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Exegese em Mc 3.31-35 sobre a família de Maria

por Prof. Paulo Cristiano da Silva - seg fev 28, 7:27 pm

Introdução

O episódio da família de Jesus não é só intrigante da perspectiva cultural familiar oriental, mas do ponto de vista teológico. Ao examina-lo surge algumas perguntas pertinentes e necessárias: por que a família de Jesus foi procura-lo? Por que o clímax da cena mostra um certo antagonismo entre ambos? Que lição Jesus quis transmitir ao inverter o pertencimento parental?

1 – Visão Geral

Como é típico no evangelho de Marcos, a passagem sobre a família de Jesus é introduzida dentro do debate com os escribas acerca de uma cura feito por Cristo cuja narrativa fora ocultada, mas que na passagem paralela do evangelho de Mateus é identificada como a cura de um endemoninhado cego e surdo (Mt 12.22).

Marcos, como lhe é característico, introduz abruptamente tanto a chegada da família de Jesus, quanto a ordem para chamá-lo. É dito que Ele estava rodeado por uma “multidão” (ARC), “muita gente” (NVI). Marcos e Mateus omitem a razão do porquê sua família não poder entrar. Somente Lucas revela a razão disso: “e não podiam aproximar-se dele, por causa da multidão.” (Lc 8.19). Quando o recado chega até Jesus, ele olha para seus discípulos e afirma que os que estão ali, junto a Ele e que fazem, ou xecutam, no linguajar lucano, a vontade de Deus ou na versão mateana, Pai, é que de fato são sua família.

Delimitação da Perícope

A perícope em 3.31-35 parece na verdade o clímax do que é narrado no v. 21, “E, quando os seus ouviram isto, saíram para o prender; porque diziam: Está fora de si.”. A NVI traz “familiares”, ao invés de “seus” (ARC). Abaixo as razões consideradas para delimitar o assunto apenas do 31 ao 35:

a) A presença da conjunção grega kai (e) que introduz um novo tempo na cena;

b) A presença de novos personagens (mãe e irmãos de Jesus);

c) Um novo tema é colocado (o chamado dos seus parentes);

As características que apontam para o término da perícope são as seguintes:

a) Espaço: enquanto o verso 35 acaba com Jesus falando dentro da casa, o 4.1 muda para outro local (beira-mar);

b) tempo: o tempo da passagem muda pela introdução de outra pela conjunção kai;

c) Tema e gênero: é perceptível a introdução do tema Reino de Deus e a mudança de gênero (narrativa para parábola);

d) Elementos novos: barco e mar, elementos que não haviam até o verso 35;

e) personagens: sai a família de Jesus e volta a multidão.

Tradução

Segue abaixo o texto Grego do Novo Testamento editado por Eberhard Nestle, publicado em 1904.

31Καὶ ἔρχονται ἡ μήτηρ αὐτοῦ καὶ οἱἀδελφοὶ αὐτοῦ, καὶ ἔξωστήκοντες ἀπέστειλαν πρὸς αὐτὸν καλοῦντες αὐτόν. 32καὶ ἐκάθητο περὶ αὐτὸνὄχλος, καὶ λέγουσιν αὐτῷἸδοὺ ἡ μήτηρσου καὶ οἱἀδελφοίσου καὶ αἱ ἀδελφαί σουἔξωζητοῦσίνσε. 33καὶ ἀποκριθεὶς αὐτοῖςλέγειΤίςἐστιν ἡ μήτηρμου καὶ οἱἀδελφοί; 34καὶ περιβλεψάμενος τοὺς περὶ αὐτὸνκύκλῳ καθημένουςλέγειἼδε ἡ μήτηρμου καὶ οἱἀδελφοίμου. 35ὃς ἂν ποιήσῃτὸθέλημα τοῦΘεοῦ, οὗτοςἀδελφόςμου καὶ ἀδελφὴ καὶ μήτηρἐστίν.

Nova Versão Internacional em português, João Ferreira de Almeida

31Então chegaram a mãe e os irmãos de Jesus. Ficando do lado de fora, mandaram alguém chamá-lo. 32Havia muita gente assentada ao seu redor; e lhe disseram: “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e te procuram”. 33“Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?”, perguntou ele. 34Então olhou para os que estavam assentados ao seu redor e disse: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos! 35Quem faz a vontade de Deus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.

