Esqueceu a senha?

TJs: a revolta das vacinas

por Artigo compilado - sáb maio 20, 3:25 pm

        Mudar os hábitos de um povo – ainda que para seu benefício – não é tarefa fácil. Com o advento da vacinação em massa, as autoridades sanitárias de diversos países – inclusive o Brasil – encontraram forte resistência de diversos segmentos da sociedade, resistência esta que rebentou algumas vezes na forma de insurreições. Obviamente, tal atitude baseava-se na ignorância de muitos e no preconceito contra a medicina ortodoxa e contra as autoridades governamentais. Isto veio a gerar um grave problema de saúde pública. Não foi diferente nos Estados Unidos. Também naquele país, uma parcela da população – apoiada, às vezes, por autoridades religiosas – mostrou-se contrária a esta medida protetora. Foi diferente com a comunidade das Testemunhas de Jeová? Qual foi a postura adotada pela sua organização central? Os trechos abaixo, extraídos de diversas edições de A Idade de Ouro, falam por si mesmos:

“A vacinação é uma violação direta do pacto eterno que Deus fez com Noé após o dilúvio. Muito provavelmente existe alguma conexão entre a violação do sangue humano [vacinas] e a difusão  de demonismo…e imoralidade sexual.”

A Idade de Ouro de 4/2/1931, pág. 293 (em inglês)

“Pessoas ponderadas prefeririam ter varíola em vez de serem vacinadas, porque as vacinas propagam as sementes da sífilis, cancros, eczema, erisipelas, scrofula, tuberculose, até a lepra e muitas outras doenças nojentas. Portanto, a prática da vacinação é um crime, um ultraje, e um engano.”

A Idade de Ouro de1/5/1929, pág. 502 (em inglês)

         “As vacinas nunca salvaram uma vida humana. Não previnem a varíola.

A Idade de Ouro  de  4/2/1931, pág. 294 (em inglês)

“A vacinação nunca preveniu qualquer coisa e nunca prevenirá, é a prática mais bárbara que há… Usem seus direitos como cidadãos Americanos para abolir para sempre a prática demoníaca das vacinas.”

A Idade de Ouro  de  12/10/1921, pág. 17 (em inglês)

Evite inoculações de soro e vacinas, pois elas poluem a corrente sanguínea com seu pus nojento.”

A Idade de Ouro  de  13/11/1929, pág. 106,107 (em inglês)

“[A vacinação é um] truque cruel de Satanás..” 

Consolação  de  31/5/1939, pág. 3 (em inglês)

 

Toda esta onda de ataques à prática da vacinação não se devia a qualquer evidência sólida de que ela fosse realmente uma ameaça à saúde pública, mas apoiava-se tão-somente na peculiar interpretação do texto bíblico de Gênesis, cap 9, onde Deus fala a Noé e sua família para absterem-se de sangue animal. A Sociedade Torre de Vigia evocava, portanto, não razões científicas, mas teológicas (muito embora costumeiramente enfatizasse o risco natural da terapia como reforço à doutrina).  Curiosamente, esta mesma passagem bíblica tem sido usada pelas Testemunhas de Jeová, desde 1945, para justificar sua exótica postura contra as transfusões de sangue. Todavia, nesse tempo, o entendimento era que tal passagem referia-se exclusivamente ao contato com o sangue não-humano. De fato, A Idade de Ouro, na sua edição de 4 de Fevereiro de 1931, pág. 294, dizia:

“Todas as mentes racionais devem concluir que não era à ingestão de sangue que Deus se opunha, mas ao contato do sangue da besta com o sangue do homem.”

Este entendimento gerou uma situação totalmente antagônica ao posicionamento atual das Testemunhas de Jeová, pois – a despeito de toda ‘racionalidade’ da mente – elas sustentam hoje exatamente o contrário do que as palavras acima dizem: as vacinas são permitidas e a ingestão ou transfusão de sangue – que equivocadamente consideraram por anos como equivalentes – estão proibidas. A ampla maioria das Testemunhas de Jeová nos tempos atuais ignora o fato de que A Idade de Ouro de 29 de Julho de 1925, pág. 683, elogiava a doação de sangue. Sua sucessora, Consolação, na edição de 25 de Dezembro de 1940, pág. 19, seguiu o exemplo, elogiando um médico que doou um quarto de seu sangue e, com isso, salvou a vida de uma senhora. Fica agora  fácil entender esta contraditória postura, tendo-se em mente que, de acordo com o texto acima transcrito, aplicava-se, naquele tempo, a passagem de Gênesis, exclusivamente aos animais, o que, por conseqüência, lançava condenação sobre as vacinas – obtidas a partir de animais inoculados – mas absolvia as transfusões de sangue humano, hoje condenadas.

