O assunto é bastante longo, se quisermos tratá-lo com
mais diligência. Eu me darei por satisfeito, no entanto, apresentando-o como um
resumo que ajude as mentes piedosas a saberem que é que devem investigar a
respeito de Deus, nas Escrituras —, dirigindo-se ao exato objetivo de sua
indagação. Não faço referência ao pacto especial por meio do qual Deus
distinguiu a raça de Abraão de outras gentes (Gn 17.4). Ora, quando por
graciosa adoção recebeu como filhos àqueles que eram seus inimigos,
mostrou-se, então, seu Redentor. Nós, no entanto, até aqui nos movemos neste
conhecimento que se limita à criação do mundo e nem chega a Cristo, o
Mediador. Ainda que mais adiante seja necessário citar algumas passagens do
Novo Testamento, visto que dele também se pode provar não só o poder de Deus,
como Criador, mas também sua providência na preservação da natureza primária
—, quero, contudo, que os leitores, devidamente avisados, não vão além dos
limites estabelecidos, quanto ao que me proponho agora a fazer. Em suma, que
seja suficiente agora aprender como Deus, o Criador do céu e da terra, governa
o mundo que Ele criou. Na verdade, nas Escrituras, celebra-se repetidamente não
só a bondade paternal de Deus, mas também a sua vontade inclinada à beneficência,
oferecendo-se também, nas Escrituras, exemplos da severidade de Deus, exemplos
que mostram ser Ele vingador dos feitos iníquos, especialmente onde sua tolerância
nenhum proveito traz aos obstinados.
A
BÍBLIA E A CRIAÇÃO ATESTAM,
IGUALMENTE, OS ATRIBUTOS DIVINOS
Os Profetas, aliás, caracterizam
a Deus com esses mesmos epítetos (= nomes), quando querem realçar plenamente o
seu santo nome. Para que não sejamos obrigados a fazer uma lista de muitas
referências, contentemo-nos, por agora, com o Salmo 145, no qual se enumera, de
modo preciso, a sumula de todas as virtudes de Deus e nada parece ficar omitido.
No entanto, nada se diz nesse Salmo que não se possa contemplar nas criaturas.
Portanto, guiados pela experiência, como nossa mestra, sentimos que Deus é
exatamente como a Palavra diz que Ele é.
No profeta Jeremias onde Deus diz de que modo quer ser
conhecido por nós, o Senhor faz uma descrição não tão completa como a do
Salmo 145, descrição que, no entanto, acaba sendo praticamente a mesma:
“Quem se gloria”, diz que o Senhor, glorie-se nisto: Em me conhecer e saber
que eu sou o Senhor, e faço misericórdia, juízo, e justiça na terra; porque
destas coisas me agrado, diz o Senhor” (Jr 9.24). Certamente, nos é necessário
conhecer estas três coisas: A Misericórdia,
na qual repousa a salvação de todos nós; o Juízo
que, todos os dias, se exerce contra os malfeitores, reservando-se-lhes,
ainda mais severamente, a eterna ruína; a Justiça
pela qual Deus preserva os fiéis e os assiste benignamente. Conhecendo
estas três coisas, a profecia nos assegura que temos matéria suficiente para
nos gloriarmos em Deus. Contudo, nem deste modo pode-se deixar de considerar em
Deus a verdade, o poder, a santidade e a bondade, pois de que modo se poderia
evidenciar o conhecimento que se requer da justiça, da misericórdia e do juízo
de Deus, a não ser que esse conhecimento estivesse calcado na sua verdade
inflexível? E como poderíamos crer que Deus governa a terra em juízo e justiça,
se não reconhecêssemos que Ele tem poder? E de onde tiraria Ele a misericórdia,
senão da bondade? Se, finalmente, todos os caminhos de Deus são misericórdia,
juízo e justiça, eminente também, nesses caminhos, é a santidade.
Portanto, o conhecimento que as
Escrituras nos apresentam a respeito de Deus, não tem outro objetivo senão
aquele que brilha gravado nas criaturas ou, seja, é o conhecimento que, em
primeiro lugar, nos convida ao temor de Deus; em seguida nos convida a confiar
nEle para, na verdade, aprendermos a cultuá-lo não só com perfeita inocência
de vida, mas também com não fingida obediência e, desse modo, aprendamos a
depender totalmente de sua bondade.
DIANTE DA NOÇÃO QUE TEMOS DO DEUS ÚNICO, OS IDÓLATRAS
NÃO TÊM DESCULPAS.
Mas, em decorrência do fato de
todos serem arrastados ou impelidos, pela vaidade, a falsas invenções, e assim
terem embotado os seus sentimentos, tudo quanto pensaram do Deus único — em
bases naturais — nada lhes valeu, senão que se tornassem indesculpáveis. Até
mesmo os mais sábios de todos eles põem à mostra a divagação errante da própria
mente, quando anseiam pela assistência de um Deus — qualquer que seja ele
—, por isso, em suas preces invocam a divindades incertas. Acrescente-se a
isso que, pelo fato de imaginarem que a natureza de Deus é múltipla — ainda
que o seu sentimento, em relação à divindade, fosse menos absurdo do que o
sentir do vulgacho em relação a Júpíter, Mercúrio, Vênus, Minerva e outros
deuses —mesmo os mais sábios não escaparam das enganosas sutilezas de Satanás.
E como já dissemos em outro lugar (nesta obra), todos e quaisquer artifícios
que os filósofos imaginaram com argúcia, não diminuem o seu crime de
apostasia, mas tornam evidente que a verdade de Deus foi corrompida por todos
eles.
Por essa razão,
o profeta Habacuque, onde condena a todos os ídolos, ordena que se busque a
Deus no seu templo (2.20), para que os fiéis não admitissem outro Deus, a não
ser aquele que se revelou por sua Palavra.
É
abominação atribuir forma visível a Deus. Os que se apartam do Deus
verdadeiro, criam ídolos para si.
Como as
criaturas levam em conta o limitado, tacanho e medíocre conhecimento humano,
costumam elas expressar-se de modo acessível à mente popular, quando seu
objetivo é distinguir o Deus verdadeiro dos deuses falsos. Elas contrastam o
Deus verdadeiro com os ídolos e, ao fazerem isso, as Escrituras não estão
aprovando o que de mais sutil e elegante os filósofos ensinaram, mas estão,
antes, desnudando a loucura do mundo — mais do que isso, a sua completa
loucura —, quando, ao buscar a Deus, cada um, a todo tempo, se apega às suas
próprias especulações.
Por essa razão, a definição
que, por toda parte, se mostra a respeito da unicidade de Deus, reduz a nada
tudo quanto os homens inventaram para si no que diz respeito à Divindade, pois
somente o próprio Deus é testemunha idônea de Si Mesmo.
Por
isso, pelo fato de este embrutecimento degradante ter-se apossado do mundo
inteiro, de maneira que os homens procurassem representar a Deus de forma visível
— forjando deuses de madeira, de pedra, de ouro, de prata ou de outro material
qualquer inanimado ou corruptível — temos de nos apegar ao seguinte princípio:
Todas as vezes que se atribui a Deus qualquer forma de representação, a
Sua glória é corrompida de ímpio engano. Na Lei, depois de atribuir a
Si Mesmo a glória da Divindade, quando quer ensinar que tipo de adoração
aprova ou rejeita, Deus acrescenta imediatamente: “Não farás para ti
imagens esculpidas, nem semelhança qualquer” (Ex 20.4), palavras com
as quais nos proíbe o desenfreamento de tentar representá-lo por meio de
qualquer figura visível. E mostra, de maneira breve, todas as formas pelas
quais, desde há muito tempo, a superstição dos homens começou a transformar
a sua verdade em mentira.