Versão João Ferreira de Almeida Revista e Corrigida

Chegaram, então, seus irmãos e sua mãe; e, estando de fora, mandaram-no chamar. 32E a multidão estava assentada ao redor dele, e disseram-lhe: Eis que tua mãe e teus irmãos te procuram e estão lá fora. 33E ele lhes respondeu, dizendo: Quem é minha mãe e meus irmãos? 34E, olhando em redor para os que estavam assentados junto dele disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos. 35Porquanto qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, e minha irmã, e minha mãe.

Versão da Bíblia de Jerusalém – espanhol

Llegan su madre y sus hermanos, y quedando se fuera, leenvían a llamar. 32 Estaba mucha gente sentada a sualrededor. Le dicen: ¡Oye!, tu madre, tushermanos y tushermanasestánfuera y te buscan.33El les responde: Quién es mi madre y mis hermanos?34 Y mirando en torno a los que estaban sentados en corro, a sualrededor, dice: Estosson mi madre y mis hermanos.35 Quiencumplalavoluntad de Dios, ése es mi hermano, mi hermana y mi madre.

Contexto histórico

O Novo Testamento não usa a terminologia latina família, mas casa, do grego oikia (At 16.32; Fl 4.22, II Tm 4.19). O evangelho de Marcos ao contrário de Mateus e Lucas, quase nada diz sobre a casa de Jesus. A primeira menção sobre seus parentes é justamente a da perícope em análise 3.21; 31-35 e indiretamente em 6.3,4. Nessas poucas passagens a família terrena de Cristo parece estar em conflito com sua missão. Mas isso não quer dizer que Jesus era contrário ao núcleo familiar em si. Ele reafirma os valores paternos do decálogo em 7.10-13.

Todavia, em contraste com os laços espirituais do Reino de Deus, o laço sanguíneo é colocado em segundo plano (Cf. 10. 29,30).

Curiosamente, o evangelho de Marcos, em nenhum momento coloca Maria, sua mãe, aos pés da cruz (Jo 19.25). Antes, dá preferência às outras “marias”, discípulas do Senhor (15.40.41), que o seguem desde a Galiléia, lugar do conflito de 3.31-35.

A pergunta que emerge deste quadro familiar exposto por Marcos tem a ver com o propósito do seu evangelho? Essa é uma possibilidade, já que os blocos de pensamento individuais devem necessariamente ligar-se ao telos geral do livro.

A tradição cristã desde cedo aponta João Marcos, como aquele que escreveu o segundo evangelho para uma comunidade em Roma, entre os anos 65-70 d.C. Havia nesta época uma perseguição a comunidade cristã daquela cidade e este evangelho vem dar conforto e consolação aos que estão perseguidos por causa do Reino de Deus e mostrar que Jesus é o Filho de Deus, o Messias esperado.

Muitos haviam perdido seus parentes ou mesmo tinham sido abandonados por eles ou querendo voltar ao seio familiar negando a fé. Marcos parece indicar que os laços espirituais são mais duradouros e importantes que os laços sanguíneos. Com a ausência de uma visão mais positiva da família de Jesus, Marcos mostra que aqueles que estão com Ele, fazendo a vontade do Pai é que de fato são os seus familiares no Reino.

Contexto literário

A perícope em apreço parece estar ligada aos versos 20 e 21, apesar do texto grego trazer simplesmente παρ’ αὐτοῦ literalmente “os da parte dele” ou “pertencente a ele”, que pode significar amigos ou parentes, denotando ambiguidade na interpretação.

O contexto, todavia, parece estabelecer que estes que saíram, do verso 21, são os mesmos que chegaram, do verso 31.

Marcos não permite que o texto flua, como faz, por exemplo, Mateus. Ele faz interpolações (uma característica do seu evangelho) no texto formando uma espécie de quiasmo:

A –A multidão está com Cristo v. 20

B –  A família o procura v. 21

C – Acusação dos escribas v. 22

D – Defesa de Cristo contra a acusação dos escribas vv. 23-30

B – A família o acha v. 31

A – a multidão está ao redor dele v. 32

Contexto cultural

Há dois elementos culturais nessa perícope que nos interessa, o primeiro diz respeito à cultura material, a casa (oikio) do primeiro século e o segundo à cultura social, a casa no sentido de família (oikia).

