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Oscar Cullmann e a Imortalidade da Alma

por Prof. Paulo Cristiano da Silva - sex jan 05, 12:50 am

Uma resposta a Leandro Quadros

Aniquilacionismo e Condicionalismo são dois conceitos teológicos presentes em algumas seitas pseudocristãs, dentre elas as Testemunhas de Jeová e os Adventistas do Sétimo Dia. Ultimamente encontramos uma revitalização destes dois erros doutrinários na maioria dos teólogos liberais e até mesmo em alguns evangélicos considerados conservadores, como por exemplo, o teólogo anglicano John Stott.

Há tipos diferentes de aniquilacionismo. As Testemunhas de Jeová não admitem, em hipótese alguma, um inferno de fogo. Já os Adventistas do Sétimo Dia acreditam que o inferno permanecerá enquanto existirem ímpios para serem queimados juntamente com seus pecados. Enquanto o primeiro conceito diz respeito apenas aos ímpios trazendo a ideia de extinção após o julgamento final, o segundo atinge somente os salvos e fala sobre uma imortalidade concedida pelo fato de estarem em Cristo.

Não pretendo discutir aqui o conceito de imortalidade em si ou distinguir entre vida eterna e existência eterna, ou se os ímpios têm ou não imortalidade.

O escopo da análise recairá sobre o que de fato ensinou Cullmann a respeito da imortalidade da alma. Ele estava condenando o conceito bíblico, cristão e evangélico de imortalidade da alma, ou condenando apenas o conceito grego de imortalidade?

 Oscar Cullmann – a nova muleta intelectual na apologética adventista

Para reforçar a tese de que o conceito de imortalidade da alma ensinado pelos cristãos é de origem grega e pagã, o apresentador do programa “Na Mira da Verdade”, quase sempre utiliza o livro “Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos?” do teólogo protestante Oscar Cullmann como munição contra seus adversários, seja em debates como fez no programa “Vejam Só” da RIT, ou em sites e blogs adventistas. Por exemplo, em seu blog ele colocada a questão nos seguintes termos:

“Em 1956, Oscar Cullmann (luterano), em uma conferência apresentada na Capela Andover, Universidade de Harvard, argumentou que o entendimento de Platão, a respeito da imortalidade da alma, e o ensino cristão da ressurreição dos mortos são totalmente antagônicos. Entre outras coisas, ele afirmou: ‘A antropologia do Novo Testamento não é grega, mas está conectada com as concepções judaicas. Para os conceitos de corpo, alma, carne e espírito […], o Novo Testamento usa, sem dúvida, as mesmas palavras que os filósofos gregos. Mas elas significam algo bem diferente, e compreendemos todo o Novo Testamento distorcidamente, quando construímos conceitos apenas do ponto de vista do pensamento grego. Muitas incompreensões surgem assim’.[2]

Prosseguindo, ele aponta que Cullmann destaca “que ‘nós não somos libertados do corpo [afinal, ele é considerado o “templo do Espírito”, não a “prisão da alma”, como ensinava Platão – ver 1Co 6:19,20]; pelo contrário, o próprio corpo é libertado […] A alma não é imortal. Deve haver ressurreição para ambos; pois desde a queda o homem todo está ‘permeado pela corrupção’.[3]”

Finalmente conclui dizendo que: “À luz da antropologia bíblica que, segundo Cullmann (entre outros que mencionarei) é holística, ao invés de dualística ou tricotomista, podemos compreender melhor (novamente citando o referido teólogo) textos paulinos mencionados pelo irmão em seu e-mail”[1]

Outro a utilizar Cullmann como baluarte foi o teólogo adventista Alberto Timm quando indagou se “O ser humano foi criado mortal ou imortal?” para acrescentar em seguida que “Oscar Cullmann, em sua célebre obra intitulada Immortality of the Soul or Resurrection of the Dead? The Witness of the New Testament (Imortalidade da Alma ou Ressurreição da Morte? O que diz o Novo Testamento), demonstra que essa teoria não é um conceito bíblico, mas uma reminiscência da filosofia grega.” (Alberto R. Timm – Sinais dos Tempos, maio/junho de 2001. p. 30)

A pergunta a ser feita não é se Cullmann escreveu isso, mas em que contexto estas citações se encontram?