Ora,
sabemos que os persas adoravam o Sol e, também, sabemos que outros povos
estultos inventaram para si outros tantos deuses quantas são as estrelas que
viam nos céus. Para os egípcios não houve nenhum animal que não
representasse uma divindade. Já os gregos — devemos reconhecer —, parece,
foram mais sábios do que os demais povos, pois adoravam a Deus sob forma
humana. Deus, porém, não compara essas imagens entre si, como se uma fosse
mais apropriada do que outras; ao contrário, repudia a todas as efígies
esculpidas, sem exceção, incluindo pinturas e outras representações por meio
das quais os supersticiosos imaginaram que Ele devia estar perto.
REPRESENTAR A DEUS POR MEIO DE
IMAGENS É
CONTRARIAR O SEU SER
Das razões
que Deus acrescenta às proibições é fácil concluir o seguinte: Primeiro, em
Moisés (Dt 4.15): ‘lembra-te do que o Senhor te falou no vale do Horebe:
Ouviste uma voz, não viste corpo; guarda-te, portanto, a ti mesmo, para que não
aconteça que, porventura, enganado, faças para ti qualquer representação’
etc. Aí vemos corno Deus opõe sua voz abertamente a todas as representações,
a fim de sabermos que os que buscam representá-lo deforma visível, se afastam
dEle.
Entre
os Profetas, será suficiente citar só Isaías, que é o mais enfático ao
demonstrar isto, pois ele ensina que a majestade de Deus é manchada de vil e
absurda invenção, quando o incorpóreo é feito semelhante à matéria corpórea,
quando o invisível é representado de forma visível ou quando o espírito é
feito semelhante à coisa inanimada ou, ainda, quando o imenso é reduzido a um
pedaço de madeira, de pedra ou de ouro (Is 40.18; 41.7,29; 45.9 e 46.5). Paulo
também raciocina de modo idêntico: “Visto que somos geração de Deus,
não devemos pensar que o Divino é semelhante ao ouro, e à prata trabalhada
pela arte ou invenção do homem” (At 17.29). Disto fica claro que
qualquer estátua que se erige ou imagem que se pinta, para representar a Deus,
simplesmente o ofende como também afronta à sua majestade.
E não devemos admirar-nos do
fato de o Espírito Santo, do céu, proclamar estes oráculos, pois Ele compele
até mesmo os cegos e idólatras da terra a fazerem essa confissão. A queixa de
Sêneca, que se lê em Agostinho, é muita conhecida. Diz ele: “Dedicam os
deuses sagrados, imortais e invioláveis em matéria mui vil e desprezível,
revestindo-os com a aparência de homem e de feras; algumas até os representam
como hermafroditas (= sexos misturados) e corpos diversos, e os chamam de
divindades, são figuras que, se recebessem vida, seriam tidas por monstros,
quando as víssemos!
Disto
se evidencia novamente, mui às claras, que se apóiam em inútil sofisma os que
defendem as imagens, dizendo que elas foram proibidas aos judeus, porque eles
eram inclinados à superstição. Como se pertencesse a um só povo aquilo que
Deus, na verdade, revela de sua eterna essência e da contínua ordem da
natureza! E Paulo, quando impugnou o erro em representar a Deus, por meio de
imagem, não estava falando aos judeus, mas aos atenienses.
AS
MANIFESTAÇÕES E SINAIS QUE MOSTRAM A PRESENÇA DE DEUS, NÃO SERVEM DE BASE
PARA AS IMAGENS.
O fato de, vez por outra, Deus
ter mostrado a presença de sua majestade divina por meio de sinais definidos,
nos Leva à conclusão de que se poderia dizer que Ele foi visto face a face.
Porém, todos os sinais com que Deus se manifestou aos homens, ajustavam-se mui
adequadamente ao seu método de ensinar, ao mesmo tempo em que serviam de advertência
aos homens, para dizer-lhes, explicitamente, que a sua essência é incompreensível:
Ora,
a nuvem, a fumaça e a chama — se bem que fossem símbolos da glória celeste
(Dt 4.11) —, como um freio interposto, impediam que as mentes de todos
tentassem penetrar mais fundo (no conhecimento de Deus). Por isso, nem mesmo a
Moisés — a quem Deus, contudo, se manifestou mais intimamente do que aos
outros —, conseguiu, com suas súplicas, contemplar a face de Deus, mas
recebeu, como resposta, que o homem não é apto para receber o impacto de tão
grande esplendor (Ex 33.20).
O
Espírito Santo apareceu em forma de pomba (Mt 3.16; Mc 1.10 e Lc 3.22), mas,
pelo fato de ter-se desvanecido rapidamente, quem não percebe que, pelo símbolo
de apenas um momento, os fiéis foram advertidos de que se deve crer no Espírito
como um ser invisível, de modo que, contentes com o seu poder e graça, não
evocassem para si nenhuma representação externa?
O
ter Deus aparecido, de quando em quando, em forma de homem foi, na verdade,
antecipação da futura manifestação em Cristo. Por isso, foi proibido aos
judeus, de forma absoluta, abusarem deste pretexto, fazendo para si representação
da Divindade sob figura humana.
O próprio propiciatório, onde,
sob a Lei, Deus manifestou a presença do seu poder, foi de tal modo construído,
que indicava ser a seguinte a mais excelente visão da Divindade: Ela ocorre
quando as mentes são alcançadas acima de si mesmas, em admiração, uma vez
que os Querubins, de asas estendidas, ocultavam a Deus, o véu o cobria e o próprio
lugar, tão escondido, de si mesmo o ocultava (Ex 25.17,18,21). Portanto, salta
aos olhos que os que tentam defender uma imagem de Deus ou de santos, citando o
exemplo desses Querubins, estão enlouquecidos. Suplico, pois: Quê significavam
essas “imagenzinhas” senão que não existem formas apropriadas pelas quais
se possam representar os mistérios de Deus? Elas foram feitas para, velando com
as asas o propiciatório, impedir não só que os olhos humanos vissem a Deus,
mas também com quaisquer de todos os outros sentidos e, dessa forma, pusessem
um paradeiro à temeridade dos homens.
Além
disso, os Profetas, quando falam dos Serafins que lhes apareceram em visão,
mostram-nos com a face velada e, com isso, dão-nos a entender que o fulgor da
glória divina é tão grande, que os próprios anjos são impedidos de ser
vistos em direta contemplação, e as chispas de glória que refulgem neles são
subtraídas aos nossos olhos.
Todos
os que julgam com acerto, reconhecem, contudo, que os Querubins
Certamente,
é vergonhoso ter de reconhecer que os escritores profanos são intérpretes
mais capazes da Lei que os papistas. Juvenal, por exemplo, zombando, censura os
judeus que adoravam as puras nuvens e o nume do céu. Certamente, Juvenal fala
de modo pervertido e ímpio. No entanto, quando nega existir qualquer efígie
divina, fala de modo mais verdadeiro que os papistas, que dizem haver, entre os
judeus, alguma representação visível de Deus.
Que
os judeus, com entusiástica prontidão se tenham atirado repetidas vezes — a
buscar ídolos para si, com a mesma força de abundante manancial de águas
borbulhantes —, aprendemos do fato de ser grande a propensão da nossa mente
para com a idolatria. Por isso, atirando contra os judeus a pecha de erro que é
comum a todos os homens, não durmamos o sono mortal, iludido pelas vãs seduções
do pecado.
