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Pode haver dança no culto?

por Artigo compilado - dom ago 19, 12:45 am

Pode haver dança no culto? – UMA ANÁLISE BÍBLICA

Nesses últimos anos tem havido um grande questionamento com respeito a danças no culto. Isso se deve ao crescimento de coreografias no louvor nos cultos de igrejas neopentecostais e renovadas.

O que antes as danças vinham espontaneamente na hora do louvor nos cultos, essas igrejas inovaram com uma coreografia concomitante ao louvor. Isso caracterizou-se como uma marca de igrejas neopentecostais levando igrejas históricas a tomarem uma decisão de proibição quanto à essa liturgia no culto. Como para se proibir alguma coisa na igreja precisa-se ter a autoridade das Escrituras, não faltou pastores e estudiosos que tentaram achar que não há base bíblica para danças e coreografias.

O Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil reuniu-se no final de 2010 para examinar a questão de danças, coreografias e o bater palmas em cultos públicos. Chegaram a conclusão que danças, coreografias não podiam porque “as danças e coreografias não fazem parte do culto público oferecido a Deus conforme revelado na Bíblia e que, portanto, as igrejas devem excluir tais práticas de suas liturgias”[1]. Ainda é afirmado no blog que quanto a bater palmas “fica a critério de cada igreja local”. Porém, o concílio chegou a uma conclusão que as cantatas que incluem apresentações teatrais “continuam a ser permitidas”. Embora o Dr. Augustus Nicodemus deixe claro que ainda fica uma dúvida se elas podem ser enquadradas dentro da categoria das danças.

Antes de analisar essa decisão do Supremo Concílio da IPB, gostaria de afirmar o meu respeito por essa denominação. Acredito que é uma das poucas denominações sérias que existem no Brasil nesse conturbado problema doutrinário do evangelicalismo brasileiro. Também, quero dizer que existem mestres e pastores de mais alto nível, mas como estamos todos caídos em Adão, a Palavra de Deus sempre terá a primazia, pois foi o próprio Paulo que disse : “ainda que nós ou um anjo vos pregue evangelho que vá além do que temos pregado seja anátema” (Gálatas 1.8).

Primeiro, eu quero justificar por que eu estou analisando a decisão do Supremo Concílio da IPB. Uma coisa é uma decisão que a denominação toma deixando claro que a Bíblia deixa livre alguns pontos como foi colocado no bater palmas. Outra coisa é afirmar que as danças não podem em culto público porque não existe base na Bíblia.

Diante dessa afirmação, precisamos analisar a decisão do supremo concílio e buscar analisar as Escrituras abrindo-as e buscando o que ela realmente afirma aos mais incautos que não têm acesso a um exame mais detalhado e exegético, pois existe muita manipulação até nas traduções da Bíblia com respeito a esse assunto para chegar aos interesses doutrinários para que seja agradável a um determinado público cristão.

O que me impressiona é a total incoerência até mesmo sem ao menos tocarmos em um texto bíblico, pois fica evidente que a Bíblia está sendo usada como uma desculpa de proibição na denominação. Notemos: foi achado base para proibição de danças, mas não para teatros em cantatas e palmas. Sendo que é no mesmo VT que existem base para as palmas e danças (embora que rejeitam os textos como tal para base de danças) e não existem nenhuma para representações teatrais. No entanto, as cantatas teatrais são aceitas e as danças não. Difícil não perceber a incoerência e a falta de lógica. Por que as dúvidas são somente para as cantatas teatrais, sendo que não há nenhuma menção na Bíblia sobre elas e não para a proibição das danças em si com textos claros no VT? No entanto, ao contrário, fala-se com toda convicção que “não existe base na Bíblia” para danças no culto. Por que isso?

Facilmente sabemos quando uma doutrina ou uma proibição são humanas, mesmo tendo uma suposta base bíblica. No meio dessas doutrinas, existe uma brecha de incoerência, contradição e o mais grave que acho, desculpas simplistas diante de textos bíblicos claros.

A consequência disso, na minha opinião, é que os pastores da denominação não vão suportar a tamanha incoerência, contradição e base bíblica, embora que todos os textos que dão base ao contraditório da decisão do Supremo Concílio sobre danças estejam já anulados com um pressuposto hermenêutico errado e até perigoso de que a base para o culto é somente o NT o qual iremos analisar nesse texto.

Portanto, meu objetivo é analisar as Escrituras quebrando as falácias em relação a esse tema, pois quando alguém ensina uma proibição do que Deus permite transgredir da mesma forma que alguém que ensina fazer o que Deus proibiu. Quando há o silêncio bíblico, podemos até ser flexíveis, mas quando a Escritura coloca como uma permissão e até incentiva a uma determinada coisa, torna-se grave a proibição e são dignos de rejeição total nesse tema.

