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Quem endurece os corações dos homens pra fazer o mal?

por Pr. João Flávio Martinez - qui jun 26, 2:42 pm

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Alguns dos textos, usados pelos fatalistas calvinistas (lembrando que há calvinistas que não se consideram fatalistas), para dizer que Deus decreta a maldade no coração dos homens são: Josué 11.20 e Romanos 9.17-18

“Porquanto do Senhor vinha o endurecimento de seus corações, para saírem à guerra contra Israel, para que fossem totalmente destruídos e não achassem piedade alguma; mas para os destruir a todos como o Senhor tinha ordenado a Moisés. Js 11:20

Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer. (Rm 9.17-18).

A ideia dos fatalistas que usam tais textos é mostrar que Deus manobra as pessoas e as usa de maneira arbitrária, manipulando-as em seus desejos. O ocorrido em  Josué é o mesmo fato sucedido com o endurecimento do coração de Faraó, o que veremos na sequência.

Josué 11.20

Sobre Josué 11.20, temos alguns comentários explicativos bastante relevantes:

“Aqueles cujo coração foi endurecido por Deus não eram pessoas de boa índole, mas sim indivíduos que haviam se comprometido com a maldade (Sl 14-1-3; Rm 3.10-18), como aconteceu com faraó…” (Novo Comentário Bíblico do AT, Ed. Central Gospel)

“ {Aqui em Josué 11.20} Deus coopera com o desejo do coração do homem…” (Dr. Russell Shedd na sua bíblia de notas)

“A iniquidade dos Cananeus era tão horrenda, que Deus resolveu destruí-los… pode acontecer de uma pessoa ou nação tornar-se tão iníqua que Deus retire delas a sua misericórdia, tornando-se inevitável o seu julgamento” (Bíblia Pentecostal, Stamps, Ed. CPAD).

A Bíblia Palavras Chaves, da Editora CPAD, no verbo “endurecer” mostra que: “… Verbo que significa ser forte, fortalecer, ser corajoso, conquistar. Este verbo é amplamente usado para expressar a força de vários fenômenos… a condição do coração de faraó (Ex 7.13)”. Ou seja, o texto e seu contexto dá-nos a entender que o coração de certas pessoas na bíblia são entregues a operação do erro (II Ts 2.11) devido a sua própria maldade.

O caso de Faraó

Biblicamente, o Faraó endureceu seu próprio coração cinco vezes antes de a Bíblia dizer que Deus o endureceu. Vejamos alguns casos: “Vendo, pois, Faraó que havia descanso, endureceu o seu coração, e não os ouviu, como o Senhor tinha dito” (Êxodo 8:15) “Mas endureceu Faraó ainda esta vez seu coração, e não deixou ir o povo” (Êxodo 8:32)

B. W. Johnson corretamente observa: “Cinco vezes é dito dele que ele mesmo endureceu, ou tornou pesado seu coração (Êx 7.13; 7.22; 8.15; 8.32; 9.7), antes da vez quando é finalmente dito que Deus o endureceu (Êx 9.12), e mesmo depois disso é dito que ele endureceu a si mesmo (Êx 9.34). Assim ele inicialmente fechou seu próprio coração aos apelos de Deus; ficou mais firme pela resistência obstinada sob os julgamentos de Deus, até que finalmente Deus, como punição por sua rejeição obstinada do direito, entregou-o à sua louca insensatez e afastou seu julgamento”[1]

À luz dos dados bíblicos, a conclusão de Calvino de que “o conselho secreto de Deus é a causa do endurecimento”[2] é completamente errônea. Faraó foi a causa e o responsável pelo seu próprio endurecimento, e Deus apenas o entregou a esta condição. Deus não agiu contra o livre-arbítrio de Faraó, mas através do livre-arbítrio dele. Faraó não era um homem bonzinho, gente do bem, camarada, com um bom coração, cheio de benignidade e compaixão e completamente disposto a deixar que toda a sua mão-de-obra forçada deixasse o seu país porque um escravo egípcio e um fugitivo estavam gentilmente pedindo isso.

Faraó não tinha um bom coração disposto a deixar livremente que os israelitas fugissem. Deus respeitou o livre-arbítrio do Faraó e o entregou a esta condição. Faraó já era orgulhoso, soberbo e ímpio muito antes de Moisés e Arão começarem toda a história. Foram as suas escolhas que o levaram a isso, e não “o conselho secreto de Deus”. Deus não faz o homem ímpio; o próprio homem que se faz ímpio (Ec.7:29). Deus nunca agiu contrário ao livre-arbítrio do Faraó.

Como disse John Murray, “o endurecimento de Faraó, não esqueçamos, reveste-se de caráter judicial. Pressupõe a entrega ao mal e, no caso de Faraó, particularmente à entrega ao mal de seu auto-endurecimento”[3]. Esta “entrega” da parte de Deus é o mesmo que Paulo escreveu aos romanos, quando disse que “Deus os entregou à impureza sexual, segundo os desejos pecaminosos dos seus corações, para a degradação dos seus corpos entre si” (Rm 1.24). Não é que Deus tenha determinado que eles cometessem impureza sexual, mas sim que, por tanto resistirem à graça, esta graça se afastou deles, de modo que agora eles estão “entregues” a este fim.

