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Reprodução de Madona do Parto de Piero Della Francesca,
Capela do Cemitério de Monterchi, Arezzo
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GRAVIDEZ Segundo Tiago, suposto irmão de Jesus, José teria
desconfiado da gravidez de Maria (retratada por Piero della
Francesca em Arezzo, acima à dir.). Equivocado, o carpinteiro
conclui que ela traiu sua confiança. Levado a um tribunal por
ter 'violado' a virgem que recebeu do Templo, ele protesta
inocência ao sacerdote
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O livro conta, entre outros episódios, como foi a concepção
milagrosa de Maria pelas preces de sua mãe, Ana, a avó de Jesus.
Inconformada por não poder ter filhos, Ana pediu a Deus que abençoasse
seu ventre. Ele não só atendeu à súplica, como fez voltar seu velho
marido, que, humilhado por ser justo e não gerar descendentes, foi
para o deserto jejuar. Como na história de sua filha Maria, um anjo
desceu até ele e garantiu que ela seria bendita entre as mulheres. O
Novo Testamento fala pouco da mãe de Jesus, mas o Proto-Evangelho de
Tiago, esquecido pelo catolicismo, é rico em detalhes. Curiosamente,
foi adotado por artistas que pintaram cenas da vida da Virgem por
encomenda da própria Igreja.
É por intermédio de Tiago que conhecemos os pais de Maria, avós de
Jesus, a estéril Ana e o milionário criador de rebanhos Joaquim, que
receberam a graça prometida pelo anjo. A Igreja não conseguiu eclipsar
seus nomes. Apesar de ausentes no Novo Testamento, a tradição católica
absorveu bem a história do Proto-Evangelho de Tiago. Diz o texto que
Joaquim não teve filhos durante 20 anos de casamento até o nascimento
de Maria, menina prodígio que sabia dançar aos 3 anos e ficou grávida
aos 16. Criada por donzelas, foi recebida pelos sacerdotes do Templo
por promessa dos pais. Segundo o apócrifo Evangelho de Maria, em que a
mãe de Jesus narra suas memórias a João Evangelista, seus pais sabiam
que ela iria gerar o Messias. Do Templo, ela só sairia para casar com
José, ao atingir a adolescência.
Antes mesmo da primeira menstruação - os religiosos daquele período
acreditavam que o sangue maculava o Templo -, a menina casou com o
velho carpinteiro, de cujo cajado brotou uma flor - sinal de ter sido
eleito pelo Senhor para tutelar a Virgem. Apesar disso, José, que
teria mais de 80 anos, relutou em aceitar uma jovem como esposa com
medo de ser objeto de zombaria. No livro O Evangelho Secreto da
Virgem Maria (Mercuryo), do padre católico espanhol Santiago
Martín, a Virgem teria concebido o filho numa gruta (e não num
estábulo), antes mesmo de seu casamento com José. O Proto-Evangelho de
Tiago faz Jesus nascer nessa gruta, mas cria informações
contraditórias, ao assumir o parto num lugar miserável, incompatível
com alguém que era neto de um homem rico como Joaquim. Outros
historiadores defendem ter sido José um grande construtor, pertencente
à alta classe da Palestina. As contradições não param por aí. No
evangelho apócrifo de Maria, a Virgem garante que Jesus era um menino
'lindíssimo', em nada parecido com aquele feioso e primitivo hominídeo
paleolítico que os jornais andaram estampando como a 'descoberta
científica' do século.
| Reprodução de Apresentação ao Templo de
Giovanni Bellini, Galeria Querini, Stampalia, Itália |
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| TRADIÇÃO Passada a quarentena que
a lei mosaica prescrevia para a purificação, o bebê Jesus foi
apresentado por sua mãe Maria aos sacerdotes do Templo (conforme
mostra a tela de Giovanni Bellini). Uma parteira teria queimado
uma das mãos ao tocar o corpo de Maria para testar sua virgindade |
No Evangelho Pseudo-Mateus, outro apócrifo, o menino Deus é
retratado como um aluno impaciente, que desafia seu primeiro
professor, Zaqueu, a explicar o que representam as letras alfa e
ômega. De acordo com outro apócrifo, o paciente José teve de aturar o
gênio difícil do filho até os 111 anos. Morreu sem um dente estragado
e enxergando muito bem. Jesus teria, então, 18 anos. Prometeu ao pai
que seu corpo não entraria em decomposição, permanecendo intacto até o
dia da primeira ressurreição. Jesus ficou mais 12 anos sem sair de
Nazaré, herdando dele a carpintaria - ou a firma de construção, que
teria, inclusive, trabalhado para o tirano Herodes Antipas, segundo
alguns pesquisadores. Ficaram para trás as brincadeiras e sua turma, a
única da cidade que não se divertia brincando de matar romanos. A
Igreja Católica consagrou a história de José carpinteiro, mas, em
aramaico, a palavra naggar tanto pode significar artesão como erudito,
lembra o jornalista A.N. Wilson.