Em face de sua arraigada postura visceralmente contrária à prática da vacinação, os editores da revista não se mantiveram dentro dos limites da teologia, mas passaram a combater os próprios princípios científicos sobejamente demonstrados pelo grande bioquímico francês Louis Pasteur (chamado de “fraude” pela organização) e outros cientistas, os quais mostraram claramente o vínculo entre muitas enfermidades e os germes, bem como a eficácia da vacinação em prevenir um rosário de doenças, salvaguardando a vida humana. A partir deste ponto, os autores de A Idade de Ouro enveredaram por um pantanoso terreno de inconsistências, emitindo opiniões sobre um tema com o qual não demonstravam a mínima familiaridade. O resultado desta mentalidade é demonstrado nos trechos extraídos de diversas edições da revista e transcritos abaixo:

“Já se demonstrou conclusivamente que não existe tal coisa como a hidrofobia [raiva]!…A vacinação é o mais anti-higiênico, bárbaro, nojento, abominável, e o mais perigoso sistema de infecção conhecido. Seu veneno vil mancha, corrompe e polui o sangue da pessoa saudável, resultando em úlceras, sífilis, scrofula, erisipelas, tuberculose, câncer, tétano, loucura e morte.”

A Idade de Ouro  de  1/1/1923, pág. 214 (em inglês)

Nunca se provou que uma única doença seja devida a germes.”

A Idade de Ouro  de  16/1/1924, pág. 250 (em inglês)

“As doenças são causadas por fermentação e calornão por germes.” 

A Idade de Ouro  de  25/8/1926, pág. 751 (em inglês)

Todas as doenças humanas têm seu início nos intestinos.” 

A Idade de Ouro  de  28/11/1928, pág. 133 (em inglês)

“Em Los Angeles um jovem de 20 anos foi flagrado enquanto sufocava uma senhora de 75 anos. Preso e suspeito de três homicídios, ele declarava que a necessidade de matar vinha de inoculações de soro [sanguíneo]…”

– Consolação  de  1/12/1937, pág. 12 (em inglês)

 

O conceito endossado nesta última matéria – semelhante ao artigo de 1931 –  não era circunstancial, pessoal ou transitório. Na verdade, seria  mantido pela organização até a década de 60. Repare o leitor o que diz esta matéria de A Sentinela (revista ‘companheira’ de Despertai!) de 1 de Setembro de 1961 (pág. 564):

“O sangue de qualquer pessoa é, na verdade, a própria pessoa…Os venenos que produzem o impulso para cometer suicídio, homicídio, ou roubo estão no sangue. Insanidade moral, perversões sexuais, repressão, complexos de inferioridade, crimes hediondos – estes seguem freqüentemente o rastro das transfusões de sangue.” 

 

Tais palavras neste e nos outros artigos – não se pode negar – denunciam claramente ignorância científica e uma certa medida de arrogância. Queira o leitor ter em mente que estas matérias não foram escritas nos tempos do obscurantismo ou na idade média, mas em pleno século 20, décadas após a ciência já ter demonstrado, além de qualquer dúvida razoável, a existência de germes patogênicos, nocivos à saúde humana, bem como as funções relacionadas ao cérebro. Os artigos entre as décadas de 20 e 50 – eivados de sentimentos passionais – igualmente mostram que, no afã de combater a vacinação, a redação de A Idade de Ouro (atualmente Despertai!) acabou por perder o contato com a realidade. A forma enfática com que os artigos foram redigidos mostra ser bastante provável que seus autores realmente acreditassem nestas coisas e pensassem estar prestando um importante serviço de utilidade pública. Ao lado de tais declarações surpreendentes, diversos cartoons – um recurso ausente das edições atuais – foram publicados nas revistas, representando a vacinação de forma taxativa como algo detestável e repugnante, sem, no entanto, prover qualquer base científica para tal pensamento. Eis alguns exemplos:

