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Jesus dos doze aos trinta anos

por Pr. Eguinaldo Helio de Souza - sáb ago 21, 2:23 pm

Num primeiro momento, a pergunta “O que fez Je­sus dos doze aos trinta anos?” não parece oferecer nenhum problema. A curiosidade sobre este fato é normal. O problema começou quando certos gru­pos ligados ao movimento Nova Era pretenderam respondê-la utilizando fontes duvidosas.

Como sabemos, esse movimento rejeita toda a cultura judaico-cristã do Ocidente, logo rejeita também as Sagradas Escrituras como padrão de verdade religiosa e verdade histórica. Em seu lu­gar, abraça toda sorte de ideias, filosofias e dou­trinas orientais, principalmente as hindus. Consequentemente, a figura que emergiu daí é com­pletamente estranha ao Jesus, filho de Maria, apresentado nas páginas dos evangelhos.

Ao invés do carpinteiro de Nazaré, seguidor do judaís­mo de sua época, foi pintado o quadro de um asceta hindu, viajante oriental, aluno de gurus e praticante de todo um misticismo que os cristãos jamais imaginaram fazer parte do comportamento de Jesus. Ele teria viajado ao Extremo Orien­te, após o incidente no Templo de Jerusalém (Lc 2.46), e se iniciado nas doutrinas e práticas da índia e do Tibete. Na verdade, os adeptos da Nova Era criaram um Jesus à sua própria imagem e semelhança, para que, assim, pudessem justificar todas as suas práticas ocultistas.

Como fez outrora o kardescismo, os novaerenses não poderiam também deixar de incluir Jesus (a quem chamam de Issa ou Isa, seu nome no Alcorão) em seu círculo. Qualquer movimento religioso que queira alcançar destaque no Oci­dente terá de incluir Jesus de alguma forma em seu credo, nem que para isso seja preciso “criar seu próprio Jesus”. Mas apenas usar o nome ou a figura dele não é suficiente. Por isso, Paulo advertiu aos cristãos em Corinto: “Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vos­sos sentidos, e se apartem da simplicidade que há em Cristo. Porque, se alguém for pregar-vos outro Je­sus que nós não temos pregado, ou se recebeis outro espírito que não recebestes, ou outro evangelho que não abraçastes, com razão o sofrereis” (2Co 11.3,4).

INCONFORMADOS COM O JESUS BÍBLICO

O dr. Otto Borchet, em seu livro O Jesus histórico, fez um excelente comentário so­bre as muitas tentativas históricas de distorcer a imagem de Jesus, conforme ela nos é fidedignamente mostrada por Mateus, Marcos, Lucas e João, testemu­nhas oculares e contemporâneas dele. “Indubitavelmente […] cada geração que se aproxima da figura de Jesus novamente, tem tentado retificar essa imagem no que acha nela deficiente”. A verdade, porém, é que qualquer tentativa de acrescentar algo ao Jesus bíblico falha. Assim se dá com o Cristo da Nova Era. Acabam apresentando um Jesus total­mente às avessas do que é declarado na Bíblia. “A verdade é que a figura de Jesus, apresentada nos evangelhos, tem to­das as características de um metal que resiste a todas as ligas. Qualquer coisa acrescentada a ela […] mostra-se como subs­tância estranha que não pode misturar-se no crisol”.

De modos diferentes, em épocas diferentes, culturas dife­rentes têm tentado distorcer o Jesus simples dos evangelhos. O Jesus dos evangelhos apócrifos e o Jesus sem carne e osso, desprovido de matéria, dos gnósticos do primeiro sécu­lo da era cristã foram uma reação da cultura daquela época, que se recusava a aceitar o Homem de Nazaré, exatamente como ele é. “Cada vez que o espírito de uma raça diferente entrou no espírito do evangelho, tentou manipular a figura daquele que é o Senhor dessa mesma história, algumas vezes a ponto de ela ficar deformada e irreconhecível”.

Portanto, em nada nos espanta o fato de a invasão das religiões orientais no Ocidente ter levado muitos a alterar novamente as características do Senhor. Para tan­to, esse movimento, encabeçado por adeptos da Nova Era, buscou utilizar-se de um período de silêncio bio­gráfico sobre Jesus para tecer um amontoado de infor­mações que, longe de acrescentar algo ao conhecimen­to dele, distorceu-o completamente.

Assim, sem quaisquer evidências, eles se baseiam em mistificações e boatos estranhos e duvidosos. O resultado só poderia ser alguém completamente estranho às caracte­rísticas de Jesus, conforme nos é mostrado de forma tão clara nas páginas do Novo Testamento.

DOCUMENTOS VERSUS DIVAGAÇÕES

Entre as fontes que se propõem a contar o que ocor­reu com Jesus entre os doze e os trinta anos está o que os adeptos da Nova Era chamam de “Ar­quivos Akáshicos” ou “Registros Akáshikos”, que, segundo eles, trata-se de um espaço invisível, simbolizado pelo éter, também conhecido como o reserva­tório cósmico de memórias individuais. Seria como uma espécie de “memória do Universo” para os esotéricos. Nesses re­gistros, supõe-se estarem escritas todas as palavras, ações e pensamentos de to­dos os seres e de todos os indivíduos que já existiram ou existem no Universo. Eles afirmam que somente as pessoas ini­ciadas no esoterismo conseguem consul­tar essas informações.

