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“O Jardim das Aflições,” um filme da Nova Era

por Julio Severo - sáb set 16, 12:31 am

“Passo para os alunos do curso um exercício que é estar num jardim e deitar no chão e se impregnar da presença do universo acima deles e do planeta que os sustenta,” declarou Olavo de Carvalho no início de seu filme intitulado “O Jardim das Aflições,” lançado em 2017.

Embora tenha também tentado encaixar um Cristo histórico e seus sofrimentos no tal jardim, sua ênfase foi “na presença do universo,” termo citado por ele mais vezes durante o filme.

Interação com o universo é uma característica importante da filosofia da Nova Era, movimento que surgiu com a fundação em 1875 da Sociedade Teosófica, que misturava filosofia e espiritualismo (espiritismo, esoterismo, ocultismo). Helena Petrovna Blavatsky foi a fundadora da Sociedade Teosófica.

O filme termina com um tom poético espírita, com Olavo de Carvalho declarando:

“Ao longo de toda a minha vida, nunca tive a impressão de que os mortos estão ausentes… Meus mortos queridos… Não sinto saudades deles, porque eles estão presentes, eles existem… A eternidade é a posse atual e simultânea de todos os seus momentos… Aquilo que aconteceu aqui, durante uma fração de segundos, está na eternidade.”

Se, como ele mesmo declarou, ao longo de toda a vida ele nunca teve a impressão de que os mortos estão ausentes, então sua concepção espiritualista só se adaptou ao Catolicismo, num sincretismo que é muito comum no Brasil.

Seria imaginária uma ligação entre a Nova Era e a direção de “O Jardim das Aflições”?

A realidade aponta conexões mais fortes do que mera imaginação ou coincidência. Josias Teófilo, o diretor do filme, já era conhecido como colaborador da revista Sophia, uma publicação de circulação nacional da Editora Teosófica.

As conexões, porém, não param aí.

Josias já deu palestras em várias lojas teosóficas importantes do Brasil, inclusive a Loja Teosófica Esperança, em João Pessoa, PB; a Loja Teosófica Sírius, em Campina Grande, PB; e também a Sede da Sociedade Teosófica no Brasil, em Brasília. Assim como outros palestrantes nas lojas teosóficas, Josias é formado em filosofia.

Seguindo a linha da maçonaria, a teosofia chama seus locais de reuniões de “lojas.”

Na loja de Campina Grande, Josias falou da importância da visão espiritualista de Helena Petrovna Blavatsky em 27 de setembro de 2014.

Em seu livro best-seller “The Hidden Dangers of the Rainbow: The New Age Movement and our Coming Age of Barbarism” (Os Perigos Escondidos do Arco-Íris: O Movimento Nova Era e a Era Vindoura do Barbarismo), publicado em 1983, a jurista evangélica Constance E. Cumbey disse (página 29):

“Uma vasta rede de organizações hoje, o Movimento Nova Era recebeu seu início moderno em 1875 com a fundação da Sociedade Teosófica feita por Helena Petrovna Blavatsky. Um ensino básico dessa organização era que todas as religiões mundiais tinham ‘verdades em comum’ que transcendiam diferenças potenciais. Fortemente propondo a teoria da evolução, eles também criam na existência de ‘mestres’ que eram ou seres espirituais ou homens afortunados mais ‘evoluídos’ do que a manada comum. Essa era uma doutrina que iria ter um importante impacto no desenvolvimento do nazismo de Hitler várias décadas mais tarde.”

Na XIII Escola Teosófica Internacional realizada em Brasília em julho de 2012, Josias Teófilo deu palestra para jovens no Seminário “Mística e Neoplatonismo.” De acordo com as informações do evento, membros da Sociedade Teosófica e União Planetária teriam um desconto na participação, pagando a “bagatela” de 875,00 na época. Não membros pagariam muito mais. Com correção monetária, ouvir uma palestra teosófica hoje custaria muito mais.

Neoplatonismo, tema tratado por Josias, é uma filosofia esotérica que a escritora evangélica Nancy Pearcey desmascarou em seu livro “Total Truth: Liberating Christianity from its Cultural Captivity” (Verdade Total: Libertando o Cristianismo de seu Cativeiro Cultural), dedicando o Apêndice 2, intitulado “Islamismo Moderno e o Movimento Nova Era,” para tratar exclusivamente desse assunto.

Pearcey descreveu a paixão dos adeptos islâmicos da Nova Era por Platão e Aristóteles. Entre os adeptos, ela cita René Guénon, um católico francês que se converteu ao esoterismo islâmico.

