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Pr. Silas Daniel responde críticas calvinistas (Parte 1)

por Artigo compilado - sex jun 05, 10:13 am

Calvin in Geneva

Minhas observações às objeções levantadas pelo irmão Franklin Ferreira a meu artigo na revista Obreiro (Parte I)

Como anunciado em artigo publicado aqui, na sexta-feira, dia 29 de maio, segue hoje o primeiro de três artigos em sequência que estarei publicando nesta minha coluna no CPADNews sobre as objeções levantadas pelo irmão Franklin Ferreira ao meu artigo publicado na revista Obreiro Aprovado do primeiro trimestre deste ano (Se você pegou o bonde andando e não sabe do que se trata, clique AQUI). O segundo artigo será publicado amanhã, dia 2 de junho, e o terceiro e último na quarta-feira, dia 3 de junho. Vamos às minhas primeiras observações:

1) O irmão Franklin escreve que o semipelagianismo ou semiagostinianismo foi “mencionado, mas não definido” no meu texto. Bem, acho que no meu texto eu deixo claro o que é o semipelagianismo ou semiagostinianismo, diferenciando-o claramente do arminianismo. Se não, vejamos (seguem abaixo trechos do meu artigo que o provam):

“Portanto, o Arminianismo não tem absolutamente nada a ver com Semipelagianismo e muito menos com Pelagianismo, como acusam desonestamente calvinistas mal informados – ou até mal intencionados. O monge Pelágio da Bretanha (350-423), como sabemos, não acreditava nas doutrinas bíblicas do Pecado Original, da Depravação Total e da Graça Preveniente, esposadas e defendidas tanto por calvinistas como por arminianianos”.

“Mas, a acusação mais comum que tem sido feita contra os arminianos é que eles, não obstante não serem pelagianos, seriam semipelagianos, acusação igualmente falsa. O Semipelagianismo surgiu logo após a condenação do Pelagianismo, quando alguns cristãos do quinto século, ao lerem os argumentos de Agostinho contra Pelágio, concordaram que Pelágio havia incorrido em grave heresia, mas consideraram também que Agostinho havia exagerado um pouco em sua contra-argumentação às heresias pelagianas. Pelo fato de esses cristãos discordantes admirarem muito Agostinho, há quem prefira até chamá-los de ‘semiagostinianos’, mas prefiro usar aqui a nomenclatura tradicional ‘semipelagianos’, porque é como são mais conhecidos”.

“Diziam os semipelagianos, encabeçados pelo monge e teólogo francês João Cassiano (360-435), que os erros de Agostinho em seu embate com Pelágio foram dois: primeiro, seu conceito de predestinação, no que estavam certos; e segundo, sua defesa da Depravação Total, no que estavam completamente equivocados. Os semipelagianos não negavam o pecado original – isto é, o pecado herdado de Adão e Eva, a natureza pecaminosa etc –, mas diziam que, mesmo após a Queda, o ser humano ainda tinha em si resquícios da volição pré-Queda, um livre-arbítrio remanescente, que o possibilitava, sem precisar de uma graça preveniente, responder com fé e arrependimento à pregação do Evangelho. Para eles, Deus poderia até dar início à fé em alguns casos, mas em muitos deles, ou na maioria, era o próprio homem que dava o initium fidei, o primeiro passo para a Salvação”.

“O Semipelagianismo, após muitas discussões, foi condenado no ano 529 pelo Concílio de Orange. Entretanto, essa condenação se aplicou apenas à oposição dos semipelagianos à Doutrina Bíblica da Depravação Total. O mesmo concílio condenou a crença de que Deus predestinou o mal ou pessoas ao inferno”.

Pode-se até sugerir que eu poderia eventualmente me aprofundar mais no tema do semipelagianismo, mas não é possível dizer que eu apenas “mencionei” o semipelagianismo sem dizer o que é.

