Nos dias que seguiram o 11 de setembro de 2001, muitas pessoas
previram uma rápida e satisfatória vitória norte-americana sobre a
Al-Qaeda. Acreditava-se que o exército terrorista não fosse maior que
um navio pirata, e que as forças policiais de todo o mundo afundariam
o navio com prisões imediatas e manobras obscuras. A Al-Qaeda foi
tirada de suas bases no Afeganistão. As prisões e manobras ocorreram e
ainda estão ocorrendo.
|
|
|
As raízes da Al-Qaeda não estão na pobreza ou no anti-americanismo
mas nas idéias de Sayyid Qutb |
Mas a Al-Qaeda não pareceu se preocupar. Sua popularidade, que era
difícil de imaginar no começo, passou a ser grande e genuína em mais
do que alguns poucos países. A Al-Qaeda sustenta uma visão mundial
paranóica e apocalíptica, de acordo com a qual “guerreiros e
sionistas” conspiram há séculos para destruir o islã. E esta visão
mundial é aceita em muitos lugares.
A Al-Qaeda foi criada no final da década de 1980 pela fusão de três
facções armadas – o círculo de árabes “afegãos” de Osama bin Laden,
com duas facções do Egito, o Grupo Islâmico e a Jihad Islâmica
Egípcia, o último liderado pelo dr. Ayman al-Zawahiri, o principal
teorizador da Al-Qaeda. As facções egípcias surgiram de uma corrente
mais antiga, uma escola de pensamento de dentro do movimento
fundamentalista do Egito, a Fraternidade Muçulmana, das décadas de
1950 e 1960.
Manifesto clássico da ala terrorista
No coração desta escola de pensamento estava, até sua execução em
1966, um filósofo chamado Sayyid Qutb – o herói intelectual de todos
os grupos que eventualmente entraram na Al-Qaeda, seu Karl Marx (se
podemos assim chamar), seu guia.
Qutb escreveu um livro chamado “Marco Histórico” (sem publicação no
Brasil), e este livro foi citado em seu julgamento, o que lhe rendeu
imensa publicidade, especialmente depois que seu autor foi enforcado.
O livro se tornou um manifesto clássico da ala terrorista do
fundamentalismo islâmico. Ele foi tirado de seu vasto comentário sobre
o Alcorão chamado “Na Sombra do Alcorão” (também não publicado no
Brasil), que é uma obra-prima.
A Al-Qaeda e organizações afiliadas não são meramente populares,
saudáveis, globais, bem conectadas e institucionalmente sofisticadas.
Esses grupos também se baseiam em uma série de idéias, e algumas
dessas idéias podem ser patológicas, o que é uma velha história na
política moderna; mas mesmo assim, as idéias são poderosas. Deveríamos
saber disso, é claro. Mas deveríamos saber também de muitas outras
coisas.
Gamal Abdel Nasser e um grupo de oficiais do exército nacionalista
derrubaram o rei do Egito em 1952 e deram início a uma revolução
nacionalista em territórios pan-árabes. E, conforme os pan-árabes
continuaram a promover sua revolução, Sayyid Qutb continuou a promover
sua própria e diferente revolução.
Sua idéia era “islamista”. Ele queria transformar o islã em um
movimento político para criar uma nova sociedade, baseada em antigos
princípios do Alcorão. Qutb se juntou à Fraternidade Muçulmana,
tornou-se editor de seu jornal e se estabeleceu imediatamente como o
principal teorizador do islamismo no mundo árabe.
Uma das obras mais notáveis produzidas na prisão
Uma vez que os pan-árabes tinham derrubado o rei, as diferenças entre
os dois movimentos começaram a superar as semelhanças. Nasser tomou
medidas severas contra a Fraternidade Muçulmana, e depois que alguém
tentou assassiná-lo, ele culpou a Fraternidade e assumiu uma posição
ainda mais dura.
Nasser prendeu Qutb em 1954, libertou-o por um breve período,
prendeu-o novamente por dez anos, libertou-o por alguns meses e
finalmente o enforcou em 1966. Durante seus anos na prisão,
contrabandeando documentos, Qutb conseguiu continuar a escrever, não
mais com a veia “em tom ocidental” de seus primeiros dias literários,
mas como um revolucionário muçulmano maduro. E de alguma forma, ele
produziu “Na Sombra do Alcorão”, seu estudo gigantesco, que deve ser
uma das obras mais notáveis de literatura produzidas em prisão.
|
|
|
Qutb deu aos guerreiros de 11 de setembro e a seus companheiros
uma razão de buscar a morte |
Qutb escreveu que, em todo o mundo, os humanos tinham atingido um
momento de crise insuportável. A corrida humana perdeu o contato com a
natureza humana. A inspiração, a inteligência e o moralismo do homem
estavam se degenerando. As relações sexuais estavam se deteriorando “a
um nível mais baixo que o dos animais”. O homem era miserável, ansioso
e cético, afundando na idiotice, na insanidade e no crime. As pessoas
estavam recorrendo, devido à sua infelicidade, às drogas, ao álcool e
ao existencialismo.