  • O problema hermenêutico nesse tema

Todo o problema da base bíblica para as danças está no pressuposto hermenêutico errado dos teólogos que analisam esse tema. Eles afirmam que a base para o culto cristão está somente no NT e que somente nele podemos ter a forma do culto cristão e não no VT.

O Dr. Augustus Nicodemus, em seu blog escreve o seguinte quando fala com respeito a danças:

Vou começar admitindo, por um momento, que o Salmo 150 está falando do templo em Jerusalém e de danças durante o culto. A pergunta, que deveria ter sido feita desde o início, é se o culto cristão toma sua inspiração, gênese e formato do culto do Antigo Testamento. Para mim, a resposta é negativa, embora com qualificações” [2].

Ele ainda afirma o seguinte com respeito aos cultos:

Ao que tudo indica, os cristãos deram continuidade ao culto no Antigo Testamento apenas no que se refere aos princípios espirituais: a ideia de encontro com Deus, de adoração, de louvor, de solenidade, de alegria, de serviço espiritual como povo do Senhor… mas foram buscar nas sinagogas o formato para este culto mais simples e despojado. Nas sinagogas, instituição onde cresceram o Senhor Jesus e todos os apóstolos, havia leitura e pregação da Palavra, orações, cânticos e bênção”.

Existem muitas dificuldades que o Dr. Augustus Nicodemus não tratou no seu texto. A primeira é que a Bíblia jamais coloca um modelo ou formato para o culto cristão como foi escrito. Isso é completamente sem base bíblica. A prova disso é que a Igreja do NT se reunia no templo de Herodes (At 2.46; 3.1), casas (Atos 2.46; 12.12; Romanos 16.5; 15), em cenáculos (Atos 20.8) e nas sinagogas (Tiago 2.2). Mais na frente, a história registra que a igreja se reunia nas catacumbas. Portanto, afirmar que o formato de culto da igreja é a sinagoga não se sustenta e é no mínimo perigoso, já que não estamos mais ligados a cerimônias e as sinagogas tinha uma certa cerimônia a cumprir. Por outro lado, Jesus deixou claro que o formato é quando dois ou três estiverem reunidos em meu nome (Mt 18.20). O culto não seguiria mais um modelo de lugar nem do VT nem do NT. A evidência disso é os vários lugares registrados nas Escrituras onde os apóstolos faziam culto e que jamais isso foi exigido pelos apóstolos.

No entanto, o que impressiona é que existem mais versos que falam da igreja se reunindo em casas e no templo de Herodes que com a palavra sinagoga. Existe apenas uma vez com Tiago. Portanto, jamais os apóstolos queriam que tivéssemos como formato e modelo a sinagoga ou qualquer outro lugar, devido os vários textos demonstrando a variedade dos lugares. Portanto, afirmar que o modelo da igreja do NT é a sinagoga é, no mínimo, deficiente de base exegética e bíblica.

No entanto, precisamos entender que apesar de que os apóstolos não fecharam a questão do formato do culto, eles deixaram princípios que estão tanto no VT como no NT para que haja esse culto. Nesse caso, devemos analisar sempre TODA A ESCRITURA e não somente o NT (2Timóteo 3.16-17). Acredito que a resposta para isso é que Deus foi sensível às várias culturas que tem suas próprias peculiaridades de cultuá-lo. Por exemplo, os africanos tem uma peculiaridade de cultuar a Deus diferente dos europeus; os brasileiros diferentes dos americanos. Assim, Deus deixou os princípios que estão revelados tanto no VT como no NT, mas deu liberdade para cultuá-lo quanto ao formato de culto.

Notemos que Paulo ao buscar base para a ordem do culto na igreja de Corinto ele usa o VT. Ele escreveu:

1 Coríntios 14.20-21  20 Irmãos, não sejais meninos no juízo; na malícia, sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens amadurecidos.  21 Na lei está escrito: Falarei a este povo por homens de outras línguas e por lábios de outros povos, e nem assim me ouvirão, diz o Senhor. 

Notemos que Paulo está falando no contexto de culto e de liturgia para mostrar a total desordem dos coríntios. Mesmo assim, Paulo usou o VT no texto de Isaías 28.11,12.

