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Tradição – Suporte do Papado?

por Prof. Paulo Cristiano da Silva - sáb set 01, 1:21 pm

“NÃO REFUTAREI APENAS AS ACUSAÇÕES LEVANTADAS CONTRA NÓS; FAREI COM QUE ELAS SE VOLTEM CONTRA SEUS PRÓPRIOS AUTORES ” (Tertuliano, 220 d. C.)

A IMPORTÂNCIA DA TRADIÇÃO NO CATOLICISMO 

O Concilio de Trento define a tradição como o “conjunto de doutrinas reveladas referentes à fé e a moral, não consignadas nas Escrituras Sagradas, mas oralmente transmitidas por Deus à Igreja” (Sessão IV, de 8 de Abril de 1546)

“A Sagrada Tradição”, afirma O Concílio Ecumênico Vaticano II através de sua Constituição Dogmática Dei Verbum “a Sagrada Tradição…transmite integralmente aos sucessores dos apóstolos a Palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos apóstolos…”

A teologia da idade Média escampada pelos Concílios Ecumênicos de Trento, do Vaticano I e do Vaticano II, impingiu a tese de que o consenso unânime dos pais da Igreja se constitui em legitima revelação. Ele é imprescindível e fundamental na Tradição.

A tradição é a fonte primordial de todas as doutrinas extrabíblica encontrada no bojo dogmático do catolicismo e o papado é uma delas. Por isso que somente após o concílio tridentino da contra-reforma, foi que apareceram as primeiras coleções de obras patrísticas – o primeiro órgão da Tradição – fazendo frente à reforma protestante levada a cabo por Martinho Lutero. Era necessário dar um status de autoridade à tradição a fim de dar suporte às heresias papais. O teólogo católico Van Iersel, em seu artigo: “O uso da Bíblia na Igreja Católica”, inserido no vol. V, de Temas Conciliares na página 17, confessa: “…em oposição à reforma deu-se um lugar à Tradição ao lado da Escritura, o que tornava muito relativo o valor da Bíblia”.(ênfase acrescentada)
Foi assim que a tradição ganhou força junto às Escrituras, sendo até mesmo superior a esta pois, “Pela mesma Tradição…as próprias escrituras são nela cada vez melhor compreendidas…” sublinha o Concílio Vaticano II.

MALOGRO ROMANISTA

A assertiva da cúria papal de que havia unanimidade e consenso de opinião entre os pais da igreja, tornou-se um tanto utópica, quando se constatou que só numa coisa êles concordavam: – é que discordavam em quase tudo.

Forjar a necessária concordância unânime era preciso!

Com esse propósito, o papa Leão X, em 28 de Abril de 1515, como produto da 10ª Sessão do 5º Concílio de Latrão, emitiu a Bula “Inter Multiplices”, estabelecendo os Índices Expurgatórios, cujo objetivo consistia em examinar as obras patrísticas existentes. Muitas obras dos seis primeiros séculos dos pais da igreja foram repudiadas.

Em 8 de Abril de 1546, na 4ª Sessão do Concílio de Trento, foi levado a cabo o trabalho de “expurgo”, anteriormente estabelecido pelo papa Leão X no Concilio de Latrão. Trechos inteiros contra as pretensões (doutrinárias) romanistas refutadas pelos reformadores, foram extraídos e houve muito enxerto…muitas frases e palavras foram interpoladas no intuito de se transformar o significado dos textos ao sabor das interpretações desejadas. Como disse certo professor de seminário (católico) a um de nossos apologistas: “a interpretação dessas obras depende muito de quem as traduzem!”.

Todavia é importante salientar que nem mesmo as passagens que são amiúde invocadas pelos apologistas católicos com o fito de angariar apoio ás pretensões da origem e desenvolvimento do papado, não são tão relevantes assim, e muitas são até mesmo distorcidas e deslocadas do seu contexto. Muita dessa tradição entra em contradição não só com a Bíblia mas mesmo entre si como veremos.

A IGREJA PRIMITIVA

Ao contrário do que afirma a Igreja Católica, o cristianismo primitivo não estava dividido hierarquicamente. Ademais, é um fato incontestável que não houve episcopado monárquico no primeiro século. As igrejas eram governadas por colegiados de bispos ou presbíteros que eram termos usados de modo intercambiável (ver Atos 20.17 e 28; Tito 1.5 e 7). O teólogo católico José Comblin, em seu livrete intitulado “Hierarquia”, na página 18 é concorde em dizer que: “No meio deles, Pedro tem um papel de porta-voz.”, entretanto, alerta: “Mas ele não é como o superior. São todos iguais.(ênfase acrescentada). Afirma ainda que nas primeiras comunidades cristãs não havia hierarquia, pois todos estavam unidos no colegiado apostólico e “cada igreja agia de modo independente” (pág. 19).

Portanto, a tal supremacia de Pedro sobre os demais são argumentos inconsistentes, pueris que veio à tona apenas 200 anos depois da morte de Cristo, e que posteriormente foi usado para promover a doutrina do papado. Há de se ressaltar que em meados do século II, borbulhavam, muitas obras apócrifas contendo histórias sobre este apóstolo, tais como: Os Atos de Pedro, Evangelho de Pedro, Apocalipse de Pedro e outras. Isto posto, declaramos que não há indício algum de que Cristo tenha feito de Pedro o chefe, ou como costuma dizer o hierarca romano: o príncipe dos apóstolos. Tudo isto é argumento gratuito.

ENTÃO COMO SE DEU A ORIGEM DO PAPADO ?

Seja como for, uma coisa é certa: ela não se deu da noite para o dia. O desenvolvimento da sé romana e a supremacia de seu líder se deram paulatinamente. A primeira menção desta igreja aparece na epístola do apóstolo Paulo dirigida aos cristãos ali congregados. Algo que merece nossa atenção é que nesta epístola, Paulo manda saudações a diversos irmãos, mas em nenhum momento menciona o suposto papa “São Pedro” ou sua primazia. Contudo, muitos fatores contribuíram para dar vida ao papado no cenário mundial; eis alguns deles:

AS TRADIÇÕES:
 No segundo século surgiu uma tradição propalada por Irineu de que tanto Paulo como Pedro, haviam fundado e dirigido àquela igreja, posteriormente diz outra “tradição” levada a cabo por Orígenes de que os dois haviam sido martirizados naquela cidade. Jerônimo chega a dizer que Pedro governou esta igreja durante 25 anos. Assim, mais e mais foi se solidificando a lenda de que Pedro havia fundado a igreja em Roma e transferido para lá o seu pontificado, sem ter contudo apoio bíblico. Este foi apenas o embrião da supremacia da igreja de Roma. Outrossim, visto à grosso modo, muitos pais da igreja como Cipriano e Irineu deram a entender que a sé romana tinha algum tipo de supremacia sobre as demais, ainda que limitada.


AUMENTO DO PODER: 
Além disso, já numa época remota, a igreja de Roma tornou-se a maior, a mais rica e a mais respeitada de toda a cristandade ocidental. Outro fator que contribuiu para a ascendência da igreja romana e do seu líder foi a própria centralidade e importância da capital do Império Romano. Logo apareceram cinco cidades que se destacaram como metrópoles: Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém, os bispos destas regiões receberam o título de “Patriarcas”. Apesar dos bispos das igrejas serem iguais uns aos outros na administração dos ritos litúrgicos e na doutrina, eles começaram a distinguir-se em dignidade de acordo com a importância dos lugares onde estavam localizadas suas dioceses. Ao Bispo de Roma foi concedida a precedência honorária simplesmente porque Roma era então a capital política do mundo, ele foi considerado “o primeiro entre os iguais”. 

PREDOMINÂNCIA DO BISPO ROMANO (I) : Outro elemento importante é que desde cedo a igreja romana e os seus líderes reivindicaram direta ou indiretamente, certas prerrogativas especiais.. No fim do segundo século, o bispo Vítor (189-198) exerceu considerável influência na fixação de uma data comum para a Páscoa, algo muito importante face à centralidade da liturgia na vida da igreja. Relevante também foi o alvitre de S. Irineu (202) o qual, como ele mesmo confessa, procurou conscienciosamente um bispo que pudesse ser aceito pela maioria do episcopado, para desempenhar a missão de árbitro nas questões disciplinares e nas dúvidas e controvérsias doutrinárias, que surgiam freqüentemente entre os bispos das várias igrejas.

