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O obreiro diligente

por Artigo compilado - sex abr 11, 12:31 am

obreiro

Leitura: Mateus 25.14-30; II Timóteo 4.2; II Pedro 1.5-15; João 5.17 e 4.35.

A vida diária do obreiro cristão está relacionada intimamente com o seu trabalho. E, por essa razão, ao considerarmos as qualificações necessárias para o ser­viço cristão, precisamos levar em conta questões como disposição e conduta. A fim de estar preparado para o serviço espiritual, o homem deve ser dono não apenas de determinado lastro de experiência espiritual, mas igualmente de certo tipo de caráter. O caráter do obreiro deve condizer com o caráter da obra, e o desen­volvimento do caráter de uma pessoa não ocorre em um dia. Se um obreiro tiver de possuir aquelas quali­dades necessárias para que seja útil ao Senhor, então é mister serem consideradas muitas questões práticas atinentes à sua vida diária. Terá ele de desfazer-se de hábitos antigos e de formar novos costumes, mediante a disciplina, e sua vida terá de ajustar-se fundamental­mente à obra, para que se harmonize com ela.

Há certos jovens que desde o início de sua vida cristã manifestam qualidades que nos levam a esperar que se tornem úteis servos de Cristo; por outro lado, existem aqueles que, embora não lhes faltem dons, cedo tropeçam pelo caminho e atraem opróbrio para o nome de Cristo. Pergunta-se, pois, como se explica o desenvolvimento tão variado das vidas dos obreiros cristãos? Seja-me permitido responder francamente que há certas características básicas na constituição de cada um que determinam se terão ou não valia para o Se­nhor. Um jovem pode exibir certas inclinações que pare­cem promissoras para o futuro; todavia, se determinadas qualidades fundamentais não estiverem presentes, certa­mente ele será um desapontamento para outros. Pode ter ele autêntico desejo de servir ao Senhor, mas falta-lhe a disposição de ser um verdadeiro servo. Jamais pude­mos encontrar um obreiro cristão que fosse um bom obreiro, se porventura lhe faltasse o domínio-próprio necessário; e jamais conhecemos uma pessoa desobedi­ente que se mostrasse um servo útil para o Senhor.

Há certas características sem as quais ninguém pode ser um obreiro cristão satisfatório, tornando-se necessário, desse modo, um processo de destruição e reedificação, a fim de que o Senhor possa obter obreiros que satisfaçam às Suas exigências. A dificuldade de muitos candidatos à obra do Senhor não consiste de ignorância ou falta de habilidades, mas reside no fato que o errado é o próprio indivíduo; há algo de funda­mental que está ausente em sua constituição. Por conse­guinte, é necessário que nos humilhemos perante Deus, submetendo-nos à disciplina própria, se aquilo que porventura estiver faltando em nosso caráter tiver de ser corrigido. Demoremo-nos um pouco em Sua presença, buscando descobrir algumas daquelas qualidades reque­ridas de todos quantos tiverem de servi-Lo de modo aceitável.

Uma dessas qualidades é a diligência. Parece supérfluo dizê-lo, mas realmente é essencial afirmar de maneira enfática que o obreiro cristão deve ser pessoa dotada da vontade de trabalhar. No evangelho de Mateus lemos acerca da história dos servos aos quais foram entregues cinco talentos, dois talentos e um talento, respectivamente. Quando, após longa ausência, o senhor daqueles servos regressou e exigiu que prestassem contas de sua custódia, o servo que recebera um único talento, disse: “Senhor, sabendo que és homem severo, que ceifas onde não semeaste, e ajuntas onde não espalhaste, receoso, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu. Respondeu-lhe, porém, o senhor: Servo mau e negligente, sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei? Cumpria, portanto, que entregasses o meu dinheiro aos banqueiros, e eu, ao voltar, receberia com juros o que é meu. Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez. . E o servo inútil lançai-o para fora, nas trevas. Ali haverá choro e ranger de dentes” (25.24-30).

Esse trecho das Escrituras demonstra que o Senhor requer que cada servo Seu seja diligente no serviço que Lhe presta. Ele indicou claramente a falha funda­mental na vida do servo que nos foi retratado acima. Tal falha era dupla: ele era “mau” e “negligente”. A sua maldade ficou manifesta no fato que ousou chamar seu senhor de “homem severo”. Não frisaremos aqui este aspecto do seu caráter, mas falaremos a res­peito de outro aspecto, isto é, de sua negligência.