No mesmo capítulo Paulo ensina os coríntios a usarem os salmos (cantados ou não, mesmo sabendo que a palavra ψαλμος quer dizer também cânticos). Ele escreveu:

1 Coríntios 14:26  26 Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação”.

Todos esses textos demonstram que Paulo fez uso do VT para tirar princípios para o culto do NT. Desta mesma forma, Paulo escreveu aos coríntios falando da ceia e baseando-se na cerimônia do templo no VT (1Coríntios 10.17-21).

Portanto, os princípios precisam ser buscados e analisados por toda a Escritura, pois ela é toda inspirada. No entanto, o NT nos dá a base para sabermos que algumas cerimônias do VT não devem ser mais usadas no culto público. Por exemplo: o sacrifício de animais, uso de shoffar,- soffar – denominação de levitas aos que cantam no louvor, trazer e levar alguma arca, vestimentas judaicas, etc. O NT ensina que tudo isso se cumpriu em Cristo ou era somente para a nação de Israel. No entanto, no que diz respeito a bater palmas, cantar, tocar e dançar o NT JAMAIS ensina que deveríamos deixar de fazer no culto público. Ao contrário, é incentivado como veremos mais adiante quando analisarmos o salmo 150.

O problema hermenêutico aumenta ainda mais quando alguns fazem diferença entre elemento do culto e circunstâncias do culto. O Dr. Augustus Nicodemus afirma o seguinte:

1)    Os elementos de culto — são aquelas atividades determinadas pelas Escrituras nas quais o povo de Deus se engaja durante o culto, com o propósito de adorar a Deus, render-lhe graças e louvor, edificar-se internamente e anunciar o Evangelho ao mundo.

2)   As circunstâncias de culto — se fizermos esta distinção entre elementos de culto e as circunstâncias que atendem estes elementos talvez possamos eliminar boa parte das dificuldades que cercam algumas das questões relacionadas com o culto público… Tais circunstâncias estão relacionadas com o ambiente de culto, e envolvem decisões quanto à amplificação do som, uso de mídia, arrumação do salão, mobiliário adequado e sua disposição no local, a iluminação e decoração do ambiente, entre outros

Até podemos entender essa distinção bem didática. No entanto, essa distinção é completamente arbitrária e digna de um exame detalhado das Escrituras.

As Escrituras não fazem nenhuma divisão entre o que o Dr. Augustus Nicodemus chama de elementos e circunstâncias. Na verdade, a Escritura coloca tudo como fazendo parte do culto (Salmos 150.1-5). Notemos que, independente como se interpreta o salmo 150, os instrumentos e as danças fazem parte do louvor a Deus no santuário. Tudo faz parte do culto, quando é coerente e cabe base bíblica para tal. Por exemplo, quando se usa um instrumento musical no culto, esse instrumento passa a ser elemento deste culto que é o louvor, assim como a vasilha do pão e o cálice fazem parte do culto na ceia.

Da mesma forma que existem cultos que não tem a ceia do Senhor, pois ela, em algumas igrejas, é celebrada mensalmente, os instrumentos podem deixar de estar num culto e mesmo assim ser culto. Elementos do culto não precisam estar em todos os cultos, mas de acordo que a necessidade exija. Da mesma forma, se não tiver um instrumento no louvor, o culto ainda não perde a sua característica, mas se tiver, esse deve fazer parte dos elementos, pois devemos louvar o Senhor com instrumentos e os instrumentos eram chamados por Davi de “instrumentos de música de Deus” (1Crônicas 15.16; 16.42; Salmos 150.4). Por isso, podemos pensar da mesma forma com o pão e o vinho (ou suco de uva), pois eles fazem parte dos elementos do culto por estarem acompanhando a ceia. Como cantar ao criador dos céus e da terra sem instrumentos, se foi ele que deu a inteligência para tal coisa e ordenou que se faça isso? Talvez por isso a ordem de Deus nos salmos. Portanto, os instrumentos são elementos também como também as danças.

Quando alguém louva a Deus com palmas, essas fazem parte do culto e tornam-se elementos também do culto. Da mesma forma, a Palavra de Deus precisa ser pregada, seja com microfone ou não. Caso tenha, este faz parte do culto como seu elemento também, pois através dele as pessoas estão ouvindo.

No entanto, alguns podem refutar baseado no conceito do próprio Dr. Augustus Nicodemus que elemento do culto é aquilo que é essencial no culto e as circunstância, não. Porém, quem é que diz o que é essencial no culto, se não a própria Palavra de Deus? A Bíblia coloca os instrumentos como parte do culto (qualquer que seja a interpretação do Salmos 150.4). Como dissemos, se alguém tem microfones, instrumentos para louvor e não os usa, não deixa de prejudicar os elementos do culto, conforme essa interpretação, logo esses objetos são essenciais ao culto. Para ilustrar isso é só lembrar que Deus exigiu objetos na construção da tenda fazendo parte da plena adoração a Deus. Claro que hoje não precisamos dos objetos ritualístico do VT, mas precisamos entender que Deus vê os objetos como essenciais ao culto, se esses podem melhorá-lo, assim como aconteceu no VT. Qual pregador poderia pregar para uma multidão sem um microfone ou uma música que não fosse melhor cantada e ministrada sem um instrumento?

