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Entre Galileu e Dolly

por Prof. Paulo Cristiano da Silva - qui ago 30, 9:02 pm

Poucas vezes, na história, a Igreja Católica tomou caminhos tão conciliatórios em relação à ciência como nos últimos anos. João Paulo II, em 21 anos de pontificado, contrariou meio mundo ao reiterar a interdição aos métodos anticoncepcionais artificiais, entre eles a pílula e a camisinha. Foi também criticado por condenar com veemência a eutanásia, a pena de morte e o aborto, este último comparado ao “Holocausto da Segunda Guerra”. Mas, em meio à disposição inabalável de reafirmar dogmas morais, houve acenos importantes no campo da ciência. No final de 1996, assessorado pela Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano, que fornece suporte às decisões não religiosas do Santa Sé, o papa afirmou que a Teoria da Evolução, a dinâmica de seleção natural dos seres vivos identificada em 1859 pelo cientista inglês Charles Darwin (1809-1882), “é algo maior que uma simples hipótese”. O caminho estava aberto para se questionar a idéia do homem vindo do barro, que ganhou vida por um sopro divino.

“A ciência pode purificar a religião do erro e da superstição” – Papa João Paulo II

No ano seguinte, encerrou 12 anos de processo com a assinatura do perdão a Galileu Galilei (1564-1642), que enfrentou a tese da Igreja de que o Sol girava em torno da Terra. Quatro séculos depois, estava reconhecida a genialidade do astrônomo italiano que contrariou a idéia de pensadores como Ptolomeu, adotada por estudiosos medievais, de um universo geocêntrico. Tomada de simbolismo cristão, essa teoria de Ptolomeu pregava que o cosmos era uma grande escada, com Deus no ponto mais alto e a Terra no meio, acima do inferno. Ainda segundo a tese, giravam sobre o planeta imóvel sete esferas transparentes: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno.

Cópias humanas, não – Mas as concessões feitas pelo papa, inegáveis, foram em parte neutralizadas por novas polêmicas, surgidas do resultado das pesquisas científicas nas últimas décadas. A mais importante delas, a clonagem, que gerou a simpática ovelha Dolly, geneticamente idêntica a uma outra ovelha, projeta uma discussão profunda para as próximas gerações. O Vaticano não se posicionou contra a cópia de animais, mas condenou a duplicação genética de seres humanos. Recentemente, a imprensa divulgou o caso de um casal paulistano, na faixa dos 55 anos, prestes a perder o único filho, vítima de um acidente. A mãe, sem condições de gerar outra criança por meios naturais, confessou na ocasião: “Se as técnicas oferecessem segurança para o trabalho com seres humanos, gostaria de replicar meu filho.” Haveria, afinal, alguma situação em que a clonagem humana poderia ser admitida por especialistas e religiosos. “Este caso poderia ser aceitável do ponto de vista ético, desde que os pais tivessem o que chamamos de autodeterminação informada e esclarecida, ou seja, uma decisão tomada com todas as informações sobre a questão”, opina o pediatra Clóvis Constantino, associado do Departamento de Bioética da Sociedade Brasileira de Pediatria. “No futuro, essa seria uma situação em que a clonagem poderia ser admitida”, faz coro o médico e especialista em reprodução humana Roger Abdelmassih.

A veemência assumida por teólogos para discordar dessas opiniões mostra que o debate será longo. “Muitos gostam de definir a clonagem como uma tentativa de brincar de Deus. Prefiro dizer que é uma forma de brincar de capeta”, ataca Fernando Altmeyer, professor do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC de São Paulo. “Admitir situações para clonar um filho é um ato de egoísmo. Além disso, para se pensar em clonagem, seria necessário que a Igreja, antes, admitisse as fertilizações em proveta, e isso ainda não ocorreu”, completa Altmeyer. Opinião semelhante tem Márcio Fabri dos Anjos, professor da Faculdade de Teologia Nossa Senhora Assunção, da Arquidiocese de São Paulo. “A geração de uma vida, no complexo mecanismo da natureza, envolve algo muito maior que a vontade dos pais.”

Sexualidade – Altmeyer avalia que a possibilidade de clonagem de seres humanos será contestada com a mesma intensidade que o Vaticano defende, por exemplo, a virgindade de Maria. Por outro lado, questões como a da fertilização in vitro e do uso de camisinha para a prevenção de doenças como a sífilis e a Aids poderão ser equacionadas num futuro relativamente próximo. “Não me arrisco a estabelecer cinco, dez ou 15 anos. Mas a tendência é de que a Igreja faça algum tipo de concessão nestas áreas e, ao mesmo tempo, reafirme a importância das relações espontâneas no matrimônio”, explica Altmeyer. Pouco depois de assinar o perdão a Galileu, o papa João Paulo II fez uma de suas afirmações mais fortes sobre a relação milenar entre dogma e pesquisa. “A ciência pode purificar a religião do erro e da superstição. A religião pode purificar a ciência da idolatria e do falso absolutismo. Cada uma pode conduzir a outra para um mundo mais amplo, onde possam florescer.” O futuro dirá se a Igreja ousará abandonar de vez a proposição de Tertuliano, que foi uma de suas máximas: “Creio porque é absurdo.”
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