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Fator Melquisedeque – Revelação Geral

por Artigo compilado - seg jan 13, 1:46 pm

A Pastora, Millet

Javé – “Deus” em nossa língua – fez a um homem, inicialmente chamado Abrão, algumas promessas estupendas, há cerca de 4.000 anos atrás. Javé ordenou a Abrão que deixasse sua terra, seus parentes e a casa de seu pai, partindo para um país estranho, distante e provavelmente selvagem (Gn 12.1). Javé prometeu o seguinte, se Abrão (cujo nome foi mais tarde mudado para Abraão) obedecesse às suas ordens: “De ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção: abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem” (Gn 12.2-3).

Até este ponto, o arranjo especial de Javé com Abrão não parece muito diferente dos inúmeros pactos similares com deuses tribais através de toda a história, feitos com seu círculo exclusivo de devotos em várias partes do planeta Terra. Seria Javé, como alguns críticos insinuaram, apenas um outro insignificante deus tribal aguçando os sentimentos egoísticos de um seguidor com promessas grandiosas destinadas a fazê-lo voltar repetidamente com nova adoração e homenagem?

Essa insinuação seria difícil de contestar se não fosse pela última linha deste acordo Javé-Abrão, onde o primeiro diz: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3, grifo acrescentado). Essa declaração faz brilhar uma característica especial das promessas de Javé! Ele não abençoava Abrão com a finalidade de torná-lo egocêntrico, arrogante, indiferente. Javé o abençoou para fa­zer dele uma benção, e não apenas para seus próprios parentes! Esta benção têm como alvo nada menos do que todas as famílias da terra! Nada poderia ser menos egoísta ou menos restrito!

Os teólogos chamam de aliança abrâmica a este conjunto de promessas, mas trata-se de muito mais do que uma simples aliança entre Deus e um indivíduo específico. Ela marcou o início de um novo e surpreendente desenvolvimento que os teólogos chamam de reve­lação especial! Em outras palavras, na ocasião em que Javé tivesse cumprido todas as suas promessas a Abrão, a humanidade teria con­dições de compreender a sabedoria, o amor e o poder de Javé de maneira anteriormente inconcebível, não apenas aos homens; mas, segundo tudo indica, também aos anjos (veja 1 Pe 1.12).

Antes de enviar Abrão ao seu novo destino como “ uma benção a todas as famílias da terra” , Javé primeiro o guiou até uma região desconhecida, habitada por diversas tribos que abrangiam diferentes clãs e famílias. Eram as tribos dos cananeus, queneus, quenezeus, cadmoneus, heteus, ferezeus, refains, amorreus, girgaseus e jebuseus (Gn 15.19). Além desses 10, aproximadamente 30 outros po­vos, espalhados do Egito até a Caldéia, são mencionados por nome só nos primeiros 36 capítulos de Gênesis. Mais subdivisões étnicas da humanidade são reconhecidas especificamente nesses 36 capítu­los do que em qualquer outra seção de comprimento comparável em qualquer outro ponto da Bíblia!

Ao mover-se vagarosamente entre tantos grupos étnicos, seria bastante provável que Abrão viesse a desenvolver o tipo de pers­pectiva de todas as famílias da terra (povos) certamente exigido de alguém destinado a ser uma “bênção para todas as famílias da ter­ra” !

Ao que parece, tudo estava prosseguindo da maneira como Abrão esperava. Mas Javé tinha uma surpresa guardada para ele…

Quando o Senhor disse: “Em tí serão benditas todas as famílias da terra”, Abrão certamente pensou que ele e a nação que descende­ria dele tornar-se-iam a única fonte de iluminação espiritual para toda a humanidade. Mas não era bem isso que Javé tinha em mente!

De fato, quando Abrão finalmente aproximou-se de Canaã (co­mo era chamada aquela terra estrangeira), ele logo ficou sabendo que duas de suas cidades – Sodoma e Gomorra – já se achavam mergulhadas em profunda decadência. Outras, especialmente as ci­dades dos amorreus, começavam a seguir o exemplo de Sodoma e Gomorra (veja Gn 15.16). Javé, o Todo-poderoso, não parecia ter outro defensor além de Abrão em toda aquela região do mundo, o que deve ter feito Abrão sentir-se realmente muito necessário!

Quando, porém, Abrão e sua caravana se entranharam em Ca­naã, uma agradável surpresa os esperava. Eles passaram perto de uma cidade chamada Salém, que significa “paz” na língua dos cananeus. O nome cananeu dessa cidade, incidentalmente, iria mais tarde fazer surgir a significativa saudação hebraica Shalom e seu equiva­lente árabe, Salaam. Salém contribuiria mais tarde com suas cinco letras para formar a última parte do nome Jerusalém – “o fundamento da paz” . Porém, ainda mais interessante do que a cidade de Salém propriamente dita era o rei que reinava sobre ela – Melquisedeque!