Esta proposta foi aceita quase imediatamente pela quase totalidade das igrejas, e fez que o Bispo de Roma começasse a ser consultado com freqüência, o que muito contribuiu para aumentar a sua autoridade, embora a primeira decretal oficial (carta normativa de um bispo de Roma em resposta formal à consulta de outro bispo) só tenha surgido em 385, com Sirício. Por volta de 255, o bispo Estêvão utilizou a passagem de Mateus 16.18 para defender as suas idéias numa disputa com Cipriano de Cartago. E Dâmaso I (366-84) tentou oferecer uma definição formal da superioridade do bispo romano sobre todos os demais.

Essas raízes da supremacia eclesiástica romana foram alimentadas pelas atividades capazes de muitos papas. No quinto século destaca-se sobremaneira a figura de Leão I (440-61), considerado por muitos na verdade”o primeiro papa”. Leão exerceu um papel estratégico na defesa de Roma contra as invasões bárbaras e escreveu um importante documento teológico sobre a pessoa de Cristo (o Tomo) que exerceu influência decisiva nas resoluções do Concílio de Calcedônia (451). Além disso, ele defendeu explicitamente a autoridade papal e usou muito o titulo “papa” (mais tarde Gregório VII, reivindicou para a sé romana este título com exclusividade) articulando mais plenamente o texto de Mateus 16.18 como fundamento da autoridade dos bispos de Roma como sucessores de Pedro. Seu sucessor Gelásio I (492-96) expôs a teoria das duas espadas: dos dois poderes legítimos que Deus criou para governar no mundo, o poder espiritual – representado pelo papa – tinha supremacia sobre o poder secular sempre que os dois entravam em conflito.O Sínodo de Sárdica declarava que se um bispo fosse deposto pelo sínodo de sua província, este poderia apelar para o bispo de Roma. Já o Sínodo de Palma declarava que o bispo de Roma não estava submisso a nenhum tribunal humano. O máximo de pretensão papal de supremacia se encontra no artigo 22 do Dictatus do papa Gregório VII em que se afirma que jamais houve erro na Igreja Romana. Já Inocêncio III cria ser o papa, o verdadeiro “Vigário de Cristo” na terra. O imperador Valentiniano III num edito de 445, reconhece a supremacia do bispo de Roma: “Para que uma tola perturbação não venha a atingir as igrejas ou ameace a paz religiosa, decretamos – de forma permanente – que não apenas os bispos da Gália mas também os das outras províncias, não venham a atentar contra o antigo costume [de submeter-se à] autoridade do venerável padre (papa) da Cidade Eterna. Assim, tudo o que for sancionado pela autoridade da Sé Apostólica será considerado lei por todos, sem exceção. Logo, se qualquer um dos bispos for intimado a comparecer perante o bispo romano, para julgamento, e, por negligência, não comparecer, o moderador da sua província deverá obrigá-lo a se apresentar.” 

PREDOMINANCIA DO BISPO ROMANO (2) : Comitantemente às reivindicações eclesiásticas cresceu também o poder temporal dos papas devido ao declínio dos principais rivais de Roma. O bispo de Jerusalém perdeu o poder após a destruição pelos romanos. O bispo de Éfeso perdeu o poder quando foi sacudida pelo cisma montanista. Alexandria e Antioquia declinaram logo também, deixando Roma e Constantinopla como as maiores sedes do cristianismo primitivo. Todavia as guerras teológicas e os inúmeros cismas juntamente com as invasões dos mulçumanos, aos poucos foram minando a unidade dos orientais, deixando isolado o bispo de Roma. Este foi se solidificando cada vez mais no Ocidente como o “pai” dos cristãos. Coube a ele defender Roma dos ataques bárbaros. Muito ajudou, a conversão destes povos para o cristianismo romano; no que mais tarde iria desembocar no famigerado poder temporal.

FALSOS DOCUMENTOS : 
Essas teorias fictícias, que foram destinadas a ser reconhecidas como verdadeiras por alguns séculos – entretanto mais tarde identificadas claramente como as fraudes mais habilmente forjadas – são duas: as Pseudo-Clementinas e os Decretos do Pseudo-Isidoro.

Os Escritos Pseudo-Clementinos – A Tentativa de Promover Pedro e a Sé de Roma ao Poder Supremo. Os escritos Pseudo-Clementinos eram “Homílias” (discursos) espúrios erroneamente atribuídos ao Bispo Clemente de Roma (93-101), que tentavam relatar a vida do Apóstolo Pedro. O objetivo era um só: a elevação de Pedro acima dos outros Apóstolos, particularmente o Apóstolo Paulo, e a elevação da Sé de Roma diante de qualquer outra Sé episcopal. “Pedro”, era alegado, “que foi o mais hábil de todos (os outros), foi escolhido para iluminar o Ocidente, o lugar mais escuro do Universo”.

As “Homilias” foram escritas para amoldar a interpretação equivocada de Mateus 16:18-19, que “tu és Pedro, e sobre esta rocha edificarei minha igreja . . . e dar-te-ei as chaves do reino do céu”. É equivocada porque a palavra “rocha” não se refere a Pedro, mas à fé em que “Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo” (v. 16). Não há mencionado na Bíblia um só sinal da primazia de Pedro sobre os outros Apóstolos e, se uma primazia era pretendida, uma decisão de tal importância e magnitude certamente teria sido mencionada na Bíblia em linguagem inequívoca. Em muitos casos o contrário é verdadeiro; Paulo escreveu aos Gálatas, “eu me opus a ele (Pedro) em rosto, porque ele estava sendo censurável” (2,11); além disso, é bem sabido que Pedro negou Cristo por três vezes. Pedro não fundou a Igreja de Roma; ele efetivamente permaneceu em Antioquia por vários anos antes de chegar a Roma. Dizer que, assim como Cristo reina no Céu, Pedro e seus sucessores os papas governam a Terra, é uma afirmação contrária ao espírito do Evangelho e ao entendimento da Igreja antiga. Cristo era e é a pedra angular e a Cabeça da Igreja, que consiste de todos os membros de Seu Corpo (cf. Col.1:24).

As Pseudo-decretais ou decretais pseudo-isidorianas (754 – 852). Eram falsificações entre as quais se encontrava a tal “doação de Constantino”. Neste documento constava uma suposta dádiva que o imperador fizera ao bispo de Roma, doando-lhe todas as terras do império em recompensa de uma cura recebida. Colocava o bispo de Roma como”caput totius orbis” (cabeça de toda a terra), tanto sobre a igreja (poder espiritual) como sobre os territórios (poder temporal). Esta falsificação foi considerada autentica até o século XV, e ajudou muito o bispo romano reforçar o primado papal, dando um aparente fundamento jurídico às pretensões dos papas. Os papas usaram e abusaram destes falsos documentos!


ELEVAÇÃO DO BISPO

Se existe algo que a história da Igreja ensina, este algo é que às vezes um forte zelo pela doutrina ou ênfase demasiada em certos aspectos da vida desta que fora esquecido e tornou a ser resgatado, pode levar uma pessoa ou igreja voluntariamente ao erro. Um exemplo registrado nos anais da história é de Sabélio, que chegou a negar a Trindade ao tentar salvaguardar a unidade de Deus, Ário descambou para uma interpretação anti-biblica do relacionamento de Cristo com o Pai em sua tentativa de evitar aquilo que ele considerava ser o perigo do politeísmo.

