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Qual será a natureza do livre-arbítrio?

por Artigo compilado - qui maio 01, 1:40 am

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PERGUNTA: Muitos (geralmente arminianos) argumentam que, sem livre-arbítrio em um sentido (libertário) significativo, isto é, a capacidade de escolher entre o bem e o mal, as ações humanas não seriam dignas de louvor ou culpa. Assim, a fim de preservar a responsabilidade moral, os seres humanos devem ter livre-arbítrio no sentido libertário – a liberdade de escolha moral contrária. Mas será que isso é consistente com a liberdade do próprio Deus, a quem supomos ser o modelo final para a liberdade? O que segue é dito ser verdadeiro a respeito de Deus:

1. Certamente Deus é o ser mais livre no universo. Ele é livre para fazer o que quer que lhe apraz (Sl 115.3) e todas as suas escolhas são certamente dignas de louvor;

2. No entanto, Deus deve necessariamente fazer apenas o que é bom, ele não pode fazer qualquer coisa que seja moralmente errada. E por quê? Porque a Sua natureza é perfeita e infinitamente santa e porque Deus não pode agir contrariamente à Sua natureza. (Este último ponto é uma implicação de sua justiça.);

3. Isto significa que as escolhas de Deus são TANTO determinadas (necessárias) QUANTO livres (portanto, dignas de louvor).

A conclusão normalmente extraída a partir dessas considerações – geralmente por calvinistas – é esta: a verdadeira liberdade não pode ser definida no sentido libertário. Isso permite aos calvinistas dizerem que as escolhas humanas (decisões e ações) são TANTO soberanamente determinadas por Deus QUANTO livres.[1] Quais são as suas observações sobre este assunto?

RESPOSTA: Minha primeira observação é que a Bíblia em nenhum lugar especificamente discute e define o “livre-arbítrio”. Nossas conclusões sobre este assunto são inferências e implicações a partir dos ensinamentos bíblicos relacionados. Minha segunda observação é que não há nenhuma razão bíblica para pensar que a liberdade de Deus, seja como for definida, pode ser usada como modelo ou analogia para o livre-arbítrio humano conforme nós o possuímos em nossa vida terrena. Minha terceira observação é que o “livre- arbítrio”, na verdade, deve ser definido de duas maneiras diferentes, ambas as quais são libertárias e válidas.

Deixe-me explicar as duas formas diferentes de livre-arbítrio. Uma delas é o “poder de escolha contrária”; a outra é o “poder de escolha diferente”. A primeira é normalmente equiparada com o conceito libertário de livre-arbítrio. A “escolha contrária” neste caso é realmente o poder de escolha MORAL contrária, ou a capacidade de escolher entre o certo e o errado, a capacidade de escolher pecar ou não pecar. A última é simplesmente a capacidade de escolher entre várias opções, sem qualquer implicação moral resultante. É a liberdade de escolher um curso de ação a partir de uma lista de várias opções possíveis. Essa forma de liberdade é geralmente ignorada.

Em ambos os sentidos, a escolha é LIVRE se ela envolve a possibilidade de escolher entre opções (não necessariamente opostas), sem que a escolha seja fixada ou determinada por alguma força exterior à própria vontade da pessoa. Este último aspecto é o que faz com que ambas as formas de livre-arbítrio sejam chamadas libertárias.

Como isso se aplica a Deus? Em minha opinião, a liberdade de Deus (livre-arbítrio) é uma verdadeira liberdade, não obstante sua natureza não Lhe permita escolher fazer o mal. Deus não é livre no sentido de ser capaz de escolher entre opostos morais, mas ele é livre no sentido significativo de poder escolher entre um número infinito de possibilidades em relação ao que Ele decidir fazer. Neste sentido, costuma-se definir a obra da criação de Deus como um “ato livre”, uma escolha livre que ele não TINHA que fazer: “Pois Tu criaste todas as coisas, e por TUA VONTADE existiram e foram criadas” (Ap 4.11).[2] Além disso, a decisão de Deus de criar um universo com seres com livre-arbítrio foi Sua livre escolha. Esta capacidade de Deus para escolher entre várias opções está relacionada ao fato de que o TEMPO é uma parte de sua natureza (Ele existe em uma eterna linha do tempo), o que significa que Deus pode “pensar novos pensamentos” no sentido de tomar novas decisões sobre as Suas próprias ações futuras.[3] A ideia de que as decisões de Deus são determinadas ou necessárias é uma completa ficção. Sua natureza LIMITA quais escolhas Ele pode fazer, mas não DETERMINA as escolhas que Ele faz.

