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Princípios subjacentes à obra de Jesus

por Artigo compilado - sex set 19, 12:01 am

Jesus ensinando

À primeira vista parece que o ministério instrutor de Jesus não se arraigava em nenhum princípio particular. Parecia mais uma espécie de atividade espontânea, sem qualquer subjacente filosofia definida. Contudo, não é este o caso. Estava muito longe de ser um processo acidental ou a esmo. Quanto mais estudamos a obra de Jesus, mais vemos que ela se baseava em princípios substanciais. Com efeito, tais princípios não foram apresentados em muitas palavras. Mas estão claros na obra de Jesus, e aparecem quando nos pomos a examiná-la. Anotaremos aqui alguns desses princípios.

 

1.     Jesus Olhava para Longe

É evidente que Jesus olhou para longe ao escolher seus auxiliares. Olhando lá da altitude divina, pôde ver neles aqui­lo que eles e seus companheiros não podiam enxergar. Olhava suas possibilidades futuras, e não meramente suas presentes qualificações. Por exemplo, viu naquele Simão impulsivo, radicalista e vacilante um caráter forte, corajoso e vigoroso, e por isso lhe deu o nome de Pedro (pedra). Semelhantemente, viu naquele João muito jovem e descaridoso (“filho do tro­vão”) um caráter bem mais amoroso e compreensivo, e mesmo “o discípulo amado”. Jesus podia descobrir num fariseu cheio de orgulho ou numa mulher de má vida possibilidades que ninguém enxergava. Afirma Bruce Barton: “O povo via Zaqueu apenas um judeuzinho desonesto: Jesus viu nele um homem de generosidade incomum… Assim se deu também com Mateus: todos viam nele nada mais que um desprezível coletor de im­postos, mas Jesus viu nele o potencial escritor dum livro que viveria para sempre.”

Assim como o pintor vê seu futuro quadro na tela ainda em branco, assim como o escultor enxerga já a futura es­tátua no mármore bruto, o Mestre via em cada discípulo a personalidade útil e extraordinária que seria no porvir, e por isso trabalhava com otimismo e paciência na realização do seu plano. “Parece que Jesus nunca perdeu a esperança no li­dar com os homens. Sempre ele esperava qualquer coisa dos piores e dos mais fracos deles.”

Jesus também olhou para longe, quando se lançou à obra de criar caracteres fortes, sabendo que de fato é preciso bastante para firmar ideais para consolidar e para desenvolver hábitos nobilitantes. Disse Maltbie D. Baboock: “Bons há­bitos não se formam no dia em que nascemos, e nem se cria o caráter cristão no dia do Ano Bom. A visão pode revelar-se, o sonho pode alertar e o coração com nova inspiração pode galgar o topo da montanha; mas a prova e o triunfo estão no sopé do monte, ao nível da planície./ O cogumelo cresce numa noite, mas o carvalho precisa de uma década para desenvolver-se. Este fato aparece claro na parábola da semente lan­çada à terra, a qual brota, e se desenvolve da erva até o grão granado na espiga (Mar. 4:28). Também está claro na exorta­ção a Pedro, de alimentar seus cordeirinhos e fazer deles ovelhas (João 21:15-17).

Jesus sabia que o Reino de Deus não viria por meio de campanhas turbilhonantes e nem por ocasiões grandemente trabalhadas, mas pelo processo seguro de ensino e treinamento “preceito após preceito — regra após regra”. Somente assim cristãos imaturos atingiriam a estatura completa do homem cristão. Este olhar para longe deu a Cristo firmeza e constância. “Assim, quando se via bloqueado numa direção, Jesus paciente e serenamente se voltava para outra. Quando, cercado por todos os lados, não lhe restou outra coisa senão morrer, Jesus o fez doce e confiantemente, como quando alimentava as multidões junto ao mar”; Jesus sempre estava certo dos resul­tados.

O olhar para longe, no que respeita às possibilidades de nossos alunos e à tarefa de criar neles o caráter cristão por certo muito nos ajudará a conjurar todo e qualquer pessimismo. Não faremos nunca como fez o pai de Woodrow Wilson, que disse: “Receio que meu filho Woodrow não chegue a ser grande coisa.” Nem agiremos como aquele evangelista que, ao término do reavivamento cm que se converteram George Truett e ou­tros mais, sentia que a reunião havia falhado em muito, por­que poucos adultos tinham sido ganhos para Cristo. Nem agiremos como aqueles líderes eclesiásticos que hesitaram em admitir Dwight L.  Moody como membro de sua igreja.