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Retrato de Tiago, Igreja Ortodoxa Russa, Alasca
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Adulto, Jesus abandonou o anonimato e começou a pregar, seguindo a
carreira do primo João Batista. As relações com a família nunca foram
cordiais, revelam os apócrifos. A mãe ficou aflita por Jesus ter se
perdido na cidade aos 12 anos. Ele não a consolou, mas repreendeu-a.
Mesmo Marcos, o evangelista do Novo Testamento, narra um episódio em
que a mãe e os irmãos de Jesus tentam interromper uma pregação sua e
este, irritado com quem o alertou da presença familiar, pergunta:
'Quem é minha mãe? E meus irmãos?' (Marcos 3, 31-35). Bernheim, autor
de Tiago, Irmão de Jesus, julga que a pergunta seca seria uma
resposta à oposição familiar a seu comportamento subversivo, que
colocava em risco os parentes. 'Designando os que estão sentados em
volta dele como sua verdadeira família, ele indica claramente que sua
família biológica não faz parte daqueles que cumprem a vontade de
Deus', observa Bernheim. A rispidez é recíproca. A família chamou-o de
louco.
No evangelho apócrifo de Maria, ela chega a desconfiar das
visões do filho. Nele, a mãe de Jesus conta que o primeiro contato de
Cristo com a morte foi aos 6 anos, ao ver o avô Joaquim no sheol, o
lugar dos mortos dos judeus. Ao ser inquirido sobre como obteve essa
informação sobre o mundo sobrenatural, Jesus teria respondido: 'De meu
Pai'. Maria olhou fixamente o filho e perguntou mais uma vez: 'José
lhe disse que seu avô está vivo? Falou da ressurreição dos mortos?'
Conclusivo, Jesus teria respondido: 'Não, não foi José'. Tal
informação só poderia, então, ter partido do próprio Deus.
| Reprodução de O Encontro do
Senhor Deus, 1854-60, de William Holman Hunt, Birmingham
Museums And Art Gallery, Inglaterra (à direita) e reprodução de
Jesus Confiando Sua Mãe a São João, c.1450, assistente de Fra
Angelico, Museu de San Marco, Florença (à esquerda) |
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| PRODÍGIO Tiago, o Justo, tido como
irmão de Jesus por alguns estudiosos, conta em seu proto-evangelho
a infância do menino, visto na tela de Holman Hunt (abaixo) ao
lado da mãe, após discutir a Lei com eruditos no Templo, incidente
narrado no Evangelho de Lucas |
Assim como existem dois pais, também existem dois Jesus para os
historiadores. Um seria Cristo. Outro seria o judeu Yeshua, condenado
à morte por desafiar os romanos e o Templo de Jerusalém em plena
Páscoa. O historiador Flávio Josefo escreveu sobre sua morte. Ele
também conta que o sumo sacerdote Anás convocou uma sessão do Sinédrio
e obrigou Tiago, 'o irmão de Jesus, chamado o Cristo', a apresentar-se
diante dele. 'Qualquer leitor sem preconceitos concluiria que Maria e
José tiveram outros filhos', diz o autor do polêmico livro O Outro
Jesus, Antonio Piñero, da Universidade Complutense de Madri. Para
o estudioso, Maria teve relações normais com José depois do nascimento
prodigioso de Cristo. Ou seja, não criou os filhos do viúvo, mas teve
os próprios depois de Jesus. Só mesmo uma mãe cheia de filhos poderia
ter perdido um deles numa peregrinação e só se dar conta quase um dia
depois.
Piñero refere-se ao episódio descrito no evangelho canônico de
Lucas, quando Maria encontra finalmente o filho perdido de 12 anos,
discutindo no Templo com eruditos e doutores da Lei. E por que não
pregando aos irmãos? 'Porque eles não acreditavam em Jesus e, em algum
momento, tentaram mesmo boicotar sua carreira', responde o
catedrático. Não conseguiram. Numa sexta-feira, um cadáver foi
sepultado por Nicodemos e José de Arimatéia. Na manhã do domingo,
ressurgiu dentre os mortos. Era Jesus. Não o histórico, mas o Deus
encarnado. É essa ressurreição que milhões de cristãos comemoram na
Páscoa.
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