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Tiro no coração – O Livro de Mórmon

por Artigo compilado - sex set 07, 8:48 pm

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Introdução

Este livro, escrito por um ex-mórmon mostra de modo assombroso como os dogmas do mormonismo contribuíram para degenerar sua família, culminando na morte de um de seus irmãos no corredor da morte nos EUA. O livro conta ainda o envolvimento com o espírito de um índio morto que culminou na morte de um dos membros da família.Todas essas tragédias que narra o livro, é fruto direto das aberrantes doutrinas do mormonismo propagadas por Joseph Smith. Vale a pena conferir trechos desta terrível história, a qual selecionamos aqui. Você ainda poderá saber o que era a famigerada e herética doutrina da “expiação pelo sangue” e sua importância para o mormonismo. Boa leitura!

A história de Gilmore

Em 1976, Gary Gilmore se tornou o primeiro homem, em muitos anos, a ser condenado à morte nos Estados Unidos. Mas o que definitivamente abalou o país e pôs em xeque todo o sistema jurídico norte-americano foi sua renúncia a qualquer apelação e a insistência para que o governo levasse adiante a execução. Mais do que isso: num dos lances mais impressionantes da moderna sociedade de espetáculos, Gilmore passou a administrar a própria morte, coordenando de sua cela todo um fabuloso aparato de mídia que se instalara, de um dia para o outro, ao seu redor.

Agora, vinte anos depois, o irmão caçula Mikal conta a história desde o começo. Ele conta para sobreviver e, se possível, compreender o que ocorreu. O resultado é um depoimento comovente e assustador, cuja leitura dificilmente será esquecida.

Sinopse do livro

Tiro no coração é um dos mais impressionantes testemunhos já escritos sobre as origens da violência na família, na sociedade e no Estado.

Tudo começa, no relato de Mikal Gilmore, com o assentamento dos mórmons no estado de Utah, Estados Unidos, trazendo consigo uma herança de mortes, perseguições, fanatismos e dogmas. Em Utah, religião e política se confundem a tal ponto que o estado foi o primeiro a reinstaurar modernamente a pena de morte, encontrando assim o correspondente legal para o dogma religioso da (1)“expiação pelo sangue”, de sinistra presença nesta história.

A isso se soma a desolada paisagem do meio-oeste americano, onde Frank Gilmore, o pai, vaga como um fantasma, de cidade em cidade, vivendo de pequenos golpes, arrastando consigo esposa e filhos, ele mesmo incerto quanto à origem do próprio nome (sua mãe, ex-artista de vaude­vil/e, dizia que Frank era fruto de uma breve aventura com o famoso mago Hàrry Houdini).

Uma espécie de errância fundamental paira, assim, sobre os Gilmore, e nem mesmo a estabilidade lograda anos mais tarde impedirá os filhos de continuarem, como coadjuvantes, a obra de violência e auto-destruição iniciada pelo pai. No caso de Gary, aquele que leva cada ato, cada impossibilidade ao seu limite derradeiro, a dinâmica dos reformatórios e do sistema carcerário se encarregará de fazer o resto.

A Família

A família em meio à qual cresci não foi a mesma família dos meus irmãos. Eles cresceram em uma família que estava constantemente na estrada e nunca ficava no mesmo lugar mais que dois meses, no máximo. Cresceram em uma família em que viam o pai espancar a mãe regularmente, esmurrando-lhe o rosto até transformá-lo numa massa roxa e macerada. Cresceram em uma família em que eram estapeados. esbofeteados e humilhados por erros insignificantes. Cresceram em uma família em que tinham que se unir em desventuras secretas só para encontrar prazeres comuns.

Tento lembrar de minha mãe (Bessie Gilmore), Fecho os olhos e forço-me a resgatar seu rosto nas minhas memórias mais remotas, quando meu pai passava a maior parte do tempo fora e as vidas dos meus irmãos ainda não tinham se desviado para um caminho de desastres em série. Ela sorria muito naqueles dias; todas as manhãs eu despertava diante de um rosto que parecia deleitar-se com meu despertar. Depois, vejo seu rosto alguns anos mais tarde. Era diferente então, cheio de raiva explosiva e, às vezes, marcado por uma perigosa insanidade — um rosto que não conseguia esconder o preço de uma história de decepções infindáveis. Passei a temer aquele rosto naquela época, em parte porque meu pai me disse que deveria temê-lo, o que apenas ajudou a piorar as coisas.