Ao contrário, enxergaremos as infinitas possibilidades de cada aluno. De modo semelhante, encararemos nosso ensino não como uma obra pesada e incómoda, e. sim, como uma glo­riosa oportunidade — o meio humano mais eficiente para se criar e desenvolver o caráter cristão. Veremos, então, com von Humboldt, que aquilo que desejamos ter cm a nossa civili­zação de amanhã deve hoje ser em nossas escolas, e, com Roberto Wells Veach, que o progresso social é uma cruzada de mestres-escolas. Veremos daí, que “o professor é, na realidade, o guardião dos portais do amanhã”.

 

2 .     Jesus Deu Valor ao Contato Pessoal

A tendência hodierna é buscar colher resultados por meio de atividades levadas a cabo em grandes reuniões de gente. Vivemos obcecados pelos números, pela quantidade. O sucesso dum evangelista, dum pastor ou dum professor de educação religiosa é medido hoje pelo número de conversos, de membros de igreja, ou pelo tamanho da escola. Campanhas desta ou daquela espécie são hoje a ordem do dia. Como Gregório, o iluminador e outros mais ambiciosos missionários, queremos ganhar o povo aos magotes. Assim, se enfatiza mais a multidão do que o indivíduo.

Isto não vai bem com o justo procedimento em matéria de educação religiosa e trará quase sempre resultados superficiais e temporários. Através dos anos, tem sido essa a causa de bom número de experiências espúrias e deserções. Maior nú­mero de pessoas convertidas em cultos regulares permanecem firmes, ao passo que, daqueles ganhos em reuniões de rea­vivamento, bem poucos prosseguem na carreira. Tal ênfase explica em parte a diferença existente entre o número de mem­bros no rol da igreja e o número de membros fiéis e ativos. Isso contribui também para dúvidas e deserções da fé. J. R. Graves certa vez disse que muitos ateus notáveis, com os quais conversou, haviam nalgum tempo feito sua profissão de fé.

Jesus enfatizava outra coisa: o contato pessoal. “Em grande parte., Jetus empregou seu tempo a conversar com indivíduos, ou com aquele seu grupo de discípulos ou alunos.”É verdade também que lidou com multidões. Tanto que ver­dadeiras multidões o seguiam de Cafarnaum, de Jerusalém, de Decápolis e doutros mais lugares. Chegavam, às vezes, a quatro ou cinco mil. Jesus simpatizava com as multidões, dirigia-lhes a palavra, alimentava-as e as curava. Certas vezes sua atividade chegou mesmo a tomar o aspecto dum grande mo­vimento popular, notadamente após certos períodos de curas e por ocasião de sua entrada triunfal em Jerusalém.

Mas Jesus não estimulou o movimento das massas popu­lares. Ao contrário, parece até que tais movimentos o perturba­vam, pois ele, nessas ocasiões, desaparecia e fugia da multidão e buscava provocar a reação de pequenos grupos. Quando gran­des multidões o seguiam, Jesus lhes dizia que deviam amar a ele mais que a qualquer parente mais próximo, para que se tornassem seus leais seguidores (Luc. 14:25-27). Jesus co­nhecia bem a inconstância e volubilidade das multidões, e o quanto era superficial a resposta de grupos, sentindo perfeita­mente que “aqueles que hoje nos abençoam e louvam podem amanhã nos amaldiçoar e injuriar”, Assim, não se dedicou a trabalhar com as massas populares. “O Mestre interessava-se mais por que poucos o entendessem bem e se enchessem de seu Espírito do que por grandes multidões que o seguissem de modo superficial.”

Em todo o seu ministério público, de pouco mais de três anos, Jesus empregou a mor parte de seu tempo na lida com indivíduos. Os fatos mais brilhantes do seu ministério se de­ram através dessas atividades junto a indivíduos. “O método empregado por Jesus para a redenção deste mundo não foi o de esperar grandes oportunidades ou momentos dramáticos, não. Foi o de utilizar qualquer oportunidade que se lhe apre­sentasse, no mais ordinária lugar-comum, aproveitando-se dos acontecimentos corriqueiros” da vida de cada dia, e daí tirava o que de mais proveitoso houvesse para qualquer alma necessi­tada.”