A narrativa marquiana aponta o espaço onde ocorre a crise parental – uma casa. Coleman faz a seguinte descrição quanto a essas moradias: “Na maioria dos casos, a estrutura delas era simples e bem pequena.”[1]Gower acrescenta a informação de que era um “aposento único, de cerca de três metros quadrados.”[2] Isso explica o problema da aglomeração no v.21 e a menção ao pão já que Gower também menciona que  “a casa para eles era apenas um abrigo, um local para se fazer as refeições e dormir”[3].

Tanto o Antigo quanto o Novo Testamentos, não possuem uma palavra específica para família. O termo que significa família no hebraico é bêth (casa) que “depois de significar o grupo de pessoas, provavelmente veio a referir-se à própria habitação”[4]

A família judaica incluía não só pai, mãe e filhos, mas estendia aos parentes e conhecidos. Parece ser deste tipo a família de Jesus (Cf. Lc 2.44).

Era essencialmente patriarcal. O trabalho materno era no lar. De especial importância para a presente análise é a condição da viúva judaica e do filho mais velho.

O primogênito exercia o direito de autoridade como chefe da família com a morte do pai. Era ele que deveria cuidar da oikia.[5]

Partindo desse fundo cultural dá para vislumbrar os conflitos existentes entre Jesus e seus irmãos. O evangelho de Marcos narra que as vezes ele simplesmente “desaparecia”  (Cf. Mc 1.35-37), quando deveria estar, como o chefe da casa, presente, cuidando da viúva e de seus irmãos menores (acredita-se que nessa época José já havia falecido).

Análise léxica

Texto grego:      καὶ ἔρχονται ἡ μήτηρ  αὐτοῦ καὶ οἱ    ἀδελφοὶ αὐτοῦ

 Transliteração: kai erchontai hē mētēr autou kai hoi adelphoi autou

Tradução:           e chegaram a mãe dele      e     os   irmãos dele

a) Irmãos

Dos vocábulos utilizados nessa passagem o que mais causa polêmica é sem dúvida ἀδελφοὶ (irmãos). A teologia católica possibilitou algumas interpretações para adelphós que varia de primos, parentes e irmãos na fé com o objetivo de defender o dogma da “virgindade perpétua”.

Das 343 vezes em que o N.T usa o termo “adelphós”, ele reduz basicamente a dois sentidos a palavra “irmão”: o literal, a de irmão legítimo (Mt 4.21) e o metafórico (I Co 1.1).

A Bíblia deixa patente que quando aparece a palavra “irmãos” junto às palavras “pai” e “mãe”, denota uma clara filiação legítima de sangue”. Há de se esperar que nas 15 ocorrências em que é empregado o termo “adelphós” em relação à Jesus, o sentido básico é mesmo o de irmãos legítimos.

Os escritores sabiam e faziam distinção entre os termos: irmão adelphós, primo anepsiós (Cl 4.10) e parentes sungenes (Rm 16.11).  Mesmo Paulo que usava abundantemente de forma metafórica esta palavra falava dos “irmãos” do Senhor de modo a não deixar dúvidas quanto ao seu parentesco biológico (I Co 9.5 – Gl 1.19).

b) Multidão

Um termo que chama atenção é o substantivo multidão.  O texto diz que “E a multidão estava assentada ao redor dele” (v.32). Em Mc 3.20 diz que ele estava em uma casa, provavelmente dentro, pois entrou ali para comer pão. A pergunta que fazemos é a seguinte: como uma multidão poderia caber dentro de uma pequenina casa da palestina?

A palavra correta era realmente multidão ou essa palavra poderia ser traduzida de outra maneira?

Texto grego:         καὶ      ἐκάθητο       περὶ     αὐτὸν     ὄχλος 

Transliteração:     kai        ekathēto      peri      auton     ochlos

Tradução:             e          sentou-se      volta     dele     multidão

O termo usado para multidão no texto grego é ὄχλος . A concordância de Strong no verbete 3793 ochlos – traz a seguinte definição: “1) multidão 1a) ajuntamento informal de pessoas 1a1) multidão de pessoas que se reuniram em algum lugar 1a2) tropel 1b) multidão 1b1) povo comum, como oposto aos governadores e pessoas de importância 1b2) com desprezo: a multidão ignorante, o populacho 1c) multidão 1c1) multidões, parece denotar grupo de pessoas reunidas sem ordem.”[6]

O termo ὄχλος aparece nos seguintes textos: Mateus 9:23, 25 – 15.10 ; Marcos 2.4 – 3.9 ; Lucas 5.1, 19 –  7.9; João 5.13 – 6.22, 24 – 7.20, 32, 49; Atos 14.14 –  17.8 – 21.34.