A preguiça não é um defeito raro. Os preguiçosos nunca buscam trabalho, e, ainda que cheguem a empregar-se, buscam evitar todo esforço. Infelizmente, muitos crentes, como também descrentes, sofrem dessa fraque­za, e servem de empecilho para com os seus compa­nheiros. Já tiveram a oportunidade de conhecer algum obreiro cristão eficaz que também fosse indolente? Não, mas todos os tais são diligentes e estão sempre alertas, não desejando desperdiçar tempo ou esforços. Não vivem à cata de oportunidade para descansar, mas, pelo contrário, buscam aproveitar cada ocasião opor­tuna para servirem ao Senhor.

Contemplem os apóstolos. Quão diligentes foram eles! Pensem no colossal trabalho realizado por Paulo no decurso de sua vida. Vejam-no a viajar de lugar para lugar, pregando o evangelho onde quer que se encontrasse, arrazoando intensamente com indivíduos; até mesmo quando foi lançado numa prisão, não deixou de aproveitar tal oportunidade — pregava para todos com quem entrava em contacto e escrevia para aqueles de quem fora separado. Leiam o que ele escreveu para Timóteo, quando estava encarcerado: “Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não” (II Timóteo 4.2). A prisão podia restringir os movimentos externos de Paulo, mas não era capaz de cercear a eficácia do seu ministério. Quantas riquezas espirituais ele ministrou por intermédio de suas epístolas escritas na prisão! Não havia o menor resquício de preguiça em Paulo; ele estava sempre aproveitando o tempo.

Infelizmente, muitos obreiros cristãos declarados não fazem o esforço de buscar oportunidade para servir ao Senhor; e se alguém se aproxima deles sem ter sido convidado, consideram isso uma interrupção, e não uma oportunidade, e tão-somente almejam que tal pessoa logo se vá embora e deixe de aborrecê-los. Que nome vocês emprestariam a isso? Essa atitude se denomina preguiça.

Vocês já tiveram de tratar com trabalhadores que “amarram” o trabalho? Essas pessoas aceitam realizar alguma tarefa, mas elas se demoram e arrastam sobre­maneira o serviço, ao mesmo tempo que, se podem fingem estar trabalhando, pois não levam a sério o seu serviço, já que sua única preocupação é matar o tempo. Qual é a dificuldade que os aflige? É a mais franca preguiça.

Em sua epístola aos filipenses, escreveu Paulo: “A mim não me desgosta, e é segurança para vós outros, que eu vos escreva as mesmas cousas” (3.1). Embora Paulo estivesse encarcerado, não considerava um enfado ter de reiterar as mesmas coisas ao dirigir-se por escrito aos crentes de Filipos, visto que isso tinha em mira o bem deles. Como isso difere de muitos crentes! Se lhes solicitarmos que façam alguma coisa, reagem como se uma carga tremenda lhes houvesse sido imposta. A pessoa que reputa tudo como um fardo não pode ser um fiel servo do Senhor; nem ao menos pode ser um servo fiel dos homens. Alguns dos chamados “obreiros cristãos de tempo integral” são tão profunda­mente espirituais que não vêem necessidade de trabalhar arduamente ou de prestar contas de seu serviço a quem quer que seja. Se estivessem empregados em algum trabalho secular, nenhum patrão terreno os toleraria, face à indolência que caracteriza o seu serviço; e, no entanto, iludem-se, pensando que podem servir a Deus dessa maneira. Oh! nosso caráter precisa ser disciplinado até não mais considerarmos o trabalho como algo maçante, deleitando-nos em despender tempo, energias e recursos materiais, sem nenhuma restrição, a fim de servir aos outros! Paulo não só se derramava em seu ministério espiritual, mas também experimentava quão árduo pode ser o trabalho manual. Ouçamos a sua própria declaração:— “Vós mesmos sabeis que estas mãos serviram para o que me era necessário a mim e aos que estavam comigo” (Atos 20.34). Ali estava um verda­deiro servo do Senhor.