De forma semelhante, Olavo de Carvalho, que é considerado o responsável por divulgar Guénon no Brasil, tendo inclusive traduzido para o português um de seus livros, é promotor do neoplatonismo, que pode, entre outras conexões da Nova Era, tê-lo aproximado de Josias.

Guénon fundou a Escola Tradicionalista para promover um conservadorismo esotérico contra o marxismo.

A base “conservadora” e “antimarxista” de Carvalho vem da Escola Tradicionalista de Guénon, um dos líderes mais proeminentes do esoterismo islâmico da Nova Era. Para entender essa base esotérica de Carvalho, leia “O que atrai Olavo de Carvalho aos Estados Unidos?

A atual carreira supostamente “conservadora” e “antimarxista” de Carvalho é marcada por muitas previsões na esfera política. Essas previsões, ou manejo de palpites com várias previsões diferentes e mesmo antagônicas, vêm de sua experiência e histórico como o fundador da primeira escola de astrólogos do Brasil na década de 1980.

Mesmo hoje, a força de sua influência astrológica é tão aguda que uma professora evangélica que se tornou uma olavete roxa, combatendo intransigentemente a doutrinação marxista em sala de aula, incorreu no grave erro de levar a doutrinação astrológica para sala de aula. No mês passado, num post público de Facebook, ela confessou que frequentemente ensina os alunos a fazer mapas astrais. Como a prática da astrologia é totalmente proibida na Bíblia, é evidente que a professora evangélica não aprendeu essa prática ocultista na Bíblia ou nas igrejas evangélicas. Como ela é aluna destacada do curso de “filosofia” de Carvalho, é evidente a origem da atitude dela levar a doutrinação astrológica para seus alunos.

Não dá para dissociar as previsões “políticas” de Carvalho de seu histórico nova-erense, assim como não dá para dissociar um alma nova-erense do filme “O Jardim das Aflições,” já que seu diretor está tão envolvido em filosofias espiritualistas quanto o personagem principal do filme.

“O Jardim das Aflições” é mais do que um filme que personifica o tradicionalismo antimarxista de Guénon. É um culto à personalidade do astrólogo Olavo de Carvalho, dirigido por um teósofo do Brasil. Ninguém melhor do que um esotérico para falar de outro esotérico.

E ninguém melhor do que os evangélicos, quando não estão dormindo ou hipnotizados, para denunciar o esoterismo e todos os outros tentáculos, inclusive filosóficos, da Nova Era.

A VINACC (conhecida hoje como Visão Nacional da Consciência Calvinista) pode ter perdido duas oportunidades de confrontar diretamente a Nova Era.

A primeira oportunidade foi quando Josias Teófilo falou de Helena Petrovna Blavatsky na loja teosófica de Campina Grande.

Sediada em Campina Grande, a VINACC talvez pudesse ter alcançado esse homem oprimido por forças das trevas. Mas a VINACC perdeu seu foco de combater a Nova Era para focar em calvinizar os evangélicos e em combater o neopentecostalismo, e ainda atraindo assembleianos inocentes úteis para essa missão inglória.

No ano passado, a mesma VINACC que não suporta líderes neopentecostais escreveu uma doce crítica a Carvalho. A crítica, intitulada “Olavo de Carvalho nem sempre tem razão,” acabou mais bajulando do que denunciando. Mesmo assim, recebeu do astrólogo apenas azedume e mau-humor.

Apesar dos incessantes esforços de a VINACC bajular Carvalho, ele respondeu diretamente no site da VINACC, dizendo:

“Quem diz que só xingo em vez de argumentar é um difamador que merece ser respondido com xingamentos em vez de argumentos. E, se COMEÇA LISONJEANDO para depois difamar, É UM MALDITO HOMEM DE DUAS LÍNGUAS.”

Já que a VINACC não quis cumprir sua missão de denunciar, sem bajular, a Nova Era do personagem de “O Jardim das Aflições,” um homem da Nova Era acabou sujeitando a VINACC às suas maldições.

No meu artigo “VINACC tenta refutar Olavo de Carvalho, com mel e algodão doce,” mostro como a VINACC incorreu em vários erros ao tentar afagar o ego de Carvalho, inclusive chamando-o incessantemente de “professor” (termo usado 11 vezes no artigo). Não adiantou nada a VINACC o bajular tanto. Foi xingada e amaldiçoada do mesmo jeito.

A VINACC conseguiu mostrar que sabe bater implacavelmente na Igreja, principalmente em irmãos neopentecostais, e sabe alisar grandes promotores da Nova Era dotados da arte de infiltrá-la nas igrejas sob a capa de filosofia direitista.

Josias Teófilo é a própria encarnação das ideias da Nova Era. Foi o diretor ideal para canalizar para o público brasileiro outra encarnação da Nova Era.

