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O filósofo do terror islâmico

por Artigo compilado - seg set 03, 8:39 am

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O grande filósofo do terror islâmico

por Paul Berman, do “New York Times”

Nos dias que seguiram o 11 de setembro de 2001, muitas pessoas previram uma rápida e satisfatória vitória norte-americana sobre a Al-Qaeda. Acreditava-se que o exército terrorista não fosse maior que um navio pirata, e que as forças policiais de todo o mundo afundariam o navio com prisões imediatas e manobras obscuras. A Al-Qaeda foi tirada de suas bases no Afeganistão. As prisões e manobras ocorreram e ainda estão ocorrendo.

As raízes da Al-Qaeda não estão na pobreza ou no anti-americanismo mas nas idéias de Sayyid Qutb

Mas a Al-Qaeda não pareceu se preocupar. Sua popularidade, que era difícil de imaginar no começo, passou a ser grande e genuína em mais do que alguns poucos países. A Al-Qaeda sustenta uma visão mundial paranóica e apocalíptica, de acordo com a qual “guerreiros e sionistas” conspiram há séculos para destruir o islã. E esta visão mundial é aceita em muitos lugares.

A Al-Qaeda foi criada no final da década de 1980 pela fusão de três facções armadas – o círculo de árabes “afegãos” de Osama bin Laden, com duas facções do Egito, o Grupo Islâmico e a Jihad Islâmica Egípcia, o último liderado pelo dr. Ayman al-Zawahiri, o principal teorizador da Al-Qaeda. As facções egípcias surgiram de uma corrente mais antiga, uma escola de pensamento de dentro do movimento fundamentalista do Egito, a Fraternidade Muçulmana, das décadas de 1950 e 1960.

Manifesto clássico da ala terrorista

No coração desta escola de pensamento estava, até sua execução em 1966, um filósofo chamado Sayyid Qutb – o herói intelectual de todos os grupos que eventualmente entraram na Al-Qaeda, seu Karl Marx (se podemos assim chamar), seu guia.

Qutb escreveu um livro chamado “Marco Histórico” (sem publicação no Brasil), e este livro foi citado em seu julgamento, o que lhe rendeu imensa publicidade, especialmente depois que seu autor foi enforcado. O livro se tornou um manifesto clássico da ala terrorista do fundamentalismo islâmico. Ele foi tirado de seu vasto comentário sobre o Alcorão chamado “Na Sombra do Alcorão” (também não publicado no Brasil), que é uma obra-prima.

A Al-Qaeda e organizações afiliadas não são meramente populares, saudáveis, globais, bem conectadas e institucionalmente sofisticadas. Esses grupos também se baseiam em uma série de idéias, e algumas dessas idéias podem ser patológicas, o que é uma velha história na política moderna; mas mesmo assim, as idéias são poderosas. Deveríamos saber disso, é claro. Mas deveríamos saber também de muitas outras coisas.

Gamal Abdel Nasser e um grupo de oficiais do exército nacionalista derrubaram o rei do Egito em 1952 e deram início a uma revolução nacionalista em territórios pan-árabes. E, conforme os pan-árabes continuaram a promover sua revolução, Sayyid Qutb continuou a promover sua própria e diferente revolução.

Sua idéia era “islamista”. Ele queria transformar o islã em um movimento político para criar uma nova sociedade, baseada em antigos princípios do Alcorão. Qutb se juntou à Fraternidade Muçulmana, tornou-se editor de seu jornal e se estabeleceu imediatamente como o principal teorizador do islamismo no mundo árabe.


Uma das obras mais notáveis produzidas na prisão

Uma vez que os pan-árabes tinham derrubado o rei, as diferenças entre os dois movimentos começaram a superar as semelhanças. Nasser tomou medidas severas contra a Fraternidade Muçulmana, e depois que alguém tentou assassiná-lo, ele culpou a Fraternidade e assumiu uma posição ainda mais dura.

Nasser prendeu Qutb em 1954, libertou-o por um breve período, prendeu-o novamente por dez anos, libertou-o por alguns meses e finalmente o enforcou em 1966. Durante seus anos na prisão, contrabandeando documentos, Qutb conseguiu continuar a escrever, não mais com a veia “em tom ocidental” de seus primeiros dias literários, mas como um revolucionário muçulmano maduro. E de alguma forma, ele produziu “Na Sombra do Alcorão”, seu estudo gigantesco, que deve ser uma das obras mais notáveis de literatura produzidas em prisão.

Qutb deu aos guerreiros de 11 de setembro e a seus companheiros uma razão de buscar a morte

Qutb escreveu que, em todo o mundo, os humanos tinham atingido um momento de crise insuportável. A corrida humana perdeu o contato com a natureza humana. A inspiração, a inteligência e o moralismo do homem estavam se degenerando. As relações sexuais estavam se deteriorando “a um nível mais baixo que o dos animais”. O homem era miserável, ansioso e cético, afundando na idiotice, na insanidade e no crime. As pessoas estavam recorrendo, devido à sua infelicidade, às drogas, ao álcool e ao existencialismo.