Das principais traduções brasileiras de João Ferreira de Almeida, Revista e Corrigida (ARC) é a única que traz o susbstantivo multidão. As demais trazem “muita gente” (NVI, BLH, ARA, TB), “muitas pessoas” (NBV) e “grande número de pessoas” (KJA).

A versão católica Ave Maria também segue a ARC de perto em “multidão”. Nas traduções de língua inglesa protestante temos “multitude” em KJB, ERV, WEB, YLT e “crowd” em DBT, TNAB. A diferença é que multitude é uma forma mais abstrata, enquanto crowd é um público conhecido, mais específico.

Nas de fala espanhola temos “la gente” (RV -1909), “mucha gente” (BJ, BL).

Não se pode sanar a dúvida simplesmente recorrendo ao original. Talvez a tradução “muita gente” seja preferível à “multidão”, quando o texto subentende que ela estava “do lado de dentro” da casa. É bom salientar que se Marcos quisesse descrever uma edificação maior que oikio, ele usaria talvez anagaion, cenáculo como em Mc 14.15, “isto é, uma sala no andar de cima, e grande…”[7] que comportariam uma “multidão”. Seja como for, Marcos dá a entender que havia um número maior de gente que não apenas os discípulos.

Análise Estilística

Marcos é o evangelho da ação. É o mais curto de todos. Ele se preocupa com os atos de Cristo em detrimento aos seus discursos. A palavra “logo” é uma característica deste evangelho.[8]

Champlin afirma que “De um total de oitenta e oito secções e subsecções desse evangelho, oitenta começam com ‘e”.”[9]

Marcos utiliza o polissíndeto, uma figura de estilo discursiva que consiste no emprego repetido e intencional de conjunções. O estilo de Marcos é o estilo da ação e ele o faz por meio da conjunção kai. Somente nesta perícope, de cinco versículos, há um total de onze kai (e). Isso possibilita mais fluidez ao texto.

Outra característica são as interpolações que ele realiza[10] O contexto literário da perícope em apreço mostra muito bem esse estilo do evangelho. Ele começa o assunto no verso 20 falando da família de Jesus, intercala com uma resposta de Jesus aos escribas sobre o reino dividido e só então retoma no verso 31 ao 35 a narrativa com o diálogo sobre a família de Jesus. Outros lugares onde ocorre interpolações nesse evangelho  são os seguintes: 5.21-43; 6.6-32; 11.12-24; 14.1-11.

Merismo: essa é uma figura de linguagem que reduz uma série completa em duas partes. Por exemplo, “céu” e “terra” (Gn 2.4), significa todo o universo; “dia e noite” (Sl 88.1), um dia inteiro. No caso em apreço temos o merismo em “irmãos e sua mãe” repetido dos versos 31 ao 34, para significar toda a família de Jesus.

Análise Teológica

A perícope em apreço está entrelaçada com narrativa e diálogo. A resposta de Jesus no verso 35 revela duas questões doutrinárias que perpassa por todos os quatro evangelhos, isto é, “a verdadeira família de Deus” e “obediência a Deus”.

Era próprio de Cristo se apropriar de um assunto secular, cotidiano, normal e eleva-lo a um nível mais alto: do físico ao metafisico, do terreno ao celestial (Cf. Jo 3.3-5; 4.9-10; 6.31-33; 8.33-35 e outros).

Jesus se aproveita da informação de que sua família estava do lado de fora lhe chamando, para então, ensinar sobre a verdadeira família divina. Não é mais uma questão de consanguinidade (Mt 3.9), mas de filiação divina (Jo 1.12)

A família de Jesus são os que estão “dentro” e “assentados aos seus pés” ouvindo suas palavras (Cf. Lc 10.39,42) em contraste com os que eram seu sangue, mas que estavam “em pé”, “do lado de fora” e que ainda não criam Nele (Jo 7.5), mas que achavam que tudo aquilo não passava de insanidade mental (Mc 3.21).