Alguns supostos obreiros cristãos têm, realmente, aversão ao trabalho, e sempre podem apresentar alguma desculpa para evitá-lo; a outros falta o impulso de buscar trabalho e simplesmente se deixam ficar no ócio, espe­rando que aconteça alguma coisa. Todo servo fiel a Cristo aproveita os momentos; mesmo quando não esteja externamente atarefado está internamente ativo, esperando no Senhor em autêntico exercício do coração. De certa feita, disse nosso Senhor: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (João 5.17); noutra ocasião, fez aos discípulos esta pertinente pergunta: “Não dizeis vós que ainda há quatro meses até à ceifa? ” E respondendo Ele mesmo à indagação, adicionou: “Eu, porém, vos digo: Erguei os vossos olhos e vede os campos, pois já branquejam para a ceifa” (João 4.35). Os discípulos estavam dispostos a esperar durante quatro meses até lançarem mãos à obra, mas nosso Senhor, na realidade, disse que já era chegado o tempo de se lançarem ao trabalho, e não somente em alguma data futura. “Erguei os vossos olhos e vede”, disse Ele, indi­cando o tipo de trabalhador de que Ele precisava — alguém que não espera até que o trabalho chegue à sua presença, mas que tem olhos para ver o trabalho a ser feito. Nosso Senhor mantinha-se sempre alerta para cooperar com o Pai em tudo quanto estivesse fazendo; e, visto que o Pai estava sempre ativo, o Filho igual­mente se conservava ativo. Não é a fervente atividade de pessoas cujas inclinações para o desassossego as con­servam sempre agitadas que pode satisfazer à neces­sidade, mas esta necessidade pode ser satisfeita pelo espírito de alerta do servo diligente, o qual vem culti­vando o hábito de olhar para cima e sempre pode ver a obra do Pai, que aguarda sua cooperação. Infeliz­mente, pouquíssimos são os crentes que podem ver o que Deus está fazendo atualmente. É trágico, mas é possível que atravessemos os campos maduros para a colheita sem ao menos percebermos os grãos já ma­duros. É possível que o trabalho esteja bem defronte de nós sem ao menos nos darmos conta disso. Os crentes a quem falta esse senso de urgência na obra, que podem esperar confortavelmente pelo espaço de “quatro meses”, antes de se lançarem à tarefa, são “servos inúteis”. Cristo precisa de obreiros que apro­veitem zelosamente os momentos que passam, que nunca adiam o trabalho para o dia de amanhã, se puder ser feito hoje. Em alguns lugares não há ceifa pela simples razão que é muito grande o número de crentes que não gostam de trabalhar.

A diligência é essencial se tivermos de servir ao Senhor, mas ela consiste primariamente de uma questão do íntimo que não pode ser medida pelo volume externo de atividades. Não ousamos ceder perante a indolência da nossa própria constituição, razão pela qual também nos devemos esforçar por cultivar uma disposição diligente. Entretanto, de nada adiantará que nos obriguemos a trabalhar um pouco mais se formos preguiçosos por natureza, porquanto, após um período de trabalho duro certamente reverteremos aos antigos hábitos de indolência. O de que precisamos é de uma transformação radical em nossa constituição. Estamos familiarizados com as palavras que ensinam que o Senhor veio “buscar e salvar o perdido” — Ele veio não so­mente para entrar em contacto com os homens; mas veio procurá-los e salvá-los. Com que diligência Ele os bus­cava e salvava! É dessa disposição que precisamos.

No primeiro capítulo de sua segunda epístola escreve Pedro: “…reunindo toda vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o co­nhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseve­rança, a piedade; com a piedade, a fraternidade; com a fraternidade, o amor” (versículos 5-7). Essa adição sobre adição caracteriza cada pessoa diligente. Cumpre-nos cultivar a disposição que nunca cessa de adquirir novos territórios no reino espiritual, pois, desse modo, seremos servos úteis para o Senhor. Oh, precisamos ser intensamente positivos em Seu serviço! Alguns obreiros cristãos parecem completamente despidos de qualquer senso de responsabilidade; não percebem a vas­tidão do campo; não sentem quão urgente é que atinjam as extremidades da terra com o evangelho; tão-somente se ocupam de sua pequena área e esperam que coisas melhores sucedam. Se não viram uma única alma ser salva no dia de hoje, aceitam isso como questão consu­mada, e esperam vagamente que os resultados do dia de amanhã serão melhores; entretanto, se nenhuma delas for salva amanhã”, simplesmente resignam-se novamente ante o inevitável. Como pode ser atingido o propósito do Senhor com obreiros de tal qualidade?