Alguém poderia objetar que os apóstolos não tinham, mas havia as técnicas daquela época e o barulho era inferior ao de hoje com energia elétrica e carros. Seria difícil usar essas técnicas nas nossas cidades cheias de barulho.

No entanto, o que Paulo deixa bem claro é a prioridade do culto, que deve ser a doutrina, sem fazer essa separação entre elementos e circunstâncias. Ele escreveu:

1 Coríntios 12:28  28 “A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois, operadores de milagres; depois, dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas”.

Afinal de contas, podemos separar elementos e circunstâncias nesse texto? Claro que não. Seria um erro gravíssimo, pois Paulo afirma que Deus estabeleceu na igreja todos. Embora que Paulo coloque como prioridade os apóstolos, profetas, que se referiam à própria Palavra de Deus na época, porém, os mestres, os operadores de milagres, dons de cura e variedade de línguas devem fazer parte também do que Paulo disse sobre o que Deus estabeleceu na igreja.

No entanto, a variedade das línguas não acontece em todos os cultos, os socorros, as operações de milagres. Mesmo assim, não deixa de ter culto se elas não tiverem, mas caso tenham, a prioridade é a Palavra de Deus. Não porque um é elemento e os outros são circunstâncias, mas porque desses elementos, a Palavra tem prioridade, acima mesmo dos louvores. Portanto, quem tem autoridade para dizer que o que Deus ordenou ou estabeleceu na igreja não é elemento do culto?

Portanto, os elementos do culto segundo as Escrituras eram tudo que dizia respeito à Palavra, oração, louvor, dons espirituais. Isso inclui pão, vinho, instrumentos, danças, microfones, bancos, dons espirituais, pois algumas coisas somente seriam feitas bem feitas fazendo uso destas, pois “quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31).

O que podemos notar é que o culto a Deus era muito diversificado cabendo cada igreja a agir com bom senso dando prioridade à Palavra de Deus, não porque era usada nas sinagogas, mas porque a própria Escritura a coloca como prioridade. No entanto, a forma de louvar a Deus ficaria para o bom senso das igrejas, louvando a Deus de forma que o glorifique segundo as Escrituras do VT e NT (infelizmente, temos que ser redundantes enfatizando os testamentos)

Portanto, diante disso, pergunto: como alguém pode ter a coragem de afirmar que os princípios nos Salmos não são para ser usados na igreja cristã dos nossos dias no que diz respeito à forma do culto? Com base em que alguém pode afirmar isso? Com qual base do NT podemos dizer que as danças no culto não são mais para hoje? Realmente, é difícil uma pessoa que tenha um mínimo conhecimento de hermenêutica e de Bíblia aceitar essas afirmações sem questionar.

  • Análise do Salmo 150

Precisamos analisar o Salmo 150, pois devido a clareza que o autor escreve sobre as danças, muitos tentam anulá-lo ou agem de uma forma completamente desonesta traduzindo a palavra “danças” para “flautas”.

2.1. Significado da palavra קדש – qodesh no texto

Comecemos pelo significado da palavra קדש – qodesh “santuário, coisa santa”. O Dr. Augustus Nicodemus afirmou o seguinte:

Mas, na verdade, não é certo que o Salmo 150 esteja falando de danças no templo. Em primeiro lugar, a palavra “santuário” mencionada no verso 1 nem sempre significa o local da adoração em Jerusalém, onde o culto determinado por Deus era realizado de acordo com todos os seus preceitos. A palavra bkadoshu – b’kadoshu – , significa literalmente “em seu santo”. Logo, sua tradução primeira seria “em seu santuário” e não “em seu Templo”. Precisamos, portanto, considerar a possibilidade de que o santuário de Deus aqui referido não é o local físico do templo, mas o local da sua santa habitação, ou seja, os céus”.

Segundo o Dr. Augustus Nicodemus, a palavra קדש  – qodesh que foi traduzida para “santuário” “nem sempre significa” o templo de Israel, dando a entender que é uma opção bem remota. Ele argumenta que a palavra não dá espaço para afirmar que é para o templo físico e traduz a expressão בקדשו – b’kadesho como “no seu santo”. Por isso, não seria o local físico mas seria o céu.