A verdade é que Bessie Gilmore tinha muitas razões para sentir raiva. Por anos meu pai a insultara e censurara, e meus irmãos já haviam feito de nossa casa um endereço famoso na vizinhança. Mas a raiva nasceu antes disso. Muito antes.

A Religião

Para explicar por que Bessie Gilmore talvez tenha desejado punir sua família e terra natal, devo começar contando um pouco sobre o povo e a história no seio dos quais ela cresceu. Minha mãe veio ao mundo no início do século XX, em Utah, um estado dominado pelo mormonismo, um lugar em muitos aspectos dramaticamente diferente da América que o rodeava. Os mórmons havia muito tinham um forte e espetacular espírito de grupo e coesão: viam-se não apenas como o povo eleito de Deus dos tempos modernos mas também como um povo cuja fé e identidade foram forjados por uma longa e brutal história de derramamento de sangue e desterro. Eram um povo à parte, um povo com seus próprios mitos e objetivos, e com uma história de impressionante violência.

Minha mãe se lembrava de ter passado a infância ouvindo as lendas de seu povo — seus milagres e perseguições — e transmitiu-as a mim e meus irmãos em nossas infâncias. Destacavam-se entre essas histórias os relatos das lutas do mormonismo pela sobrevivência em seus primeiros anos, sobretudo a forte e assombrosa história do líder da igreja martirizado, Joseph Smith, jr., um homem de notável imaginação e visão na realidade, um dos mais inovadores criadores de mito da história do país e também um homem que conseguiu transformar suas obsessões mais pessoais em uma combinação épica de teologia e folclore. Smith alicerçaria quase toda a sua complexa teologia sobre o que era fundamentalmente um dilema de ancestralidade: como alguém pode resgatar os sonhos e dívidas de seus antepassados sob pena de morrer em razão de maldições não concluídas. Quando essa questão bateu às portas de minha família acabou por tornar-se um fator de conseqüências fatais.

A Base da Religião Mórmon

Entre os livros de Smith, o que teve repercussão mais duradoura foi, é claro, o Livro dos Mórmons. Publicado inicialmente em 1820, o Livro dos Mórmons resistiu ao tempo como poucos textos e romances americanos do mesmo período e, por mais de cento e sessenta anos, foi fator indispensável para a consolidação do mormonismo como uma das religiões de crescimento mais rápido da história moderna. As origens do livro são tão fascinantes quanto controversas: Smith afirmava que o livro fora transcrito de um conjunto de antigas tábuas de ouro com que havia sido presenteado por um anjo de Deus chamado Moroni. Nessas tábuas, estava escrita a história dos antigos habitantes da América e suas relações com o Deus de Israel — na prática, Smith estava dizendo que descobrira um complemento havia muito perdido do Velho e Novo Testamentos da Bíblia, O livro teve, e ainda tem, um tremendo impacto nas mentes de muitos americanos, e não é difícil entender seu encanto quase primitivo. Despido de suas pretensões ao sagrado, o Livro dos Mórmons é nada mais nada menos que uma luxuriante história com os temas prediletos da América: famílias e assassinato.

Escrito — ou, pelo menos, narrado por Smith a seus transcritores —em tom que procura emular a tradução da Bíblia feita pelo rei Jaime, o Livro dos Mórmons conta a história milenar de uma tribo de judeus, a família de um profeta virtuoso chamado Lehi, que reuniu seus parentes e amigos e fugiu de Jerusalém no ano 600 a. C., durante um período em que a cidade estava tomada pela depravação. Dirigidos por Deus, Lehi e seus filhos construíram uma embarcação e navegaram para uma nova terra onde Lehi ensinou que a meta maior de uma vida — o único caminho para a redenção — era conquistar o amor de Deus mediante a obediência as suas leis. Mas no seio da tribo de Lehi sempre houve rivalidades e, quando da morte do velho profeta, a nomeação de Nephi — um de seus filhos mais jovens — para patriarca de direito e provedor da família foi recebida com grande ressentimento pelos filhos mais velhos, Larnan e Lemuel. Pouco depois, Laman e Lemuel apontaram sua ira contra o legado do pai bem corno contra a piedade de Nephi e seu deus da Terra Antiga. Ameaçaram derrubar o irmão e seus seguidores até que Nephi viu-se forçado a separar sua tribo da dinastia dos irmãos. Deus ficou irado com a rebeldia de Laman e Lernuel e, por causa do orgulho e sede de sangue destes, amaldiçoou-os com o castigo da pele vermelha e proclamou que todos (1)5 seus descendentes teriam que carregar essa imperfeição e a marca da desaprovação de Deus — como pagamento pelos pecados de seus pais. Começou assim o cisma entre nephitas e Larnanitas, que constitui a trama histórica central cio Livro dos Mórmons.

