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Satanás é onipotente?

por Artigo compilado - ter ago 26, 12:09 am

anjo silhueta

O movimento da batalha espiritual acaba por resgatar um tipo de heresia que já foi combatida há séculos pela Igreja: o Maniqueísmo.

Esse foi o movimento fundado por Mani, que foi considerado com o último dos gnósticos. Ele nasceu por volta de 216 d.C. na Babilônia e ensinava que Deus usou diversos servos, como Buda, Zoroastro, Jesus e, finalmente, ele mesmo, o profeta final (paracleto, como ele afirmava). Dizia, ainda, que o universo é dualista, isto é, existem duas linhas morais em existência, distintas, eternas e invictas: a luz e as trevas. Segundo os maniqueístas, essas duas forças cósmicas eram iguais, porém, opostas entre si [1].

As idéias de Mani foram refutadas por Orígenes e Agostinho, sendo ainda rejeitadas pela Igreja por contrariar a Soberania de Deus em controlar todas as coisas, além de ser satanás uma mera criatura, diferentemente da forma como o consideravam. O Dr. Augustus compara o pensamento maniqueísta com o movimento da batalha espiritual e diz que muito embora o neguem em seus discursos, alguns da ‘batalha espiritual’ enfatizam e descrevem o poder de satanás e seus demônios de tal modo que se tem a impressão de que, na prática, eles acreditam terem esses espíritos poder quase igual ao de Deus.[2]

Para entendermos melhor essa visão dualista extremista, a qual acaba atribuindo um poder ao diabo o qual ele não possui, basta dar uma passada pelas páginas do livro já citado de Neuza Itioka.

Ela desfecha um ataque à suficiência de Cristo, e qualifica a confiança do crente na obra de Jesus como “ufanismo festivo” e “triunfalismo vazio”, além de dizer que essa confiança é um empecilho ao progresso da igreja.[3] O Dr. Myer Pearlman explica melhor acerca do poder que tem satanás:

Ao mesmo tempo que reconhecemos que satanás é forte, devemos ter cuidado para não exagerar seu poder. Para aqueles que crêem em Cristo, ele já é um inimigo derrotado (Jo 12.31), forte apenas para aqueles que cedem à tentação. Apesar de sua fúria violenta, ele é covarde, pois Tiago disse: ‘Resisti, pois ao diabo e ele fugirá de vós’ (Tg 4.7). Ele tem poder, mas limitado. Não pode tentar (Mt 4.1), afligir (Jó 1.16), matar (Jó 2.6; Hb 2.14) nem tocar no crente sem a permissão de Deus. [4]

É esse tipo de ensino que Itioka classifica como “ufanismo festivo” e “triunfalismo vazio”. Todavia, o sacrifício de Cristo é suficiente para que possamos empregar nossa confiança de que nEle somos mais do que vencedores.

O Dr. MacArthur conta sobre uma declaração de C. Peter Wagner registrada no Jornal Los Angeles Times de que poucos têm a habilidade necessária para enfrentar satanás e que em função desse despreparo correm o risco de serem devorados pelo inimigo de nossas almas no café da manhã. Veja como MacArthur refuta a declaração de Wagner:

Causa-me espanto o número de cristãos que são arrastados ao florescente movimento da ‘batalha espiritual’ estou convencido de que ele representa uma doentia obsessão por satanás e pelos poderes demoníacos. A julgar pela influência, milhares de cristãos realmente crêem que, se não comparecerem a um acampamento de batalha espiritual e não aprenderem alguma estratégia para combater demônios, satanás vai lhes devorar no café da manhã. Isso é verdade? Existe alguma estratégia secreta para se aprender com os ‘peritos’ a arte da batalha espiritual? Os cristãos precisam estudar técnicas místicas para confrontar e dar ordens às forças malignas, ‘amarrando’ o diabo, ‘derrubando as fortalezas’ de demônios territoriais e outros complexos estratagemas do combate metafísico? Estaremos sendo simplistas por pensar que a armadura, escrita em Efésios 6, é suficiente para nos livrar de sermos devorados por satanás no café da manhã? Absolutamente, não. Uma das gloriosas verdades a respeito de nossa suficiência em Cristo é que já somos mais que vencedores na grande batalha espiritual cósmica (Rm 8.37). Satanás já um inimigo derrotado (Cl 2.15; 1 Pe 3.22).[5]