A doutrina romana da “Sucessão Apostólica” e da elevação do poder do bispo sai igualmente deste molde. Tentando defender a fé ortodoxa das heresias vigentes da época, alguns pais da igreja criaram um mecanismo de defesa contra os hereges (gnósticos) centralizado no poder dos bispos e a elevação deste sobre os presbíteros. Isto mais tarde foi deturpado e alargado pelo bispo de Roma. Por volta do ano 110, Inácio bispo de Antioquia na Síria escreve sobre a importância do bispo na igreja, diz ele: “ Cuidado para que todos obedeçam ao bispo, como Jesus Cristo ao Pai, e o presbiterato como aos apóstolos, e prestem reverência aos diáconos como sendo instituição de Deus. Que os homens não façam nada relacionado à Igreja sem o bispo. Que seja considerada uma apropriada Eucaristia àquela que é (celebrada) seja pelo bispo, seja por alguém a quem ele a confiou. Onde o bispo estiver, ali esteja também a comunidade (dos fiéis); assim como onde Jesus Cristo está, ali está a Igreja Católica. Não é legal sem o bispo batizar ou celebrar festa de casamento; mas tudo o que ele aprovar, isso será aprovado por Deus, de modo que qualquer coisa que seja feita, seja segura e válida” (Inácio de Antioquia, Epístola à igreja em Esmirna 8). Nesta mesma época Clemente de Roma escreve sua carta aos Coríntios para corrigir os cismas que estava havendo entre eles, pois estes haviam chegado a ponto de expulsarem os presbíteros da igreja. Clemente escreve-lhes para impor a importância da hierarquia dos bispos. Mais tarde, Irineu, em sua obra apologética, “Contra Heresias”, uma refutação aos argumentos gnósticos, que haviam apelado para a tradição, desenvolve uma linhagem histórica de sucessão episcopal desde os apóstolos até os bispos atuais, tomando como exemplo a Igreja de Roma, por ser a mais conhecida entre todas.

Já no ano 200 existe um bispo em cada cidade se declarando cada qual sucessores dos apóstolos. Cada um procura mostrar que o primeiro da lista foi um apóstolo, assim temos as listas das principais igrejas da época:

Jerusalém: 1. Tiago, irmão de Jesus 2. Simeão 3. Justo 4.Zaqueu 5. Tobias…

Antioquia: 1. Pedro Evódio 2. Inácio 3. Heros 4. Cornélio 5. Eros…

Alexandria: 1. Marcos (evangelista) 2. Aniano 3. Abílio 4. Cerdo 5. Primo…

Roma: 1. Pedro e Paulo (?) 2. Lino 3. Anacleto ou Cleto 4. Clemente 5. Evaristo…

Nesta época a hierarquia já era constituída por 1º- Bispo, 2º- Presbítero, 3º Diáconos.

Mais tarde o Concílio de Nicéia estabelece um bispo para cada cidade. No entanto, apesar desta gradual elevação do cargo do bispo, ainda não se fala em supremacia do Bispo de Roma sobre os demais, nem de papa, pois todos eram iguais e independentes, havendo uma união fraternal entre as várias igrejas. Se às vezes a sé romana parece elogiada em demasia é devido à sua posição política e territorial; é devido unicamente ao seu status de capital do Império.

ALEGAÇÕES CATÓLICAS

Os católicos quando são pressionados pelos argumentos bíblicos esposados pelos evangélicos contra o primado do papa, não conseguindo dar uma resposta bíblica satisfatória, vão se socorrer na chamada “Tradição”. É preciso lembrar que a “Tradição” para o católico é a junção das obras patrísticas e o moderno “Magistério Eclesiástico” que é uma decorrência da infalibilidade da igreja, estabilizada na pessoa do romano pontífice através do Concílio Vaticano I. Desde já, rejeitamos totalmente o “Magistério Eclesiástico” por ser este muito posterior aos pais da igreja, produto do catolicismo estruturado e organizado. Ficamos entretanto, com a “Patrística”, todavia, somente com os escritos dos pais pré-nicenos, pois ainda a igreja de Roma não havia ainda se tornado Igreja estatal, tendo sua riqueza e autoridade multiplicada pelas concessões de Constantino o que a tornou mais corrupta ainda. Os ditos pais pós-nicenos não possui a mínima autoridade em matéria de fé pois muitos deles já estavam contaminados com as heresias romanas.

A primeira alegação é a que aponta a suposta autoridade do bispo de Roma nos escritos dos pais da igreja, querendo dar uma certa autoridade à tese do primado do bispo de Roma.

Dizem nossos antagonistas:

“As citações seguintes testemunham o que os primeiros cristãos pensavam sobre a primazia da Igreja de Roma (e, conseqüentemente, a primazia do papa, sucessor direto de São Pedro) sobre as demais.” (Fonte: Agnus Dei)

Clemente de Roma

“Se, porém, alguns não obedecerem ao que foi dito por nós, saibam que se envolverão em pecado e perigo não pequeno” (Clemente de Roma, +100, Carta aos Coríntios 59,1).
Eles pretendem que a frase acima é alguma imposição de Clemente aos Coríntios. Nada mais longe da verdade! O teor da carta não deixa tal conclusão. O que Clemente fez foi ajudar aquela igreja que estava sem líderes, já que a igreja de Roma, era nesta época, bem estruturada e podia auxiliar a sua co-irmã na fé.

Tanto é que ele prossegue dizendo:

2“Contudo, nós seremos inocentes deste pecado e pediremos em súplica e oração constante para que o Criador de tudo conserve intacto o número dos que foram contados entre Seus escolhidos em todo o mundo, por seu Filho mui amado, Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual nos chamou das trevas para a luz, da ignorância para o conhecimento da glória de seu nome.” Não há nenhuma imposição ou supremacia papal ! Teoricamente, nesta época, o apóstolo João ainda estava vivo e se Clemente estivesse impondo algo sobre a igreja, certamente João o teria repreendido como fez com certo Diótrefes, que gostava de exercer a primazia na igreja (III João 9).

Inácio de Antioquia

“Inácio… à Igreja que preside na região dos romanos, digna de Deus, digna de honra, digna de ser chamada ‘feliz’, digna de louvor, digna de sucesso, digna de pureza, que preside ao amor, que porta a lei de Cristo, que porta o nome do Pai, eu a saúdo em nome de Jesus Cristo, o Filho do Pai” (Inácio de Antioquia, +107, Carta aos Romanos [Prólogo]).
“Nunca tiveste inveja de ninguém; ensinastes a outros. Quanto a mim, desejo guardar aquilo que ensinais e preceituais” (Inácio de Antioquia, +107, Carta aos Romanos 3,1).
“Em vossa oração, lembrai-vos da Igreja da Síria que, em meu lugar, tem Deus por pastor. Somente Jesus Cristo e o vosso amor serão nela o bispo” (Inácio de Antioquia, +107, Carta aos Romanos 9,1).

Novamente perguntamos: onde está a supremacia do papa nesta carta? Ora, o prólogo é um elogio ardoroso de Inácio. Ele também usou estes mesmos elogios aos Magnésios: “Inácio, também chamado Teóforo, à Igreja abençoada na graça de Deus Pai, em Jesus Cristo nosso Salvador, com quem eu saúdo a Igreja que está na Magnésia, próxima ao [rio] Meandro, e desejo a ela grande alegria em Deus Pai e em Jesus Cristo, nosso Senhor, em quem vocês poderão encontrar grande alegria.” E mais, “Que eu possa alegrar-me convosco em todas as coisas, se o merecer! Mesmo acorrentado, não sou digno de ser comparado a qualquer de vós que estais em liberdade.” ou aos efésios : “Inácio, também chamado Teóforo, àquela que é bendita em grandeza na plenitude de Deus Pai, predestinada antes dos séculos a existir em todo o tempo, unida para uma glória imperecível e imutável, e eleita na Paixão verdadeira, pela vontade do Pai e de Jesus Cristo nosso Deus à Igreja digna de bem-aventurança, que vive em Éfeso da Ásia, todos os bens em Jesus Cristo e os cumprimentos numa alegria impoluta.” Se seguirmos esta linha de pensamento, não é justo também colocarmos os Magnésios e os efésios em pé de igualdade aos Romanos ? Demais disso, Inácio diz algo que vai ao encontro do argumento da primazia jurisdicional, pois no início de suas saudações ele põe a igreja de Roma em sua devida jurisdição quando diz: “à Igreja que preside na região dos romanos” (ênfase acrescentada) mostrando que esta igreja tinha sua própria jurisdição territorial e não possuía nenhum poder sobre as demais igrejas como querem os romanistas.

IRENEU

“Já que seria demasiado longo enumerar os sucessores dos Apóstolos em todas as comunidades, nos ocuparemos somente com uma destas: a maior e a mais antiga, conhecida por todos, fundada e constituída pelos dois gloriosíssimos apóstolos Pedro e Paulo. Mostraremos que a tradição apostólica que ela guarda e a fé que ela comunicou aos homens chegaram até nós através da sucessão regular dos bispos, confundindo assim todos aqueles que querem procurar a verdade onde ela não pode ser encontrada. Com esta comunidade, de fato, dada a sua autoridade superior, é necessário que esteja de acordo toda comunidade, isto é, os fiéis do mundo inteiro; nela sempre foi conservada a tradição dos apóstolos” (Ireneu de Lião, +202, Contra as Heresias III,3,2).