A
BÍBLIA CONDENA IMAGENS E REPRESENTAÇÕES DE DEUS
Ao mesmo fim se destina a seguinte afirmação: “Os
ídolos dos povos são prata e ouro, são obras das mãos dos homens” (Sl.
115.4; 135.15), pois o profeta conclui que não são deuses não só por causa
da sua materialidade — cuja imagem é de ouro e prata —, mas deixa claro
ainda que é inútil produto dia imaginação tudo quanto concebemos a respeito
de Deus, pelo nosso próprio sentir. Refere-se ao ouro e à prata, antes que ao
barro ou à pedra, para que nem o esplendor, nem o valor nos levem a reverenciar
os ídolos. Finalmente, conclui, dizendo que nada existe que tenha menos aparência
de verdade do que serem os deuses feitos de qualquer espécie de matéria morta!
Ao
mesmo tempo, o Profeta insiste neste ponto: Que os mortais são levados por
grande e louca temeridade quando, de maneira precária, conseguindo alento fugaz
de instante a instante, têm a ousadia de conferir aos ídolos a dignidade de
Deus. O homem se vê obrigado a confessar que é uma criatura efêmera e, não
obstante, quer que seja tido por Deus um metal que ele mesmo transformou
em deidade! Pois, como nasceram os ídolos
senão da desvairada imaginação dos homens?
Justíssima é a zombaria de Horácio, poeta
profano, que disse:
‘Eu era outrora um tronco de
figueira, um inútil pedaço de lenho. Quando um artesão, incerto se deveria
fazer um banco, preferiu fazer de mim um deus”.
Deste modo,
um
homenzinho terreno, cuja vida se extingue quase a cada instante — graças à
sua arte — transfere o nome e a dignidade de
Deus a um tronco sem vida!
Porém,
uma vez que esse epicureu brincalhão, a fazer gracejo, não deu importância a
religião alguma, deixando de lado as suas brincadeiras e as de outros, mais do
que isso, transpasse-nos a censura do Profeta (Is. 44.15-17), quando afirma que
são excessivamente insensatos os que, de um mesmo tronco de árvore, se
aquecem, acendem o forno para assar pão, assam ou cozinham a carne, e do resto
fazem um deus, diante do qual se prostram suplicantes a orar. Do mesmo modo, em
outro lugar (Is. 40.21), não só os acusa como réus perante a Lei, mas também
os censura pelo fato de não terem aprendido, dos fundamentos da terra, que, na
verdade, nada é mais absurdo do que desejar reduzir Deus — que é imensurável
—, à medida de cinco pés! Esta monstruosidade, que provoca repugnância à
ordem da natureza, revelase como natural nos costumes do homem.
Devemos
ter em mente que, com freqüência, as superstições são referidas como obras
das mãos dos homens, e carecem de autoridade divina (Is 2.8; 31.7; 37.19; Os
14.3; Mq 5.13), para que se estabeleça o seguinte: Que todas as formas de
culto que os homens inventam por si mesmos, são abomináveis (diante de Deus).
No
Salmo 115, o Profeta dá ênfase à loucura que significa o fato de homens — a
tal ponto - dotados de inteligência — saberem que todas as coisas são
movidas só pelo poder de Deus e, no entanto, implorarem auxílio de coisas
inanimadas e destituídas de sensibilidade. Mas, pelo fato de a corrupção da
natureza conduzir a demência tão grosseira, tanto os povos todos quanto cada
indivíduo, em particular, o Espírito Santo, finalmente, fulmina com a seguinte
maldição: “Tornem-se semelhantes aos ídolos àqueles que os fazem e todos
os que neles põem a sua confiança” (Sl. 115.8). Notemos também que são
proibidas não só gravuras, mas também imagens esculpidas e, com isso,
refuta-se a improcedente exceção dos gregos, pois pensam que se saem muito bem
se não fazem imagem de escultura, que representem a Deus, ao mesmo tempo em que
se divertem fazendo gravuras desenfreadamente mais do que qualquer outra gente.
Pois o Senhor proíbe não apenas que se faça imagem dEle em forma de estátua,
mas também que qualquer representação dEle seja modelada por qualquer tipo de
artista, visto que, desse modo, Ele é representado de maneira inteiramente
falsa e com grave ofensa à sua majestade.
Sei, certamente, que é mais
do que vulgarmente popularizado o refrão que diz:
As imagens são os Livros
dos analfabetos, e isto foi dito por Gregório, o Grande. Contudo, o Espírito de
Deus fala de maneira
muito diferente, e se Gregório tivesse
estudado bem esta matéria
jamais teria dito o que disse.
Portanto,
quando Jeremias (10.3) declara que o lenho é o preceito do orgulho, e Habacuque
(2.18), ensina que a imagem fundida é a mestra da mentira, certamente devemos
deduzir, dessas expressões, a seguinte doutrina:
Que é tolo e, mais ainda, mentiroso tudo quanto os
homens aprendem a
respeito
de Deus por meio das imagens.
Se
alguém objetar dizendo que os Profetas repreendiam os que abusavam das imagens
para ímpias superstições, sou obrigado a admiti-lo, sem dúvida. Contudo,
acrescento: O que é notório a todos é que os Profetas condenam o que os
papistas sustentam como seguro axioma ou, seja, para os papistas as imagens
fazem às vezes de livros, Os Profetas, porém, opõem o Deus verdadeiro às
imagens, como coisas contrárias e que jamais podem conciliar-se.
Nas
poucas porções (bíblicas) que acabei de citar, impõe-se a seguinte conclusão:
Uma vez que o Deus verdadeiro, que os judeus adoravam, é um e único, de
maneira pervertida e enganosa se inventam figuras visíveis que representam a
Deus e, por isso, acabam miseravelmente iludidos todos os que buscam conhecer a
Deus por meio de imagens.
Se não fosse mentiroso e espúrio
todo, e qualquer conhecimento de Deus que se busca nas imagens, os Profetas não
o teriam condenado de modo tão generalizado. Por isso, sustento o seguinte:
Quando ensinamos que é vaidade e engano os homens tentarem representar Deus por
meio de imagens, não fazemos outra coisa senão referir, palavra por palavra, o
que os Profetas disseram.
Além disso, deve-se ler o que
Lactâncio e Eusébio escreveram a respeito deste assunto, pois eles não têm a
menor dúvida de que as imagens que se vêem, são todas de seres mortais. Do
mesmo modo se expressou Agostinho que, taxativamente, declara como ato abominável
não só o adorar imagens, mas também levantá-las a Deus. E ele não está
dizendo outra coisa senão repetindo o que, muito antes, foi decretado no Concílio
de Elvira, cujo cânon trinta e seis diz o seguinte: “Resolveu-se que não se
tenha nos templos representações pictóricas, de modo que não se pinte nas
paredes o que se cultua ou se adora”.
Deve-se
lembrar especialmente o que o mesmo Agostinho cita de Varrão e confirma com a
sua autoridade. Diz ele: “Os primeiros que introduziram imagens dos deuses, de
um lado, removeram o temor e, de outro, acrescentaram o erro”. Se isto tivesse
sido dito só por Varrão, talvez tivesse pouca importância. Porém, ainda
assim, devíamos sentir-nos envergonhados pelo fato de um pagão, como que
tateando no escuro, ter alcançado esta luz, isto é, ter chegado à conc1usão
de que as imagens corpóreas são indignas da majestade de Deus, porque diminuem
o temor dos homens e aumentam os seus erros. Os próprios fatos atestam, de
maneira incontestável, que o dito de Varrão é sábio e verdadeiro. Por isso
Agostinho, tomando-o de empréstimo, repete-o como seu. E, no começo, Agostinho
insiste em dizer que os primeiros erros a respeito de Deus — erros em que os
homens se enredaram —‘ não começaram com as imagens, porém, que uma vez
introduzidas (na prática), aviltaram-se ainda mais. Em conseqüência, por esse
motivo, a temor de Deus não só diminuiu, mas, até mesmo, se extinguiu, visto
que na estupidez das imagens
e na sua infeliz e absurda invenção, pode-se
facilmente desprezar a majestade divina. Oxalá não comprovássemos, pela
experiência, quão verdadeira é esta última afirmação!