Qutb admirava a produtividade econômica e o conhecimento científico. Mas ele não achava que a riqueza e a ciência estivessem salvando a raça humana. Ele percebeu que, pelo contrário, os países mais ricos eram os mais infelizes de todos. E qual era a causa de sua infelicidade – a separação mais desprezível entre a natureza humana mais pura e a vida moderna?


O sagrado e o secular

Na visão de Qutb, o cristianismo tinha perdido o contato com o mundo físico. O antigo código de Moisés, com suas leis para dieta, modo de se vestir, casamento, relações sexuais e outras coisas, tinha envolvido o divino e o mundano em um único conceito, que era a devoção a Deus.

Mas o cristianismo dividiu essas coisas em duas, o sagrado e o secular. O cristianismo dizia: “Atribua a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. O cristianismo colocou o mundo físico de um lado e o mundo espiritual de outro lado: as perversões de Constantino aqui, a renúncia dos monges ali.


Na visão de Qutb havia uma “esquizofrenia abominável” nesta visão de vida.

Os feitos científicos e técnicos da Europa permitiram que os europeus dominassem o mundo. E os europeus impuseram sua “esquizofrenia abominável” a pessoas e culturas em todas as partes do globo. Essa foi a origem da miséria urbana – a ansiedade na sociedade contemporânea, o senso de ser levado por tendências, a falta de objetivos, e o desejo por falsos prazeres.

Qutb falava de algo original. Os cristãos do Ocidente passaram pela crise da vida moderna como uma conseqüência, achava ele, de sua própria tradição teológica – um resultado de quase 2 mil anos de erro eclesiástico.

Mas no relato de Qutb, os muçulmanos tiveram de passar pela mesma experiência porque ela lhes tinha sido imposta pelos cristãos do exterior, o que só poderia tornar a experiência duplamente dolorosa – uma alienação que também era uma humilhação.


Divergência entre natureza humana e vida moderna

Ao escrever sobre a vida moderna, ele colocou seu dedo em algo que toda pessoa capaz de pensar pode reconhecer, mesmo que vagamente – a sensação de que a natureza humana e a vida moderna estavam de alguma forma em divergência. Mas Qutb evocou este sentimento de forma especificamente muçulmana.

Em uma prisão egípcia, Qutb soube quem culpar. Ele culpou os primeiros cristãos. Ele culpou o legado moderno do cristianismo, que era a idéia liberal de que a religião poderia ficar de um lado e a vida secular do outro. Ele culpou os judeus.

Os judeus ocupam enormes porções do comentário de Qutb em relação ao Alcorão – sua perfídia, ambição, ódio, impulsos diabólicos, conspirações intermináveis e planos contra Maomé e o islã. Qutb foi incansável nesses temas. Ele via o sionismo como parte da eterna campanha dos judeus para destruir o islã.

E Qutb culpou um outro grupo. Ele culpou os muçulmanos que tinham seguido os erros do cristianismo – os muçulmanos traidores que tinham imposto a “esquizofrenia” do cristianismo no mundo do islã. E, como estava disposto a culpar alguém, Qutb conseguiu também recomendar um curso de ação – um programa revolucionário que aliviaria a pressão psicológica da vida moderna e colocaria o homem em harmonia com o mundo natural e com Deus.

Qutb temia que pessoas com idéias liberais estivessem montando uma campanha gigantesca contra o Islã – “um empenho para confinar o Islã aos círculos emotivos e rituais, e para impedi-lo de participar na atividade da vida, e de verificar a predominância completa sobre todas as atividades seculares humanas, uma preeminência que ele obtém em virtude de sua natureza e sua função”.


Agressão interna dos muçulmanos

Qutb queria que os muçulmanos reconhecessem a natureza do perigo – reconhecessem que o islã sofreu agressões de fora e também de dentro do mundo muçulmano. A agressão externa foi realizada por guerreiros e por sionistas de todo o mundo (embora algumas vezes ele também tenha mencionado o comunismo).


Para Qutb, o elemento verdadeiramente perigoso na atividade americana não era o capitalismo, política internacional ou independência da mulher

Mas a agressão interna foi conduzida pelos próprios muçulmanos – isto é, por pessoas que se diziam muçulmanas mas que poluíram o mundo muçulmano com idéias incompatíveis derivadas de outros lugares.

Os verdadeiros defensores do islã pareciam ser poucos, mas números não significavam nada. Os poucos tinham que se reunir no que Qutb em “Marco Histórico” chamou de uma vanguarda. Essa vanguarda de verdadeiros muçulmanos realizaria a renovação do islã e da civilização em todo o mundo.

A vanguarda se voltaria contra os falsos muçulmanos e “hipócritas” e fazer o que Maomé tinha feito, que foi fundar um novo Estado, baseado no Alcorão. E de lá, a vanguarda ressuscitaria o califado e levaria o Islã a todo o mundo, assim como Maomé tinha feito.