Foi baseado nesses registros que Levi H. Dowling, ex-capelão do exército america­no, escreveu o livro O evangelho de Jesus, o Cristo, para a era de aquário. Tal obra contém muitos relatos da peregrina­ção de Jesus (ou Issa) pelo Extremo Oriente. O capítulo 23 ressalta que Jesus esteve na índia e “procurou aprender a arte hindu de curar, de modo que se tornou discípulo de Udraka, o maior dos curadores hindus”. Após aprender al­guns conceitos sobre cura, Jesus teria baixado “a cabeça em reconhecimento pela sabedoria daquela alma superior e se­guiu seu caminho”.

O livro também diz que Jesus esteve em um templo em Lhasa, capital do Tibete, onde conheceu o grande sábio orien­tal Meng-tse, que o ajudou a ler os manuscritos antigos: “E Meng-tse abriu as portas do templo de par em par e todos os sacerdotes e mestres deram as boas-vindas ao sábio hebreu”.

O grande problema com essas e outras passagens é que elas são estranhas ao que lemos sobre Jesus no Novo Tes­tamento. Ele jamais curvou a cabeça ou teve qualquer atitu­de que lembrasse o misticismo hindu. Nem mesmo a Histó­ria registra algum grande sábio oriental por nome Meng-Tse. Então, fica a pergunta: “Que credibilidade podemos dar às informações retiradas de um arquivo que ninguém pode ver? Alguém pode dizer que elas são confiáveis?”.

A coisa fica mais discrepante quando comparamos ambas as fontes de informações — as do Jesus bíblico e as dos registros atávicos. Pedro escreveu em sua segunda epístola: “Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade” (2Pe 1.16). Outrossim, Lucas comenta, na introdução de seu evangelho: “Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmos que os pre­senciaram desde o princípio, e foram ministros da palavra, pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelente Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosa­mente de tudo desde o princípio; para que conheças a certeza das coisas de que já estás informado” (Lc 1.1 -4).

Todos esses textos mostram que, ao lidarmos com o Novo Testamento, estamos mexendo com documentos históricos escritos por testemunhas oculares ou por investigadores que tiveram contato com essas testemunhas oculares. Isso está em aberto contraste com pessoas que dizem ter retirado suas informações de um suposto arquivo invisível, acessível ape­nas a um restrito grupo de pessoas exóticas.

DOCUMENTOS FIDEDIGNOS VERSUS DOCUMENTOS DUVIDOSOS

Outra fonte que procura informar as atividades de Jesus dos doze aos trinta anos é descrita pelo jornalista russo Nicolai Notovitch, que teria, em 1887, quando então com 29 anos, co­nhecido o mosteiro budista de Hemis, em Ladakh, no norte da índia. E lá, soube da existência de escritos tibetanos sobre um misterioso profeta chamado “Santo Issa” e que os dados so­bre a vida desse Issa eram muito semelhantes aos dados da vida de Jesus de Nazaré. Segundo o jornalista, o reverendo abade do mosteiro budista traduzia e lia os escritos, às vezes incompletos, e ele, por sua vez, tomava nota de tudo.

Esses supostos escritos afirmavam que um adolescente de Israel com o nome de Issa tinha fugido de casa e chegado àquela região trazido por mercadores com o objetivo de se preparar espiritualmente. Os textos diziam ainda que esse su­posto Issa foi discipulado nos mosteiros budistas e hindus.

Antes de darmos crédito a tais relatos, seria bom comparar­mos documentalmente nossos evangelhos com as narrações do jornalista russo. Segundo o escritor Josh McDowell, existem hoje cerca de 24.000 cópias antigas do Novo Testamento, mais do que qualquer outro livro da antiguidade, as quais são sufici­entes para confirmar a historicidade de Jesus.

Em nenhum lugar esses textos fazem qualquer referência à visita de Jesus ao Extremo Oriente ou apresenta qualquer ensino ou prática que lembrem os hindus e os budistas ou suas escritu­ras. Portanto, basear-se em um manuscrito obscuro, do qual até hoje ninguém, além de Nicolai Notovitch, tem conhecimento para saber quem é Jesus é algo fora de lógica. Seria o equivalente a abraçar boatos e a rejeitar documentos históricos.

A FALÁCIA ESSÊNCIA

Para termos uma ideia de quanto tem sido inútil procurar evidências do Jesus histórico fora da Bíblia basta citarmos o caso dos essênios. Em 1947, foram descobertos, junto ao Mar Morto, rolos de vários livros da Bíblia e outros escritos perten­centes a uma comunidade ascética, supostamente, os essênios. Os essênios eram praticantes de um tipo monástico de judaís­mo e não tardou para que afirmassem que Jesus era essênio e que havia estado entre eles nos anos de silêncio de sua vida.