Este trecho de Ireneu é muito usado pelos católicos como prova de que a igreja de Roma tinha a primazia entre as outras. Entretanto é preciso escoimar tal alegação. Alarmado pelo pulular de heresias e de interpretações absurdas da Bíblia propaladas pelos seitários da época como Valentino, Marcião, Menander, Cerinto, Basílio e outros, procurava ele pôr um dique a tamanha calamidade, propondo uma Igreja que pudesse tornar-se como que o padrão, seguindo meticulosamente, a sucessão apostólica das mais importantes dioceses então existentes, pesquisando ao mesmo tempo a conservação da Doutrina e das tradições apostólicas, em cada uma delas. E conclui propondo como exemplar a Igreja de Roma, por ser de maior autoridade, isto é, por ser a da Capital do Império. É necessário salientar que esta questão de sucessões apostólica juntamente com a tradição foi um arranjo levantado como alternativa para combater os Gnósticos de então. Como diz Ireneu “Quando estes são argüidos a partir das Escrituras, põem-se a acusar as próprias escrituras…”. Os gnósticos com o fito de defenderam suas heresias em relação a Deus e a Cristo como Demiurgo (criador), apelavam para as escrituras. Todavia quando eram refutados pelos apologistas através das próprias escrituras, apelavam para a chamada “tradição”. Prosseguindo Ireneu diz: “…é impossível achar neles (nos textos bíblicos) a verdade se se ignora a tradição. Porque – (prosseguem dizendo) – essa verdade não foi transmitida por escrito e sim de viva voz…”, o principal texto dos gnósticos era o de ICo. 2.6. Ireneu deixou-se levar pelo mesmo raciocínio inventando uma defesa de modo inverso, “Quando”, afirma ele, “…então passamos a apelar para a tradição que vem dos apóstolos e se conserva nas igrejas pelas sucessões dos presbíteros, opõem-se à tradição.”
Os gnósticos diziam que sua doutrina era muito antiga e que havia recebido do próprio Jesus Cristo. Ireneu por sua vez repele tal asseveração dizendo que se havia uma doutrina pura e perfeita, esta forçosamente tinha que estar com as igrejas fundadas pelos apóstolos as quais (pelo menos em teoria) foram transmitidas aos seus sucessores. Desta maneira Roma entrou de contra golpe por vários motivos que nem de longe tem a ver com a tal primazia do papa.

Vejamos:

1. Ireneu apela para o elo de sucessão de TODAS as igrejas e não somente de Roma. A razão ele mesmo da ao dizer que “…seria demasiadamente longo, num volume como este, enumerar as sucessões de todas as igrejas…” , tanto é que mais adiante ele cita como exemplo Policarpo, bispo de Esmirna, e seus sucessores.

2. Irineu escolheu Roma justamente, por que como já dissemos, era a principal Igreja do Império, a mais rica e por isso a mais conhecida.

3. Outra razão era que muitos apócrifos petrinos (principalmente de origem gnóstica) circulavam em sua época, haja vista que os líderes hereges mencionados acima espalharam suas heresias em Roma no ministério de bispos como Higino, Pio e Aniceto; Ireneu apela (mesmo contra o depoimento das escrituras) para tais tradições e arbitrariamente atribui a fundação desta Igreja a Pedro e Paulo, lançando o prestígio que Pedro possuía entre eles contra os mesmos, tentando assim, um contra golpe nos argumentos gnósticos.
Vale a pena ressaltar que a frase do trecho acima recolhido no site católico é deveras tendenciosa quando traduz, “Com esta comunidade, de fato, dada a sua autoridade superior, é necessário que esteja de acordo toda comunidade…” No livro “Antologia dos Santos Padres” de Cirilo Folch Gomes, OSB – ed. Paulinas, traduz “ Porque é com esta igreja (de Roma), em razão de sua mais poderosa autoridade de fundação, que deve…” (ênfase acrescentada) Não há nenhum indício de superioridade devido a um suposto papa nela residente. Outrossim, Ireneu apela não para a igreja de Roma como autoridade final, mas para a igreja “Católica”, ou seja, UNIVERSAL espalhada pelo mundo todo, a comunidade de cristãos. Se de fato o apologista reconhecesse alguma superioridade, primazia jurisdicional, temporal ou espiritual no bispo de Roma; e neste como o sucessor de São Pedro com todas as regalias e autoridade que os papas modernos se auto intitulam, teria no livro III 24:1 de “Contra as Heresias”, a preciosa oportunidade de afirmar que eles (os gnósticos) estavam separados da ROCHA que é Pedro. Entretanto, observe o que ele diz: “Porque não estão fundados sobre a única rocha, mas sobre a areia, a areia dos muitos saibros”, com certeza uma referencia à passagem de Mateus 7:24-26.
Infelizmente todo o silogismo de Ireneu acabou numa apagogia!

CIPRIANO

“O Senhor diz a Pedro: “Eu te digo que és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão sobre ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus… O Senhor edifica a sua Igreja sobre um só, embora conceda igual poder a todos os apóstolos depois de sua ressurreição, dizendo: “Assim como o Pai me enviou, eu os envio. Recebei o Espírito Santo, se perdoardes os pecados de alguém, ser-lhes-ão perdoados, se os retiverdes, ser-lhes-ão retidos. No entanto, para manifestar a unidade, dispõe por sua autoridade a origem desta mesma unidade partindo de um só. Sem dúvida, os demais apóstolos eram, como Pedro, dotados de igual participação na honra e no poder; mas o princípio parte da unidade para que se demonstre ser única a Igreja de Cristo… Julga conservar a fé quem não conserva esta unidade da Igreja? Confia estar na Igreja quem se opõe e resiste à Igreja? Confia estar na Igreja, quem abandona a cátedra de Pedro sobre a qual está fundada a Igreja?” (São Cipriano, +258, bispo de Cartago, Sobre a Unidade da Igreja).

À princípio devemos admitir que Cipriano cria que Roma era a cátedra de Pedro e assegurava naquela época a unidade das igrejas, pois havia um vinculo de fraternidade entre todas elas como bem atesta Tertuliano, ” … Foi inicialmente na Judéia que [os apóstolos] estabeleceram a fé em Jesus Cristo e fundaram igrejas, partindo em seguida para o mundo inteiro a fim de anunciarem a mesma doutrina e a mesma fé. Em todas as cidades iam fundando igrejas das quais, desde esse momento, as outras receberam o enxerto da fé, semente da doutrina, e ainda recebem cada dia, para serem igrejas. É por isso mesmo que serão consideradas como apostólicas, na medida em que forem rebentos das igrejas apostólicas. É necessário que tudo se caracterize segundo a sua origem. Assim, essas igrejas, por numerosas e grandes que pareçam, não são outra coisa que a primitiva Igreja apostólica da qual procedem. São todas primitivas, todas apostólicas e todas uma só. Para atestarem a sua unidade, comunicam-se reciprocamente na paz, trocam entre si o nome de irmãs, prestam-se mutuamente os deveres da hospitalidade: direitos todos esses regulados exclusivamente pela tradição de um mesmo sacramento” ( Da Prescrição dos Hereges XIII-XX ).Contudo, cada igreja era autônoma e possuía seus próprios patriarcas, o bispo de Roma não era o cabeça da cristandade como mais tarde veio a ser cada vez mais reivindicado pelos papas. Seja como for, uma coisa é certa, “Ele admitia a seu modo o primado romano” ( A. Hamman, “Os Padres da Igreja” – Ed. Paulinas). Ainda dizia Cipriano que a Sé de Pedro pertence ao Bispo de cada igreja local.