O martírio estava entre seus temas. Ele discute passagens na sura “A Vaca” do Alcorão, e explica que morrer como um mártir não é algo a se temer. Sim, algumas pessoas terão que ser sacrificadas.

“Aqueles que arriscam suas vidas e saem para o combate, e que estão preparados para renunciar às suas vidas pela causa de Deus são pessoas honráveis, puras de coração e abençoadas de alma. Mas a grande surpresa é que aqueles entre eles que são mortos na luta não devem ser considerados ou descritos como mortos. Eles continuam a viver, como Deus mesmo afirma claramente”.


Nasce o movimento terrorista egípcio

Qutb escreveu: “Para todas as intenções e propósitos, essas pessoas podem muito bem parecer sem vida, mas a vida e a morte não são julgadas apenas pelos meios físicos superficiais. A vida é caracterizada principalmente pela atividade, crescimento e persistência, enquanto a morte é um estado de perda total de função, de completa inércia e falta de vida. Mas a morte daqueles que são mortos pela causa de Deus dá mais ímpeto à causa, que continua a prosperar em seu sangue. Sua influência naqueles que eles deixam para trás também cresce e se espalha. Portanto depois de suas mortes eles continuam a ser uma força ativa em modelar a vida de sua comunidade e lhe dar direção. É neste sentido que essas pessoas, tendo sacrificado suas vidas pelo bem de Deus, retêm sua existência ativa na vida do dia-a-dia. (…) Não há senso real de perda em sua morte, já que elas continuam a viver”.

E foi assim com Sayyid Qutb. No período antes de sua prisão final e execução, diplomatas do Iraque e da Líbia lhe ofereceram a chance de fugir para a segurança em seus países. Mas ele se recusou a ir, com o argumento de que 3 mil jovens no Egito eram seus seguidores, e que ele não queria desfazer uma vida de ensinamentos se recusando a dar a essas 3 mil pessoas um exemplo de verdadeiro martírio.

E, na verdade, alguns desses seguidores foram em frente para formar o movimento terrorista egípcio na década seguinte, de 1970 – os grupos que massacraram turistas e cristãos e que assassinaram o presidente do Egito, Anwar Sadat, depois que ele fez paz com Israel; os grupos que, anos depois, acabaram se fundindo com o grupo de Bin Laden e fornecendo suas doutrinas fundamentais à Al-Qaeda.


As pessoas nesses grupos não eram estúpidas e não lhes faltava educação.

Pelo contrário, continuamos a perceber como essas pessoas são educadas, que muitas delas vêm de classes altas, que elas são ricas. E não há motivo para que fiquemos surpresos. Essas pessoas estão em possessão de uma filosofia poderosa, que é a de Sayyid Qutb. Elas estão em possessão de uma gigantesca obra de literatura, que é “Na Sombra do Alcorão”.


Idéias assustadoras

Essas pessoas sentem que, consultando suas próprias doutrinas, elas possam explicar a infelicidade do mundo. Elas sentem que, com um estudo intenso do Alcorão, como dirigido por Qutb e outros pensadores, elas possam dar um sentido para milhares de anos de erro teológico. Elas sentem que, na noção de shariah de Qutb, elas comandem os princípios de uma sociedade perfeita.
Essas pessoas acreditam que, em todo o mundo, elas estejam sozinhas preservando o Islã da extinção. Elas sentem que estão beneficiando o mundo, mesmo que estejam cometendo massacres. Elas certamente não estão preocupadas com a morte. Qutb deu a essas pessoas um motivo para desejar a morte. Sabedoria, piedade, morte e imortalidade são, em sua visão de mundo, a mesma coisa.

Uma vida devota é uma vida de luta pelo islã, e luta significa martírio. Podemos pensar: essas são idéias assustadoras. E sim, as idéias são assustadoras. Mas há, na apresentação de Qutb, uma atração estranha nessas idéias.

Seria ótimo pensar que, na guerra contra o terror, nosso lado também fala de profundas idéias filosóficas. Mas nossos líderes políticos falam de resoluções das Nações Unidas, de unilateralismo, de multilateralismo, de inspetores de armas, de coerção e de não-coerção. Isso não é uma resposta para os terroristas.

O presidente George W. Bush, em seu discurso ao Congresso alguns dias depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, anunciou que travaria uma guerra de idéias. Ele não fez isso. Ele não é homem para isso. Os filósofos e líderes religiosos terão que fazer isso por conta própria.

Eles estão fazendo isso? Os exércitos estão se movimentando, mas os filósofos e líderes religiosos, os pensadores liberais, estão se movimentando também? Há algo para nos preocuparmos aqui, um aspecto da guerra que a sociedade liberal parece ter problemas para entender – mais uma preocupação, além de todas as outras, e possivelmente a maior preocupação de todas.

Paul Berman é autor do novo livro “Terror and Liberation” (“Terror e Libertação”), ainda sem publicação no Brasil, do qual este ensaio é adaptado.

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