Como a dupla natureza do livre-arbítrio se aplica a nós como seres humanos? Em minha opinião, estamos destinados a experimentar as DUAS formas de liberdade. Nesta vida possuímos tanto a capacidade de escolher entre opostos morais e a capacidade de escolher entre diferentes opções. Ambas são verdadeiras liberdades, com a primeira sendo o que a maioria das pessoas chama de liberdade “libertária”. Este poder de escolha contrária é necessário durante esta vida, porque este período de nossa existência é uma espécie de “período experimental”, um tempo probatório, por assim dizer, que irá determinar o nosso estado eterno. Este aspecto da nossa liberdade não tem paralelo na natureza de Deus, porém foi provavelmente também a condição dos anjos – quando inicialmente foram criados – na sua existência (provavelmente também um período probatório, terminando após 2Pe 2.4). O fato de que este tipo de liberdade não é modelado de acordo com a liberdade de Deus não é motivo para negar a sua realidade. Pensar o contrário é uma falácia grave.

Depois da morte, essa liberdade de escolha moral contrária será removida de nossa natureza, e a partir desse ponto em diante vamos ter apenas a capacidade de escolher entre diversas opções, exatamente de acordo com o padrão de liberdade de Deus (exceto que as nossas escolhas serão sempre finitas). Nós não mais seremos capazes de pecar, tendo sido aperfeiçoados em nossa santificação e tendo sido verdadeiramente santificados como Deus é santo (Hb 12.23, 1Pe 1.16).[4]

As duas principais fontes de confusão sobre esta questão são: (1) o pressuposto de que o livre-arbítrio pode ser libertário em apenas um sentido, e (2) a suposição de que a liberdade de Deus deve ser o padrão para a liberdade humana em todos os sentidos. Não há base bíblica para nenhuma destas suposições. A própria liberdade de Deus é uma verdadeira liberdade libertária, e assim é também a nossa, agora e para sempre.

Jack Cottrell

Fonte: http://www.facebook.com/note.php?note_id=409307895616

Tradução: Cloves Rocha dos Santos


[1] Nota do Tradutor: Em outras palavras, a visão compatibilista. A posição de que não há verdadeiramente conflito entre determinismo e livre-arbítrio – que o livre-arbítrio e o determinismo são compatíveis – é conhecida como Compatibilismo. O compatibilismo foi defendido por alguns filósofos antigos e talvez também por Aristóteles, segundo alguns investigadores, mas popularizou-se durante o século XVII. Filósofos influentes da idade moderna como Thomas Hobbes, John Locke, David Hume e John Stuart Mill foram compatibilistas. Encaravam o compatibilismo como a via de reconciliação entre a experiência vulgar da liberdade e a visão científica do universo e dos seres humanos. O compatibilismo continua popular entre os filósofos e cientistas atuais por razões semelhantes. Se os compatibilistas estão certos, podemos ser livres e determinados, e não precisamos de nos preocupar com a possibilidade de a ciência futura vir a destruir a nossa convicção comum de que somos agentes livres e responsáveis. Na teologia calvinista, é a idéia de que o determinismo causal é logicamente compatível com o livre-arbítrio. O compatibilista que aceita tanto o determinismo quanto o livre-arbítrio é chamado de determinista “suave”. O compatibilismo geralmente define livre-arbítrio como uma ação que é causada pelos próprios desejos ou vontades de um indivíduo, ao invés de coagido por alguma influência externa. As possibilidades alternativas que parecem necessárias para um livre-arbítrio genuíno são interpretadas pelos compatibilistas como caracteristicamente hipotéticas. Por exemplo, o indivíduo que livremente deu dinheiro a uma instituição de caridade poderia ter se abstido de dar o dinheiro se o indivíduo tivesse desejado assim fazer ou se a situação tivesse sido diferente. Críticos do compatibilismo argumentam que a liberdade genuína requer que o indivíduo tenha mais do que uma possibilidade que seja de fato possível na hora da escolha, não meramente possibilidades que estariam abertas se certos fatos que não prevalecem prevalecessem. Essa falaciosa visão representa a principal tese calvinista a respeito da “harmonia” entre a soberania divina e a liberdade humana. (Fontes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Compatibilismo_(livre-arb%C3%ADtrio_e_determinismo e http://www.arminianismo.com/index.php?Itemid=28&catid=172:c-stephen-evans&id=775:compatibilismo&option=com_content&view=article)

[2] Ver o meu livro, Jack Cottrell, What the Bible Says About God The Creator – O que a Bíblia diz sobre Deus o Criador, (Wipf & Stock Publishers, 2001), 117-128.

[3] Veja o meu ensaio sobre “God and Time – Deus e o Tempo”, em “Evangelicalism and the Stone-Campbell Movement – O Evangelicalismo e o Movimento Stone-Campbell”, edição de W. R. Baker, especialmente a página 78.

[4] Aqueles que crêem que “uma vez salvo, sempre salvo” supõem que esta mudança começa, em parte, tão logo alguém se torna um salvo nesta vida, porém a boa exegese bíblica mostra que isso não é verdadeiro.


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