Dentre as pessoas com quem lidou pessoalmente, encon­tramos Nicodemos, Zaqueu, a mulher de Samaria, a mulher apanhada em adultério, o homem que queria receber sua parte da herança, o jovem rico, o crítico rabino, e o fidalgo de Cafarnaum. Horne nos dá uma lista, ao todo, de perto de sessenta pessoas. Ao lidar com elas, Jesus teve oportunidade de compreender suas necessidades e aconselhá-las. O deão Inge comparou o líder de massas populares ao homem que derrama um balde de água sobre um grupo de vasos de boca estreita, esperando que alguns deles se encham. O conselheiro pessoal trata de casos específicos. Jesus compreendeu a supe­rioridade deste segundo método. Como diz H. H. Horne: “Jesus, de preferência e com muito maior êxito, trabalhou com indivíduos, levando em conta a própria natureza das mul­tidões. Ele não confiava nas multidões, nem a elas se confiou, mais confiava nos indivíduos.”7

O mestre de nossos dias precisa ser um conselheiro pessoal, guiando o povo à solução de seus problemas. Ao ensinar, deve ter uma classe de tamanho tal que possa conhecer as necessi­dades individuais de cada aluno e ensinar, assim, com eficiên­cia. Deve o professor ter um registro especial de cada aluno, com informes detalhados sobre os pais deles, seus amigos, seus professores na escola pública, e, assim, preparar e apresentar cada lição à luz desses informes c fatos. Disse um grande pregador: “George Truett revelou-se notável, quando pregava do púlpito; mais notável ainda quando dos degraus do Capitólio em Washington falava à Convenção Batista do Sul; fez-se maior ainda quando em Atlanta falou à Aliança Batista Mun­dial. Revelou-se, no entanto, ainda mil vezes maior quando, num pequeno cemitério de humilde cidade interiorana, falou para confortar uma menina que perdera sua estremecida mãe.”

 

3 .     Jesus Começava Onde Estava o Povo

Jesus não pregou sermões antecedentemente preparados para certas ocasiões. Estivesse em casa, na sinagoga, na monta­nha ou à beira-mar, ensinava sempre mui naturalmente e de modo informal, partindo do interesse do aluno e de suas ne­cessidades. “Ele começava não com crenças estereotipadas, com assuntos previamente estipulados, com tradições ou mesmo com a Bíblia, mas com pessoas vivas que com ele conviviam e que faziam parte de sua experiência diária.” “Ele não tomava uma passagem da lei ou dos profetas, para dela tirar princípios gerais, e imediatamente aplicá-los a qualquer necessidade que viesse a descobrir. Ao contrário, ele tratava de situações huma­nas que tinha diante de seus olhos.” Apanhava as pessoas como se lhe,apresentavam e buscava levá-las para onde queria que fossem. Isto calha perfeitamente com a “Lei da Pronti­dão”, de Thorndike, que afirma, quando uma pessoa está pron­ta para agir de certa maneira, ou em certo sentido, o fazer isso é coisa que a satisfaz e a livra de aborrecimento.

Quando um doutor da lei lhe perguntou o que devia fazer para herdar a vida eterna, Jesus lhe citou a lei dele (Luc. 10:25,26). Na conversa com a mulher decaída, junto ao poço de Jacó, Jesus começou a falar em “água” — coisa em que ela estava interessada, e a levou às “águas vivas” (João 4:10). Levantando-se na sinagoga para ler e proclamar o pro­grama do seu ministério, Jesus começou com aquela passagem familiar de Isaías que trata da expectativa messiânica (Luc. 4:16-30). Assim, por este processo, Jesus atraía a atenção e o interesse dos ouvintes. “No propósito de levar seus discípulos a aprender alguma coisa, ele não se cingiu a programas formais, nem a currículos forjados de antemão.”

Partir de onde se acha o discípulo significa não só come­çar pelos seus interesses e necessidades, mas também lingua­gem que lhe seja familiar. Isto se baseia na antiga lei da “apercepção”, que já em certo tempo recebeu grande ênfase e que ‘ ainda precisa ser enfatizada. Literalmente, significa “adpercep-ção”, ou adicionar algo à percepção do alune. A ideia aqui é esta: o aluno aprende novas verdades mediante as velhas, ou chega ao desconhecido pelo conhecido. “Verdades a serem ensi­nadas devem ser apresentadas mediante verdades já conheci­das.” Aliás, é este, no aprendizado, o processo em voga.