Violência no Livro de Mórmon

Durante o milênio seguinte, os descendentes dessas duas famílias viveram em guerra quase permanente, um dos lados pagando o preço de descender de linhagem virtuosa e o outro condenado a viver o legado de desobediência e assassinato de seus ancestrais malignos. Mais tarde, em uma das passagens mais ousadas do livro, Jesus Cristo, depois de sua crucificação e ressurreição, visita esses povos e ensina-lhes as doutrinas da salvação e o caminho para a paz. Mas a paz não dura muito tempo. Voltam à violência e à ferocidade das matanças. No encerramento do livro, há. apenas a voz de um homem, Moroni, último sobrevivente dos nephitas. Ele medita sobre a história de seu povo abatido e suas últimas batalhas, que começaram em uma cidade chamada Desolation. Ao final das batalhas, os corpos dos nephitas estão espalhados aos milhares por toda a terra ensangüentada de urna nação que morria, e as poucas crianças que sobreviveram foram forçadas a comer a carne de seus pais. Finalmente, nada resta para Moroni fazer exceto esperar que os lamanitas, que na verdade silo Seus irmãs distanciados, encontrem-no e matem-no.

Assassinato e ruína estão impressos na paisagem da pré-América visualizada por Joseph Smith; e como sempre é necessário encontrar uma solução ou explicação para a violência, a maior revelação não estudada do Livro dos Mórmons é realmente impressionante: enquanto Moroni olha a terra banhada de sangue em torno de si e reflete sobre os significados da historia que levou a esse extermínio em massa, fica claro que a força por trás de todos esses séculos de destruição só pode ser a de Deus. Foi Deus quem trouxe esses povos errantes para urna terra deserta e foi Deus quem definiu os legados que só podiam levar a tão horrenda obliteração. Deus é o arquiteto oculto de toda a matança presente no âmago do maior romance de suspense da América, o pai irado que exige que incontáveis filhos paguem por suas regras e honra, mesmo que o preço seja a ruína infinita de gerações e gerações. O único episódio de blasfêmia do Livro dos Mórmons ocorre quando um ateu carismático e anticristo chamado Korihor aparece diante de um dos juízes e reis de Deus e proclama: ‘Tu dizes que este é um povo culpado e desgraçado por causa da transgressão de um pai. Ouve bem eu digo que um filho não é culpado por causa dos pecados dos pais’.

Por ter Korihor proclamado essas palavras ultrajantes, Deus lança sobre ele a maldição da mudez e, apesar do sincero arrependimento de Korihor, Deus não lhe concede o perdão. Korihor é deixado vagando no meio do povo, suplicando por piedade e ajuda, e o povo prende-o e pisoteia-o até matá-lo. Um Legado de Violência e Mortes

Uma terra que sempre conheceu destruição. Esta visão da América na realidade acabaria por tornar-se a mais assombrosa profecia do Livro dos Mórmons. Violência e medo seguiriam Joseph Smith e seu povo até a sangrenta morte do líder anos mais tarde; mesmo depois, assassinatos sempre encontrariam um lugar na história dos mórmons.

Apesar disso, milhares de homens e mulheres se dispuseram a seguir Smith e suas crenças. Joseph mais tarde daria à sua nova religião o nome de Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e a seus seguidores o nome de Santos. Mas seus inimigos — movidos pelo ódio que tinham ao Livro dos Mórmons — chamavam-nos de mórmons.