Por essa razão, se os papistas tiverem um pouco
de pudor, não digam mais, de agora em diante, que as imagens são os Livros dos
analfabetos, porque esta afirmação está escancaradamente refutada por
numerosos testemunhos da Escritura. Na verdade, mesmo que eu lhes concedesse
isto, nem ainda assim, certamente, tirariam muito proveito em defender seus ídolos,
pois é notória a espécie de monstruosidade que eles obrigam o povo a aceitar
em Lugar de Deus!De fato, que são as pinturas ou estátuas que dedicam aos
santos, senão corruptíveis exemplares de luxuriai e obscenidade, a ponto de
merecer castigo alguém que quisesse imita-los? De fato, os lupanares mostram as
meretrizes vestidas com mais decoro e pudor, do que os templos mostram aquelas
santas que querem sejam aceitas por virgens! As vestes que inventam para os mártires,
em nada são mais decentes. Portanto, vistam seus ídolos pelo menos de modesta
decência para, com um pouco mais de decoro, poderem sofismar dizendo que as
imagens são “livros” de alguma santidade!
Porém,
diremos também que esta não é a maneira de ensinar o povo fiel nos lugares
sagrados, povo que Deus quer que seja instruído com outro tipo de doutrina.
Deus ordenou que aí, nos templos, se proponha uma doutrina comum a todos, na
proclamação de sua Palavra e nos sagrados mistérios, Os que são levados
pelos olhos à contemplação de ídolos, em derredor — revelam que seu espírito
está voltado bem pouco diligentemente para esta doutrina!
A
quem, no entanto, os papistas chamam de ignorantes e cuja obtusidade não lhes
permite ser ensinados sendo só pelas imagens? Na verdade, chamam de ignorantes
àqueles a quem o Senhor reconhece como seus discípulos, aos quais considera
dignos da revelação de sua celeste sabedoria e que deseja sejam instruídos
nos mistérios salvíficos do seu Reino. Certamente, admito que, na atual situação,
não poucos são os que não podem dispensar as imagens como “livros”.
Contudo, pergunto: De onde vem tal obtusidade senão do fato de serem eles
roubados desta doutrina que, sozinha, é apta para instruí-los? E não foi por
outra razão que os que presidiam às igrejas deixaram com os ídolos a função
de ensinar, senão pelo fato de os próprios ídolos serem mudos! Paulo afirma
que, mediante a pregação do Evangelho, Cristo é apresentado ao vivo e, de
certo modo, é crucificado aos nossos olhos (Gl. 3.1).
Qual seria o objetivo de, nos
templos, erguerem-se, por toda parte, tantas cruzes de madeira, de pedra, de
prata e de ouro, se fosse ensinado
honesta e fielmente que Cristo
morreu na cruz para tomar sobre si a nossa maldição (Gl.3.13), sacrificando o
próprio corpo para expiar nossos pecados (Hb 10.10) e lavá-los com o seu
sangue (Ap 1.5), enfim, para reconciliar-nos com Deus, o Pai? (Rm 5.10). Só
desse fato poderiam aprender mais do que mil cruzes de madeira ou de pedras
(poderiam ensinar), visto que os avarentos, talvez, fixam os olhos e a mente nas
cruzes de ouro ou de prata, mais do que em quaisquer palavras de Deus!
DO
DESEJO QUE OS HOMENS TÊM DE VER A DEUS, DE MODO TANGÍVEL, VEM A FEITURA DE
IMAGENS No
que se refere à origem dos ídolos, o consenso público recebe virtualmente o
que está contido no livro de Sabedoria (14.15), ou, seja, que os primeiros
autores dos ídolos são os que conferiram esta honra aos mortos, com o propósito
de cultivarem, de maneira supersticiosa, a memória deles. E, sem reserva,
admito que esse mui antigo costume tenha sido pervertido e não nego ter sido
ele uma tocha peta qual se acendeu a inflamada paixão dos homens para com a
idolatria. Contudo, não concordo com a idéia de que tenha sido a primeira
fonte desse mal.
Ora, que os ídolos já
estivessem em uso, quando veio a prevalecer este anseio desmedido de consagrar
imagens dos mortos — prática da qual se faz menção constante nos escritores
profanos —, evidencia-se do que diz Moisés. Quando ele conta que Raquel havia
furtado os ídolos de seu pai (Gn 31.19), não fala de outra coisa senão de um
vício generalizado. E lícito, pois, concluir deste fato que a imaginação do
homem é uma perpétua fábrica de ídolos.
Depois
do dilúvio, houve como que um renascimento do mundo. Entretanto, não se
passaram muitos anos para que os homens, para seu prazer, inventassem deuses
para si. E de crer-se que, estando ainda vivo o santo patriarca, os seus
descendentes se tenham entregado à prática da idolatria, de maneira que ele,
com os próprios olhos, visse a terra ser poluída pelos ídolos, corrupção
esta que Deus, fazia pouco tempo, havia punido com juízo tão horrível! Ora, já
antes de Abraão nascer, Terá e Naor adoravam a deuses falsos, como o atesta
Josué (24.2). Se a descendência de Sem se degenerou tão cedo, quê haveremos
de dizer dos descendentes de Cão, que haviam sido amaldiçoados, bem antes, na
pessoa do próprio pai?
É assim que acontece, na
verdade. Como a mente do homem está abarrotada de orgulho e de temeridade, ele
ousa imaginar a Deus segundo o seu modo de ser. Como a mente do homem é
embotada, mais do que isso, como ele é levado de cambulhada pela mais crassa
ignorância, imagina ele, para o lugar de Deus, a irrealidade e a aparência
vazia.
A estes males,
acrescenta-se nova iniqüidade: A de que o homem tenta exibir a Deus na obra que
faz, pois concebe a Deus do modo como o sente. Daí, sua mente gera o ídolo e
suas mãos o dão à luz. Portanto, a origem do ídolo é a seguinte: Os homens
não crêem que Deus esteja com eles, se não virem a Deus de forma concreta.
Revela isto o exemplo dos israelitas: “Não sabemos”, dizem eles, “o que
aconteceu a esse Moisés. Faze, para nós, deuses que vão adiante de nós”
(Ex 32.1). Na verdade, eles sabiam que era Deus aquele cujo poder tinham
experimentado em tantos milagres; não confiavam, porém, que Deus estivesse
perto deles, a menos que, com seus olhos, pudessem ver uma representação corpórea
de Deus, uma representação que atuasse como testemunho de um Deus que os
dirigia. Na verdade, os israelitas queriam reconhecer que Deus, através de uma
imagem, ia adiante deles, guiando-os pelo caminho.
A experiência de todos os dias nos ensina que a
carne está sempre inquieta, até conseguir uma representação fantasiosa
semelhante a si mesma, representação com a qual se console de maneira vã,
como se estivesse diante de uma imagem real de Deus. Para obedecerem a esta cega
obsessão — em quase todos os séculos desde que o mundo foi criado —, os
homens ergueram representações visíveis, por meio das quais acreditavam ver a
Deus com os olhos carnais.