2) Uma das coisas que o irmão Franklin considera “grave e sério” em meu artigo é o fato de eu não ter dedicado boa parte do meu texto a fazer exegese dos textos bíblicos usados pelo arminianismo para embasar-se. Pelo jeito, ele não entendeu o propósito do texto. É óbvio que considero fazer exegese algo importantíssimo, mas o objetivo do meu artigo não era fazer exegese de uma série de textos bíblicos citados pelo arminianismo para comprovar sua veracidade bíblico-doutrinária para calvinistas. Meu artigo foi escrito para apresentar, de forma geral, o arminianismo aos leitores da revista (destinada originalmente ao público assembleiano) que, eventualmente, mesmo sendo assembleianos, podem (alguns deles) desconhecer o que defende realmente o arminianismo e qual a sua história, desconhecimento este que se deve à influência do semipelagianismo popular no meio evangélico de hoje e aos “espantalhos” que muitas vezes alguns calvinistas fazem do arminianismo e que recentemente se popularizaram por causa da onda neocalvinista no Brasil, de que falo na abertura do meu artigo. Isso está mais do que claro no meu texto.

Inclusive, a parte do meu artigo ao qual o irmão Franklin se refere, quando critica a ausência de exegese em alguns textos bíblicos citados por mim, era justamente aquela parte – que é a menor do artigo (exatamente 1/5 do texto) – onde eu tinha apenas o propósito de apresentar, de forma resumida, o que defende o arminianismo. Portanto, daí concluir que eu e os arminianos de forma geral pouco se importam com exegese, só porque não dediquei espaço no meu texto para isso quando este claramente não era o seu propósito, é um verdadeiro “salto quântico” de interpretação. Se o propósito do artigo fosse fazer uma exposição de textos-prova seguidos da exegese de cada um, ele teria sido totalmente diferente. Ele seria quase que totalmente disso. Eu não gastaria tempo falando das outras coisas que disse ali, mas me deteria principalmente em fazer exegese e o artigo teria que ser muito maior do que acabou sendo – ele  teve 17 páginas. A única passagem bíblica em que citei alguma obra tentando fazer uma breve exegese com exposição lexical foi João 6.44, mas porque, repito, este não era o objetivo do texto.

“Ah, mas o título do artigo era ‘Em defesa do arminianismo’, o que poderia sugerir o contrário”, alguém pode dizer. Ora, o título foi sugerido pelo editor da revista e eu acabei aceitando só para que o título não ficasse muito longo, pois o meu título original era muuuuito maior. Ademais, o subtítulo explica bem o propósito do artigo, que fica claro também logo na abertura, de maneira que considero estranho que alguém não tenha entendido já de cara o propósito do artigo (O subtítulo na capa era “O que é, de fato, o arminianismo, o que realmente ensina e o seu lugar na história”/ e no miolo da revista, o subtítulo era “Uma análise sobre a recente ascensão do Calvinismo no Brasil e uma exposição do que ensina, de fato, o Arminianismo”).

Aproveitando: em sua crítica, o irmão Franklin me indica, para fazer uma exegese correta das passagens bíblicas que cito em defesa do arminianismo, os comentários de “Agostinho, Martinho Lutero e João Calvino, ou os de D. A. Carson, Douglas Moo, Donald Guthrie, F. F. Bruce e John Murray”. Acho muito bons os comentários dos referidos irmãos e tenho obras de quase todos eles, mas também gosto muito dos comentários a essas passagens bíblicas feitos por Armínio, John Goodwin, John Wesley, Adam Clarke, Richard Watson, William Burt Pope, Comentário Beacon, William Watson Menzies, Stanley M. Horton etc. Em muitas coisas concordo com aqueles, em outras concordo mais com estes.

3) O irmão Franklin afirma: “Pelo menos, o autor reconhece as várias tensões (e, por que não, as contradições) presentes na teologia arminiana, como ao tratar da presciência divina e do alcance da expiação: em outras palavras, o problema posto é: se Deus já sabia quem receberia a Cristo, por que este precisaria morrer por todos? Ou quando trata do significado da palavra ‘mundo’, sem levar em conta o significado da propiciação realizada por Cristo (ao citar 1Jo 2.2 como texto-prova da expiação geral). E quando admite algum tipo de predestinação (‘sim, ele predetermina muitas coisas, mas não tudo’) ao mesmo tempo que, ao pressupor que Deus previu antes de predestinar, não trata de uma pergunta crucial, isto é, quem criou o que Deus previu?”.