A declaração de MacArthur rebate o que Neuza Itioka questiona a respeito de nossa confiança em Cristo Jesus. O problema é que, os adeptos do movimento da batalha espiritual atribuem um poder a satanás que ele não possui, ao ponto de dizerem que sem libertação não há salvação.[6]

Infelizmente, a maioria dos cristãos que se deixa influenciar por esse movimento acaba dando mais ênfase no diabo do que na pessoa de Deus. Ao abrir um culto expulsam demônios o tempo todo. É como se a cada 10 minutos de oração, nove fossem dedicados apenas a expulsar os espíritos malignos.

Há alguns meses recebi uma ligação de uma irmã em Cristo que se mudou para a região de Belo Horizonte. Lá, acabou se afiliando a um ministério o qual é voltado para batalha espiritual e libertação.

Ela contava que enquanto cooperava num culto, o pastor expulsava demônios e mais demônios e que a atmosfera do ambiente ficou pesada, como que cheia de opressão. Algumas pessoas ficaram endemoninhadas e quando ela foi para casa estava ainda com a sensação de ter a cabeça pesada.

Ela contava isso com tanta alegria, como se fosse algo bom e eu me perguntava: “onde está a adoração a Deus num culto como esse?” Mas é assim que esses ministérios trabalham, como se estivessem literalmente guerreando contra as forças do inferno.

Noutra oportunidade, um pastor contava que foi orar no monte. Naquela ocasião, havia muitas moscas no lugar em que foi orar e ele então se lembrou de que belzebu significa senhor das moscas. Foi quando ele travou uma batalha contra esse demônio até que os insetos saíssem de lá.

Enquanto muitos exageram no poder de satanás, outros exageram na autoridade que foi concedida ao cristão. Valnice Milhomens disse que a oração de guerra deve ser baseada na autoridade que Jesus deu para prender e soltar e pisar todo poder do maligno.[7]

Deve ser por isso que estamos ainda em “guerra espiritual”, pois alguns devem estar prendendo as hostes malignas e outros devem estar soltando. Aliás, que fundamento tem em um cristão soltar demônios? Isso está mais para bruxaria e cultos afro.

O exagero é tão evidente que Milhomens declara que a carta de Paulo aos efésios foi escrita em um contexto de batalha espiritual.[8] Todavia, ler apenas um trecho do capítulo 6 para tirar tal conclusão é abusivo, e é a prova concisa de que esse movimento é reprodutor de crentes neuróticos, os quais vivem em uma espécie de jornada nas estrelas espiritual, desconsiderando a hermenêutica e a exegese bíblica.

Ah, respondendo à pergunta “satanás é onipotente”? Claro que não. Esse é um atributo incomunicável, isto é, exclusivo de Deus. Mais ninguém pode ser detentor de todo poder.

Para exemplificar biblicamente, basta olharmos para encantadores que tentaram imitar os sinais de Deus. Eles copiaram a transformação da vara de Arão em serpente, imitaram a primeira praga na qual as águas se tornaram em sangue e o último plágio foi o da proliferação das rãs. Quando se iniciou a terceira praga, a dos piolhos, os encantadores não conseguiram reproduzir e declararam eles mesmos que era o dedo de Deus (Êx 8.18,19).

 Mapeamento Espiritual e Espíritos Territoriais

A crença em espíritos territoriais nada mais é do que um ensino de que há demônios específicos que comandam determinada área geográfica, dificultando assim a propagação do Evangelho. Baseados nisso, seus defensores acham necessário conhecer o nome dos demônios que governam tal local a fim de guerrear contra eles, expulsando-os e abrindo o espaço para que a igreja avance em sua missão.