O Dr. Augustus Nicodemus seguiu a interpretação de Calvino que afirmou no seu comentário do Salmo 150:

“Este salmo, em geral, exalta o culto espiritual de Deus, que consiste em sacrifícios de louvor. Para a palavra “santuário” há pouca dúvida de que o seu significado seja o “céu”, como é frequentemente usado em outros lugares”.[3]

Para João Calvino, portanto, a palavra “santuário” não corresponde ao templo, mas o lugar de habitação de Deus, embora que ele não se aprofundou para chegar a essa conclusão.

No entanto, com todo respeito à erudição e piedade de João Calvino e do Dr. Augustus Nicodemus, essa exegese foi completamente precipitada, abrupta e digna de maior análise da palavra discutida.

O substantivo קדש – qodesh é muito usado para santuário referindo-se ao templo físico e tem tantas passagens que é de acreditar que não houve pesquisa suficiente sobre esta palavra da parte de João Calvino e do Dr. Augustus Nicodemus.

Apenas vamos citar algumas de várias: Levíticos  5.15; 6.23; 7.6; 10.17; Números 7.9. Em todas essas passagens o substantivo קדש  –qodesh – santuário se refere ao templo físico. Portanto, quando se interpreta que o salmista se refere ao santuário do templo, é perfeitamente legítimo e mais coerente exegeticamente, pois Davi confirma esse salmo quando ordenou que os levitas cantassem e tocassem no templo (2Crônicas 5.13; 7.6).

O dicionário internacional de Teologia do Velho Testamento afirma que a palavra קדש – qodesh pode perfeitamente ser usada para objetos sagrados, que no caso seria o templo. Ele afirma o seguinte: “Via-se aquilo que era dedicado a Deus como algo que entrava no domínio do “sagrado”. Isso incluía os vários elementos da adoração levítica denominados “coisas sagradas” (Levíticos 5.15,16), o fruto da terra (Levíticos 19.24), bens pessoais (Levíticos 27.28) e despojos obtidos em ação militar (Josué 6.19). Os sacrifícios que deviam ser comidos apenas pelos sacerdotes eram denominados “santos” em virtude de serem totalmente dedicados ao domínio do sagrado, o qual era representado pelo sacerdócio (Levíticos 19.8)”.[5]

John Gill no seu comentário do Salmo 150 escreve: “Louvai a Deus no seu santuário; no templo, a casa do seu santuário como está no Targum e R. Judah” [7]. Apesar de que Gill reconheça que pode haver um sentido para os céus também.

Não obstante a tudo isso, essa interpretação é mais inteligente, pois ninguém toca instrumento no santuário de Deus nos céus e a ordem é para que louvássemos com instrumentos de cordas.

O Dr. Derek Kidner, em análise do salmo 150 no seu livro de comentário dos salmos escreve:

O Saltério de Coverdale (PBV) tem “louvai a Deus na Sua santidade” que é uma tradução viável; a linha paralela, no entanto, “no firmamento do seu poder” (ARC), sugere que “santidade” aqui tem o seu sentido secundário: seu santuário (ARA). Desta forma, a chamada é dirigida aos adoradores de Deus na terra, encontrando-se no seu lugar escolhido, como também à sua hoste celestial”.[4]

O Dr. Derek Kidner demonstra que a palavra “santuário” corresponde ao lugar da habitação de Deus que era o lugar que Deus escolheu de manifestar a sua glória, que é o templo no VT, embora que ele admita que inclui o céu também.

Na verdade, a ordem do salmista é que Deus seja adorado no santuário que estava no templo. Essa é a interpretação mais natural que se pode dar ao salmo 150.1. Um judeu não teria uma visão do santuário-habitação de Deus como os apóstolos tinham no NT. Isso veio com a revelação apostólica do NT (Hebreus 8.1,2; 9.1-9).

Quando alguém afirma que o salmista quis afirmar “santuário” ou “coisa santa” como a habitação de Deus no céu erra com anacronismo de mais alto grau, porque isso veio somente com a revelação dos apóstolos. No entanto, podemos aplicá-la para isso sabendo que o autor aos Hebreus escreveu que era uma “parábola para época presente” (Hebreus 9.9), pois agora os verdadeiros adoradores adorariam não mais em um lugar, mas em espírito e em verdade (João 4.23).

O que se pode notar na ordenança do salmista é que deveríamos louvar a Deus no seu santuário (no templo) e que lá está o “firmamento do seu poder” (assim está no original hebraico que a ARC traduziu muito bem). O salmista estava convocando que Yahweh fosse louvado no templo que é o lugar da sua santidade e do “firmamento do seu poder”. Seria lá que a sua glória encheria e a sua promessa se cumpriria em atender a oração do seu povo (2Crônicas 5.14; 7.12-16).