A origem mórmon de minha mãe remonta a essa época inicial e se estende por todas as gerações que antecederam a sua. A maioria desses homens e mulheres que foram seus antepassados saíram da pobreza na Inglaterra para entrar para a comunidade mórmon americana acreditando na promessa de que estavam viajando para a nova Terra Prometida. O que encontraram foi uma terra cheia de medo e violência. Já em meados da década de 1830, os mórmons haviam sido expulsos de vários assentamentos, entre eles as grandes comunidades que haviam construído em Kirtland, no estado de Ohio, e Independence, no Missouri. Suas fazendas haviam sido queimadas, seus homens e crianças assassinados, suas mulheres violentadas, às vezes sob a direção de homens das milícias estaduais. Boa parte da animosidade era atribuída ao que muitos americanos encaram como um sistema de crenças estranhas e costumes conjugais perturbadores dos mórmons — dizia-se que os Santos eram adeptos da poligamia (o que acabou sendo comprovado) e que acreditavam em um sistema de múltiplas deidades e múltiplos paraísos (também comprovado). Mas o que parecia incomodar — ou agitar — mais as pessoas era a personalidade do próprio Joseph Smith. Era um homem carismático, mas também orgulhoso e ambicioso. Políticos e jornalistas especulavam convictamente que Smith tinha um plano meticuloso para conquistar os estados centrais da América e construir um Império Mórmon, calcado em um estado religioso, cujo chefe seria ele próprio. Antes da década de 1840, Smith já havia sido castigado, baleado, encarcerado, ameaçado de execução militar e rotulado como o homem mais perigoso da América. Um governador de estado, Lilburn Boggs, do Missouri, chegou mesmo a decretar que os mórmons passaram a ser inimigos públicos e deveriam ser banidos da terra ou exterminados. Os rnórmons partiram e construíram uma nova cidade-estado, chamada Nauvoo, do outro lado do rio, na parte ocidental de Illinois. Sob a direção de Smith, Nauvoo tornar-se-ia uma das maiores e mais assombrosas cidades do Meio-Oeste americano; ironicamente, contudo, esse desdobramento só pioraria as coisas para Smith e seus seguidores. Os mórmons já eram vistos como um reino dentro de um estado — uma situação sem similar na história da América. Em 1844, também o povo de Illinois passaria a temer Smith e seus mórmons, como acontecera antes com o povo do Missouri. Quando se espalhou a notícia de que o guarda-costas pessoal de Smith, um lendário pistoleiro do Oeste chamado Orrin Porter Rockwell, fora o responsável pelo atentado contra o ex-governador do Missouri, Lilburn Boggs, baleado na nuca (milagrosamente, ele sobreviveu), o sonho do império do Meio-Oeste terminou. Depois de mais alguns incidentes perturbadores, Illinois fez explodir sua raiva contra Smith: o governador Thomas Ford insistiu que o profeta se entregasse às autoridades para ser julgado. Smith apresentou-se e foi preso, juntamente com seu irmão Hyrum e um punhado de líderes da Igreja, em uma pequena cidade chamada Carthage.

O Massacre de Mountain Meadows

O massacre de Mountain Meadows ocorrera em 1857, o ano da chegada de Francis Kerby à América, mas as raízes da tragédia remontam aos primeiros anos do mormonismo, quando Joseph Srnith começou a conceber urna teologia que se revelaria tão implacável e sangrenta quanto a historia por ele imaginada e descrita no Livro dos Mórmons. Mais precisamente, a gênese do evento em si teve início no período de Nauvoo, quando Smith promulgou um princípio que viria a ser vilmente conhecido corno Expiação pelo sangue. À parte a prática da poligamia, nenhum outro ensinamento mórmon revelou-se tão complexo ou controvertido quanto a Expiação pelo Sangue. A interpretação mais comum do dogma que também é a formulação original feita por Joseph Smith — é a seguinte: se você tira a vida de alguém ou comete algum outro pecado grave comparável, seu sangue deve ser derramado. Enforcamento bastariam como castigo ou compensação. A forma da morte teria que ser uma que fizesse derramar seu sangue na terra, como uma apologia a Deus.

Nos últimos anos, ciente de sua imagem histórica de povo vingativo, os rnórmons têm se esforçado para desautorizar essa interpretação. O verdadeiro principio da Expiação pelo Sangue, de acordo com teólogos modernos, é uma questão de salvação, e não de vingança. Jesus Cristo expiou os pecados do mundo com seu próprio sangue; se você acreditasse que Jesus Cristo era o filho de Deus e se seguisse seus ensinamentos e respeitasse suas leis, seria então purificado dos pecados pelo sangue dele. No entanto, há alguns pecados tão graves e assassinato é um deles — que, quando cometidos, colocam o pecador além do poder de purificação por meio de Cristo. A única esperança de urna pessoa expiar esses pecados é entregar seu próprio sangue à terra, e mesmo isso pode não ser suficiente para conquistar o perdão no outro mundo. Mas para que essa forma de Expiação pelo Sangue seja devidamente executada, precisamos todos esperar por um mundo melhor, em que as leis civis e espirituais sejam administradas por um Estado único, e tal era ainda não chegou.