Qutb admirava a produtividade econômica e o conhecimento científico.
Mas ele não achava que a riqueza e a ciência estivessem salvando a
raça humana. Ele percebeu que, pelo contrário, os países mais ricos
eram os mais infelizes de todos. E qual era a causa de sua
infelicidade – a separação mais desprezível entre a natureza humana
mais pura e a vida moderna?
O sagrado e o secular
Na visão de Qutb, o cristianismo tinha perdido o contato com o mundo
físico. O antigo código de Moisés, com suas leis para dieta, modo de
se vestir, casamento, relações sexuais e outras coisas, tinha
envolvido o divino e o mundano em um único conceito, que era a devoção
a Deus.
Mas o cristianismo dividiu essas coisas em duas, o sagrado e o
secular. O cristianismo dizia: “Atribua a César o que é de César e a
Deus o que é de Deus”. O cristianismo colocou o mundo físico de um
lado e o mundo espiritual de outro lado: as perversões de Constantino
aqui, a renúncia dos monges ali.
Na visão de Qutb havia uma “esquizofrenia abominável” nesta visão de
vida.
Os feitos científicos e técnicos da Europa permitiram que os europeus
dominassem o mundo. E os europeus impuseram sua “esquizofrenia
abominável” a pessoas e culturas em todas as partes do globo. Essa foi
a origem da miséria urbana – a ansiedade na sociedade contemporânea, o
senso de ser levado por tendências, a falta de objetivos, e o desejo
por falsos prazeres.
Qutb falava de algo original. Os cristãos do Ocidente passaram pela
crise da vida moderna como uma conseqüência, achava ele, de sua
própria tradição teológica – um resultado de quase 2 mil anos de erro
eclesiástico.
Mas no relato de Qutb, os muçulmanos tiveram de passar pela mesma
experiência porque ela lhes tinha sido imposta pelos cristãos do
exterior, o que só poderia tornar a experiência duplamente dolorosa –
uma alienação que também era uma humilhação.
Divergência entre natureza humana e vida moderna
Ao escrever sobre a vida moderna, ele colocou seu dedo em algo que
toda pessoa capaz de pensar pode reconhecer, mesmo que vagamente – a
sensação de que a natureza humana e a vida moderna estavam de alguma
forma em divergência. Mas Qutb evocou este sentimento de forma
especificamente muçulmana.
Em uma prisão egípcia, Qutb soube quem culpar. Ele culpou os primeiros
cristãos. Ele culpou o legado moderno do cristianismo, que era a idéia
liberal de que a religião poderia ficar de um lado e a vida secular do
outro. Ele culpou os judeus.
Os judeus ocupam enormes porções do comentário de Qutb em relação ao
Alcorão – sua perfídia, ambição, ódio, impulsos diabólicos,
conspirações intermináveis e planos contra Maomé e o islã. Qutb foi
incansável nesses temas. Ele via o sionismo como parte da eterna
campanha dos judeus para destruir o islã.
E Qutb culpou um outro grupo. Ele culpou os muçulmanos que tinham
seguido os erros do cristianismo – os muçulmanos traidores que tinham
imposto a “esquizofrenia” do cristianismo no mundo do islã. E, como
estava disposto a culpar alguém, Qutb conseguiu também recomendar um
curso de ação – um programa revolucionário que aliviaria a pressão
psicológica da vida moderna e colocaria o homem em harmonia com o
mundo natural e com Deus.
Qutb temia que pessoas com idéias liberais estivessem montando uma
campanha gigantesca contra o Islã – “um empenho para confinar o Islã
aos círculos emotivos e rituais, e para impedi-lo de participar na
atividade da vida, e de verificar a predominância completa sobre todas
as atividades seculares humanas, uma preeminência que ele obtém em
virtude de sua natureza e sua função”.
Agressão interna dos muçulmanos
Qutb queria que os muçulmanos reconhecessem a natureza do perigo –
reconhecessem que o islã sofreu agressões de fora e também de dentro
do mundo muçulmano. A agressão externa foi realizada por guerreiros e
por sionistas de todo o mundo (embora algumas vezes ele também tenha
mencionado o comunismo).
|
|
|
Para Qutb, o elemento verdadeiramente perigoso na atividade
americana não era o capitalismo, política internacional ou
independência da mulher |
Mas a agressão interna foi conduzida pelos próprios muçulmanos
– isto é, por pessoas que se diziam muçulmanas mas que poluíram
o mundo muçulmano com idéias incompatíveis derivadas de outros
lugares.
Os verdadeiros defensores do islã pareciam ser poucos, mas números
não significavam nada. Os poucos tinham que se reunir no que Qutb
em “Marco Histórico” chamou de uma vanguarda. Essa vanguarda de
verdadeiros muçulmanos realizaria a renovação do islã e da civilização
em todo o mundo.
A vanguarda se voltaria contra os falsos muçulmanos e “hipócritas”
e fazer o que Maomé tinha feito, que foi fundar um novo Estado,
baseado no Alcorão. E de lá, a vanguarda ressuscitaria o califado
e levaria o Islã a todo o mundo, assim como Maomé tinha feito.