2.2. Análise da palavra “danças” do verso 4

Psalm 150.4  4 “Louvai-o com adufes e danças; louvai-o com instrumentos de cordas e com flautas” –  ומחול בתף הללוהו  – “Louvai com adufe e dança

A análise da palavra מחול  – machol “dança” é fundamental na interpretação desse salmo porque se de fato a palavra diz o que ela quer dizer, a dificuldade aumenta àqueles que advogam que não se pode dançar nos cultos, pois Deus ordena que o louvem com danças.

Algumas traduções traduzem a palavra מחול  – machol  “dança” para “flautas” em uma total desonestidade, na minha opinião, pois mudam o que o texto realmente quer dizer.

Os tradutores também traduziram o Salmo 149.3 da mesma forma colocando a palavra מחול  – machol  – “dança” para flauta. O problema disso é que a palavra מחול  – machol não tem nada a ver com flauta. Essa palavra, segundo Strong, vem de uma raiz que quer dizer “torce-se, revirar-se”. Daí vem a palavra dança.

Por isso que os rabinos que fizeram a LXX entenderam exatamente o que a palavra hebraica quer dizer: “dança”. Em todas essas passagens, os rabinos da LXX colocaram a palavra χορός  – choros – dança” e essa palavra também não tem nada a ver com flautas.

Os rabinos de língua portuguesa também entenderam a palavra como מחול – machol como “dança”. Veja como os rabinos traduziram numa versão judaica dos salmos para a língua portuguesa o verso 4 do Salmo 150:

Louvai-O com melodias e ritmo, louvai-O com a música de órgãos e flautas”.[6]

Notemos que os rabinos traduziram para ritmo, pois a palavra quer dizer movimentação em danças e tiveram a sensibilidade de não repetir a palavra “flauta” como alguns tradutores fizeram de uma forma infeliz.

A Vulgata também coloca em todas as passagens desta palavra hebraica o vocábulo chorus  – churus – dança”, com exceção do Salmosd 30.12 que traduziram para gaudium – gaudium – “alegria”. Mesmo assim. Fica implícito nessa palavra regozijo em danças.

A maioria das traduções brasileiras e inglesas foi honesta nessa palavra. As traduções brasileiras que têm danças para o Sl 150.4 são: ARA, ACF, BRP, SBP, NTLH, TB, NVI, BV. Ficando somente a tradução da ARC traduzindo para a palavra “flauta”. Já as versões em inglês, que foram honestas, tem a maioria também: CSB, ASV, BBE, CSB, DBY, ERV, ESV, GWN, KJV, NET, NIB, NKJ, NLT, YLT, NRS. Ficando somente as versões DRA que traduz para “organs” – organs  e GNV que traduz para “flute” – flute . (Pode até haver uma ou outra versão que complete as listas, mas as principais e mais lidas são essas).

Portanto, facilmente notamos a desonestidade dos tradutores. Notem que מחול – machol – “dança” é usada apenas seis vezes no VT. Três nos salmos (Salmos 30.12; 149.3; 150.4) e três nos profetas (Jeremias 31.4; 31.13; Lamentações  31.5). Por que os tradutores traduziram somente nos Salmos para “flautas”, “folguedos” e não “danças” como foi traduzido nos profetas? Somente há uma resposta: a tentativa de desviar o que o texto diz de uma forma clara.

Porém, existem muitas outras incoerências se traduzirmos a palavra מחול – machol “dança” para “flauta”. A primeira é que a palavra flauta se repete no mesmo verso fazendo da poesia um pleonasmo patético. Notemos: Louvai ao Senhor com adufe e flauta; louvai com instrumentos de cordas e com flautas. O salmista seria seriamente questionado de sua capacidade poética, devido a redundância e inutilidade da segunda palavra “flauta”, já que já tem a ordem para louvar com flauta no começo do verso.

A outra dificuldade é como separar a ordem de louvar com adufe e a ordem de louvar com danças no culto público. Ou seja, as danças não podem, o adufe como instrumento pode. Realmente isso não é inteligente.

Há aqueles que afirmam que o salmo é uma demonstração que a dança não é pecado em si, mas não dá base para dançar no culto público. Existem vários problemas com essa afirmação. Primeiro é que o salmo é falado no contexto de louvor e adoração, não num contexto de balada ou de uma dança romântica como afirmam esses intérpretes, pois a ordem é para louvar ao Senhor; cantando e dançando para ele, não com mulheres e nem para outras finalidades.