Uma vez feitas as imagens que representam
Deus, segue-se de pronto a sua adoração, porque nelas os homens pensam
contemplar a Deus e nelas também o adoram. Como resultado disto, fixando nelas
tanto os olhos quanto o espírito, os homens começaram a embrutecer-se cada vez
mais, deslumbrando-se com elas e nutrindo por elas admiração, como se nelas
houvesse qualquer coisa de divindade!Por isso, quando os homens, na forma de
imagens, fazem uma representação tanto de Deus quanto da criatura e prostra-se
diante dela para venerá-la, é porque já foi fascinado por certa superstição.
Foi por esta razão que o Senhor proibiu não somente levantar-se estátuas
modeladas para representá-lo, mas proibiu consagrarem-se gravuras de qualquer
espécie, para serem usadas como objetos de adoração ou culto. Pela mesma razão,
também, no preceito da Lei, junta-se outra parte a respeito da adoração
dessas representações, pois tão logo foi inventada essa forma visível de
Deus, o passo seguinte foi o de atribuir-lhe poder. Os seres humanos são néscios
a tal ponto, que identificam Deus com tudo o que o representa e, por isso, não
pode acontecer outra coisa senão adorarem a essa representação de Deus! E supérfluo
discutir se simplesmente se adora o ídolo ou se se adora a Deus no ídolo,
pois, seja qual for o pretexto, quando se proporcionam honras divinas a um ídolo,
é sempre idolatria. E pelo fato de Deus não querer ser cultuado de maneira
supersticiosa, recusa-se a Ele aquilo que se oferece aos ídolos.
Atentem para isto os que andam em busca de míseros pretextos para defender essa
idolatria abominável, na qual a religião, por muitos séculos, tem estado
afundada e subvertida. Embora digam que as imagens não são consideradas como
seres divinos, Os próprios judeus não eram tão absurdamente obtusos, que não
se lembrassem de que era Deus aquele por cuja mão tinham sido tirados do Egito
(Lv 26,13), e isso antes de fazerem o bezerro de ouro (Ex 32.4). Ao contrário,
afoitamente o povo concordou em proclamar, com Abraão, que aqueles que eram os
deuses por meio dos quais tinham sido libertados da terra do Egito (Ex 32.4,8),
querendo dizer, com não duvidoso sentido, que o Deus libertador lhes fosse
conservado, contanto que pudessem contemplá-lo andando na frente, em forma de
bezerro!
E não devemos crer que
eram tão boçais, que não entendessem que Deus não era outra coisa senão
lenhos e pedras, pois embora mudassem as imagens à vontade, tinham em mente
sempre os mesmos deuses, e muitas eram as imagens de um único Deus. Porém,
eles não imaginavam existirem para si tantos deuses quantas eram a multidão
dessas imagens. Além disso, dia após dia, consagravam novas imagens e,
contudo, nem pensavam estar assim constituindo novos deuses.
Leiam-se as justificações
que Agostinho refere, justificações que os idólatras do seu tempo usavam como
pretexto. As pessoas comuns, quando eram acusadas de praticar a idolatria,
respondiam que não adoravam as imagens, mas ao contrário, adoravam a divindade
que, invisível, habitava nelas. Aqueles que, segundo o próprio Agostinho,
praticavam uma religião mais refinada, diziam que não adoravam nem a imagem,
nem a divindade que ela representava, porém, na representação material viam
um sinal da divindade que deviam cultuar.
Que diremos? Todos os idólatras, tanto entre
os judeus como entre os gentios foram motivados a praticar a idolatria da forma
já referida ou, seja, não estando contentes com uma compreensão espiritual de
Deus, julgavam que, por meio das imagens, adquiririam compreensão mais segura e
mais íntima da divindade. Uma vez que se agradaram desta grosseira representação
que imitava a Deus, não houve mais fim (desta loucura) até que, finalmente —
iludidos sucessivamente por novas invenções fantasiosas —, começaram a
pensar que Deus mostra o seu poder nas imagens. Mais do que isso, não somente
os judeus foram convencidos de que, sob essas imagens, adoravam ao Deus eterno,
o único e verdadeiro Senhor do céu e da terra, mas também
os gentios que, do mesmo modo, adoravam aos seus deuses, ainda que fossem deuses
falsos que, no entanto, imaginavam habitarem no céu.
Tortos os que negam que esta prática idólatra
existiu no passado, e que existe ainda em nossos dias, mentem deslavadamente.
Então, por que se ajoelham diante das imagens? Por que, quando se preparam para
a prece, se voltam para elas como se falassem aos ouvidos de Deus? Com verdade
fala Agostinho, quando diz: Ninguém ora ou adora com olhos postos numa imagem,
sem ser afetado aponto de não pensar que ela o ouve ou que ela lhe dará aquilo
que deseja. Por que há tão grande diferença entre as imagens de um mesmo
Deus, de forma que, sendo desprezada uma ou sendo honrada de maneira vulgar,
cerquem outra de honrarias solenes? Por que se cansam fazendo peregrinações
para cumprir votos, indo visitar imagens, se têm imagens semelhantes em seu próprio
lar? Por que hoje se batem a favor delas, de maneira acirrada, a ponto de
provocarem carnificina e massacre, como se debatessem por seus altares e
lareiras, dando a entender que toleram mais facilmente que lhes tirem o Deus único,
que seus ídolos?E ainda não estou mencionando os erros grosseiros do vulgacho,
que são quase infinitos e dominam o coração de todos. Mencionei apenas os
erros que eles mesmos confessam quando querem, especialmente, safar-se da pecha
de idolatria. Eles dizem: “Não
chamamos às imagens de nossos deuses”. Nem os judeus nem os
gentios as chamavam deuses outrora. E, no entanto, os Profetas não paravam de
repreender as fornicações dos judeus com a madeira e a pedra (Jr 2.27; Ez
6.4-6; Is 19.20; Hc .18-19; Dt 32.27), fornicações que são práticas diárias
daqueles que querem ser tidos por cristãos, isto é, que adoram a Deus de forma
carnal na madeira e na pedra!
Não
ignoro, nem se pode disfarçar, que eles fogem do problema, criando uma distinção
enganadora, distinção de que faremos menção, novamente, de forma mais
completa, mais adiante. Dizem eles que o culto que prestam às imagens é
eidoloduleian (= serviço à imagem) e não eidolatria (= adoração de imagem).
Falam assim, quando ensinam que, sem ofensa a Deus, pode-se atribuir — às
representações de escultura e pictórica — o culto a que dão o nome de
dulia. Portanto, julgam-se sem culpa se são apenas servos da imagem, e não
adoradores também. Como se o servir não fosse mais importante que o adorar!
No
entanto, enquanto encontram refúgio num termo grego, se contradizem a si mesmos
de modo infantil. Para os gregos, o termo latreuein
nada mais significa do que adorar, por
isso, o que dizem eles equivale, exatamente, a confessarem que cultuam suas
imagens, mas sem lhes prestar culto!!! E não é preciso que eles façam objeção,
dizendo que lhes preparo armadilhas com palavras porque eles mesmos, tentando
espalhar trevas diante dos olhos dos simples, revelam a própria ignorância!
Por isso, por mais eloqüentes que sejam, eles jamais conseguirão provar-nos
que uma e a mesma coisa são duas!