Vamos por partes. Primeiro, eu não me esquivei da pergunta “Se Deus já sabia quem receberia a Cristo, por que este precisaria morrer por todos?”, como é sugerido. Eu a levantei e tratei dela. E em segundo lugar, creio ter tratado minimamente do significado da palavra “mundo” levando em conta o sentido da propiciação efetuada por Cristo (se não me detive em meu artigo em um desenvolvimento da doutrina da propiciação, é porque isso alongaria mais ainda essa parte específica do meu artigo que tratava exatamente de resumir para o leitor o que crê o arminianismo).

Se não, vejamos – seguem os trechos em que trato das duas coisas (com grifos e colchetes que inseri para enfatizar o que digo):

“A Expiação de Cristo é suficiente, mas só se torna eficiente na vida daqueles que sinceramente se arrependem de seus pecados e aceitam Cristo como único e suficiente Senhor e Salvador de suas vidas. Trata-se, portanto, de uma Expiação Universal Qualificada, e não de uma Expiação Limitada”.

Conquanto existam passagens bíblicas que afirmam que Cristo morreu pelas ovelhas (Jo 10.11,15), pela Igreja (At 20.28 e Ef 5.25) ou por ‘muitos’ (Mc 10.45), a Bíblia também afirma claramente em muitas outras passagens que a Expiação é universal em seu alcance (Jo 1.29; Hb 2.9 e 1Jo 4.14), o que deixa claro que as passagens que dão uma ideia de ela ter sido limitada nada mais são do que referências à eficácia da Expiação. Ou seja, a Expiação de Cristo foi realizada em prol de toda a humanidade, mas só os que a aceitam usufruem de sua eficácia”.

“Os que crêem em Cristo são obviamente associados à obra expiadora (Jo 17.9; Gl 1.4; 3.13; 2Tm 1.9; Tt 2.3; 1Pe 2.24), mas a Expiação é universal (1Jo 2.2). E a eficácia não está na salvação de todos, mas na consecução da Salvação. O fato de a Expiação só ter sido aceita e aplicada em muitos e não em todos não significa que sua eficácia é comprometida. O fato de muitos usufruírem dela já demonstra sua eficácia. Ela só não seria eficaz se ninguém se salvasse por ela. Se alguém foi salvo por ela, esta foi eficiente. Não houve ‘desperdício’ pelo fato de seu alcance ser universal, mas nem todos serem salvos. Além disso, se crermos que a Expiação de Cristo é limitada, o que seria um sacrifício que proporcionasse uma Expiação Ilimitada? Jesus sofreria um pouco mais na cruz?”.

Há casos de arminianos que crêem em uma Expiação Limitada com base na presciência divina [ou seja, estou tratando aqui da tal pergunta “Se Deus já sabia quem receberia a Cristo, por que este precisaria morrer por todos?”], o que apresenta certa coerência, porém o Arminianismo Clássico nunca defendeu a Expiação Limitada justamente porque não só há passagens bíblicas claras sobre o alcance universal da Expiação como também uma Expiação Limitada é uma contradição ao ensino bíblico de que Deus não faz acepção de pessoas (Dt 10.17 e At 10.34). Deus é soberano, mas isso não significa dizer que Ele fará alguma coisa que contradiga Seu caráter santo e amoroso. Lembremos que uma hermenêutica prudente interpreta uma passagem ou passagens observando o contexto geral sobre o assunto na Bíblia. A Bíblia se explica por meio dela mesma. Portanto, se ela afirma que Deus é santo, justo e amor, e não faz acepção de pessoas; e que Deus quer que todos se salvem e cheguem ao pleno conhecimento da verdade (1Tm 2.3,4); e que a Expiação foi por ‘todos’ (1Tm 2.6; Hb 2.9); logo as passagens em que há alusão a ‘muitos’ devem ser interpretadas à luz dessas outras. O resultado é que as passagens que aludem a ‘muitos’ não se referem ao alcance da Expiação, que é universal, mas à eficácia dela para os ‘muitos’ que a receberam por fé”.