O que de fato ensinou Oscar Cullmann sobre a crença na imortalidade da alma? Em quais pontos ele apoia (se é que apoia) o argumento adventista de Quadros e Timm?

É necessário separarmos de antemão algumas questões tais como: o que é a alma para Cullmann? Quando ele afirma que o Cristianismo não ensina a imortalidade da alma, estaria ele afirmando que não cria na sobrevivência da alma após a morte?  Ou os dois são conceitos diferentes e não conflitantes na teologia de Cullmann? E mais: o modo com que Cullmann trabalha a origem da imortalidade afeta sua concepção teológica da vida no além?

É importante apontarmos essas diferenças, pois Leandro Quadros em seus argumentos tenta embaralhá-las em favor do seu aniquilacionismo, sutilmente transformando Cullmann num defensor dessa teoria.

Na obra “Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos?” e também em outro livro chamado Das origens do evangelho à formação da teologia cristã”, Cullmann mostra realmente o contraste entre a concepção grega da imortalidade da alma e a crença cristã na ressurreição do corpo. A esperança da imortalidade da alma dos gregos é um equívoco contrabandeado para dentro do cristianismo, diz Cullmann. Mas em que bases o teólogo suíço coloca essa afirmação? É isso que pretendemos averiguar.

 Quem foi Oscar Cullmann?

Oscar Cullmann (1902 – 1999) foi um teólogo alemão da tradição luterana da escola neo-ortodoxa que popularizou o conceito alemão de Heilsgeschichte  (história da salvação). Perito em estudos do Novo Testamento, escreveu diversas obras sobre cristologia e escatologia. Cullmann também é conhecido por seu trabalho ecumênico junto à Igreja Católica e sua ênfase na história sagrada como revelação. Entre seus livros de maior folego, encontram-se “Cristo e o Tempo”, “Cristologia do Novo Testamento” e “Salvação como história”.

Entendendo o contexto da teologia de Cullmann

Para entender as posições de Cullmann frente ao tema “imortalidade da alma”, precisamos voltar para a tese central da sua teologia – Heilsgeschichte.

É sobre esse tema que ele trava um diálogo conflituoso, primeiramente com Rudolf Bultmann e secundariamente com Karl Barth.

Bultmann havia se distanciado tanto do Jesus histórico com seu método existencialista da desmitologização, que Jesus e sua história concreta ficaram relegados a segundo plano. Para ele, o Jesus transcendente da fé da igreja valia mais do que o Jesus histórico.

A discussão de Cullmann sobre a alma começa com seu desacordo com a questão do tempo. A temporalidade do Jesus histórico é um tema muito caro na teologia cullmaniana. Nela, Deus por meio de Cristo, se mistura com o temporal, com a concretude da história. A tese central de Cullmann repousa no tempo histórico da salvação cristológica. O tempo é linear. A redenção cristã se dá no tempo que culminará na escatologia.

Na visão do teólogo, não estamos em uma concepção grega de tempo que no caso é cíclica, sem nenhum evento absoluto, uma sequência de ciclos repetitivos de momentos. Qual a implicação disso para a história? Nessa visão de mundo, a história não comporta nenhum fato singular, pois é um eterno retorno. O determinismo temporal dos gregos se assemelha a uma prisão cósmica onde é impossível sair deste círculo temporal.

Cullmann percebeu que essa visão possui um impacto gigantesco na doutrina da salvação, já que, se os eventos e momentos estão infinitamente retornando, a obra redentora de Cristo não é um evento singular na história, e Cristo não “ofereceu-se uma única vez pelos nossos pecados” conforme Hebreus 9.28.