Insisto
para que mostrem, de forma objetiva, a diferença (que há entre as duas
referidas palavras), para que vejamos que eles são diferentes dos idólatras
antigos. Ora, assim como um adúltero ou homicida não pode fugir à acusação
de crime, dando nomes diferentes ao crime que cometeu, do mesmo modo é absurdo
absolver estes do crime de idolatria, mediante a sutil invenção de um termo,
visto que, na prática, eles em nada são diferentes dos idólatras que eles
mesmos são obrigados a condenar! Na verdade, eles estão longe de separar a sua
prática da prática desses idólatras. Sim, a sua causa está tão longe de ser
diferente da causa desses idólatras, que a fonte de todo o mal se baseia no
desordenado desejo que eles têm de imitá-los, quando na sua imaginação não
apenas concebem para si, mas com suas mãos confeccionam os símbolos por meio
dos quais representam a Deus.
Dizemos
não ser permitido representar-se a Deus, de forma visível, porque Ele mesmo o
proibiu (Ex 20.4; Dt 5.8) e, portanto, não se pode fazer isso, sem degradar a
sua glória. E para não pensarem que só nós sustentamos esta posição, os
que são versados nos escritos de autores sóbrios verificarão que eles sempre
reprovaram esta prática nos seus escritos. Porque, se não é permitido
representar a Deus por meio de uma efígie, muito menos é permitido cultuar a
efígie ou cultuar a Deus nela.
Portanto,
sobra-nos a liberdade de esculpirmos ou pintarmos só aquilo que está diante
dos nossos olhos, de forma que a majestade de Deus, que está muito acima da
percepção dos nossos olhos, não se corrompa por meio de fantasiosas
representações. Nesta classe de coisas que se podem representar pela arte estão
incluídas, em parte, histórias e fatos acontecidos, em parte, imagens e formas
corpóreas que não estejam ligadas a eventos consumados.
As histórias e os fatos têm aplicação no ensinar e
no advertir; as imagens e as formas corpóreas, por sua vez, creio que a sua
utilidade não vai além do deleite (que nos podem trazer). E, apesar disso,
salta aos olhos que quase todas as imagens — exibidas até o presente nos
templos —, são deste tipo. Deste fato pode-se concluir que elas foram
colocadas nos templos não em função de julgamento ponderado ou de sábia
decisão, mas em função de insensata e precipitada paixão!
Deixo de
focalizar aqui o quão sem propósito e indecente têm sido essas representações,
e quão licenciosamente os pintores e estatuários têm se mostrado sensuais (no
trabalho que fazem), como já referi pouco antes. Estou frisando apenas que
mesmo que nada de impróprio exista nessas obras, todavia elas revelam que
nenhum valor têm para ensinar.
Porém, pondo
de lado esta distinção também, vejamos de passagem se é conveniente ter,
nos templos cristãos, quaisquer imagens, quer sejam as imagens que expressam
histórias ou fatos passados, quer sejam as imagens que representam corpos
humanos.
Lembremo-nos,
primeiramente — se a autoridade da Igreja Primitiva tem alguma importância
para nós —, que, por um período de quase quinhentos anos, durante os quais
mais florescia a religião e a doutrina pura era mais viçosa, os templos cristãos
eram geralmente vazios de imagens. Quando a pureza do ministério não se tinha
ainda degenerado, as imagens foram introduzidas, em primeiro lugar, como
ornamentos dos santuários. Não discutirei qual foi à razão que tiveram os
primeiros autores desta prática. Se, porém, compararmos era com era, veremos
que eles haviam perdido muito da integridade daqueles que (no passado) se
recusaram a usar imagens.
Quê? Devemos
pensar que os santos pais (mais antigos) haviam deixado a Igreja ficar, por
tanto tempo, vazia desta prática, que eles julgavam útil e salutar? Na
verdade, porém, esses pais (mais antigos) repudiavam essa prática mais por
decisão e reflexão, que por ignorância ou negligência porque viam que, nessa
prática, não havia nada, nem um mínimo de utilidade, porém, representava
muito perigo. Agostinho também atesta isso com palavras claras, quando diz:
“Quando, nestes pedestais se colocam, essas imagens em exaltada elevação,
para que, por causa da própria semelhança que elas têm com membros e sentidos
animados — se bem que lhes falte sensibilidade e alento —, chamem a atenção
dos que oram e dos que oferecem sacrifícios, elas afetam as mentes fracas, de
modo que pareçam ter vida e respirar”. Em outro lugar acrescenta: “Pois
essa representação de membros faz o seguinte e até obriga: A mente que vive
em um corpo, julgue ser animado um corpo que vê muito semelhante ao seu”. E
mais adiante: “As imagens valem mais para desviar a alma infeliz, que para
assisti-la, visto que possuem boca, olhos, ouvidos, pés, mas não falam, não vêem,
não ouvem e não andam”.
Esta
parece ser a razão pela qual João quis que nos guardássemos não somente do
culto aos ídolos, mas, também dos próprios ídolos (1 Jo 5.21). Em vista da
horrível insânia que até agora tem dominado o mundo — extinguindo quase
toda a piedade —, temos experimentado, mais desmedidamente, que, tão logo as
imagens são colocadas nos templos, levanta-se o pendão da idolatria, porque não
se pode moderar a loucura dos homens que, prontamente, os leva à prática de
cultos supersticiosos.
Ora, mesmo
que o perigo não fosse tão iminente, entretanto, começo a refletir sobre o
uso a que os templos foram destinados e, de uma ou outra forma, me parece
indigno de sua santidade os templos acolherem outras imagens, ao invés de
acolher aquelas vivas e representativas, que o Senhor consagrou em sua Palavra.
Refiro-me ao Batismo e à Santa Ceia, juntos com outras cerimônias nas quais o
importante não é serem vistas com os olhos, mas que nos afetem mais
vividamente, de modo que não exijam outras imagens forjadas pelo engenho dos
homens. O incomparável bem das imagens consiste no fato de se dermos crédito
aos papistas, eles não terem compensação nenhuma que possa ressarci-los da
perda!
ARGUMENTOS
FALSOS QUE SERVEM DE BASE A UMA DECISÃO DE NICÉIA DE 787
Penso
que teria falado mais do que o suficiente a respeito deste assunto se, de certo
modo, o Concílio de Nicéia não tivesse lançado mão sobre mim. Não me
refiro ao famosíssimo Concílio reunido por Constantino, o grande, mas ao que
foi realizado por ordem e sob os auspícios da Imperatriz Irene. Ora, este Concílio
decretou não somente que se devem ter imagens nos templos, mas também que
estas devem ser veneradas (adoradas). O que quer que eu tenha dito, pois (sobre
este assunto), a autoridade deste Concílio gerará grande preconceito em contrário.
No entanto, para falar a verdade, esse fato não me preocupa tanto, quanto a
evidência que os feitores terão do quanto se extraviou a sanha dos que foram
mais ansiosos para com as imagens, do que convinha a cristãos!
Porém, antes de mais nada, livremo-nos primeiramente
dos que hoje defendem o uso das imagens, alegando o apoio desse Concílio Niceno.
Há um livro sob o nome de Carlos Magno, de caráter refutatório que, a julgar
pelo estilo, parece ter sido escrito na mesma época (do Concílio). Neste livro
faz- se referência às opiniões dos bispos que estiveram presentes ao referido
Concílio e aos argumentos com que lutaram nas discussões.