“Não se pode simplesmente desconsiderar o significado óbvio dos textos sem ir além da credibilidade exegética. Quando a Bíblia diz que ‘Deus amou o mundo’ (Jo 3.16) ou que Cristo é ‘o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo’ (Jo 1.29) ou que Ele é “o Salvador do mundo” (1Jo 4.14), significa isso mesmo. Em nenhum texto o vocábulo ‘mundo’ se refere à Igreja ou aos eleitos. Escreve o apóstolo João: ‘E Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo’ (1Jo 2.2). Ou como disse o teólogo H. C. Thiessen: ‘Concluímos que a Expiação é ilimitada no sentido de estar à disposição de todos, e é limitada no sentido de ser eficaz somente para aqueles que crêem. Está à disposição de todos, mas é eficiente apenas para os eleitos’ (Lectures in Sistematic Theology, Grand Rapids, 1979)”.

Por fim, a pergunta “Quem criou o que Deus previu?”. O problema é que os calvinistas pensam que Deus só pode prever aquilo no qual Ele diretamente criou ou interveio. Eu expliquei isso no meu artigo, inclusive lembrando que o conhecimento divino do futuro contingente condicional, fato apresentado na Bíblia, é um problema para esse tipo de raciocínio:

“Os calvinistas erram ao vincular a presciência divina à causalidade. Para ser mais preciso: eles erram ao afirmar que Deus conhece previamente todas as coisas porque predestinou todas as coisas. […] Deus conhece previamente tudo porque é onisciente, e não porque predeterminou tudo. Deus não precisa predeterminar tudo para saber de tudo. Sim, Ele predetermina muitas coisas, mas não tudo. […] A maior prova de que a onisciência divina não é fruto de predeterminação é que a Bíblia diz que Deus conhece até mesmo o futuro contingente condicional. O futuro contingente condicional não é aquilo que acontecerá, mas aquilo que aconteceria se as circunstâncias e as decisões fossem outras. Ou seja, Deus não sabe só o que vai acontecer, mas também ‘o que aconteceria se’”.

“O exemplo clássico desse tipo de conhecimento divino é o da oração de Davi acerca do povo de Queila (1Sm 23.1-13). Davi perguntou a Deus se era verdade o que tinha ouvido de que Saul estava descendo à cidade de Queila para pegá-lo, e Deus respondeu que sim, num caso clássico de conhecimento do futuro causal. Porém, na sequência, Davi perguntou também se o povo de Queila, mesmo depois de tudo que Davi fizera por eles contra os filisteus, mesmo depois de recebê-lo tão bem com os seus homens, o trairiam mais à frente, entregando-o a Saul na primeira oportunidade; e Deus respondeu que sim, que entregariam, e Davi então saiu dali, de maneira que o povo de Queila nunca traiu a Davi”.

“Esse é um caso de conhecimento de um futuro contingente condicional. Eles não fizeram, mas Deus sabia que ‘eles fariam se’. Ora, se há um futuro contingente condicional, e Deus o conhece, isso significa que Ele não precisa predeterminar todas as coisas para saber todas as coisas”.

4) Afirma ainda o irmão Franklin: “Diferente do que o autor afirma, quase todos os grandes teólogos medievais criam na predestinação, seguindo em maior ou menor grau o que Agostinho ensinou no século V: Próspero, Gottschalk, Anselmo, Bernardo, Bradwardine, Tomás de Kémpis e Tomás de Aquino (cf. S. Th: I, q. 23, a. 1, a. 2, a. 4, a. 7, a. 8; I-IIae, q. 117, a. 5; II-IIae, q. 174; III, q. 24, a. 1, a. 3). Os pré-reformadores Jan Hus e John Wycliffe também afirmaram o ensino da predestinação em moldes agostinianos”.

Nesse ponto, concedo que houve um excesso da minha parte ao desprezar 100% de todo e qualquer vestígio da compreensão agostiniana em relação à mecânica da Salvação durante a Idade Média. Antes de tudo, é óbvio que, depois de Agostinho, seria natural se ver ainda entre os pensadores medievais alguma influência aqui e acolá do seu ensino a respeito da mecânica da Salvação, mas é importante que se diga duas coisas sobre esse assunto e que se constituem as razões pelas quais acabei tomando essa posição exagerada de ignorar completamente essas referências.

Em primeiro lugar, não se pode dizer que algum dos nomes citados pelo irmão seguiu à risca o que Agostinho ensinou a respeito da mecânica da Salvação – nem Próspero de Aquitânea, nem Anselmo, nem Bernardo, nem Bradwardine, nem Thomas a Kempis, nem Tomás de Aquino. O próprio irmão reconhece isso ao falar que eles seguiram em “maior ou menor grau” o que Agostinho disse. De todos eles, só o monge Gottschalk foi, aparentemente, o mais fiel.