A teologia cristã apostólica vai na contramão deste pensamento, pois ela tem uma concepção retilínea, ou seja, contínua. Há uma divisão nítida do tempo bíblico em passado, presente e futuro. O agir salvífico de Deus na história necessita da noção linear de tempo. Jesus veio na plenitude do tempo (cf. Gl 4.4).

O mundo helênico, ao contrário, não pode conceber que a libertação pudesse resultar de um ato divino consumado na história temporal. Para eles, a libertação somente é passar dessa existência para outra dimensão: sair do ciclo temporal para o além, onde o tempo não existe. Cullmann não admite essa ideia.

 Qual a verdadeira discussão de Cullmann sobre a imortalidade da alma?

Como vimos, a discussão de Cullmann sobre a redenção e a história tem uma discussão maior como pano de fundo – o tempo, ou melhor, o contraste entre as concepções grega e cristã de tempo: tempo cíclico e tempo linear.

A partir dessa discussão maior, é que ele introduz outra: a imortalidade da alma. A antropologia grega girava em torno da alma. A alma era preexistente, possuía imortalidade inerente, era substancialmente superior e fazia parte do mundo verdadeiro -o mundo das ideias.  Ela libertava-se do corpo para uma morada superior e retornava em várias reencarnações. O corpo era inferior, uma cópia do mundo das sombras e uma prisão para a alma, segundo Platão.

Para os gregos, não havia salvação no tempo histórico; a salvação era inerente à alma, portanto, não havia necessidade de uma ressurreição. A morte era apenas um escape da alma em direção ao tempo que retornaria infinitamente. Ademais, a imortalidade era inerente a alma individual, pois compartilhava, segundo o platonismo, da estrutura de uma alma universal. A alma era eterna assim como a matéria.[2]

O que disse Cullmann sobre a imortalidade da alma?

 Abaixo transcrevo algumas partes constantes no capitulo 8 “Imortalidade da alma ou ressurreição dos mortos” retirado do livro “Das origens do Evangelho à formação da teologia cristã”, cuja leitura integral seria útil para comparar com meus comentários logo abaixo.

Nestes excertos observaremos como Cullmann se afasta tanto da concepção grega de imortalidade da alma, quanto da ortodoxia protestante, e mais ainda da noção aniquilacionista dos adventistas.

Diz ele: “O Novo Testamento também conhecia evidentemente a distinção entre corpo e alma, ou melhor, entre homem interior e exterior. Porém, esta distinção não significa oposição, como se o homem interior fosse naturalmente bom e o exterior mau. Os dois são essencialmente complementares um ao outro, ambos foram criados bons por Deus. O homem interior sem o exterior não possui existência independente verdadeira. Tem necessidade do corpo. Tudo o mais que pode fazer é levar, à semelhança dos mortos do Antigo Testamento, uma existência sombria esfumada no sheol, porém isto não é uma vida verdadeira. A diferença com respeito à alma grega é evidente: esta sobrevive sem o corpo e somente sem o corpo pode alcançar seu pleno desenvolvimento […]” (CULLMANN, Oscar. Das origens do Evangelho à formação da teologia cristã. São Paulo: Fonte Editorial, 2004, p. 194 – destaque meu)

 Comentário – Nesse trecho Cullmann expõe o contraste entre a noção cristã e a grega de alma. Os cristãos, semelhantemente aos gregos, faziam uma dicotomia entre corpo e alma. Mas a dicotomia cristã não se encontra num grau hierárquico valorativo. Ambos, corpo e alma, são bons e complementares. Para a antropologia cristã, o homem sem o corpo não constitui pessoa real e verdadeira. A alma depende do corpo.

Neste ponto, tanto nós, quanto os adventistas, concordamos ipsis litteris com ele.

Mas aí vem a explicação dada por Cullmann, que Quadros nunca menciona em seus artigos. E não o faz porque ela se afasta completamente da ideia adventista de imortalidade da alma. Ele, ao contrário do que apregoa a teologia adventista de Leandro Quadros, acredita na sobrevivência da alma após a morte, pois confessa com todas as letras que a alma, sem o corpo, no máximo pode levar “[…] à semelhança dos mortos do Antigo Testamento, uma existência sombria esfumada no sheol, porém isto não é uma vida verdadeira”.