João, o
legado do Oriente, disse: “Deus criou o homem à sua imagem” e, por isso,
devemos concluir que é preciso ter imagens. Ele mesmo, na seguinte afirmação,
opinou que as imagens nos são recomendadas: “Mostra-me a tua face, pois que
ela é formosa” (Ct 2.14). Outro, para provar que se devem colocar imagens nos
altares, citou o seguinte testemunho: “Ninguém acende uma candeia e a põe
debaixo do módio” (Mt 5.15). Um outro, com o objetivo de demonstrar que a
contemplação das imagens nos é útil, citou um versículo do Salmo:
“Estampada foi sobre nós a luz da tua face, ó Senhor” (Sl 4.6). Um outro
recorreu à seguinte analogia: Como os Patriarcas fizeram uso dos sacrifícios
dos gentios, do mesmo modo as imagens dos santos devem ocupar, para os cristãos,
o lugar dos ídolos dos povos”. Para esse mesmo propósito, torcem a seguinte
oração: “Senhor, amei a formosura da tua casa (Sl 26.8). Porém,
especialmente engenhosa é a seguinte interpretação: “Como temos ouvido,
assim também temos visto”. Portanto, para eles, Deus é conhecido não pelo
ouvir da Palavra, mas também pela contemplação das imagens! Semelhante é
agudeza do bispo Teodoro: “Maravilhoso”, diz ele, “é Deus nos seus
santos” (Sl 68.35) e, daí, diz-se em outro lugar: “Quanto aos santos que
estão na terra” (Sl 16.3). Portanto, concluem eles, isto deve referir-se às
imagens!
Afinal de contas, são tão
disparatadas as suas parvoíces que até me envergonho de referí-las!
Quando discutem a respeito da adoração de
imagens, citam, como adoração a faraó (Gn.47.10), a benção que Jacó deu a
este monarca; citam também a vara de José (Gn. 47.31 e Hb.11:21), e a coluna
que Jacó levantou (Gn. 28.18). Na verdade, quando referem esta última, não só
pervertem o sentido da escritura, mas também se apóiam na quito que não se lê
em lugar algum. Aduzem mais: “Adorai o escabelo de seus pés” (Sl 99.5) e
“adorai em seu santo monte” (Sl 99.9) e, também, “A tua face suplicarão
todos os ricos do povo” (Sl 45.12). Para eles, todas essas citações são
provas absolutamente firmes em favor da idolatria!
Se,
para zombar dos que defendem a adoração das imagens, alguém quisesse fazer
deles uma caricatura ridícula, poderia, porventura, reunir tolices maiores e
mais grosseiras do que as acima referidas?
E, de qualquer modo, para não haver dúvida
nenhuma, Teodósio, bispo de Mira confirma tão a sério — com base no sonho
de seu arcediago —, que as imagens devem ser adoradas, como se estivesse presente
um oráculo celeste.
Agora, que saiam acampo esses defensores das imagens e nos pressionem com o decreto do Concilio Niceno retro referido, como se os pais veneráveis desse Concilio não anulassem toda a confiança que se deveria ter neles, não só por tratarem a Escritura de modo tão infantil, mas também por submete-lá a tão ímpia e execrável mutilação!
ENSINOS E PRÁTICAS BLASFEMAS E ABSURDAS A RESPEITO DA IDOLATRIA
Teodósio, bispo de Amoria, pronuncia anátema (= maldição)
contra todos os que se opõem à adoração das imagens. Um outro atribui todas
as calamidades da Grécia e do Oriente ao crime de não se adorarem imagens! Em
conseqüência disto, os Profetas, os Apóstolos e os Mártires — no tempo dos
quais não se usavam imagens —, mereceriam ser castigados!
Acrescentam
ainda que, se se vai ao encontro da imagem do imperador, com formigações aromáticas
e incenso, as imagens dos santos são muito mais dignas desta honra!
Constâncio,
bispo de Constância, em Chipre, professa, porém, abraçar as imagens de modo
reverente e confirma que ele tributou a elas o culto devido à Trindade, e a
todos os que tivessem a ousadia de se recusar a fazer o mesmo, ele
anatematizaria (= amaldiçoaria) e relegaria à companhia dos Maniqueus e dos
Marcionítas. E, para que não se pense que essa era a opinião de um indivíduo
só, os demais também concordaram!
João, o
legado dos do Oriente, levando mais longe ainda a sua ousadia, adverte que seria
préferível acolherem-se todos os lupanares, em uma cidade, a rejeitar-se o
culto das imagens!
Finalmente,
o Concílio Niceno estatui, pelo consenso de todos, que os Samaritanos eram os
piores de todos os hereges, porém, que piores do que os Samaritanos eram os que
combatiam as imagens! Além disso, para que não faltasse à peça o seu solene Aplauso, acrescenta-se à cláusula o seguinte:
“Regozigem-se
e exultem os que, tendo a imagem de Cristo, lhe oferecem sacrifícios”.
Onde está, agora, a
distinção entre latria e dulia com qual eles costumam ofuscar os olhos de Deus
e dos homens, uma vez que esse Concílio (Niceno) favorece tanto às imagens
quanto ao Deus vivo?
É
necessário estabelecer uma distinção entre Deus e os
A VERDADERA RELIGIÃO PROCLAMA A EXISTÊNCIA DE UM Só E ÚNICO DEUS
No início
(desta exposição) dissemos que o conhecimento de Deus não poste ser obtido da
fria especulação (da mente), mas traz associado consigo o culto que lhe
devemos. E referimos de passagem como se cultua a Deus de maneira apropriada.
Todas as vezes que a escritura afirma haver um só único Deus, não está
lutando em favor de um mero, em si, mas está dizendo para que não se transfira
a outrem aquilo que só compete a sua divindade. Este fato torna patente em que
a religião pura difere das supertição.
A palavra eusébeia,
para os gregos, equivale à correta adoração, pois os próprios cegos,
tateando nas trevas, sempre sentiram que se faz necessária uma norma precisa,
para que Deus não seja cultuado de maneira errada. Ainda que Cícero,
acertadamente e com erudição, faça o termo religião derivar-se de reler (= ler de novo), a razão que alega para isso — a de que os adoradores probos releriam mais vezes e
ponderariam com mais diligência sobre o que seria verdade — é, no entanto,
uma razão: forçada e deixa muito a desejar. Penso antes que esse vocábulo
(religião) se opõe à licença,
visto que a maior parte do mundo se agarra, de modo impensado, a qualquer coisa
que se depara diante dele — mais ainda-se agarra a qualquer coisa, indo de um
lado para outro. Porém, para a piedade manter-se numa posição firme, é ela
relegada aos seus estritos limites. Por isso, daí me parece igualmente
enunciada a palavra superstição pela
qual, não contentes com o modo e ordem presentes na Escritura, os homens acabam
acumulando um amontoado de coisas vis.
Porém,
deixando de lado a questão de termos, o consenso de todos os tempos tem sempre
aceito a idéia de que a religião é pervertida e viciada por erros enganosos.
Concluímos deste fato que o pretexto invocado pelos supersticiosos é frívolo,
quando nos permitimos qualquer coisa em função de zelo precipitado. Contudo,
ainda que todos o confessem, patenteia-se vil ignorância porque, segundo temos
ensinado previamente, eles não só não se apegam ao Deus único e verdadeiro,
mas,também, não aplicam discernimento no seu culto.
Deus, porém,
para vindicar seus direitos, proclama-se severo e vingador, se for confundido
com qualquer divindade falsa (Ex 20.5). Então, para manter o gênero humano
obediente a Ele, define o culto legítimo. Deus enfeixa na Lei estes
dois aspectos quando, em primeiro lugar, atribui os fiéis a si mesmo, a fim
de ser o único legislador deles e, depois, prescreve a regra segundo a qual Ele
deve ser devidamente cultuado, segundo sua vontade.