Algo que vem a corroborar para a derrocada romanista é o fato de que este trecho em outras versões não deixa tanto em relevo o primado de Roma. Onde uma traz, “Confia estar na Igreja, quem abandona a cátedra de Pedro sobre a qual está fundada a Igreja?”, a outra se reserva aos dizeres: “ Confia estar na Igreja quem se opõe e resiste à Igreja?” (ibdem)
Deve-se notar ainda que Cipriano escreveu esta carta para combater e rechaçar o cisma promovido por Felicíssimo em Cartago e concomitantemente enviou-a a Roma para combater o cisma que Novato criara na disputa do episcopado com Cornélio. O motivo principal do contraste entre Cornélio e Novato foi a atitude oposta em relação aos “lapsos”, isto é, os cristãos que, por temor das perseguições, tinham renunciado a própria fé e que, passadas as perseguições, pediam para ser readmitidos na comunhão da Igreja. Norteando-nos por este contexto podemos compreender o “porque” de Cipriano insistir na unidade da Igreja. Ele não estava exaltando o bispo de Roma, mas combatendo os cismas em Roma e em Cartago, onde era bispo.

SUJEIÇÃO AO BISPO DE ROMA, ONDE ?

Não obstante a história mostrar muitos bispos de outras igrejas estarem unidos a Roma e considerar de algum modo sua preeminência, no entanto eles não titubeavam em repreende-lo quando necessário. Posto que se trata de questões de primazia, é cabível acreditarmos que o Bispo romano apesar de reivindicar uma posição privilegiada não possuía nenhum poder maior sobre as demais igrejas. Algumas querelas que ficaram nos anais da história mostram isto de forma inequívoca. Na verdade muitos bispos romanos se curvaram perante a posição de alguns pais.


TERTULIANO

Não se sabe ao certo quando se estabeleceu essa presunçosa aspiração do bispo de Roma. Entretanto, já em 220 A.D, Tertuliano em sua obra De Pudicitia, emprega o termo (papa) de maneira sarcástica – como era seu estilo – ao referir-se a vários bispos da Igreja primitiva, com a qual rompera anos antes. Já nesta época por exemplo, Tertuliano acusava o bispo Calixto de querer ser o bispo dos bispos. Este título ao contrário do que muitos pensam, não era monopólio do bispo romano, muitos como Policarpo, Cipriano, Heraclas, Atanásio de Alexandria foram denominados de “ PAPAS ”. Tertuliano acabou rompendo por final com a Igreja de Roma.

POLICARPO E IRENEU

No ano 155 o Bispo Policarpo de Esmirna visitou o Bispo Aniceto de Roma e teve com ele algumas desavenças sobre algumas questões, e também a fim de persuadi-lo a aceitar a tradição estipulada pelo Apóstolo João de observar a Páscoa (Pascha), no dia judaico 14 de Nissan ou Passover, seja qual fosse o dia da semana. O bispo romano havia recebido uma tradição diferente através de Pedro e dos evangelhos sinópticos, de acordo com a qual a Páscoa deve ser sempre celebrada no Domingo, o primeiro (ou oitavo), dia da semana judaica após Nissan 14. Diz Eusébio citando Ireneu em sua História Eclesiástica (Livro V cap. XXIV) que nem Policarpo conseguiu persuadir Aniceto e nem este a Policarpo. No final ele acrescenta que “Aniceto cedeu a Policarpo”. Mais tarde porém, o bispo Victor de Roma sofreu severas criticas por parte de Ireneu e outros bispos quando arbitrariamente quis impor sua autoridade desligando as Igrejas da Ásia por causa da tão chamada controvérsia “Quartodécima”. Prossegue Eusébio relatando que o bispo romano foi, por muitos, duramente repreendido, “Também restam as expressões que empregaram para pressionar com grande severidade a Vitor. Entre eles também estava Ireneu…”(ibdem).


CIPRIANO

Estêvão I (254-357), romano, sucedeu a Lúcio I depois de uma vacância de dois meses. Afirmou insistentemente o primado, sobretudo nos contrastes com Cipriano, o influente bispo de Cartago, por problemas que se relacionavam com a disciplina eclesiástica ou questões teológicas, como a da validade do batismo administrado por heréticos. Estêvão, que representava a tradição de Roma, Alexandria e Palestina, acreditava que esse batismo era válido, contrastado nisso também pelo bispo Cipriano que seguia a mesma linha de Tertuliano e juntamente com os bispos da Ásia Menor, havia convocado dois sínodos para afirmar a não validade do batismo dos heréticos.

Naquela ocasião, Estevão recusou-se até mesmo a receber os enviados de Cipriano. Rebatizar segundo ele era contrário à tradição e isso não podia ser tolerado. Por sua vez Cipriano retrucou com a igreja romana apelando para a tradição de sua igreja. Convocando um novo Sínodo Cipriano pediu aos bispos que manifestassem suas opiniões, dizia ele: “Vamos, cada um por sua vez, declarar nosso sentimento em face deste problema, sem pretender julgar ninguém NEM EXCOMUNGAR os que forem de parecer diferente” (ênfase acrescentada). Duas coisas ficam evidentes nesta questão: A alusão ao autoritarismo de Estevão; e o mesmo direito que o bispo romano possuía para “excomungar”, Cartago o tinha igualmente. Também pela mesma época, dois bispos espanhóis depostos por um sínodo espanhol, apelaram para Estevão e foram reintegrados a comunhão. Mas um sínodo, reunido por Cipriano na Metrópole da África, anulou o ato de Estevão, confirmando o sínodo espanhol. Ao que parece a unidade da Igreja Católica (Universal) , tão propalada pelo bispo Africano em sua “De Unitate Catholicae Ecclesiae” estava sendo rompida.

No ano de 418, reuniu-se em Cartago um Concílio de todos os bispos africanos, no qual foi sancionado o seguinte Cânon:

“Igualmente decidimos que os Presbíteros, Diáconos e outros Clérigos inferiores, nas causas que surgirem, se não quiserem se conformar com a sentença dos bispos locais, recorram aos bispos vizinhos, e com eles terminem qualquer questão… E que, se ainda não se julgarem satisfeitos e quiserem apelar, não apelem se não para os Concílios Africanos, ou para os Primazes das próprias Províncias: – e que, se alguém apelar para a Sé Transmarina (de Roma) não seja mais recebido na comunhão…”

Por esta Regra Conciliar se vê que os Bispos Africanos não aceitavam e não admitiam que fosse aceita a jurisdição do bispo de Roma!

AS CONTRADIÇÕES DAS TRADIÇÕES

Dizia Gregório de Nissa : “Se um problema é desproporcional ao nosso raciocínio, o nosso dever é permanecer bem firmes e irremovíveis na Tradição que recebemos dos Pais” Contudo, Deus não confiou na chamada “tradição oral”, tanto é que mandou seus servos escreverem seu verbum sacrum em livros. A tradição com o passar do tempo corrompe o significado real das coisas. Muitas tradições aceita pelas igrejas entravam em flagrante contradição quando confrontadas umas com as outras, a titulo de ilustração temos o celebre caso da grande controvérsia sobre a páscoa já citada neste estudo. De um lado estava as igrejas da Ásia sustentada por certa tradição recebida segundo eles pelo apostolo João de que a páscoa tinha de ser celebrada no 14 Nisan, já as do Ocidente alegavam que haviam recebido uma tradição diferente dada pelo apostolo Pedro e Paulo de que deveria ser no domingo. Cada qual defendia ardorosamente sua posição. Será que Pedro e João transmitiram “tradições” diferentes a estas igrejas ? Quem estava certo ?