Observe que ele não nega a sobrevivência da alma após a morte. A questão é que ela sem o corpo não tem vida verdadeira. Aqui ele não só refuta o aniquilacionismo adventista, mas também corrobora que a tradição religiosa judaica acreditava em um lugar fixo no além para onde iam as almas dos mortos, consoante o que sempre apregoamos.  Cullmann não está de modo algum negando a sobrevivência da alma como quer nos fazer acreditar Leandro Quadros.

Cullmann continua explicando a questão da seguinte maneira:

“Pois a carne, ligada a nosso corpo terrestre, é um obstáculo ao progresso completo do Espirito Santo enquanto vivemos. O morto está livre deste obstáculo, ainda que seu estado seja todavia imperfeito, pois não tem o corpo de ressurreição. Tampouco esta passagem dá mais precisões que as outras sobre este estado intermediário, onde o homem interior, despojado do corpo carnal, porém privado, todavia, do corpo espiritual, se encontra só com o Espirito Santo.” (Ibid, p. 206 – destaque meu)

Comentário: É interessante que Cullmann usa uma típica nomenclatura teológica imortalista ao falar sobre o “estado intermediário” dos mortos. Qual seria este estado? Simples: a alma, que ele chama de “homem interior” vivificado pelo Espírito Santo, encontra-se DESPOJADA DO CORPO até a ressurreição deste. É uma prova textual de que o teólogo alemão acreditava num estado intermediário de sobrevivência da pessoa após a morte e, ele afirma melhor essa questão nesses termos “O homem interior, despojado de corpo, não está só; esta existência de penumbra, que era o único objeto de esperança dos judeus é que não podia ser considerada como uma “vida”, não lhe guia mais.” (p. 206)

Confrontado com o ensino bíblico e cristalino da sobrevivência da alma após a morte do corpo e o testemunho esmagador na história da Igreja, ele se questiona da seguinte maneira:

“Poderíamos propor a questão de saber se, desta maneira, não nos vemos reduzidos, em última análise, à doutrina grega da imortalidade da alma, e se o Novo Testamento não supõe, para o tempo depois da Páscoa, uma continuidade do “homem interior”, do cristão convertido, antes e depois da morte, de forma que a morte não represente praticamente mais que um “passo” natural. Até certo ponto nos aproximamos da doutrina grega no sentido de que o homem interior, transformado, vivificado pelo Espirito Santo já com anterioridade (Rm 6.3 s.), continua vivendo assim transformado, ao lado de Cristo em estado de sono. Esta continuidade da vida em espirito é assinalada especialmente pelo Evangelho de João (Jo 3.36; 4.14; 6.54 e outros). Aqui vislumbramos ao menos certa analogia em relação a imortalidade da alma. Todavia, a diferença é radical: o estado dos mortos é imperfeito, de nudez, como disse Paulo, de sono, na espera da ressurreição de toda a criação, da ressurreição do corpo; e, por outro lado, a morte fica como inimigo que, tendo sido vencido, ainda não foi destruído.” (Ibid, p. 207 – destaque meu)

Comentário: No texto acima Cullmann expõe contrastes e semelhanças entre a crença grega e a cristã sobre a imortalidade da alma. De certa forma nos aproximamos dos gregos na ideia neotestamentaria sobre a sobrevivência dela após a morte, mas nos afastamos no que tange à sua dependência para com o corpo. Ele expressa esse argumento citando Justino, o Mártir em seu dialogo com o judeu Trifão: “Justino, no ano 150 da nossa era, menciona aqueles que ‘dizem que não há ressurreição dentre os mortos, mas que suas almas sobem ao céu no próprio momento da morte’. Aqui o contraste está claramente expresso.” (Oscar Cullmann, Das origens do evangelho à formação da teologia cristã. 2 ed. São Paulo: Fonte Editorial, 2004, p. 209).