E em segundo lugar, o irmão afirma que “quase todos os grandes teólogos medievais criam na predestinação [agostiniana]”, dando a entender que a posição agostiniana referente à mecânica da Salvação era, se não majoritária, pelo menos de grande influência na Idade Média, quando, na verdade, ela não foi nem majoritária, nem de grande influência na época de nenhum desses nomes, mas muito ao contrário.

Para começar, o monge leigo francês Próspero de Aquitânia (390-460) não pode ser considerado um teólogo medieval, porque a Idade Média começa oficialmente em 476. Além disso, ele foi contemporâneo e discípulo direto de Agostinho (354-430), razão pela qual é natural que tenha seguido 100% o seu mentor – pelo menos no início. Próspero escreveu a primeira vez contra os hereges pelagianos enquanto seu mentor Agostinho era vivo, e ele estava apenas reverberando o seu ensino. Portanto, estamos falando de um discípulo direto de Agostinho defendendo seu mentor em vida, em meio ao debate contra os hereges pelagianos.

Ora, assim como Próspero, houve muitos que, em meio ao calor do debate entre Pelágio (350-423) e Agostinho, aderiram em um primeiro momento àquele pensamento novo de Agostinho acerca da mecânica da Salvação, principalmente aqueles que eram discípulos dele – como é o caso de Próspero. Nada mais natural. A questão é que, depois das condenações a Pelágio em 417, 418 e 431, mesmo a maioria concordando que Pelágio era um herege, essa mesma maioria não concordaria com os excessos de Agostinho na questão da mecânica da Salvação, tanto que o próprio Próspero, que era um ardoroso defensor de seu mentor tanto contra pelagianos quanto contra semipelagianos, no final da vida, “abandonou certas posições intransigentes de Agostinho” (In “Autores citados na Suma Teológica – I Seção da II Parte”, in “Suma Teológica IV”, Loyola, 2005, p. 23), de maneira que havia uma “nítida diferença entre a posição de Próspero em [sua obra] De vocatione e a posição do Agostinho velho e do Próspero jovem, especialmente sobre a interpretação de 1 Timóteo 2.4 e sobre a predestinação” (YOUNG, F.; EDWARDS, M.; e PARVIS, P. (editores);Studia Patristica – papers presented at the Fourtheenth International Conference on Patristic Studies held in Oxford 2003, volume XLIII, Augustine and Other Latin Writes, PEETERS, 2006, p. 493 e seguintes).

Quanto ao monge alemão Gottschalk de Orbais (804-869), que talvez tenha sido, nos mil anos pós-Agostinho, o seu mais fiel seguidor, quando ele começou a pregar a predestinação agostiniana após estudar sozinho, sem influência direta de alguém, os escritos do bispo de Hipona, teve seu ensino rejeitado pela esmagadora maioria dos de sua época, tendo sido duramente combatido, numa clara prova de como esse tipo de ensino era “aceito” ou “influente” naquela época.

O pobre do Gottschalk, além de condenado por heresia no Concílio de Mogúncia em 848, foi lamentavelmente surrado e proibido até de pisar no território do imperador carolíngeo Luís, o Germânico, que compreendia um terço da Europa na época. Ele tentou, então, ganhar a simpatia dos cristãos do outro dos três territórios carolíngeos da época (o de Carlos, o Calvo), mas foi condenado no Concílio de Kierzy em 849 pelas mesmas heresias, sendo que desta vez foi pior: além de ser removido do seu sacerdócio, foi, lamentável e cruelmente, chicoteado, obrigado a jogar ele mesmo no fogo seus escritos e foi trancafiado em um mosteiro. Depois de apelar a amigos para que o ajudassem, viu cinco deles escreverem em favor de seus ensinos, mas os escritos destes foram logo combatidos pelo bispo Incmaro de Reims, dentre outros. Resultado: apesar da persistência de Gottschalk e seus amigos, os ensinos dele foram condenados em sequência nos Concílios de Kiersy em 853, de Valência em 855, de Langres em 859 e de Savonnières também em 859. Todos esses concílios reprovaram a predestinação dupla agostiniana e asseveraram que a predestinação se dá pela presciência divina.