A questão dos contatos entre Jesus e a comunidade essênia foi abordada da seguinte forma: “… Mas um episódio específico assume aqui a sua significação: o da tentação. Mateus escreve que Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para aí ser tenta­do (Mt 4.1). Ora, vimos que o deserto, sem outra indicação, parece, no meio em que estamos, designar a solidão dos essênios. Da mesma forma, o lugar tradicional da tentação é situado na região onde foram encontrados os manuscritos, um pouco ao norte de Qumran. Não é apenas o tema da tentação que nos leva a pensar nos monges de Qumran […] a atitude de Cristo com relação às seitas judaicas, prolonga a de João Batista. Os essênios nunca são nomeados no evangelho, e a razão disso parece realmente ser que, para Cristo, eles correspondem aos ‘verdadeiros israelitas, aos pobres de Israel’”.

Chegou-se a dizer que os documentos de Qumran abalariam os conceitos tradicionais do cristianismo, revelando fatos desconhecidos sobre Jesus e os primeiros cristãos que a Igreja Cristã havia mantido oculto.

Hoje, mais de meio século de pesquisas arqueológicas tem mostrado que não houve qualquer relação entre Jesus e os essênios. Tudo não passou de pura especu­lação de inúmeros céticos que continuam tentando, de alguma forma, negar ou distorcer a pessoa de Jesus Cristo. Até mesmo a mídia secular cita estudiosos que negam qualquer relação entre Jesus e os essênios: “Para alguns estudiosos, nada disso prova o vínculo entre Jesus e os essênios: não existe nenhum fato ou indício convin­cente, afirma o doutor em teologia e especialista em Novo Testamento, Archibald Mulford Woodruff, da Universidade Metodista de São Paulo. Há apenas relatos para­lelos entre os manuscritos do Mar Morto e o evangelho, o que não chega a configurar uma influência essênia sobre Jesus”. Tudo não passou de um engano.

JESUS, O JUDEU DE NAZARÉ DA GALILÉIA

Quando lemos os relatos bíblicos da vida de Jesus, ficamos convencidos de que sua viagem à índia, entre os doze e trinta anos, não passam de divagação de homens que querem transtornar o cristianismo, “deformando” a pessoa de Je­sus para embasar seus ensinos.

Quando Jesus começou seu ministério, todos o identificaram como alguém de seu meio:

  • Filho do carpinteiro, irmão de Tiago, José, Simão e Judas (Mt 13.55);
  • Carpinteiro, filho de Maria (Mc 6.2);
  • Filho de José (Lc 4.22).

O epíteto “Jesus de Nazaré” ou “Jesus Nazareno” era um identificador de uma de suas principais características. Os apelidos, que funcionavam como sobrenome, geralmente eram dados de acordo com um fator importante que o distinguia de outra pessoa com o mesmo nome. Esse acréscimo ao nome, poderia ser a filiação, como, por exemplo, “Simão Bar Jonas”, isto é, filho de Jonas (Mt 16.17). Poderia ser de função como João, o Batista (Mt 3.1) ou Simão, o curtidor (At 10.6). Poderia ser de qualidade, como “Boanerges”, que significa “Filhos do Trovão”, como no caso de Tiago e João (Mc 3.17). Ou ainda poderia ser de lugares, como José de Arimatéia (Lc 19.38).

No caso de Jesus, todos o identificavam como sendo de Nazaré, pequena cidade da Galiléia. Em nenhuma parte dos evangelhos há qualquer menção, por menor que seja, que relacione Jesus a outra localidade geográfica. Se ele tivesse passado esses dezoito anos em outro lugar, não o teriam identificado com sendo de Nazaré, mas, sim, de outro lugar. E para concluir, Lucas 4.16 diz que ele foi criado em Nazaré.

Os ensinos de Jesus nada têm a ver com os ensinos do hinduísmo e do budismo. Para alguém que supostamente passou toda sua juventude na índia, isto é estranho:

  • Jesus ensinava a ressurreição, não a reencarnação (Mt 22.29-32; Lc 16.19-31);
  • Jesus dizia que os seres humanos valem mais do que os animais (Mt 6.26);
  • Jesus cria em um único Deus (Mc 12.29-30);
  • Jesus comia carne de animais (Lc 24.40-44);
  • Jesus colocava os judeus como o principal povo (Jo 4.22).

Tudo isto está em explícito contraste com os ensinos do hinduísmo e do budismo.

Portanto, não há quaisquer evidências ou sinais, por menor que sejam, que indiquem que Jesus esteve na índia. E se os evangelhos não são explícitos sobre o período da vida dele dos doze aos trinta anos, é porque esse período não foi o mais importante de sua vida. Mas homens que rejeitam o verdadeiro Cristo querem fazer o silêncio falar demais. Não se conformam com Jesus tal como Ele é e se apegam a um Jesus que não pode salvar.

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EGUINALDO HÉLIO DE SOUZA – REVISTA DEFESA DA FÉ  – ANO 8 – N° 56


Cada autor é responsável pelo conteúdo do artigo.

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