Essa é a versão oficial, mas as lendas do Oeste contam uma história diferente. De acordo com alguns observadores — entre eles ex-governadores e ex-juizes do território de Utah, e alguns poucos confitentes e testemunhas — a Expiação pelo Sangue era de fato praticada pelos mórmons e aplicada a um leque amplo de pecados, e não apenas a assassinatos.

A Execução de Jonh D. Lee

John D. Lee não seria o primeiro homem a ser legalmente executado no território de Utah. Mas nenhum homem antes ou depois dele — até meu irmão, cem anos mais tarde — teve uma compreensão tão aguçada do significado da pena de morte de Utah. No início da década de 1850, o Legislativo do território, dominado pelos rnorrnons, elaborou um código criminal no qual a pena para o crime de assassinato em primeiro grau atendia de maneira específica a doutrina da Expiação pelo Sangue: quem fosse condenado à morte poderia escolher entre ser fuzilado e decapitado (esta última opção foi eliminada em 1888 porque — como seria de esperar — ninguém jamais a escolheu. Havia ainda, para aqueles que aguardavam com menos ansiedade o derramamento do próprio sangue ou que simplesmente não eram mórmons, a possibilidade de uma morte não iluminista: o enforcamento. O resultado foi que uma grande quantidade de sangue foi derramada. Desde o final da década de 1840 até 1977, cerca de cinqüenta homens foram executados em Utah: Oito por enforcamento, um supostamente por estripação e dois por meios não documentados: Os trinta e nove restantes foram fuzilados. É obvio que vários outros estados, sobretudo os do Sul dos Estados Unidos, executaram números maiores de homens no mesmo período. No entanto, nenhum outro estado da União tiraria a vida de tantos usando métodos que visassem o derramamento de sangue do condenado e nenhum outro teve um código de pena de morte cujo método de execução se baseasse em doutrinas religiosas.

Quando deram a Lee a oportunidade de escolher de que modo queria ser morto, ele o fez de acordo com sua fé: preferiu ser fuzilado.

Em 23 de março de 1877, Lee foi levado ao local do massacre de Mountain Meadows. ‘Não temo a morte’, ele disse naquela manhã. Nunca irei para um lugar pior do que este onde estou agora. A seguir. depois de acusar Brigham Young de afastar os mórmons dos ensinamentos de Joseph Smith, Lee acrescentou: Fui sacrificado covardemente, pusilanimemente. Não há nada que possa fazer. E minha última palavra — é assim”. (Mais tarde, tendo sido informado das últimas palavras de Lee, Brigham Young à maneira do Senhor Deus do Livro dos Mórmons —amaldiçoou Lee e todas as gerações dele descendentes.)

Sentado em seu caixão, Lee disse suas últimas palavras: “Acertem o coração, rapazes. Não mutilem meu corpo’.

Os executores atenderam o pedido. Próximos um do outro, dispararam suas balas, varando o coração de John D. Lee, cravando-lhe o corpo no caixão. Seu sangue espalhou-se pela terra de Utah, a mesma terra onde o sangue das vítimas do massacre havia sido derramado uma geração antes. Seu corpo foi colocado em um ataúde de madeira e entregue à família para ser enterrado.

Esse episódio foi decisivo para o mundo rnórmon. Não apenas o massacre em si havia sido infame, mas também a forma como Lee foi usado para livrar a estrutura mórmon de sua culpa no que se passou. (Oitenta e quatro anos mais tarde, a Igreja acabou limpando o nome de Lee, que foi postumamente reintegrado como membro e recebeu de volta as bênçãos que lhe haviam sido retiradas.)

Depois de Mountain Meadows, os mórmons tiveram que reconhecer que mortes violentas estavam presentes em todas as partes das terras prometidas de Deus: na América abandonada bem como no reino do além. O sangue continuaria jorrando, mas agora também o povo escolhido tinha as mãos manchadas.
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Autor: Mikal Gilmore mora em Los Angeles, é crítico de cultura pop e, desde 1986, um dos principais colaboradores entre outras, da revista Rolling Stone.

Livro: Tiro no Coração – a história de um assassino.

Editora: Companhia das Letras 1996**

(1) Você poderá saber mais sobre essa nefasta doutrina lendo o livro “Por que Abandonei o Mormonismo” de Thelma ‘Granny’ Geer – ed.Vida.

Thelma foi neta de John D. Lee e conta como a doutrina da “expiação pelo sangue” imperava nos primórdios do mormonismo trazendo mortos e destruição para o povo mórmon.

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