O seu nome é uma combinação de duas outras palavras dos cananeus: melchi – “rei”, e zadok – “justiça”.

Um “rei de justiça” entre os cananeus, notórios pela sua idola­tria, sacrifício de crianças, homossexualismo legalizado e prostitui­ção no templo? Com certeza Melquisedeque recebeu um nome com­pletamente impróprio!

Absolutamente não! Alguns anos mais tarde, ao voltar de uma operação surpreendente de resgate contra Quedorlaomer (veja Gn 14.1-16), Abrão chegou ao vale de Savé. Os habitantes da região             na­queles dias chamavam habitualmente o vale de Savé de “vale do rei” (veja Gn 14.17). Que rei?

Não é difícil adivinhar! Um historiador judeu de nome Josefo conta-nos que o Vale de Savé não era outro senão o vale de Hinom – que ficava logo abaixo da muralha situada ao sul da cidade que é agora a velha Jerusalém. Os arqueólogos modernos que estão esca­vando as ruínas da Jerusalém dos tempos de Davi, esperam desco­brir, em breve, os escombros de uma antiga cidade dos cananeus nessa mesma encosta entre o Vale de Savé e a muralha ao sul da antiga Jerusalém!

Não seria de modo algum surpreendente se essas ruínas quei­madas há tanto tempo pertencessem à cidade de Melquisedeque – a Salém original. E o Vale de Savé – o “vale do rei” recebeu provavel­mente esse nome para homenagear o próprio rei Melquisedeque!

Mal Abrão entrara nesse “vale do rei” quando o rei Melquisedeque “trouxe pão e vinho” para ele. O narrador não diz que Melquise­deque “viajou para encontrar-se com Abrão, levando pão e vinho”, mas simplesmente que ele “trouxe pão e vinho” – talvez outra evi­dência quanto à proximidade entre o Vale de Savé e Salém.

Chega agora o inesperado. Este “rei de justiça” cananeu, segundo o autor de Gênesis, atuava também como “sacerdote do (El Elyon)” – “Deus Altíssimo” (Gn 14.18). Quem era El Elyon?

Tanto El como Elyon eram nomes cananeus para o próprio Ja­vé. El ocorre freqüentemente nos textos ugaríticos da antiguidade.[1] O termo cananeu El insinuou-se até mesmo na língua hebraica dos descendentes de Abrão em palavras tais como Betel – “a casa de Deus”, El Shaddai – “Deus Todo-poderoso ou Altíssimo” , e Elohim, “Deus” (forma plural de El que não obstante retém um significado singular misterioso).

Elyon também aparece como um nome para Deus nos textos antigos escritos em fenício – uma ramificação posterior da língua cananéia antiga de Melquisedeque.[2] A forma composta El Elyon apare­ce até numa inscrição aramaica da antiguidade encontrada recente­mente na Síria.[3] Quando ligados, os dois termos El e Elyon significa “Deus Altíssimo” .

Pergunta: Abrão, o caldeu, que aparentemente chamava o Todo-poderoso de Yahweh (Javé), ressentiu-se do uso feito por Melquise­deque desse termo cananeu El Elyon como um nome válido para Deus? Não temos de aguardar uma resposta! Melquisedeque agiu de forma a testar imediatamente a atitude de Abrão: “Abençoou ele (Melquisedeque) a Abrão, e disse: “Bendito seja Abrão pelo Deus Al­tíssimo (El Elyon); que possui os céus e a terra; e bendito seja o Deus Altíssimo (El Elyon), que entregou os teus adversários nas tuas mãos” (Gn 14.19-20).

Prepare-se para a resposta de Abrão. Talvez estejamos prestes a ouvir o primeiro argumento teológico na narrativa bíblica. O que ele dirá? Vai responder: “Um momento, alteza! O nome correto para o Altíssimo é Yahweh e não El Elyon! Além disso, não posso aceitar uma benção oferecida sob esse nome cananeu El Elyon, desde que todo conceito cananeu deve estar, sem dúvida, tingido de noções pagãs. De todo modo, Javé me disse que eu é que deverei ser uma bênção para todas as famílias da terra, inclusive cananeus como Vossa Majestade. Não acha então que está sendo um tanto presun­çoso ao abençoar-me?”