Uma criança, tendo visto o quadro de um crocodilo, deu esse nome ao primeiro lagarto que encontrou. Uma lavadeira de cor, assistindo a um desfile de enfermeiras da Cruz Verme­lha, exclamou que nunca vira tanta roupa caiada! Uma crian­ça do Sul, ao ver cair os primeiros flocos de neve, deu-lhes o nome de plumagens. Visto que aprendemos novas verdades através das velhas, é de suma importância escolher vocábulos e expressões que sejam familiares ao aluno. Do contrário, não se formará a idéia exata. Jesus lançou mão de palavras co­muns como luz, sal, pão, carne, e se referia sempre a coisas mui conhecidas, como solo, vinha, cordeiro, fermento.

De passagem, convém anotar que os tempos de maior in­compreensão no ministério de Jesus foram aqueles em que ele empregou uma terminologia que tinha outro significado para seus ouvintes. Quando empregou o termo “novo nascimento”, Nicodemos, embora homem culto, imediatamente pensou em nascimento natural, físico. Quando falou do “Reino”, seus seguidores ima­ginaram logo um reino terreno como o de Davi, um reino de força, e não um reino espiritual nos corações humanos. Quando falou que, se seu “templo” fosse destruído, em três dias o le­vantaria de novo, os discípulos não perceberam que Jesus fa­lava de seu corpo. Assim, pois, é preciso não só iniciai’ com ex­periências c problemas conhecidos do povo, mas também ver se os alunos estão compreendendo claramente a linguagem e as ilustrações empregadas. O Dr. Gambrell certa vez falou dum pregador que gastou três minutos para ilustrar e dezoito para explicar o que desejava ensinar com a dita ilustração.

 

4.     Jesus Detinha-se em Assuntos Vitais

Em todos os ensinos de Jesus não encontramos indica­ção alguma de que ele se demorasse no tratamento de assuntos secundários ou incidentais. Ele não ensinava os rudimentos do aprendizado, nem história, nem geografia, nem os costumes da Palestina. Não dava tanta ênfase à organização, ao equipa­mento, nem aos materiais que empregava no seu ensino. Tam­bém não enunciou elaborados sistemas de doutrina a serem ministrados pelas gerações futuras. A coisa que mais se apro­xima disto é o Ensino do Monte, que pode ser lido em meia hora. Também não acoroçoou que decorassem as Escrituras, comentários delas, ou assuntos de discussão teológica como faziam os escribas em suas classes nas sinagogas. Em vez disso o Mestre tratou de problemas vitais —assuntos de modo defini­tivo pertinentes à conduta moral e religiosa.

O Mestre sabia muito bem que as saídas da vida procedem dos instintos fundamentais, como o de conservação, de repro­dução, de projeção e de sociabilidade. Ele próprio houvera sido tentado em muitos desses pontos, e sabia que a perversão desses impulsos produz os pecados da sociedade. O problema da natureza humana é o principal. Assim, buscou Jesus contro­lar os problemas da vida em sua própria fonte. Por isso, aler­tou seus seguidores contra o espírito cúpido, que é a perver­são e o resultado do instinto da conservação própria. Pós de sobreaviso os homens contra o olhar lascivo, que provém  do instinto de reprodução, e disse a seus discípulos que fossem puros de coração. Condenou o desenvolvimento do instinto de projeção, que arrasta o homem a desejar os primeiros lugares e a dominar os outros. Também verberou fortemente o orgu­lho e a vã exibição, perversões do instinto de sociabilidade. As­sim se detendo em assuntos vitais, repreendeu gentilmente os mestres de Escola Bíblica Dominical que gastam tempo a tratar de assuntos secundários e acidentais.

Discutindo temas vitais, Jesus não gastou seu tempo apenas para denunciar os erros e os acontecimentos do dia, como o povo em geral o faz. Jamais tratou negativamente dos problemas da vida, nem seu evangelho foi o de “recolhe-te à tua insignificância”. Isto não perdurou, nem prevaleceu, como ele mostrou perfeitamente na história do mau espírito que, uma vez expulso, voltou à casa vazia e a habitou novamente (Mat. 12:43-45). Ao contrário, ele reconheceu a necessida­de de tratar os problemas de modo positivo. Noutras palavras, deve haver uma nova dinâmica — “o poder expulsivo duma no­va disposição de ânimo”. Por isso, Jesus buscou mostrar ao herdeiro cúpido que a vida é mais do que nossas posses e bens, e à sórdida mulher samaritana que existem satisfações e pra­zeres superiores aos materiais e físicos. Ele fez da religião uma realidade vital e dinâmica. “Para Jesus, a vida é algo mais que o ajustamento ou a adaptação dum organismo à sua ambiência imediata. Jesus tinha em mente a personalidade forte e una que pode suportar qualquer teste.” “Jesus achava que a religião é uma espécie de vida difusa nos interesses e atividades da pessoa… e nunca um interesse específico, sepa­rado do restante da vida. Ele só falava em termos de reações divino-humanas.”