Esse pensamento os leva a entender que o governo e os órgãos liderados por pessoas não convertidas estão demonizados, havendo a necessidade de expulsar esses espíritos das trevas.

Colin Dye, um representante internacional do G-12 comenta em seu livro “satan unmasked” que as forças de satanás dominam as artes, o comercio, a religião, as políticas, todos os exércitos do mundo, além de incitá-los para a guerra e destruição. Seu conselho é que o crente

use a espada da Palavra de Deus para lutar contra as tentações da ambição e da soberba – como Cristo fez no deserto. Esta espada é a Rhema de Deus: não está limitada à Bíblia; Pode incluir uma palavra falada ou uma expressão profética.[9]

Para expulsar satanás dos órgãos públicos e privados, utilizam algumas ferramentas como o mapeamento espiritual, acompanhados de atos proféticos (expressões proféticas) e estratégias de espionagem. Este mapeamento consiste em separar as áreas geográficas, como por exemplo, pegar o mapa da cidade e dividi-lo em bairros, distritos, etc.

Normalmente são marcados pontos onde há igrejas católicas, centros espíritas, lojas maçônicas, cemitérios, terreiros, casas de prostituição, dentre outras.

O próximo passo seria responder a um questionário, como ensina o Apóstolo Francisco Nicolau, líder e fundador da Igreja Batista das Nações, baseado em um livro de Cindy Jacobs, o qual contempla as seguintes perguntas:

1) Por que (como) sua cidade (Nação) foi fundada? 2) Quem foram os fundadores? 3) O que eles planejavam para esta(s) cidade(s)? 4) O que as pessoas dizem a respeito delas mesmas (Orgulho)? 5) Que tipos de músicas as pessoas gostam? 6) Que tipo de arte há na cidade e onde está sendo exibida? 7) Onde foram construídos os edifícios? Alguns tem estátuas na frente (sensualidade, etc.)? 8) Como é a arquitetura e o local dos prédios? 9) Como foi introduzido o evangelho na região? 10) Ensinaram apenas tradição? Ou coisas que amarram? 11) Que organizações secretas há na cidade? 12) Atributos da cidade? O que a cidade celebra? O nome da cidade? Cremos que esta lista pode ser aumentada: 13) A quem a cidade foi dedicada? (Santo/padroeiro)? 14) Comércio que predomina? 15) Há algum tipo de exploração? (profissional, sexual, no solo, etc.) 16) Há algum tipo de proteção ilegal? (jogatina, corrupção, plantação, extração ou venda de drogas, etc…) 17) Há muitos pobres, menores abandonados, viúvas, bêbados, prostitutas, homossexuais? 18) É cidade turística? Que tipo de turismo? O que atrai?[10]

Sobre as entidades demonizadas, ele ensina que:

Jesus não salva jumentos, mas usa jumentos para servi-Lo. Jesus libertou jumentos para servi-Lo; as Companhias, as Empresas, os Bancos, não se podem salvar, mas podem servir aos filhos de Deus. A Bíblia diz que se o jumento não fosse redimido teria o seu pescoço quebrado, assim as empresas, se não servirem ao Senhor, terão seus pescoços quebrados (falência). Há vários testemunhos desta realidade, muitas empresas brasileiras serviram o inimigo fornecendo armas e máquinas de guerra para serem usadas contra Israel e hoje estão falidas. Poderemos ainda citar um determinado canal de televisão que não abria as portas para o Evangelho e entrou numa situação muito crítica enquanto o povo de Deus orava. Hoje é um dos que mais favorece ao povo de Deus; há um número muito grande de programas evangélicos em sua programação diária.[11]

Além disso, ele defende que no exército de Cristo, “é preciso de espiões, para saber informações sobre o inimigo”,[12] e conta que muitas igrejas têm enviado crentes preparados para participarem de encontros como da Nova Era, por exemplo, e que já foi muito abençoado com as informações trazidas por irmãos que enviou para esse trabalho de espionagem. Tudo isso baseado nos espias que Moisés enviou a Canaã.