Lembrando que Justino, apesar de acreditar na sobrevivência da alma após a morte, condenava com veemência a ideia grega de imortalidade.

Sobre a semelhança com a crença grega confessa: “[…] ao dizer que são castigadas as almas dos iníquos que, ainda depois da morte, conservarão a consciência, e que as dos bons, livres de todo castigo, serão felizes, parecerá que falamos como vossos poetas e filósofos […]” (I Apologia 21, 1)

Mas essa dependência é invertida por Justino da seguinte maneira: “Em geral, tudo o que os filósofos e poetas disseram sobre a imortalidade da alma e da contemplação das coisas celestes, aproveitaram-se dos profetas, não só para poder entender, mas também para expressar isso. Daí que parece haver em todos algo como germes de verdade. Todavia, demonstra-se que não o entenderam exatamente, pelo fato de que se contradizem uns aos outros.” (Apologia I, 44)

Em outro livro ele aponta as deturpações que os gregos haviam feito na crença da seguinte maneira: “Outros, supondo que a alma é imortal e incorpórea, acham que nem mesmo praticando o mal, sofrerão algum castigo, pois o incorpóreo é impassível e, sendo a alma imortal, não precisam de Deus para nada.” (Diálogo com Trifão, 1)

E a condenação é posta nos seguintes termos: “Se vós vos deparais com supostos Cristãos que não façam esta confissão, mas ousem também vituperar o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, e neguem a ressurreição dos mortos, sustentando antes, que no ato de morrer, as suas almas são elevadas ao céu, não os considereis Cristãos.” (Diálogo com Trifão, 80)

Essa ideia de imortalidade sem ressurreição é pagã e totalmente avessa ao ensino bíblico. Neste particular, os cristãos conservadores estão com Justino e Cullmann. Aqui não há margem nem para o aniquilacionismo e muito menos para o paganismo grego.

            O historiador Eusébio afirma que a doutrina aniquilacionista era alheia à fé da Igreja:

“Apareceram ainda, na Arábia, no tempo a que nos referimos, introdutores de uma doutrina alheia à verdade. Asseveravam que a alma humana neste mundo, no momento final, provisoriamente morre com o corpo, e com ele se corrompe, mas no futuro, por ocasião da ressurreição, com ele reviverá. Então, foi convocado um importante concílio. Orígenes novamente foi chamado, e após ter discursado perante a assembleia sobre a questão disputada, saiu-se de tal forma que alterou o modo de pensar dos que primeiramente haviam sido iludidos.” (CESAREIA, Eusébio de. História Eclesiástica, Livro VI, 37)

No frigir dos ovos, o que Cullmann disse é praticamente o mesmo o que Justino ensinou há milhares de anos, talvez por isso é que ele faz o fechamento de seu capítulo com uma citação do filósofo cristão.

 Leia Lutero para entender Cullmann

Oscar Cullmann era luterano, como bem lembrou Leandro Quadros. Mas será que ele nem ao menos desconfiou que a teologia de Cullmann pudesse ter sido influenciada por Lutero? Se for certo que ele recebeu essa influência do reformador, por conseguinte, a próxima pergunta seria: o que ensinava Lutero sobre a alma? Ele apoiava as ideias do senhor Leandro Quadros?

Observe algumas falas de Lutero sobre o assunto e tire suas próprias conclusões: “Pois como é Abraão um servo de Deus depois de sua morte? Deus não será capaz de eventualmente esquecer Abraão? Hoje ele certamente ainda serve Deus, assim como Adão, Abel e Noé servem Deus. E isto deve ser notado cuidadosamente; pois é verdade divina que Abraão está vivendo, servindo Deus e reinando com Ele. Mas qual a natureza desta vida, se ele está dormindo ou acordado, é outra questão. Nós não temos que saber como a alma descansa. É certo que ela está viva.” [LW 5:74].