 

5.     Jesus Trabalhava a Consciência dos Indivíduos

Os escribas e os fariseus, os mentores profissionais da re­ligião dos dias de Jesus, intentavam desenvolver o caráter por meio de regulamentos e preceitos assaz minuciosos. “Cristo apareceu no meio dum povo para quem a religião consistií na aceitação dum elaborado código de regras, de épocas fixas e de maneiras de cultuar.” Tais regras ocupavam minuciosa­mente quase todos os setores da vida e sobrecarregavam por demais o povo. Havia, por exemplo, quarenta e duas regras sobre o insignificante assunto, como era permitido dar um nó no dia de sábado! A vida moral e religiosa era quase intolerá­vel sob tal sistema. Jesus bem conhecia a futilidade daquelas práticas exteriores e por isso buscou libertar o povo duma vir­tual escravidão a elas. Foi também por isso que ele clamou contra aquele estado de coisas, dizendo: “Carregais os homens com fardos difíceis de suportar, e vós mesmos nem ainda com um dos vossos dedos tocais nesses fardos” (Luc. 11:46). Fazia-se necessário, portanto, enfatizar positiva e dinamicamen­te o lado espiritual da religião, para que o povo se sentisse su­ficientemente preparado para enfrentar e solucionar os pro­blemas da vida. E isso Jesus buscou fazer, no afã de ajudar seus discípulos.

Como já anotamos, o Mestre percebeu a impropriedade das reações e respostas que eram dominantemente emotivas, porém destituídas de convicções bastantes que elevassem a moral do povo. Jesus via perfeitamente que histórias patéticas e apelos ao orgulho não eram motivou defensáveis e próprios. Assim, não lançou mão deles. Nunca ele pediu a qualquer pes­soa que erguesse a mão, que assinasse um voto ou que se pu­sesse de pé para testemunhar que o havia aceito. Nem soli­citou que alguém lhe apertasse a mão, embora exortasse todos a que o seguissem. “Ele nunca compeliu alguém, nem impôs sua vontade; nunca forçou alguém a concordar com ele, nem impôs dogmaticamente seu ensino.” As decisões da vida são bastante sérias para que as não tomemos levianamente. Ele desejava obter respostas que fossem permanentes, decisões que fossem devidamente motivadas. Para Jesus não havia atalhos. Achava melhor não receber resposta alguma do que obter reações espúrias industrializadas e apressadas.

Por isso Jesus sempre apelava à consciência, que nada mais é que esse sentimento de obrigação moral de cada um, ou a sensibilidade para com o bem e o mal. “Estas coisas, po­rém, devíeis fazer”, disse Jesus aos escribas e fariseus hipó­critas (Mat. 23:23); e, repreendendo o homem que escon­dera seu talento, disse: “Devias…” (Mat. 25 :27). Jesus sem­pre trabalhou mais a consciência dos homens do que o intelecto. Ele promoveu a sua causa não só mediante o ensino de verda­des, mas a descansou sempre em consciências esclarecidas. E os resultados justificaram esse bom princípio. Ele primou para que a verdade fosse bem clara, mas também imperativa e cons­trangedora O povo, ao terminar ele seu ensino, saía da pre­sença do Mestre sentindo que algo deveria ser feito sobre o que tinham ouvido. Horne diz: “Jesus, sem enunciar qualquer programa social, influiu mais na reforma da sociedade do que aqueles que proclamaram extensas plataformas de melhoramento social, porque criou essa consciência social que transforma a sociedade.” E Hinsdale adiciona: “A segura e calma confiança que Jesus tinha nos processos morais é o maior tributo que já se prestou à natureza humana.” E também foi o maior tri­buto ao seu ensino.