A fé no Filho de Deus é a chave de inclusão para a família de Deus (Gl 3.26), uma família que reúne “todo aquele…” (v. 35), gentio ou judeu (Ef 2.10-19), que fizer a vontade de Deus.

Se por um lado o mero laço sanguíneo não é suficiente para fazer parte da família de Deus, por outro, não se trata de mero assentimento mental (fé mental) aos seus discursos que garantirá a entrada à família Dele, mas a prática, a obediência aos seus mandamentos (Mt. 7.26; Lc 6.46).

Correlação

A perícope da família de Jesus é narrada pelos sinópticos de maneira ligeiramente diversificada e independente.

Mateus 12:46-50

A) E, falando ele ainda à multidão, eis que estavam fora sua mãe e seus irmãos, pretendendo falar-lhe.

B) E disse-lhe alguém: Eis que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, que querem falar-te.
C) Ele, porém, respondendo, disse ao que lhe falara: Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos?

D) E, estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos;
E) Porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe.

Lucas 8:19-21

A) E foram ter com ele sua mãe e seus irmãos, e não podiam aproximar-se dele, por causa da multidão.

B) E foi-lhe dito: Estão lá fora tua mãe e teus irmãos, que querem ver-te.
C) Mas, respondendo ele, disse-lhes: Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a executam.

Marcos 3:31-35

A) Chegaram, então, seus irmãos e sua mãe; e, estando fora, mandaram-no chamar.
B) E a multidão estava assentada ao redor dele, e disseram-lhe: Eis que tua mãe e teus irmãos te procuram, e estão lá fora.

C) E ele lhes respondeu, dizendo: Quem é minha mãe e meus irmãos?
D) E, olhando em redor para os que estavam assentados junto dele, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos.

E) Porquanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, e minha irmã, e minha mãe.

Mateus é o evangelista que mais segue de perto Marcos nesta passagem. Ambas as passagens nos dois evangelhos veem precedidas pela polemica com os escribas (Mateus acrescenta os fariseus) sobre a expulsão de demônios e a advertência sobre o pecado imperdoável.

Mas Lucas desconecta essa passagem desse contexto e faz um arranjo totalmente diferente, onde a perícope é isolada da polêmica com os opositores de Cristo.

O episódio da polemica e do pecado imperdoável só irá aparecer mais a frente no capítulo 11 desse evangelho. Mas surpreendentemente ele acrescenta uma fala inédita de uma terceira pessoa no episódio que pode muito bem remeter à perícope isolada e curta de Lc 8.19,20: “E aconteceu que, dizendo ele estas coisas, uma mulher dentre a multidão, levantando a voz, lhe disse: Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos em que mamaste. Mas ele disse: Antes bem aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam.” (Lc 11.27,28).

Se essa inserção lucana do diálogo de Jesus com essa mulher, no contexto da perícope, preceder a chegada da família de Jesus, nós temos então uma pista razoável para acreditar que a resposta de Jesus não nasce exclusivamente da fala do mensageiro, mas que já havia um precedente para a sua resposta.

Atualização

Já havia na tradição judaica a ideia firmemente arraigada da sobreposição familiar. No Gênesis Deus diz para o homem deixar pai e mãe (sua família) e se unir a sua mulher formando uma só carne (uma nova família). Em mais de uma ocasião Jesus contrasta a filiação étnica de ser descendente do “Pai Abraão” com àqueles pertencentes ao “Pai Celestial” (Jo 8.48,52).

Qual será então o princípio transcultural por detrás deste ensinamento de Cristo sobre a família real? O princípio subjacente ao ensinamento é estabelecer um grau de hierarquia e prioridade: o que importa é a entrada na família de Cristo por meio da fé Nele e da obediência aos seus mandamentos e isso não depende de consanguinidade ou etnicidade de quem quer que seja. A família de Deus está aberta às multidões.

Em um segundo plano o texto mostra que ao contrário do que ensina a crença católica romana, Jesus não está subordinado a Maria. Cada vez mais ele vai se desprendendo dos laços biológicos com Maria onde o ápice final deste desligamento aparece na cruz, quando então, Jesus passa a maternidade de Maria a João (Jo 19.26,27).