Nada disso! A resposta de Abrão foi simplesmente dar a Mel­quisedeque “o dízimo” (a décima parte) de tudo que havia tomado de Quedorlaomer na operação de resgate (Gn 14.20). Este ato de Abrão ao “dar o dízimo” a Melquisedeque deu lugar mais tarde a um exten­so comentário do autor da Epístola aos Hebreus, no Novo Testa­mento. Por exemplo: “Considerai, pois, como era grande esse (Mel­quisedeque) a quem Abrão, o patriarca, pagou o dízimo, tirado dos melhores despojos!” O escritor continuou comentando que o sacer­dócio do cananeu Melquisedeque deveria ser, então, considerado su­perior ao sacerdócio levítico do povo judeu, com base no fato de “Levi… pagou-os (os dízimos a Melquisedeque) na pessoa de Abra­ão. Porque aquele (Levi) ainda não tinha sido gerado por seu pai, quando Melquisedeque saiu ao encontro deste (Abraão)” (Hb 7.4-10).

Com respeito ao ato de Melquisedeque abençoar Abraão e a aceitação implícita dessa benção por parte deste, o mesmo autor comenta que Melquisedeque “abençoou o que tinha as promessas. Evidentemente, não há qualquer dúvida, que o inferior é abençoado pelo superior” (Hb 7.6-7, grifo acrescentado).

Mas isso não é tudo que indica a incrível grandeza desse per­sonagem cananeu chamado Melquisedeque. O autor de Hebreus cita, a seguir, uma profecia do rei judeu Davi – o rei que primeiro con­quistou a antiga Salém das mãos dos jebuseus (1.000 a.C.) e fez dela Jerusalém, capital da nação judaica. A profecia declara explici­tamente que o Messias judeu, quando vier, não servirá como membro do sacerdócio levítico inerentemente temporário, com sua linhagem restrita. Em vez disso, vai ser um sacerdote da “ordem de Melquisedeque”, e cuja ordem não ficará aparentemente restrito a qualquer li­nhagem particular. E não apenas isso, mas a filiação do Messias à “ordem de Melquisedeque” é confirmada por nada menos que um ju­ramento divino; e Ele pertencerá eternamente à mesma! “O Senhor jurou e não se arrependerá: tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” (Sl 110.4, grifo acrescentado).

Javé talvez tivesse avisado Abrão antecipadamente de que en­contraria alguém como Melquisedeque representando o Deus verda­deiro entre os cananeus. Tudo o que posso dizer é: Se Javé não avi­sou Abrão com antecedência sobre Melquisedeque (e o registro não dá qualquer indicação nesse sentido), então a descoberta de um ho­mem como ele entre os “incultos cananeus” deve ter realmente abalado o pai Abrão!

Como podemos entender a afirmação bíblica de que Melquise­deque era superior em nível espiritual a Abraão? O que o tornava su­perior?

Segundo este autor, a resposta parece estar no que Melquise­deque representava em contraste com o que era representado por Abraão na economia de Deus. O tema deste livro é que Melquisede­que apresentou-se no Vale de Savé como um símbolo ou tipo da re­velação geral de Deus à humanidade; Abraão, por sua vez, repre­sentava a revelação especial de Deus à humanidade, baseada na aliança e registrada no cânon. A revelação geral de Deus é superior a sua revelação especial de duas maneiras: ela é mais antiga e in­fluencia cem por cento da humanidade (Sl 19) em lugar de apenas uma pequena porcentagem! Assim sendo, era apropriado que Abraão, como representante de um tipo de revelação mais recente e menos universal, pagasse o seu dízimo de reconhecimento ao representante da revelação geral.

A presença de Melquisedeque, anterior à de Abrão, em Canaã, não diminuiu de forma alguma o destino especial dado por Deus a este último! Pelo contrário, não existe a menor evidência de que os dois homens se olhassem com a mais leve insinuação de inveja ou competição. Melquisedeque repartiu seu “pão e vinho” com Abraão e o abençoou, e Abraão “pagou o dízimo” a Melquisedeque. Eles eram irmãos em El Elyon/Javé e aliados em sua causa! Desde que a re­velação geral e a especial têm ambas origem em El Elyon/Javé, era de se esperar que Melquisedeque repartisse seu pão e vinho com Abrão e este “pagasse o dízimo” a Melquisedeque.

O surpreendente é que eles continuaram a fazer isso através da história subsequente da humanidade. Pois à medida que a revelação especial de Javé – vamos chamá-la de fator Abraão – continuou a estender-se ao mundo, através das eras do Antigo e Novo Testa­mentos, ela descobriu sempre que a revelação geral de Javé – que chamaremos de fator Melquisedeque já se achava em cena, trazendo o pão, o vinho e a bênção de boas-vindas!

Fonte: O Fator Melquisedeque: O Testemundo de Deus nas Culturas Através do Mundo. pp. 22-27

1. The New Zondervan Pictorial Encyclopedia o f the Bible, Merrill C. Tenney, ed., 5 vols. (G rand Rapids: Zondervan Publishing House, 1974) vol. 4, pp. 177 -178.

2. Ibid .

3. Ibid .

Autor – Don Richardson

Extraído do site deusamouomundo.com em 13/01/2014


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