Veja que tais tradições não passam de meras contradições! As interpretações equivocadas e muitas vezes forçadas de alguns dos pais e escritores da igreja primitiva, começaram a ser transformadas em regras de fé pelos Concílios através dos séculos. Estes dogmas que existem hoje em dia na igreja Católica, foi apenas outrora a interpretação particular de alguns dos pais da igreja e não a regra de fé e prática de toda a igreja cristã, prova disso é que não havia unanimidade entre eles sobre vários assuntos. Por exemplo, Tertuliano era radicalmente contra o batismo infantil, já Orígenes era a favor, Anselmo afirmava que Maria nasceu com a mancha do pecado original, Jerônimo era ao que parece contra a chamada “tradição oral”, Hegesipo e Ireneu e Tertuliano afirmavam que Maria teve filhos com José, Jerônimo defendia arduamente a virgindade perpétua de Maria, muitos eram a favor de que Pedro era o fundamento da igreja em Mateus 16:18, mas um número maior ainda era contra essa interpretação, como por exemplo, Agostinho, bispo de Hipona, o decreto Gelasiano afirmava que o livro intitulado “o pastor de Hermas” era apócrifo e promulgava que não deveria meramente ser rejeitados mas também “eliminados de toda a Igreja Católica e Apostólica romana, sendo que os autores e seguidores desses autores devem ser amaldiçoados com a corrente inquebrável do anátema eterno.” Já Atanásio admoestava que era útil para a leitura não havendo menção a ele como apócrifo. Muitas posições teológicas defendidas por uns, eram rejeitadas por outros, não havia um consenso geral como querem nos fazer crer os estudiosos católicos! A igreja começou a transformar essas incongruências em dogmas somente após o século IV, por isso o Padre Benhard em 1929 escreveu: “…A Bíblia em si mesma, não é mais do que letra morta, esperando por um intérprete divino… Certo número de verdades reveladas têm chegado a nós, somente por meio da tradição divina.” Ora, Jesus afirmou que a palavra de Deus é que é a verdade! Se há outras verdades que não são reveladas pelas escrituras que é a depositária de toda a verdade, então não são verdades, mas tão somente inverdades!

MAIS CONTRADIÇÕES

Vejamos ainda o “Decreto Gelasiano” que ao se referir sobre a morte de Pedro e Paulo afirma que os dois foram martirizados ao mesmo tempo: “Acrescente-se também a presença do bem-aventurado apóstolo Paulo, “o vaso escolhido”, que não em oposição – como afirmam as heresias dos tolos – mas na mesma data e no mesmo dia, foi coroado com a morte gloriosa juntamente com Pedro, na cidade de Roma, padecendo sob Nero César; e igualmente eles fizeram a supra mencionada Santa Igreja romana especial para Cristo, o Senhor, e deram preferência de suas presenças e triunfos dignos de veneração perante todas as demais cidades existentes sobre a Terra.” Dionísio é concorde com isto pois afirma: “ Tendo vindo ambos a Corinto, os dois apóstolos Pedro e Paulo nos formaram na doutrina evangélica. A seguir, indo para a Itália, eles vos transmitiram os mesmos ensinamentos e, por fim, sofreram o martírio simultaneamente” (Dionísio de Corinto, ano 170, extrato de uma de suas cartas aos Romanos conforme fragmento conservado na “História Eclesiástica” de Eusébio, II,25,8). Entretanto Paulo diz o contrário, “Só Lucas está comigo. Toma a Marcos e traze-o contigo, porque me é muito útil para o ministério.” A tradição diz que Pedro estava com ele mas Paulo desmente afirmando que só Lucas permanecia junto a ele antes de sua morte!

PERGUNTAS QUE OS CATÓLICOS PRECISAM RESPONDER

Mostraremos aqui algumas perguntas que são barreiras insuperáveis à tese católica da fundação, estadia, governo e a morte de Pedro em Roma.

1. Se Pedro esteve em Roma, então por que a Bíblia não diz nada sobre isto, já que menciona muitas cidades por onde passou como Jerusalém, Samaria, Lida, Jope, Cesaréia, Coríntios, Antioquia… mas sobre Roma no entanto, não diz nada?!

2. Porque Lucas “o historiador” não se preocupou em registrar nada sobre o “príncipe dos apóstolos” e seu episcopado em Roma, pelo contrário voltando-se quase exclusivamente ao ministério de Paulo?!

3. Paulo escreveu sua epistola aos Romanos (56-58) enviando saudações a 26 pessoas mas o nome do “Papa São Pedro” se quer é mencionado. Porventura deixaria Paulo de mencionar Pedro, caso estivesse ele em Roma e ai fosse bispo? Outrossim, Paulo ao enviar as “cartas do cativeiro”, escritas em Roma envia saudações citando nominalmente 11 irmãos. Se Pedro estivesse em Roma teria Paulo omitido seu nome em todas as quatro cartas ? Creio que não!

4. Demais disso, não teria Paulo invadido o território jurisdicional de Pedro ao enviar uma carta de instruções corretivas àquela Igreja ? Onde estava Pedro que não instruía os romanos sobre a justificação pela fé ?

5. Entre os anos 60-61 Paulo chega preso em Roma (At. 28:11,31), Lucas registra que os irmãos foram vê-lo (At. 28:15). Mas onde estava Pedro que não foi receber seu colega de ministério?

6. Suetonius Tranquillus, pagão, na Biografia do Imperador Cláudio, diz: “Judacos, impulsore Cresto, assidue tumultuantes Roma expulit”. Quer dizer: – O Imperador Cláudio expulsou de Roma os Judeus que viviam em contínuas desavenças por causa de um certo Cresto (Cristo). Ora, Cláudio foi Imperador desde o ano de 41 até 54. Logo, durante esses treze anos não era possível que S. Pedro residisse em Roma.

No Capítulo 18 dos Atos dos Apóstolos, lemos que Paulo, depois do célebre discurso no Areópago, seguiu para Corinto, onde se encontrou com Áquila e sua esposa Priscila, recentemente chegados de Itália, pelo motivo de Cláudio Imperador ter mandado sair de Roma a todos os judeus. Ora, este encontro do Apóstolo deu-se no correr da sua segunda viagem apostólica, isto é, entre os anos de 52 a 54. Logo, ainda nesses anos Cláudio não permitia a permanência de judeus em Roma. Como ficaria lá São Pedro, que, como Apóstolo, devia necessariamente chamar a atenção geral sobre sua pessoa?

7. Se Pedro estivesse em Roma no ano 60 como se afirma a tradição, como então deve se entender as palavras de Jesus a Paulo em Atos 23:11 que diz: “Importa que dês testemunho de Mim também em Roma.” Ora, onde estava Pedro “o Papa” da cristandade que não tornava conhecido o nome de Jesus nesta cidade ?

8. Paulo foi a Roma a primeira vez prisioneiro, em virtude de haver apelado para o Tribunal de César, pelos anos de 60 ou 61, lá não encontrando cristãos entre os judeus. Ora, se S. Pedro estivesse em Roma pregando exclusivamente aos judeus como nos garante Eusébio, como se pode explicar a ignorância dos principias judeus de Roma, que disseram a Paulo: “Quereríamos ouvir da tua boca o que pensas, porque o que nós sabemos desta Seita (dos Cristãos) é que em toda parte a combatem”. Então Pedro, durante dezoito anos, poderia permanecer desconhecido dos principais judeus de Roma? Ele, a quem fora confiado o Ministério aos circuncidados no dizer de Paulo (Gal. 3,7-10) e de Eusébio Pámphili?

9. Ora, mas se Pedro estivesse preso, não seria esta a razão de sua omissão? Neste caso Paulo seria relapso em não registrar este fato como fez com seus demais companheiros de prisão (cf. Colossenses 4:10 – Filemon 23).9. Ora, mas se Pedro estivesse preso, não seria esta a razão de sua omissão? Neste caso Paulo seria relapso em não registrar este fato como fez com seus demais companheiros de prisão (cf. Colossenses 4:10 – Filemon 23).

10. Diz os estudiosos católicos que Pedro morreu no reinado de Nero em 69 d.c, outros coloca o ano de 67, e ainda outros 64. A tradição diz que ele exerceu o episcopado durante 25 anos. Subtraindo 25 de 69 chegamos ao ano de 44 onde afirma a tradição que Pedro chegou a Roma (Hist. Ecl. II – XIV) Esta tese encontra duas grandes dificuldades: A primeira é que o edito de Nero expulsando os judeus durou de 42 até 54, motivo também da expulsão de Áquila e Priscila. Pedro não seria exceção tampouco! A segunda é que no ano 45, Pedro escreve sua primeira epistola, e que por sinal não era de Roma mas de “Babilônia”, cidade existente naqueles dias (I Pedro 5:13).

11. Se Roma tem a primazia por ser supostamente considerada a cidade em que Pedro alegadamente exerceu seu ministério, então razão maior deveria ser dada a Antioquia pois diz a mesma tradição que antes de Pedro ir para Roma exerceu primeiro seu episcopado em Antioquia deixando lá seus sucessores: Evódio e Inácio.

12. Porque estudiosos católicos como Rivaux, Fank, Hughes e Daniel Rops se contradizeram ao fazer as listas dos bispos de Roma já que usaram a mesma tradição como fonte?