Pedro era feito de material diferente. Na passagem que acabamos de citar, o apóstolo procura ansiosamente despertar os seus leitores de tudo quanto, porventura, tenha sabor de passividade. Releiam esse trecho e obser­vem a energia divina que pulsa em todo o ser de Pedro, a qual ele busca comunicar a outros por meio de sua epistola. O que ele pretendia dizer é que logo que tenhamos adquirido uma virtude cristã, devemos, ime­diatamente, procurar suplementá-la com outra; e, tendo obtido essa outra, devemos buscar ainda outra qualidade complementar. E assim compete-nos prosseguir, nunca satisfeitos com aquilo que já pudemos conseguir, mas sempre acrescentando e jamais cessando de acrescentar, até que o alvo seja atingido. E qual é o propósito desse esforço incansável? “Porque estas cousas”, explica Pedro, “existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo” (versículo 8).

Note-se que a diligência elimina a ociosidade. O estado negativo da ociosidade é combatido pelo estado positivo da diligência. A ociosidade não pode ser tratada de modo negativo; tem suas raízes na preguiça, e a cura para a preguiça é a diligência. Se sempre nos encontrarmos desempregados ou inativos, será neces­sário que nos controlemos firmemente; teremos que suprir aquilo que falta em nossa constituição. Tendo corrigido a primeira deficiência, teremos de corrigir a segunda, e a terceira, e uma por uma de todas as demais deficiências, até que não sejamos mais “nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo”. Se, mediante o poder divino, assim fizermos, terá lugar uma grande transformação em nosso caráter. Não mais nos mostraremos vadios, mas antes, nos disporemos para o trabalho árduo e se­remos jubilosos servos do Senhor.

Pedro se mostrou incansavelmente diligente ao buscar levar os seus leitores a essa qualidade. Notemos o que ele afirma no versículo quinze: “De minha parte, esforçar-me-ei diligentemente por fazer que, a todo tempo, mesmo depois da minha partida, conserveis lembrança de tudo”. O que mais nos impressiona aqui não é uma atividade óbvia, externa. Mas é o senso íntimo de urgência, de urgência de espírito, que gerava aqueles incansáveis esforços da parte de Pedro.

Oxalá acordássemos para o peso de nossa grande responsabilidade, para a urgência da necessidade que nos circunda, e para a natureza transitória do tempo! Se ficássemos impressionados com a seriedade da si­tuação, não teríamos opção senão lançarmo-nos ao tra­balho, ainda que nos tivéssemos que privar do alimento e do sono, a fim de atingir o nosso alvo. Nosso tempo já se esgotou quase por inteiro; a necessidade continua desesperadora; nossa solene obrigação ainda não foi executada. Que, na qualidade de homens que morrem, nos entreguemos com todo o nosso poder ao serviço daqueles que morrem ao nosso derredor. Não permi­tamos que a preguiça natural nos enleie na procrasti­nação, mas hoje mesmo devemo-nos levantar e ordenar que nossos corpos nos sirvam. De que vale dizermos que ansiamos por servir ao Senhor, se não nos despertamos de nossa letargia? E de que nos servirá todo o nosso conhecimento, se isso não nos puder salvar de nossa indolência inata?

Examinemos, uma vez mais, a passagem do capítu­lo vinte e cinco do evangelho de Mateus, que já conside­ramos no início de nossa preleção. Naquela parábola vimos certo servo do Senhor enfrentar duas acusações perante o tribunal de Cristo – a acusação de “maldade” e a acusação de “negligência”. O próprio Senhor Jesus proferiu a sentença: “E o servo inútil lançai-o para fora, nas trevas” (versículo 30). A avaliação que o Senhor faz do servo preguiçoso se resume numa palavra, “inútil”. Só o servo diligente Lhe pode ser útil. Não consideremos superficialmente essa questão; mas acei­temos a advertência solene, e de hoje em diante depen­damos do Senhor para que Ele nos capacite a mudar nossos lerdos hábitos. Posto que a indolência é um hábito repetido que se desenvolve com a passagem dos anos, não podemos embalar a esperança de corrigi-la em um dia ou dois, nem podemos esperar remediá-la por meio de tratamentos suaves. Mas compete-nos tratar de nosso caso sem usar de clemência, na presença do Senhor, se nos tivermos de tornar servos que não sejam “inúteis” para o Seu serviço.

Extraído do livro “O Obreiro Cristão Normal” da Ed. Vida


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