O fato é que não vemos Paulo preocupado em saber nome de demônios a fim de expulsá-los. Esteve em diversas cidades pagãs, como em Éfeso e nem por isso se dirigiu ao “espírito” de Diana, ou espíritos de feitiçaria, de homossexualismo, de adultério, de morte, etc.

Em Atenas ele nem sequer se preocupou com os vários ídolos que eles tinham. Seu foco foi apresentar-lhes o Deus desconhecido que não habita em templos feitos por mãos de homens (At 17.15-33).

O Dr. Paulo Romeiro comenta o ensino do casal Lourenço e Estefânea Kraft sobre o mapeamento da cidade de Parati, no Rio de Janeiro, a qual foi fundada como uma plataforma para aventureiros gananciosos em busca de ouro e pedras preciosas em Minas Gerais.

Segundo eles, o fato de traficantes de escravos e comerciantes de tabaco e pinga se hospedarem na cidade deixou o local conhecido como “capital da cachaça”, o que rende a satanás a oportunidade de trabalhar nesta comunidade. Veja o que diz Romeiro sobre o assunto:

Se aplicássemos o exemplo de Parati em Paris, poderíamos dizer que a capital da França e os seus moradores vão muito bem espiritualmente, pois Paris é conhecida como a “Cidade Luz”. Poderíamos dizer o mesmo também do Rio de Janeiro, que a cidade não tem os problemas ou os pecados que lhe são atribuídos, pois o Rio é conhecido como a “Cidade Maravilhosa”. Salvador, um nome tão bíblico e com um significado espiritualmente fantástico, deveria fazer da capital da Bahia o centro evangélico do Brasil. Entretanto, a cidade tornou-se o centro do culto afro da nação. E o que dizer do Estado do Espírito Santo, cuja capital é Vitória. Com esses nomes, não deveria ser um paraíso de santidade? No entanto, não é o que acontece. Há muitos outros exemplos assim.[13]

Embora esses assuntos despertem mais interesse nas pessoas do que estudar sistematicamente a Palavra de Deus ou participar de uma Escola Bíblica Dominical, eles não encontram o devido apoio bíblico.

Sei que várias são as personalidades renomadas e respeitadas que ensinam essas doutrinas, mas o próprio Apóstolo Paulo deixou claro que mesmo que fosse ele a pessoa a ensinar algo que ultrapassasse o verdadeiro evangelho, este ensinamento deveria ser repudiado e considerado maldito (Gl 1.8).

[1] Heresias Primitivas. Artigo da Edição Especial Defesa da Fé – ICP, CD-Rom, 26/07/10.

[2] NICODEMUS, Augustus. Op. cit., p. 70.

[3] ITIOKA, Neuza. Op. cit., p. 17.

[4] PERALMAN, Myer. Conhecendo as Doutrinas da Bíblia. Vida. São Paulo. 2009, p. 96.

[5] MACARTHUR, John F. Nossa Suficiência em Cristo. Fiel. São José dos Campos. 2007, p. 200.

[6] Apostila Estabelecendo Um Ministério Local de Libertação. São Paulo. Missão Evangélica Shekinah, p. 6.

[7] MILHOMENS, Valnice. Op. cit., 1999, p. 22.

[8] Ibid. p. 81.

[9] DYE, Colin. Satan unmasked. Dovewell Publications. London. 2000, p. 79, 159.

[10] NICOLAU, Francisco. Conquistando cidades para Cristo. Campinas. 1995, p. 46.

[11] Ibid. p. 73.

[12] Ibid. p. 88,89.

[13] ROMEIRO, Paulo. Op.cit., p. 140.

Extraído do Livro “A Verdade Sobre o G12″ – Couto.


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