Ao assistir “O Jardim das Aflições,” o público evangélico incauto leva duas esoteradas numa pancada só: Esoterada do diretor e do personagem principal da peça.

Quando a VINACC parar sua missão inútil de calvinizar os evangélicos e combater os neopentecostais, talvez consiga voltar à sua missão original, que é combater a Nova Era, que está viva e crescendo em todo o Brasil, sob o manto supostamente insuspeito de filosofia e direitismo.

As editoras e igrejas evangélicas passaram boa parte da década de 1990 alertando sobre os perigos da Nova Era. Se o filme “O Jardim das Aflições” tivesse sido lançado naquele tempo, teria sido devidamente identificado como propaganda da Nova Era, bem ao estilo tradicionalista antimarxista de Guénon. Evidências não faltam para sustentar essa identificação.

Hoje, as editoras e igrejas evangélicas mal falam sobre a Nova Era. Resultado? Até pastores pentecostais estão recomendando e promovendo inconscientemente produtos da Nova Era.

Em junho de 2017, Victorio Galli, que é pastor assembleiano e deputado do PSC, usou a tribuna do Congresso Nacional para louvar “O Jardim das Aflições.” Publicamente, ele também louvou o teósofo Josias Teófilo.

Em julho de 2017, Marco Feliciano, que é pastor assembleiano e deputado do PSC, caiu no mesmo erro, fazendo um post público de Facebook marcando Carvalho e Josias Teófilo e pedindo para que todo o seu público assistisse, curtisse e compartilhasse “O Jardim das Aflições,” que foi recomendado por ele na tribuna do Congresso Nacional.

Não é a primeira vez que Feliciano dá um deslize tão feio. No início de 2017, ele recomendou os livros de Paulo Coelho, que é um mago da Nova Era.

Galli e Feliciano foram muito mais “inocentes” do que os americanos. Na estreia do filme em Nova Iorque em julho, o público americano não apareceu. Só um punhado de imigrantes brasileiros.

Nem mesmo americanos que são membros do Instituto Inter-Americano, dirigido por Carvalho, mostraram presença na estreia do filme dele nem o recomendaram.

“O Jardim das Aflições” é um filme da Nova era, do personagem ao diretor. É mera propaganda do tradicionalismo antimarxista que o esotérico Guénon já promovia muitas décadas antes de Carvalho. A única diferença é que tem pitadas do sincretismo católico de Carvalho, mas isso não o torna diferente da maioria dos católicos do Brasil. Difícil encontrar um católico brasileiro que não seja sincrético.

Se estivéssemos na década de 1990, saturada no mundo evangélico de denúncias contra a Nova Era, “O Jardim das Aflições,” seu personagem e diretor não conseguiriam entrar nas igrejas nem serem elogiados por pastores assembleianos na tribuna do Congresso Nacional.

Mas hoje nem a VINACC nem Feliciano conseguem identificar a ameaça. A Nova Era, em roupagem filosófica, ficou chique para eles.

Enquanto a VINACC não sabe se critica ou bajula o personagem de “O Jardim das Aflições,” Feliciano parece ter certeza de que essa produção da Nova Era merece elogios e recomendações.

Com “O Jardim das Aflições,” ficou fácil a Nova Era entrar em igrejas e corações evangélicos. Essa invasão ocultista acontece num momento em que a poderosa Esquerda americana reconheceu que a maior força conservadora do Brasil são os evangélicos. Tal reconhecimento fundamental é inexistente em “O Jardim das Aflições,” pois sua missão maior, está mais que claro, é promover seu próprio personagem católico sincrético como a força e inteligência maior no conservadorismo brasileiro.

Se até a Esquerda americana vê que são os evangélicos, que dão glória a Deus, que fazem a verdadeira diferença no conservadorismo, por que Feliciano preferiu dar a glória a um mero astrólogo, que tem se notabilizado por transformar seus discípulos evangélicos em meros religiosos sincréticos (como é o caso da professora evangélica adepta da doutrinação astrológica em sala de aula)?

Se pastores como Feliciano não perceberem que estão sendo minados, os evangélicos poderão ficar fracos para continuar liderando a onda conservadora brasileira.

Eles precisam ler o quanto antes o artigo “O mínimo que você precisa saber para não ser um ‘evanjegue’” antes que a propaganda de “O Jardim das Aflições” os transforme em mero “Imbecil Coletivo” a serviço da Nova Era.

Versão em inglês deste artigo: “The Garden of Afflictions,” a New Age Movie

Fonte: www.juliosevero.com


Cada autor é responsável pelo conteúdo do artigo.

1 Comentário

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  1. Excelente! Que alcance o máximo possível de evangélicos. Precisamos de despertamentos como este.

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