Em outro lugar ele afirma:

“Mas agora surge outra questão. Visto que é certo que as almas estão vivas e estão em paz, que tipo de vida ou descanso é este? […] Assim é suficiente para nós sabermos que as almas não saem de seus corpos para o perigo de torturas e punições do inferno, mas que foi preparado para elas um quarto onde elas podem dormir em paz.” (Lutero – LW 4:313 – destaque meu)

E ainda: “É verdade que as almas ouvem, percebem e veem depois da morte; mas como isto acontece, não entendemos… Se nos empenharmos em dar uma explicação de tais coisas segundo as características desta vida, então somos tolos.[…]” – (Conversas com Lutero, p. 122 f.; Compend of Luther’s Theology, de Hugh Kerr Philadelphia: The Westminster Press, 1943, p. 241 – destaque meu).

Conclusão

Os textos supracitados não deixam dúvidas quanto à crença de Cullmann e o que ele quis dizer sobre a imortalidade da alma. Apesar de acreditar, semelhante a Lutero, numa espécie de sono da alma, de alguma maneira essa alma não está num estado de aniquilação como ensinam os adventistas, antes, ela encontra-se num estado de existência consciente após a morte do corpo. Todavia, segundo ele, essa concessão de existência fora do corpo não é vida. A vida verdadeira vem somente por meio da ressurreição do corpo. Essa alma que sobrevive após a morte, se estiver unida à vida da ressurreição, está viva com o Senhor pelo Espírito Santo, esperando a ressurreição definitiva do corpo.

Portanto, agora podemos entender corretamente o que de fato o teólogo luterano  condenava. Não a imortalidade da alma simplesmente, mas um tipo pernicioso e herético de imortalidade pagã inerente à alma, sem Deus e sem o corpo.

Posto isso, faço aqui um apelo aos adventistas em geral e em particular ao senhor Quadros: não utilizem mais Cullmann para negar a doutrina da imortalidade da alma ou afirmar que a doutrina é pagã, pois sabendo de que tipo de imortalidade específica ele está tratando (a dos gregos apenas), ignorar deliberadamente isso coloca quem o faz em flagrante desonestidade intelectual.

 

[1] Você pode conferir aqui http://leandroquadros.com.br/debate-sobre-a-imortalidade-da-alma-parte-1/ .

[2] Convém lembrar que Platão, apesar de falar na “criação” da alma por um Demiurgo, este Demiurgo, no entanto, não é um criador ex-nihilo, é mais um organizador de uma matéria preexistente.


Cada autor é responsável pelo conteúdo do artigo.

6 Comentários

Comentários 1 - 6 de 6Primeira« AnteriorPróxima »Última
  1. Então Oscar Cullamn cria na imortalidade e tudo não passou de um mal entendido por uma interpretação equivocada do seu livro e suas afirmações? A maior autoridade sobre Novo Testamento de nosso século era também despreparado e mal informado?

    1. Prova disso que Lutero e Oscar Cullamn criam na imortalidade da alma q luteranos creem tb.

  2. Os Adventistas do sétimo dia, em especial esse senhor Quadros e mais alguns, fazem tudo para continuar propagando suas heresias, às vezes fazem isso até de maneira desonesta só para enganar a muitos que não conhecem a bíblia. Infelizmente!!

  3. Olá, Segundo a vossa explicação, há duas formas de vida eterna: uma sem corpo e outra com o corpo ressuscitado. Também chego a conclusão segundo seu texto que o ladrão que foi ao paraíso, está tendo uma sobrevida lá, uma vida inferior do que seria se tivesse um corpo ressuscitado.

    1. Uma vida inferior, segundo Culmmann. Eu não acho que é inferior, mas incompleta.

  4. Moisés, a resposta está clara. Quadros simplesmente deturpou em causa própria as declarações de Cullmann. Para refutar meu artigo é simples: basta mostrar o que postei sobre Cullmann não foi o que Cullmann disse. Simples assi. Duvido que Quadros conseguirá.

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