Agora, atenho-me apenas ao
seguinte aspecto: O de que a Lei impõe um freio aos homens, para que eles não
se apeguem a formas corruptas de adoração. Mas não se deve esquecer o que
afirmei em seção anterior ou, seja, que Deus é despojado da sua dignidade,
quando não reconhecemos que só a Ele pertence o que é próprio da divindade,
e profanamos o seu culto.
Com mais
diligente cuidado, entretanto, atentemos para as sutilezas com que a superstição
se diverte. Às vezes, ela não descamba a servir divindades estranhas a ponto
de abandonar ao Deus Supremo, ou a ponto de reduzi-lo à escala dos demais
deuses; porém, ao mesmo tempo em que reconhece para Ele um lugar de preeminência,
cerca-o de uma chusma de deuses menores,
com os quais partilha as funções que são privativas do Deus único. Por isso, ainda que de forma disfarçada e habilidosamente, separa a glória
da sua divindade, de maneira que a glória de Deus n~o permanece inteira só
nEle.
Da mesma forma, no passado os
antigos, tanto dentre os judeus quanto dentre os gentios, tornam submissa ao pai
e árbitro dos deuses aquela turba que, conforme o grau hierárquico, exercia em
comum, com o Deus Supremo, o governo do céu e da terra. Assim, todos os santos
que partiram deste mundo, foram elevados a uma sociedade com Deus, e passaram a
ser reverenciados, invocados e festejados no lugar de Deus. Na verdade, somos de
parecer que a majestade divina não é apenas ofuscada, mas, de fato, é até
suprimida e extinguida, visto que conservamos apenas uma fria noção de sua
autoridade suprema. Ao mesmo tempo, enganados por essa aparência ilusória,
somos levados a cultuar deuses de variada natureza.
ENGANOSA
DISTINÇÃO ENTRE “LATRIA” E “DULIA”
Para
o mesmo fim de enganar foi inventada a distinção entre latria e dulia, isto é,
para que honras divinas pudessem ser transferidas impunementes aos anjos e aos
mortos. Ora, é evidente que o culto que os papistas prestam aos santos em nada
difere, na realidade, do culto que prestam a Deus, visto que adoram
indistintamente tanto a Deus quanto aos santos. Quando, porém, são
pressionados (com a acusação de idolatria), procuram safar-se com a desculpa
de que conservam puros o que é próprio de Deus, uma vez que lhe preservam a
latria. No entanto, como esta é uma questão de fato e não de palavras , por
que brincam eles de modo tão despreocupado com a mais importante de todas as
questões?
Porém,
ainda que passemos por alto sobre este assunto, queremos dizer que, com essa
distinção, eles não conseguem outra coisa sendo dizer que, ao Deus único,
eles prestam culto e, aos outros
santos, prestam só serviço. Ora,
entre os gregos, latréia (= latria) equivale a culto,
adoração; entre os latinos, douléia
(— dulia) representa servitus
(— servidão, deferência de servo). Essa distinção se confunde com
freqüência na Escritura. Contudo, ainda que consideremos essa distinção como
constante, é de perguntar-se qual é o significado desses dois termos.
De fato. Douléia
(= dulia) significa serviço e »latréia
,latria significa honra.Certamente,
ninguém poderá pôr em dúvida que servir
é algo mais que honrar. Ora, não
é raro que consideremos penoso servir a alguém,
a quem não recusemos honrar. Portanto, seria uma partilha iníqua atribuir aos
santos o que é maior e a Deus o que é menor. Contudo, insistirão dizendo
que muitos, dentre os antigos, fizeram uso desta distinção. Que adianta isso,
se todos percebem que essa distinção
não é apenas imprópria, mas é também absolutamente sem valor?
À
LUZ DA ESCRITURA, O CULTO DE “DULIA” NÃO TEM O MENOR FUNDAMENTO
Pondo de lado as sutilezas alegadas em torno deste assunto, examinemos a
coisa em si mesma. Paulo lembra aos Gálatas que eles, antes de serem iluminados
no conhecimento de Deus, haviam prestado culto de dulia àquelas divindades que,
por natureza, não eram deuses (Gl.4:8)). O fato de Paulo não empregar a
palavra latria (para caracterizar o culto dos Gálatas, antes te conhecerem
a Deus) não pode ser desculpa para
a superstição deles.
É
claro, pois, que com o termo dulia, ele condena essa superstição com a
mesma força com que a condenaria com o termo latria.
E
quando Cristo, repelindo a investida de Satanás, usa o escudo da Palavra de
Deus, dizendo: “Ao Senhor teu Deus adorarás” (Mt 4.10), não está aí,
literalmente, a questão do termo latria, visto que Satanás queria que
Cristo se prostrasse de joelhos em reverência a ele? O mesmo aconteceu
com João, quando foi repreendido pelo anjo, pelo fato de prostrar-se de
joelhos diante dele (Ap 19.10 e 22.8-9). Não revelou João falta de
sensatez a ponto de querer transferir para o anjo a honra que é devida só a
Deus? Fazendo ao anjo algo que tivesse sabor divino, João estaria negando a glória
que só pertence a Deus!
É
verdade que, não poucas vezes, temos lido que criaturas foram adoradas. Pode-se
dizer, contudo, que essa foi uma honra civil. Outro sentido, porém, tem a
religião que, associada ao culto da criatura, traz consigo a profanação da
honra divina. Pode-se ver isto no caso de Cornélio (At 10.25), pois ele não ia
tão mal na vida piedosa, que não tributasse só a Deus reverência suprema.
Portanto, ao prostrar-se diante de Pedro, evidentemente, não o fez com o propósito
de adorá-lo no lugar de Deus. Pedro, no entanto, de modo terminante, o proíbe
de fazê-lo. E, por que o fez, senão pelo fato de os homens nunca fazerem
distinção precisa entre o culto a Deus e o culto às criaturas, transferindo
sempre, às criaturas, o que é próprio de Deus?
Portanto,
se quisermos ter um só e único Deus, devemos lembrar-nos de que, na verdade, não
podemos retirar uma partícula sequer da sua glória, a fim de que Deus retenha
em si o que lhe é próprio. Zacarias (14.9), quando fala a respeito da restauração
da Igreja, proclama, com eloqüência, não apenas que um só será Deus, mas
também um só será o seu nome, para que nada tenha Ele em comum com ídolos.
Veremos
que tipo de culto Deus requer, pois Ele, por meio de sua Lei, prescreveu aos
homens o que é justo e reto e, deste modo, quis mantê-los dentro de norma
precisa, para que ninguém tivesse liberdade de forjar qualquer tipo de expressão
cultual. Porém, visto que não me convém sobrecarregar os leitores, incluindo
muitos temas ao mesmo tempo, não focalizarei ainda esse ponto. Baste-nos,
contudo, ter em mente o seguinte: Nenhuma função religiosa fica isenta de
sacrifício, quando se transfere a outros seres o que pertence só ao Deus único.
No princípio, a superstição, na verdade, atribuíram honras divinas tanto ao
sol e aos demais astros, quanto aos ídolos. Depois, seguiu-se a ambição que,
enfeitando os mortais com o que roubou de Deus, ousou profanar tudo o que havia
de sagrado e, ainda que mantivesse o princípio de adorar a divindade suprema,
tornou-se costume, entretanto, o oferecer sacrifícios indiscriminalmente às
divindades protetoras, às deidades inferiores e aos heróis mortos.
É
muito grande a predisposição para com esse erro que se repete constantemente,
isto é, o erro de os homens partilharem com grande multidão de seres aquilo
que Deus reivindica rigorosamente só para si. Por isso glória e honra ao único
e soberano Deus. Amem!
(Editora SOCEP)