do evangelho.

5. O apóstolo entrava para “discutir” com os judeus.

6. O sábado ainda fazia parte do sistema civil e religioso da nação.

7. Paulo era judeu e como judeu se conduzia como tal para ganhar seus patrícios (I Co. 9:20).

Se pelo fato de haver pregado aos judeus no sábado, nos impõe a sua guarda, então vamos as sinagogas também, circuncidemo-nos. Ou sábado, páscoa, sacrifícios, sinagogas… Ou NEM SÁBADO, páscoa, sacrifícios e sinagogas ou outro preceito da lei judaica.

A questão não é se os judeus ou Jesus observou o sábado, pois isto está as escancaras na Bíblia, e não poderia ser diferente, pois eles nasceram sobre a lei; não é se o apostolo Paulo pregou no sábado na sinagoga, pois isto não prova nada, mesmo nós realizamos cultos no sábado, contudo isso não é prova de que guardamo-lo. A questão é: O NT manda nós a Igreja (dos gentios) guardar o sábado ? A s evidências apontam que esta resposta tem de ser respondida na negativa.

OBRAS CONSULTADAS


? História Eclesiástica, Eusébio de Cesaréia, ed. CPAD.
? História dos Hebreus- Obras Completas, Flávio Josefo, ed. CPAD.
? Teologia Sistemática, Stanley M. Horton, ed. CPAD.
? Vida Cotidiana nos Tempos Bíblicos, Merril C. Tenney-J.I.Packer-William White. Jr., ed. Vida.
? Testemunha Ocular de Jesus, Carsten Peter Thiede e Matthew D’ Ancora, ed. Imago.
? O Cristianismo Primitivo, Stan-Michel Pellistrandi, ed. Editions Ferni.
? História da Igreja Cristã -Vol. I, II, W. Walker, ed. Aste.
? O Cristianismo Através dos Séculos, Earle E. Cairns, ed. Vida Nova.
? História do Cristianismo, A Knight e W. Anglin, ed. CPAD.
? Antologia dos Santos Padres, C. F. Gomes, ed. Paulinas.
? Paulo, a Lei e o Povo Judeu, E. P. Sanders, ed. Paulinas.
? Os Primeiros Cristãos Urbanos, Waine A. Meeks, ed. Paulinas.
? Os Partidos Religiosos Hebraicos da Época Neotestamentária, Kurt Schubert, ed. Paulinas.
? São Paulo e o seu Tempo, E. Cothenet, ed. Paulinas.
? Flavio Josefo – Uma Testemunha do Tempo dos Apóstolos, VV. AA, Documentos do Mundo da Bíblia-3, ed. Paulinas.
? Estudos particulares de Carlos Ramalhete.
? O Decálogo, F.G. Lopes, ed. Paulus.
? As Epístolas aos Colossenses e aos Efésios, E. Cothenet, ed. Paulus.
? Panorama do Novo Testamento, Roberty H. Gundry, ed. Vida Nova.
? Panorama do Pensamento Cristão, compilado por Michel D. Palmer, ed. CPAD.
? O Período Interbíblico, Enéas Tognini, ed. do autor.
? A Guarda do Sábado, Dr. Aníbal Pereira Reis, ed. Caminho de Damasco.


Cada autor é responsável pelo conteúdo do artigo.

8 Comentários

Comentários 1 - 8 de 8Primeira« AnteriorPróxima »Última
  1. Cara que show meu esse estudo.
    Pessoal do cacp gostaria de fazer uma pergunta -lembrando que eu acho o trabalho de vocês o máximo- porque voces em certos artigos fecham os comentários?

    1. eu suponho que fecham comentários devido a excessos dos internautas. pessoal do CACP recomendou-me escrever poucas linhas. estão certos, pois quem está dando os estudos são eles e não os nós.

  2. O melhor material que já li nos últimos 30 anos sobre o sábado, um forte material sobre o assunto, os surrados argumentos de que Jesus e os discípulos colheram espigas no sábado era de dar rosadas, parabéns para o por Prof. Paulo Cristiano da Silva .

  3. Porém, não é só no fato de Paulo pregar nas sinagogas no sábado que dá crédito à verdade sabática, mas sim esse versículo específico, dentre outros: Atos 16:13 

    1. William, dentro outros versículos ?? porque não guarda o “ano sabatico” de leviticos 25 ??

    2. Ei william paulo foi orar na beira do rio porque em filipos não existia sinagoga, e lá era o local em os judeus se reuniam entedeu?

  4. Bom, se na cidade de Filipos não existia sinagoga, então seria o lugar perfeito para Paulo fazer pelo menos uma menção sobre a mudança do sábado para o domingo.Mas observamos claramente que não é isso que acontece. 

  5. Paulo afirmou que ao vir a fé, já não permanecemos subordinados à lei (Gal 3:23-25). Seus princípios morais ainda nos são uma referência, mas o escrito da nossa dívida, sob as ordenanças, foi cancelado, removido inteiramente na cruz (Col 2:14), não mais nos fazendo escravos da lei.

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