Temos,  pois,  aqui um princípio que urge  salientarmos cada vez mais, se quisermos tornar nosso ensino eficaz e dura­douro. Ele é verdadeiro, quer busquemos conversões ou com­promissos  financeiros  voluntários   para   a   obra   religiosa.   Ele conserva a liberdade e nos livra do superficialismo. É infinita­mente melhor que regulamentos minuciosos. O Dr.   Gambrell certa vez disse a seus colegas mais jovens, numa reunião na Faculdade: “Mui logo vocês aprenderão que nada se consegue por meio de regras e regulamentos.” E estava certo. Também nada conseguimos com meros  apelos  emotivos. Os constantes e inúmeros desvios, quedas e deserções, e faltas de cumprimen­to de votos provam esta verdade. A “consciência deve ser ilumi­nada e despertada. Nunca devemos fazer pressão sobre o povo, buscando levá-lo a fazer aquilo que não quer fazer;  ao con­trário, devemos começar pelas suas necessidades. As respostas devem nascer do sentimento de obrigação moral.

 

6.     Jesus  Olhara  Sempre  para  o  Que   Havia  de  Bom  no Individuo

Há pessoas que só olham para aquilo que de mau existe em seus semelhantes. Assim, tomam uma atitude e tratam de coisas desagradáveis que só podem colher respostas desfavorá­veis. Levantam, desse modo, forte barreira e resistência entre eles e a pessoa com quem estão lidando, àmiúde se criam mesmo antagonismos e inimizades. Assim agem não poucas vezes pessoas bem intencionadas que sinceramente buscam acertar e ajudar; mas é claro que lhes falta discernimento e também tato. Um colega de ginásio, a quem este escritor levou a Cristo, disse depois de sua conversão: “Eu teria dado este passo há muito se certas pessoas não me tivessem criticado tanto.” Esta tendência de olhar só para os defeitos de nossos semelhantes pode bem prejudicar a matrícula da classe que ensinamos, pode dificultar nosso ensino e mesmo inutilizar qual­quer esforço que fazemos para levar nossos alunos a servir a Cristo, embaraçando bastante o ganharmos nossos semelhantes para Jesus. Pode surgir ela do fato de não termos compreendido bem este ou aquele aluno, como pode ser o resultado duma atitude fria e antipática, e mesmo de falta de tato e simpatia de nossa parte. Pode igualmente ser o resultado do cáustico es­pírito de crítica. Seja como for, o fato é que essa tendência afasta ainda mais de nós o discípulo nosso e produz mais mal do que bem.

Com Jesus tudo era diferente. De qualquer modo ele sempre enxergava algo de bom e apreciável nos homens. Mes­mo lidando com um fariseu empavonado e cheio de justiça própria, com um coletor ladino e sem escrúpulos, ou com uma decaída, Jesus sempre apelava para aquilo que de bom ainda houvesse no íntimo deles, e trazia à tona alguma de suas boas qualidades. E assim tratava Jesus não só aqueles que viviam chafurdados no pecado, mas também os que apenas se mostra­vam imaturos e inexperientes. Parece-nos mesmo que o Mestre se especializou em apanhar aqui e ali pessoas indesejáveis e desprezíveis para fazer delas caracteres esplêndidos e extraordi­nários, como fez com os onze.

E isso tudo Jesus conseguiu salientando as futuras possi­bilidades deles, interessando-se por eles e inspirando-os a pros­seguir no bem. “Ele cria que o meio de se criar nos homens fé e confiança é mostrar que temos fé neles; e Jesus nunca se afastou deste grande princípio de tratamento eficiente.”Quando mostrou o que pode conseguir a fé do tamanho duma semente de mostarda; quando disse à adúltera que também não a condenaria, e que fosse, e não mais pecasse; e quando disse a seus discípulos que eles eram o sal da terra, o Mestre Jesus estava implantando neles a confiança e a esperança que os arrastariam a desdobrar seus esforços no sentido de não falharem à confiança que Jesus neles depositava.

Uma das coisas mais importantes que podemos fazer como professores de Escola Bíblica Dominical é procurar obter o máximo de nossos alunos. Não existe aluno algum que pratica­mente seja um caso perdido, sem esperança, pois sempre podemos descobrir nele brilhantes possibilidades. Não há ne­nhum tão medíocre que não tenha em si alguma qualidade para a qual possamos apelar. Quando alguém perguntou a uma pro­pagandista de voto feminino na Câmara de Boston quem a defenderia duma multidão hostil e ameaçadora, ela apontou para o cabeça do motim, e disse: “Aquele cavalheiro me protegerá, e verão como ele me dará a oportunidade de ser ouvida.” E aquele a quem ela chamara de “cavalheiro” de fato fez justa­mente isso, dando-lhe a palavra.