Segundo problema é que o texto afirma claramente quem é o objeto desse louvor. O texto afirma que devemos louvar a Deus “louvai-O com adufes e danças”. Se dissermos que esse texto é para afirmar que danças não são pecado, então como interpretar a ordenança de louvar objetivamente com instrumentos de cordas? As danças seriam para dançar com a namorada e os instrumentos de cordas, seriam para quem? Para as “serenatas”?  Será que alguém desviaria completamente a objetividade do louvor desse salmo para os homens? Realmente não existe interpretação mais patética e desajeitada que essa e digna de total rejeição dos que creem na Bíblia.

Portanto, o Salmo 150 é ainda hoje para a igreja e sempre será, com a única diferença: nós não precisamos ir ao Santuário para louvar a Deus, hoje, porque todas cerimônias se cumpriram em Cristo, mas louvemos com instrumentos, danças, pois é ordem do Senhor e em nenhuma passagem do NT ensina que não deveríamos mais tocar com instrumentos ou deixarmos de dançar. Qualquer desvio disso é erro, pois desmente o próprio Deus que ordena na sua Palavra para louvarmos com instrumentos e com danças.

  • Outros textos que confirmam o Salmo 150.4

Uma das regras básicas de Hermenêutica é que a Bíblia explica a si mesma. Então perguntamos: existe alguma analogia de outros textos em relação a danças no restante das Escrituras para fundamentarmos o Salmos 150.4? A resposta é sim.

Primeiramente precisamos ver que Miriam dançou na presença de Deus Êxodo 15.20,21). Miriã era profetiza e ela, para louvar a Deus pelo livramento, dançou com as outras mulheres dizendo:

Êxodo 15:21  “Cantai ao SENHOR, porque gloriosamente triunfou e precipitou no mar o cavalo e o seu cavaleiro”.

Alguns afirmam que o que Miriã fez não é base para fazermos no culto cristão, pois o motivo era apenas por causa da libertação do Egito. No entanto, Cristo é considerado o nosso Cordeiro Pascal (1Coríntios 5.7) e, da mesma forma que Israel saiu do Egito, fomos libertos para Deus (1Coríntios 10.1-4). Portanto, é perfeitamente legítimo alegrar-nos em Deus dançando e louvando o seu nome pela nossa libertação do juízo de Deus em Cristo Jesus.

Segundo: precisamos ver que Davi dançou em pleno ritual de adoração (2Samuel 6.12-22). Notemos que Davi estava diante da arca de Deus. Reverência e respeito eram essenciais àqueles que se aproximavam dela. Não é à toa que Davi sacrificava bois e carneiros em cada seis passos (v.13). Também, Davi trazia a estola sacerdotal demonstrando que era um momento sagrado e especial. No entanto, Davi dançou com todas as suas forças diante do Senhor (v.21).

Portanto, vem a pergunta: podemos dançar no culto cristão como Davi dançou diante da arca? Precisamos analisar as Sagradas Escrituras para eliminar o que não precisamos mais. Não precisamos mais dos holocaustos e sacrifícios que Davi fazia nesse episódio (Hebreus 10.9-19); não precisamos mais  de levar a arca, pois a presença de Deus está já em nós pelo Espírito Santo de Deus (1Coríntios 3.16); não precisamos mais de uma estola sacerdotal nem de sacerdotes porque Cristo já nos fez sacerdotes reais (1Pedro 2.9; Apocalipse 1.6). No entanto, perguntamos: haveria alguma objeção sobre as danças no NT para que não as façamos, sendo que em todas as épocas sempre as danças fizeram parte das músicas e danças dos povos, inclusive do povo judeu? É claro que não.

Outro texto é o profeta Jeremias 31.4; 11-13. Esse é mais claro e, na minha opinião, elimina qualquer dúvida se as danças são para o culto cristão:

Jeremias 31:4  4 “Ainda te edificarei, e serás edificada, ó virgem de Israel! Ainda serás adornada com os teus adufes e sairás com o coro dos que dançam”.

Jeremias 31:11-13  11 “Porque o SENHOR redimiu a Jacó e o livrou da mão do que era mais forte do que ele.  12 Hão de vir e exultar na altura de Sião, radiantes de alegria por causa dos bens do SENHOR, do cereal, do vinho, do azeite, dos cordeiros e dos bezerros; a sua alma será como um jardim regado, e nunca mais desfalecerão.  13 Então, a virgem se alegrará na dança, e também os jovens e os velhos; tornarei o seu pranto em júbilo e os consolarei; transformarei em regozijo a sua tristeza”.