 
Gravura da edição de A Idade de Ouro de 30 de março de 1932, pág. 409, representando a vacinação como uma deidade demoníaca, rodeada por inúmeras vítimas humanas.Esta gravura representa as vacinas como um coquetel de ‘pus’. Os copos sobre o balcão contêm pus de vaca, cavalo, gato e cão. Enquanto o garçom – representando a Associação Americana de Medicina – serve a vítima, um ladrão – representando os  fabricantes da vacina – furta a carteira do freguês. No rodapé, a expressão “Envenenando, insensibilizando e roubando a humanidade”.

Apenas na década de 50 – tendo que se curvar às incontestáveis evidências do benefício da vacinação – os editores da revista começaram a recuar em sua postura anterior. A revista A Sentinela  de  15/12/1952, pág. 764 (em inglês), foi a escolhida para corrigir o engano:

“A questão da vacinação é algo que o indivíduo deve encarar e decidir por si próprio.”

A sucessora de A Idade de Ouro levaria ainda mais de uma década para reconhecer explicitamente o benefício das vacinas:

“As vacinas parecem ter causado uma drástica redução das doenças..”

 Despertai!  de  22/8/1965, pág. 20 (em inglês)

Apenas após a morte do antigo editor-chefe de A Idade de Ouro, Clayton Woodworth, em 18 de dezembro de 1951, a Sociedade anuncia, por carta, sua mudança na postura quanto às vacinas. É possível que tal procrastinação em assumir esta mudança vital se devesse, pelo menos em parte, ao respeito por Woodworth, um ferrenho opositor das vacinas. É de se lamentar que a falta de razoabilidade dele tenha ditado certas normas organizacionais das Testemunhas de Jeová por tanto tempo, mesmo diante do peso das evidências contrárias a estas diretrizes. É, da mesma forma, lastimável que milhares de Testemunhas de Jeová desta época tenham permitido que suas consciências fossem  moldadas por uma doutrina irracional, perigosa e sem base científica ou bíblica. De fato, os adeptos da religião recusaram a vacina contra varíola por muitos anos, tanto para si como para seus filhos, os quais enfrentavam, além do risco à saúde, uma dificuldade adicional – as escolas exigiam certificado de vacinação para admissão de alunos.

Não há estatísticas disponíveis sobre o número de pessoas que morreram ou ficaram aleijadas por conta de seguir as instruções da Sociedade Torre de Vigia entre os anos 20 e os anos 50. Sobre isso, pode-se apenas conjeturar. Aqui vale lembrar que, em 1921, contabilizaram-se cerca de 100.000 casos de varíola só nos EUA,  com taxa de mortalidade ao redor de 40%. A varíola, bem como outras viroses, foram erradicadas graças à vacinação em massa. Diante de tudo isto, é razoável perguntar: poder-se-iam eximir os editores de A Idade de Ouro da responsabilidade pelos danos em potencial à saúde que estes artigos promoveram? Quão eficaz mostrou-se o instrumento do ‘Senhor dos senhores’ e ‘Rei dos reis’ em prover ‘verdades’ ao mundo? Quão seguros eram seus conselhos?

Extraído do site http://testemunha.orgfree.com/medicos.htm#Vacinas em 20/05/2017


Cada autor é responsável pelo conteúdo do artigo.

3 Comentários

Comentários 1 - 3 de 3Primeira« AnteriorPróxima »Última
  1. Não tomam vacina, não faz transfusão de sangue, não comemora aniversario familiar, não serve militar fazem ostracismo com membros familiar demitidos da sociedade e não foi a toa que essa seita foi demitido o funcionamento na Russia.

    1. hilário, com toda essa radicalidade, os TJ entre eles não dispensam uma boa partida de baralho (truco) e várias rodadas de cerveja. Fala aí TJ .. vão dizer que não ?!

    2. “hilário, com toda essa radicalidade, os TJ entre eles não dispensam uma boa partida de baralho (truco) e várias rodadas de cerveja.”

      como o sr sabe da vida deles? anda jogando truco tb?

Comentários 1 - 3 de 3Primeira« AnteriorPróxima »Última

Deixe seu comentário

Advertisement