Aplicação

Algumas aplicações fluem naturalmente da atualização da perícope. Enquanto cristãos temos de estar cônscios dos critérios estabelecidos pela Palavra de Deus quanto à filiação à comunidade da fé. Destaca-se dois deles pela sua importância:

a) A família natural – a salvação é individual e não depende da fé de meus familiares, pai e mãe. Ao contrário da mentalidade judaica que acreditava que pelo fato de já nascerem judeus já faziam parte da aliança com Deus, o cristão sabe que sua aliança familiar depende de sua fé em Cristo. Os filhos de cristãos que nasceram em lares cristãos ou como denominamos, “dentro da igreja”, não são automaticamente cristãos. Eles precisam individualmente exercerem sua fé pessoal em Cristo e segui-lo em obediência.

b) O denominacionalismo – a perícope também nos alerta contra o ufanismo denominacional. A denominação não é o passaporte para a família de Deus. Ela é apenas um arranjo humano para acomodar as crenças cristãs dentro de uma dada cultura religiosa. A salvação está em Jesus e não na denominação.

Conclusão

A perícope de Marcos 3.31-35 mostra como o evangelista articula seu evangelho para alcançar o telos que é confortar a comunidade para qual está escrevendo. Sendo considerado o primeiro evangelho e o mais curto, Marcos usa um estilo prático utilizando suas fontes cuidadosamente de modo a montar um cenário de ação para o ministério de Cristo. Uma dessas ações era pregar o evangelho do Reino de Deus.

A pericope mostra esse contraste entre a obediência à vontade do Pai e a obediência aos deveres familiares. Jesus coloca em xeque a tradição familiar judaica ao optar pela obediência às coisas espirituais em detrimento das carnais. Com essa ação Jesus se desprende ainda mais das amarras da tradição e constrói uma ruptura entre eles, o que gera mal-estar entre Ele e sua família natural.

Doravante, o mais importante é pertencer à família de Deus pela fé e obediência a Deus e às necessidades do Reino, inaugurando assim a comunidade da fé onde fazem parte todos os que ouvem crendo e prosseguem obedecendo.

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Referências bibliográficas

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COLEMAN, William L. Manual dos tempos e costumes bíblicos. Tradução de Myriam Talitha Lins. Venda Nova: Betânia, 1991.

Comentário Bíblico Broadman: Novo Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1983.

DOUGLAS, J,D. O Novo Dicionário da Bíblia. Editores Assistentes: F.F. BRUCE – R.P SHEDD, Tradução: João Bentes. São Paulo: Vida Nova, p.598.

GEMEREN, Willem A. Van (org.). Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2011.

GOWER, Ralph. Usos e costumes dos tempos bíblicos. Tradução de Neyd Siqueira. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.

MULHOLLAND, Dewey M. Marcos: Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2005.

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RIENECKER, Fritz; ROGERS, Cleon. Chave linguística do Novo Testamento grego. São Paulo: Vida Nova, 1988.

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STRONG, JAMES. Dicionário Bíblico Strong: Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2002.

[1]COLEMAN, Willian L. Manual dos tempos e costumes bíblicos. Venda Nova-MG: Ed. Betania, 1991, p. 14.

[2]GOWER, Ralph. Uso e costumes dos tempos bíblicos. Rio de Janeiro: CPAD, 2002, p. 31.

[3]Ibdem.

[4] DOUGLAS, J,D. O Novo Dicionário da Bíblia. Editores Assistentes: F.F. BRUCE – R.P SHEDD, Tradução: João Bentes. São Paulo: Vida Nova, p.598.

[5]Ibdem, p. 600.

[6] STRONG, JAMES. Dicionário Bíblico Strong: Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2002, p. 1555.

[7] Comentário Bíblico Broadman: Novo Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1983, p. 461.

[8] No entanto, Pohl acredita que o ““Logo”, portanto, não é típico de Marcos em si, mas de uma ou algumas de suas fontes.” POHL, Adolf. O evangelho de Marcos: comentário esperança. Curitiba: Ed. Evangélica Esperança, 1998, p. 12.

[9] CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo: Vol 1. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 659.

[10] MULHOLLAND, Dewey M. Marcos: Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 30.


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