Quando o superintendente da Escola Reformista de Rhode Island soube que um rapaz interno estava planejando fugir para casa, forneceu-lhe a passagem para ir fazer um wek-end com a mãe dele, e lhe disse que esperava que ele voltasse ao internato mesmo quando a mãe e ele dissessem que não o fa­riam. E o rapaz voltou. A Sra. Jessie Burral Eubank conseguiu em Washington no tempo da guerra uma classe de 1.600 moças não-residentes, em grande parte só por apelar para aquilo que elas podiam fazer de melhor, despertando-as com este moto: “Nós queremos ser as especialistas das coisas im­possíveis.” Cevemos, sim, pôr nossa confiança, nosso otimismo e nossa inspiração contra a dúvida, contra o desânimo, para cobrir as deficiências de nossos alunos e levá-los a atingir o máximo em suas vidas. E só conseguiremos isso quando pu­dermos ver algo das possibilidades latentes que dentro deles existem.

 

7.     Jesus Assegurava a Liberdade de Ação do Aluno

Uma das famosas “Sete Leis do Ensino”, de João M. Gregory, é esta: “Provoque e dirija as atividades próprias do aprendiz, e não lhe ensine aquilo que ele pode aprender por si.” Esta lei se baseia no fato de que o aprendizado não se efetua sem atividade mental. Tomás Carlyle dizia que “os santos não se fazem durante o sono”. Também o erudito L. A. Weigle diz: “Não é aquilo que você diz ou conta ao aluno, e, sim, aquilo que ele pensa depois de ouvir suas palavras; não é aquilo que você faz por ele, e, sim, aquilo que ele faz com suas próprias mãos; não é a impressão, e, sim, a reação dele que determina o seu desenvolvimento. Você não pode enfiar idéias na cabeça do aluno; suas palavras são apenas símbolos das idéias que estão em sua mente. O aluno deve interpretar tais símbolos e daí com isso construir suas próprias idéias. O ensino só obtém êxito quando leva o aluno a agir.”

O aluno não deve simplesmente assentar-se calado en­quanto o professor fala e ensina. A mente dele deve estar em atividade. Faz-se necessário um movimento de três ciclos — co­nhecimento intelectual, estímulo emotivo e resposta volitiva. O aluno só aprende a renunciar quando se nega a si mesmo; só toma consciência da alegria de dar quando dá desinteressada­mente e pelo prazer de dar. Por isso é que contar histórias, prelecionar, apresentar auxílios audiovisuais não basta. A discus­são, a dramatização, as projeções podem ajudar o ensino. Mas, só fazendo é que aprendemos a fazer.

Este princípio o Mestre conhecia perfeitamente e o em­pregou sempre, “Longe de oferecer soluções conseguidas de pronto, Jesus dirigia o povo, deixando que com seus próprios recursos obtivessem a resposta.”

Ele certamente estava salientando este princípio quando disse: “Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, há de saber” (João 7:17). Também frisou o mesmo princípio quando comparou o simples ouvir ao construir uma casa sobre a areia, e o ouvir e o responder ao construir sobre a rocha. O ponto principal da Parábola dos Talentos é aquele que nos chama a atenção para o homem que usa e desenvolve seus poderes, concluindo-se que quem assim não faz acaba perdendo-os. Na parábola sobre os solos, Jesus nos ensina que o que im­porta é a resposta à sementeira.

Deixou que os discípulos batizassem por ele, e os enviou, bem como a outros, em missões de ensino e cura. Jesus fez que os discípulos distribuíssem dos pães e dos peixes, ao ali­mentar os cinco mil, e também lhes pediu que tirassem a pedra posta à entrada do túmulo de Lázaro. O cego deveria lavar os olhos no tanque de Siloé antes de receber a vista, e o moço rico vender tudo e dar aos pobres para estar habili­tado a possuir a vida eterna. Entre as atividades mencionadas, encontramos estas: levantar, vir, seguir, ir, lavar, fazer, vi­giar, oferecer, pregar, ensinar, fazer discípulos, dar de co­mer. O Evangelho de Jesus era de pensamento e ação, bem como de ouvir, sentir e praticar.

Extraído do livro A PEDAGOGIA DE JESUS, J. M. Price.


Cada autor é responsável pelo conteúdo do artigo.

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