Norman Geisler em seu “Manual de Dúvidas, Enigmas e ‘Contradições’ da Bíblia” diz o seguinte: “Deus não endureceu o coração de Faraó contrariamente ao que o próprio Faraó por sua livre vontade determinou. A Escritura deixa claro que Faraó endureceu o seu coração. Ela declara que ‘o coração de Faraó se endureceu’ (Ex 7.13), que Faraó ‘continuou de coração endurecido’ (Êx 8.15) e que ‘o coração de Faraó se endureceu’ (Ex 8.19). Novamente, quando Deus enviou a praga das moscas, ‘ainda esta vez endureceu Faraó o coração’ (Ex 8.32). Esta frase, ou uma equivalente, é repetida vez após vez (cf. Ex 7, 34-35). De fato, exceto quando Deus  o que aconteceria (Ex 4.21), Faraó foi quem endureceu o seu próprio coração  (Ex 7.13; 8:15 ; 8:32 etc.), e só mais tarde Deus o endureceu (cf. Ex 9:12; 10:1, 20, 27). Além disso, o sentido em que Deus endureceu o coração de Faraó é semelhante ao modo pelo qual o sol endurece o barro ou derrete a cera. Se Faraó tivesse sido receptivo às advertências de Deus, o seu coração não teria sido endurecido por Deus. Mas quando Deus dava alívio de cada praga, Faraó tomava vantagem da situação. ‘Vendo, porém, Faraó que havia alívio, continuou de coração endurecido, e não os [a Moisés e Arão] ouviu, como o Senhor tinha dito’ (Êx 8:15)”[4]

Em seguida, eles montam uma tabela onde explicam em que sentido que Deus “endureceu” o coração do Faraó:

 

DEUS NÃO ENDURECE O CORAÇÃODEUS ENDURECE O CORAÇÃO
InicialmenteSubseqüentemente
DiretamenteIndiretamente
Contra o livre arbítrio da pessoaPor meio do próprio livre arbítrio
Como sua causaComo seu efeito

 

Além disso, Laurence Vance faz uma importante observação: “Se o decreto da reprovação era eterno, o que Deus estava fazendo endurecendo o coração de Faraó no tempo e em várias ocasiões se ele já foi predestinado ao inferno? Ele estava fazendo mais firme sua reprovação e condenação?”[5]

De fato, a questão do “endurecimento do Faraó” é um problema muito maior para os calvinistas fatalistas do que para os arminianos/wesleyanos. Se tudo já foi pré-determinado por Deus na eternidade, então não há qualquer razão ou lógica em endurecer o coração de alguém que já foi predestinado a pecar e a ir para o inferno. Não há como tornar este decreto “mais certo”, e por isso seria inútil qualquer forma de endurecimento ativo em alguém que já estava de qualquer maneira predestinado a tomar aquelas atitudes, e que não poderia fazer nada de si mesmo para lutar contra elas.

É digno de nota que em quase todas as vezes onde a Bíblia mostra alguém “cego” ou “endurecido”, ela coloca o próprio homem como sendo o agente ativo. Lucas, por exemplo, escreveu em Atos: “Quando Paulo lhes impôs as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo, e começaram a falar em línguas e a profetizar. Eram ao todo uns doze homens. Paulo entrou na sinagoga e ali falou com liberdade durante três meses, argumentando convincentemente acerca do Reino de Deus. Mas alguns deles se endureceram e se recusaram a crer, e começaram a falar mal do Caminho diante da multidão” (Atos 19.6-9)

Como vemos, os homens causaram seu próprio endurecimento, ao se recusarem a crer, resistindo à graça que lhes era oferecida. Da mesma forma, ele diz: “E, como ficaram entre si discordes, despediram-se, dizendo Paulo esta palavra: Bem falou o Espírito Santo a nossos pais pelo profeta Isaías, dizendo: Vai a este povo, e dize: De ouvido ouvireis, e de maneira nenhuma entendereis; e, vendo vereis, e de maneira nenhuma percebereis. Porquanto o coração deste povo está endurecido, e com os ouvidos ouviram pesadamente, e fecharam os olhos, para que nunca com os olhos vejam, nem com os ouvidos ouçam, nem do coração entendam, e se convertam, e eu os cure” (Atos 28.25-27)

O texto não diz que Deus lhes fechou os olhos, mas que eles fecharam os seus olhos. Jesus também disse o mesmo, citando o mesmo trecho de Isaías: “Neles se cumpre a profecia de Isaías: ‘Ainda que estejam sempre ouvindo, vocês nunca entenderão; ainda que estejam sempre vendo, jamais perceberão. Pois o coração deste povo se tornou insensível; de má vontade ouviram com os seus ouvidos, e fecharam os seus olhos. Se assim não fosse, poderiam ver com os olhos, ouvir com os ouvidos, entender com o coração e converter-se, e eu os curaria’” (Mateus 13:14,15)

Outras vezes este endurecimento parte de Satanás, mas somente porque encontra um coração receptivo a isso no homem. Por isso Paulo escreve que “o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo” (2Co 4:4). O “deus deste século” é, obviamente, Satanás. Portanto, as pessoas endurecem a si mesmas quando aceitam o endurecimento instigado por Satanás. Deus apenas as entrega a este fim quando, depois de repetidas vezes, elas resistem à graça.

Fontes consultas:

“O Calvinismo X Arminianismo”, cedido pela comunidade de arminianos do facebook;

“Eleitos, mas Livres”, Norman Geisler;

“MANUAL POPULAR de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia. Norman Geisler – Thomas Howe.”


[1] B. W. Johnson, The People’s New Testament. Disponível em: <http://www.arminianismo.com/index.php/categorias/diversos/artigos/15-b-w-johnson/18-b-w-johnson-romanos-9>

[2] Institutas, 3.23.1.

[3] John Murray, Romanos, 1ª edição (São José dos Campos: Editora Fiel, 2003), p. 391.

[4] GEISLER, Norman; HOWE, Thomas. Manual popular de dúvidas, enigmas e ‘contradições’ da Bíblia. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1999.

[5] VANCE, Laurence M. O outro lado do calvinismo.


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