O martírio estava entre seus temas. Ele discute passagens na sura
“A Vaca” do Alcorão, e explica que morrer como um mártir não é
algo a se temer. Sim, algumas pessoas terão que ser sacrificadas.
“Aqueles que arriscam suas vidas e saem para o combate, e que
estão preparados para renunciar às suas vidas pela causa de Deus
são pessoas honráveis, puras de coração e abençoadas de alma.
Mas a grande surpresa é que aqueles entre eles que são mortos
na luta não devem ser considerados ou descritos como mortos. Eles
continuam a viver, como Deus mesmo afirma claramente”.
Nasce o movimento terrorista egípcio
Qutb escreveu: “Para todas as intenções e propósitos, essas pessoas
podem muito bem parecer sem vida, mas a vida e a morte não são
julgadas apenas pelos meios físicos superficiais. A vida é caracterizada
principalmente pela atividade, crescimento e persistência, enquanto
a morte é um estado de perda total de função, de completa inércia
e falta de vida. Mas a morte daqueles que são mortos pela causa
de Deus dá mais ímpeto à causa, que continua a prosperar em seu
sangue. Sua influência naqueles que eles deixam para trás também
cresce e se espalha. Portanto depois de suas mortes eles continuam
a ser uma força ativa em modelar a vida de sua comunidade e lhe
dar direção. É neste sentido que essas pessoas, tendo sacrificado
suas vidas pelo bem de Deus, retêm sua existência ativa na vida
do dia-a-dia. (...) Não há senso real de perda em sua morte, já
que elas continuam a viver”.
E foi assim com Sayyid Qutb. No período antes de sua prisão final
e execução, diplomatas do Iraque e da Líbia lhe ofereceram a chance
de fugir para a segurança em seus países. Mas ele se recusou a
ir, com o argumento de que 3 mil jovens no Egito eram seus seguidores,
e que ele não queria desfazer uma vida de ensinamentos se recusando
a dar a essas 3 mil pessoas um exemplo de verdadeiro martírio.
E, na verdade, alguns desses seguidores foram em frente para formar
o movimento terrorista egípcio na década seguinte, de 1970 – os
grupos que massacraram turistas e cristãos e que assassinaram
o presidente do Egito, Anwar Sadat, depois que ele fez paz com
Israel; os grupos que, anos depois, acabaram se fundindo com o
grupo de Bin Laden e fornecendo suas doutrinas fundamentais à
Al-Qaeda.
As pessoas nesses grupos não eram estúpidas e não lhes faltava
educação.
Pelo contrário, continuamos a perceber como essas pessoas são
educadas, que muitas delas vêm de classes altas, que elas são
ricas. E não há motivo para que fiquemos surpresos. Essas pessoas
estão em possessão de uma filosofia poderosa, que é a de Sayyid
Qutb. Elas estão em possessão de uma gigantesca obra de literatura,
que é “Na Sombra do Alcorão”.
Idéias assustadoras
Essas pessoas sentem que, consultando suas próprias doutrinas,
elas possam explicar a infelicidade do mundo. Elas sentem que,
com um estudo intenso do Alcorão, como dirigido por Qutb e outros
pensadores, elas possam dar um sentido para milhares de anos de
erro teológico. Elas sentem que, na noção de shariah de
Qutb, elas comandem os princípios de uma sociedade perfeita.
Essas pessoas acreditam que, em todo o mundo, elas estejam sozinhas
preservando o Islã da extinção. Elas sentem que estão beneficiando
o mundo, mesmo que estejam cometendo massacres. Elas certamente
não estão preocupadas com a morte. Qutb deu a essas pessoas um
motivo para desejar a morte. Sabedoria, piedade, morte e imortalidade
são, em sua visão de mundo, a mesma coisa.
Uma vida devota é uma vida de luta pelo islã, e luta significa
martírio. Podemos pensar: essas são idéias assustadoras. E sim,
as idéias são assustadoras. Mas há, na apresentação de Qutb, uma
atração estranha nessas idéias.
Seria ótimo pensar que, na guerra contra o terror, nosso lado
também fala de profundas idéias filosóficas. Mas nossos líderes
políticos falam de resoluções das Nações Unidas, de unilateralismo,
de multilateralismo, de inspetores de armas, de coerção e de não-coerção.
Isso não é uma resposta para os terroristas.
O presidente George W. Bush, em seu discurso ao Congresso alguns
dias depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, anunciou que
travaria uma guerra de idéias. Ele não fez isso. Ele não é homem
para isso. Os filósofos e líderes religiosos terão que fazer isso
por conta própria.
Eles estão fazendo isso? Os exércitos estão se movimentando, mas
os filósofos e líderes religiosos, os pensadores liberais, estão
se movimentando também? Há algo para nos preocuparmos aqui, um
aspecto da guerra que a sociedade liberal parece ter problemas
para entender – mais uma preocupação, além de todas as outras,
e possivelmente a maior preocupação de todas.
Paul Berman é autor do novo livro “Terror and Liberation” (“Terror
e Libertação”), ainda sem publicação no Brasil, do qual este ensaio
é adaptado.
voltar