Notemos que quem está falando é o próprio Yahweh.– Yahweh.  Não é o escritor Jeremias, mas o próprio Deus através do profeta. Ele chama Israel de virgem e que sairá adornada com os que dançam. Deus que quer que ela saia com os que dançam toda adornada e preparada ao seu Noivo que é o próprio Yahweh– Yahweh.

Usemos a lógica agora: Se o próprio Deus chama Israel demonstrando que ele quer que ela dance com os adufes, como negar que as danças não são para o culto cristão se esse momento é somente para ele? Notemos que esse verso segue o que o Salmos 150.4 ordena: louvai com adufes e danças, pois ela sairá com os adufes e com o coros dos que dançam, confirmando assim o salmos 150.4.

Notemos que em Jeremias 31.11-13 é o Senhor que motivou as danças de sua noiva, Israel, e é ele que fará Israel se alegrar nas danças. Portanto esses textos nos profetas confirmam o Salmos 150.4 como Deus ordenando-nos a usarmos as danças para ele.

No NT, há um texto muito interessante no episódio da parábola do filho pródigo:

Lucas 15:25  25 “Ora, o filho mais velho estivera no campo; e, quando voltava, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças”.

Podemos perguntar o que esse texto tem a ver com danças na adoração pública? Se pensarmos que o que Jesus contou tinha um propósito e que os apóstolos que eram inspirados por Deus entenderam isso, precisamos entender que ali estava a comemoração da volta daquele filho perdido à comunhão com o seu Pai que era Deus. Portanto, Jesus deixou claro que as danças eram legítimas naquela ocasião.

É verdade que não podemos nos apegar aos detalhes das parábolas, mas é difícil não perceber isso quando temos Miriã que dançou no episódio da libertação do Egito, Davi diante da arca da Aliança celebrando a graça de Deus na sua vida e a ordem do salmista que louvássemos com adufes e danças, pois Jesus queria mostrar que a comunhão com o Pai e o filho perdido era celebrada com danças e muita alegria. Até porque, a palavra que Lucas usou é a mesma usada na LXX –  χορός  – choros “dança”.

  • Exageros e coreografias nos cultos públicos

Precisamos admitir que existem muitos exageros. No entanto, os erros ou as distorções da verdade não podem eliminá-la. Temos que admitir que algumas coreografias tiram o objetivo central que é concentrarmos em Cristo e somente nele esperarmos. Isto quer dizer que Cristo tem que ser o centro do culto. Existem coreografias de homens que se arrastam como mulheres e mulheres que são jogadas no ar como se fosse um balé num teatro. Claro que isso não é adequado às igrejas.

No entanto, assim como existem coreografias exageradas, também existem pregações superficiais e com pouca base bíblica e heréticas; assim como existem também louvores que exaltam mais o grupo em si que o Cristo que cantam. Da mesma forma as cantatas, elas podem perfeitamente tirar o foco central que é Cristo e o grande objetivo ou a prioridade do culto que é a Palavra de Deus. Existem cantatas que são extensas e tomam muito tempo que deveria ser para a pregação da Palavra de Deus.

Portanto, precisamos entender que os exageros e desvios podem existir em todos os elementos do culto.

Na minha opinião, as danças deveriam ser espontâneas no culto público, pois a ordem no Salmos150.4 é para todos e não somente para um ministério. Precisamos também entender que dança profética não existe, pois isso não tem nenhuma base bíblica.

Portanto, quero convidar a todos a louvar a Deus com instrumentos de cordas e com danças, pois o próprio Deus ordenou para louvá-lo com adufes e danças.

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Rev. MÁRIO MAGALHÃES – Graduado Teologia, Letras, Licenciado em Filosofia; mestre em Teologia Exegética, educação e doutor em Educação.

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[1] Conforme o blog Tempora-mores http://tempora-mores.blogspot.com/2011/01/decisoes-da-ipb-sobre-o-culto-publico.html

[2] http://tempora-mores.blogspot.com/2009/08/salmo-150-dancando-no-santuario.html

[3] Calvin John. Commentary on Psalms. Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 1999, p. 199.

[4] KIDNER, Derek. Salmos 73-150: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1975, p. 495.

[5] HARRIS, R. Laird; ARCHER, Gleason L; WALTKE, Bruse K. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1322.

[6] FRIDLIN, Vitor; GORODOVITS, David; FRIDLIN, Jairo. Salmos com tradução e transliteração. São Paulo: Editora Sefer, 2003, 3a ed.

[7] GILL, John. Bíblia On Line. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil.

 


Cada autor é responsável pelo conteúdo do artigo.

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