Anselmo e Bernardo, por sua vez, foram menos consistentes que Gottschalk em sua fidelidade à visão agostiniana da mecânica da Salvação. E o que dizer do arcebispo britânico Thomas Bradwardine (1290-1349), que pregava a dupla predestinação, mas não cria na depravação total, dizendo que o pecado original não teria causado consequências mais graves sobre a natureza humana? E que também cria na importância das boas obras para a complementação da justificação e da remissão dos pecados (sic)? Pode-se considerá-lo um “calvinista” ou “monergista” de fato, 100%? Ademais, o bispo Bradwardine lamentava em seus escritos que, nos seus dias, só ele ainda acreditava na doutrina agostiniana da mecânica da Salvação.

Os escritos de Bradwardine sobre o assunto até chegaram a ser lidos em Oxford e Paris, mas foram esmagadoramente ignorados ou, quando repercutidos, rejeitados pelos teólogos da época e pela igreja. Até seu companheiro Thomas Buckingham, quando se manifestou sobre o assunto, foi para combater o que ensinava seu colega. Ao bispo Bradwardine restou apenas o consolo de aparentemente ter influenciado, como o irmão Franklin lembra, o pré-reformador John Wycliffe, que já defende um posicionamento bem mais próximo de Calvino e do Lutero do início da Reforma. Wycliffe, por sua vez, influenciou Huss. Aliás, Wycliffe e Huss, que ainda são Idade Média, foram um total esquecimento meu. Talvez porque minha mente tende a ver Wycliffe e Huss como um capítulo à parte, por terem sido pré-reformadores. Bradwardine já não se encaixa nesse perfil.

Enfim, se eu fosse traçar uma linha rigorosa depois de Agostinho, eu colocaria na Idade Média apenas Gottschalk, Wycliffe e Huss.

Quanto ao alemão Thomas a Kempis (1380-1471), a verdade é que ele não escreveu nenhuma obra sobre o assunto. A única coisa que é empunhada pelos calvinistas como prova “incontestável” de seu agostinianismo em relação à mecânica da Salvação é um pequeno trecho de sua obra A Imitação de Cristo que apenas sugere agostinianismo. Nada mais. Não se tem nada de Thomas a Kempis que deixe definitivamente claro qual seu pensamento sobre o assunto. O mais engraçado é que sua obra A Imitação de Cristo enfatiza muito a prática da vida cristã, a dedicação espiritual cristã, tendo sido influência decisiva na visão espiritual de ninguém menos que o semipelagiano Erasmo de Roterdã e o arminiano John Wesley, que se opuseram a essa visão agostiniana da mecânica da Salvação.

Em suma, não estamos falando de uma doutrina que teve livre e intensa circulação, que tenha sido amplamente sustentada e ensinada na Idade Média, mas de um ensino reprovado esmagadoramente durante todo esse período e que teve, claro, como uma série de outros ensinos reprovados naquela época, uma ou outra pessoa que excepcionalmente a defendeu em menor ou maior grau.

Não se pode citar esses nomes como prova de que a visão agostiniana da mecânica da Salvação era de grande influência na Era Medieval. Aliás, se a posição deles fosse tão comumente aceita em suas épocas, Lutero, no início da Reforma, e Calvino, mais à frente, não causariam nenhuma espécie em seus dias quando a ensinassem. O ensino dos católicos jansenistas, que vieram logo depois, também seria normalmente aceito pela igreja da época. Todos reconheceriam que só era mais uma corrente dentre tantas outras aceitas naquela época, não é mesmo?

Depois, prossigo sobre esse tópico, falando de Tomás de Aquino. E, claro, também falarei amanhã, se Deus permitir, sobre outros questionamentos e/ou objeções levantadas pelo irmão Franklin.

Extraído do site cpadnews.com.br/ em 05/06/2015


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1 Comentário

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  1. É engraçado como os calvinistas se preocupam em defender e pregar Calvino, Agostinho ou outros calvinistas em vez de Cristo. Muitos falam mais em “pais” da Igreja, escritos dos calvinistas históricos, do que no Evangelho.

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