DESLIZES DOS SUPOSTOS PAPAS

O papa Marcelino entrou no templo de Vesta e ofereceu incenso à deusa do paganismo Foi, portanto, idólatra; ou,pior ainda; foi apóstata! Libório consentiu na condenação de Atanásio; depois, passou-se para o arianismo fato este confirmado até por Jerônimo. Honório aderiu ao maniqueísmo. Gregório I chamava Anticristo ao que se impunha como Bispo Universal; e, entretanto, Bonifácio III conseguiu obter do parricida imperador Focas este título em 607. Pascoal II e Eugênio III autorizavam os duelos, condenados pelo Cristo; enquanto que Júlio II e Pio IV os proibiram. Adciano II,em 872, declarou válido o casamento civil; entretanto,Pio VII, em 1823, condenou-o.Xisto V publicou uma edição da Bíblia e, com uma, recomendou a sua leitura; e aquele Pio VII excomungou a edição. Clemente XIV aboliu a Companhia de Jesus, permitida por Paulo III; e o mesmo Pio VII a restabeleceu.

Vergílio comprou o papado de Belisário, tenente do imperador Justiniano. Por isso, foi condenado no segundo concílio de Calcedônia, que estabeleceu este cânone:O bispo que se eleve por dinheiro será degradado. Sem respeito àquele cânone, Eugênio III, seis séculos depois, fez o mesmo que Vergílio, e foi repreendido por São Bernardo. Deveis conhecer a história do papa Formoso: Estêvão XI fez exumar o seu corpo, com as vestes pontificais; mandou cortar-lhes os dedos e o arrojou ao Tibre. Estêvão foi envenenado; e tanto Romano como João, seus sucessores, reabilitaram a memória de Formoso. Barônio o Cardeal chega a dizer que as poderosas cortesãs vendiam, trocavam e até se apoderavam dos bispados; e, horrível é dizê-lo, faziam papas aos seus amantes! Genebrardo sustenta que, durante 150 anos, os papas, em vez de apóstolos, foram apóstatas. Deveis saber que o papa João XII foi eleito com a idade de dezoito anos tão-somente, e que o seu antecessor era filho do papa Sérgio com Marózzia. Que Alexandre XI era… nem me atrevo a dizer o que ele era de Lucrécia; e que João, o XXII, negou a imortalidade da alma, sendo deposto pelo concílio de Constança.

O papado continuou tendo seus períodos sombrios, marcados por imoralidade e corrupção. Um desses períodos ocorreu entre o final do século IX e o início do século XI, quando a instituição papal foi controlada por poderosas famílias italianas. A história revela que um terço dos papas dessa época morreu de forma violenta: João VIII (872-882) foi espancado até a morte por seu próprio séquito; Estêvão VI (885-891), estrangulado; Leão V (903-904), assassinado pelo sucessor, Sérgio III (904-911); João X (914-928), asfixiado; e Estêvão VIII (928-931), horrivelmente mutilado, para não citar outros fatos deploráveis. Parte desse período é tradicionalmente conhecida pelos historiadores como “pornocracia”, numa referência a certas práticas que predominavam na corte papal.

HISTÓRIAS QUE OS CATÓLICOS NÃO SABEM

Ora, a sucessão do bispado de Roma foi interrompida por mais de uma vez, como se convencerá o Leitor pela narração da História Eclesiástica do Cardeal Hergenroeter, completada pelo Mons. J P Kirsch e traduzida para italiano pelo P. Enrico Rosa, jesuíta. Eis quanto nos contam esses conspícuos personagens, romanos como os que mais o sejam. No Terceiro Volume da Soterrai dela Cheias, edição da Liberaria Fiorentina, de 1905, páginas 247 e seguintes:

Com a morte do papa Formoso, a 4 de abril de 896, começou uma era de profunda depressão para a Sé romana, como nenhuma houve antes, nem depois… As facções políticas dela se apossaram, ameaçando de arrastá-la a barbárie dos tempos. Dentro de oito anos (896-904) sucederam-se nove Pontífices, BONIFÁCIO VI, eleito tumultuariamente, só reinou por quinze dias, pois que o partido Spoletano entronizou um dos seus – ESTEVÃO VI (propriamente VII). Este ultrajou a memória de Formoso com cego furor… Mandou desenterrar seu cadáver e apresentá-lo perante um Tribunal Eclesiástico, que o declarou papa ilegítimo, e nula sua eleição! Em seguida atiraram o cadáver no Rio Tibre… Em uma arruaça, Estevão foi apanhado e estrangulado no cárcere, em Junho ou Julho de 897*

Sucedeu-lhe um sacerdote ancião de nome Romano, o qual só pontificou quatro meses. Assumiu então o papado THEODORO II. que só durou vinte dias. JOÃO IX ficou até o estio de 900. BENTO IV até 903. LEÃO V foi, antes de um mês de pontificado precipitado por CRISTÓVÃO, e este. no fim de Maio de 904, teve o mesmo fim às mãos de SÉRGIO III.

Este (Sérgio) já desde o reinado de Teodoro II havia tentado apoderar-se do trono pontifício, sendo, porém, expulso e exilado. Depois de sete anos de exílio, chegou finalmente ao termo de suas ambições. Ele havia sido sagrado bispo de Cere pelo papa formoso, o qual assim tentara afastá-lo da Corte romana, por ser elemento indesejável. Entretanto, tão logo assentado na curia pontifícia, declarou ilegítimas todas as ordenações conferidas por Formoso (portanto também a própria sagração episcopal!) perseguindo com ódio feroz a quantos daquele houvessem recebido a imposição das mãos. Sérgio III faleceu em Agosto de 911.

Paremos um momento para… respirar. Estes senhores que se sucederam mediante o assassinato uns dos outros; estes senhores que foram eleitos (?) à força de traições, de violências inqualificáveis; estes serão sucessores legítimos dos santos mártires Lino, Cleto e clemente? OH! NÃO! O bispado de Roma vagou nesse tempo, e os bispos posteriores já não podem ser considerados sucessores de aqueles aos quais os Apóstolos Pedro e Paulo confiaram a cura espiritual da Igreja Romana.

A Sérgio III sucedeu Anastácio III de Agosto de 911 a Outubro de 913; depois veio LANDÃO, até Abril de 914, e JOÃO X , filho da DITADORA MARÓCIA e do papa SÉRGIO III, primo do primeiro marido dela, o Príncipe ALBERICO, Marócia casara-se no ano de 905 em primeiras núpcias com este Príncipe da linhagem dos Condes de Túsculo, liquidando-o no mesmo ano, para se casar com GUIDO, Marquês de Toscana, JOÃO X, que passava por filho do primeiro leito de Marócia, não podia ter mais de dez anos de idade, quando recebeu a sagração suprema, em 914. Durante 14 anos empunhou o Báculo Pastoral, até que, tendo veleidades de independizar-se, foi metido no cárcere, onde expirou em Junho de 928. No ano seguinte Marócia liquidou o segundo marido, e se fez reconhecer como SENADORA E PATRICIA, imperando sozinha. A João x sucedeu LEÃO VI, e, sete meses depois, ESTEVÃO VII. Em 931, outro filho de Marócia subiu ao trono, com o nome de JOÃO XI. Em 932, Marócia casou-se com o Rei Hugo, irmão de seu segundo marido. João XI foi liquidado em 936, sucedendo-lhe LEÃO VII (936-939). ESTEVÃO VIII (propriamente IX), de 939-942; MARINO II, de 943-946; AGAPITO II, de 946-956; e finalmente OTAVIANO, neto de Marócia, e que foi o primeiro a mudar de nome ao galgar o trono papal. Tinha ele 18 anos de idade, e tomou o nome de JOÃO XII.

Em toda primeira metade do Século X, tudo parecia fora dos eixos; a corrupção do século inundará a igreja (romana) e nesta não mais existia disciplina… Roma, então envelhecida como Capital de um pequeno Principado, devia retornar pouco a pouco à sua antiga dignidade de Capital do Mundo e à sua sublime Missão – É o que se lê à página 252 do Volume acima citado da STORIA DELLA CHIESA. Pois bem, assim com o OTÃO I, (Imperador desde o ano de 936) não se pode considerar sucessor de Constatino o Grande, e nem mesmo de Carlos Magno; assim, os bispos que se seguiram a estes, não podem razoavelmente ser tidos e havidos como legítimos sucessores dos Bispos de Roma dos tempos apostólicos.

Leiamos agora a página 271 do mesmo Volume da STORIA: – *JOÃO XIX, acusado de negligente e de avaro, reinou até 1032. A maior desgraça da igreja (romana) era que a sua família (dos Condes de Túsculo) mostrava-se convencida de que para sempre o pontificado (romano) era um bem hereditário de sua propriedade. E sem atender ao mérito de quem o ocupasse, esforçava-se por conservá-lo. Desta progênie haviam já saído seis papas, e agora o sétimo, rapaz ainda não de vinte anos, filho de Alberico, e irmão dos papas anteriores, chamava-se TEOFILACTO. Não foram ouvidos os Cardeais, e o povo (que então tinha voz ativa nas eleições) foi comprado por bom dinheiro, sendo assim eleito em modo totalmente tumultuário, esse jovem licencioso, que com o nome de BENTO IX, devia por onze anos (desde 1033 a 1044) ser o vitupério da igreja (romana) *. Até aqui os nossos Autores (os parênteses são nossos). Agora vamos resumir a história.

TEOFILACTO que, ao ser eleito (?) papa em 1033, contava apenas 12 anos de idade, só veio a morrer em 1065, com 44 anos. Em 1044, rebentou uma revolta geral contra ele, BENTO IX se escapuliu, e em seu lugar foi coroado papa, JOÃO, bispo de Sabina, que tomou o nome de SILVESTRE III. Mas, em Abril do mesmo ano, BENTO IX conseguiu voltar ao trono e excomungou todos os rebeldes, mandando muitos deles para o outro mundo. Vendo-se, porém, em perigos contínuos, renunciou, no dia 1 de Maio de 1045, deixando a Cátedra de S. Pedro (incrível, mas verdadeiro!) a um Arcipreste chamado João Graciano, o qual tomou o título de GREGÓRIO VI, e gratificou com *Grossa somma di dinaro* ao seu abnegado e digno Antecessor! (Graciano era um consumado jurista, e conhecia perfeitamente o valor dos argumentos áureos!)*

BENTO IX, com a bolsa bem recheada, se retirou para um dos Castelos de sua nobre família, depois de assinar renúncia formal da Santa Sé, Pouco depois, porém, se arrependeu do mau passo e, apoiado pelos seus poderosos parentes, pretendeu voltar ao Trono. Nada mais natural! Rapaz de 22 anos, cheio de vida e de santidade papal, que renunciara ao seu sublime Cargo não tanto pelo dinheiro (que lhe sobrava), quanto pelo amor de uma filha do Conde Gerardo de Sasso (que lhe fazia muita falta) nada mais natural, digo, – que pretendesse reassumir a Tiara, para repartir os graves encargos da mesma com a sua direitíssima e digníssima Amásia, com a qual tentara se casar quando ainda era papa.

Mas os cardeais o impediram.

Assim ficou a Cátedra de S. Pedro com três Titulares: BENTO IX, que retirara a renúncia; SILVESTRE III, que recusava renunciar; e GREGÓRIO VI, que havendo adquirido por *grossa soma di dinaro* o Sólio Pontificio, julgava-se de pleno direito senhor do mesmo.
A ÁGUIA DA GERMANIA (o Rei Henrique III) olfatando fácil e pingue presa, desceu em amplo remigio até a Itália, e se fez coroar Rei da Lombardia a 25 de Outubro de 1046, em Pavia, solicitando de Gregório VI uma entrevista em Placência. Desta cidade seguiram ambos com grande pompa para Sutri, onde se reuniu um Concílio sob a Alta Direção de Henrique III. Neste Concílio, Gregório VI renunciou ( espontaneamente, já se vê!); de Bento IX não se disse palavra (para não magoar sua nobre família, certamente!); e Silvestre III foi aprisionado e recolhido ao aljube de um Mosteiro, em castigo do seu pecado de simonia. Henrique III mandou então a Suidgero de Bamberga, que subiu a Cátedra de S. Pedro com o título de CLEMENTE II. Este foi o segundo papa alemão. No mesmo dia da sua Coroação, 25 de Dezembro de 1046, CLEMENTE II, coroou a Henrique III e sua esposa Inês Imperadores do restaurado Sacro Romano Impero.

Reflitamos um momento. Ou a venda da Cátedra de S. Pedro, feita por bento IX a Graciano foi válida, ou não foi. Se foi válida, já ninguém pode falar em pecado de simonia; e ficam plenamente justificadas as compras de bispados e as vendas das melhores Paróquias e dos Santuários (Aparecida do Norte, Bom-Fim de Salvador, etc) a frades estrangeiros, que se negociam em vários países (menos no Brasil!) Se aquela negociata de Bento IX não foi válida, segue-se que BENTO IX continuou papa legítimo, havendo sido injustamente esbulhado por seis papas intrusos, postos na Sé Romana pelo Imperador Henrique III, durante a vida de Bento IX.

Mais outra: – Ou o Imperador tinha direito de nomear os papas, ou não! Se sim! Então houve ocasião em que muitos eram papas legítimos ao mesmo tempo. Se não! Houve tempos em que a Cátedra de S. Pedro ficou vacante, não obstante estar ocupada por vários apaziguados do Imperador. Com Henrique III viera o MONGE BENEDITINO ainda simples HILDEBRANDO, o qual desde então foi o verdadeiro Chefe da igreja Romana manobrando a seu bel-prazer meia dúzia de papas-titeres, e fazendo-se aclamar papa somente em 1078. Foi o celebérrimo GREGÓRIO VII, santo canonizado romano.

HILDEBRANDO, porém, não obstante dotado de notável senso político e de admirável audácia, não possuia o poder de afugentar a MORTE! Bento IX, Conde de Túsculo, fazia desaparecer a todos os alemães indicados por Hildebrando e entronizados por ordem de Henrique III, na Cátedra de S. Pedro.

CLEMENTE II morreu a 9-10-47. Bento IX se prontificou para reassumir o Pontificado, mas os romanos, depois de terem conhecimento dos desejos de Henrique III, de reservar o Pontificado a seus súditos alemães, lhe pediram que houvesse por bem mandar sagrar um novo papa por ele escolhido livremente, Henrique III enviou da Alemanha a POPPONE, bispo de Brixen. Depois de muitas peripécias suscitadas pela oposição da família de Bento IX, Poppone foi entronizado em Julho de 1048, com o nome de DAMÁSIO II. Mas… faleceu repentinamente, por esse tempo, na Alemanha.

Henrique III viu-se então em talas para encontrar um novo papa… Nenhum alemão queria aceitar a honra de ser Sucessor de S. Pedro!… O Imperador nomeou então a BRUNO, bispo de Toul, e seu parente (da família dos Condes de NORDGAU, na Alsácia). Este só se resignou a ser papa, com a condição de ser aceito pelos romanos em eleição popular, livre e pacífica. De Toul, seguiu ele para Besanón, onde recebeu a guarda toda poderosa de Hildebrando, que se lhe fez companheiro de viagens desde Cluny até Roma. Entrou ele na Cidade a pé, descalço e com túnica de peregrino, sendo muito bem recebido, e coroando-se Sumo Pontífice com o nome de LEÃO IX.

Em Maio de 1053, São Leão IX, Papa, envergando a farda de General, pôs-se a testa de aguerrido exército para combater os Normandos, que haviam invadido o Sul da Itália. A 18 de Junho seu exército foi totalmente derrotado e desbaratado, e o Sumo Pontífice, a-pesar-de santo e general, caiu prisioneiro. Nessa condição ficou detido em Benevento até que cedesse a todas as imposições dos seus vencedores. Depois de completa Capitulação, foi posto em liberdade a 12-8-1054, reentrando no Palácio do Latrão a 3 de Abril. A 18 do mesmo mês pontificou solenemente na Basílica de S. Pedro, mas… no dia seguinte faleceu misteriosamente!… Assim foi-se São Leão IX, Patrono dos Generais derrotados!

Bastem estes fatos. Não é aqui o lugar de rememorar todos os casos em que a Sede Romana esteve em desordem; por exemplo, no começo do século 15, em que quatro papas legítimos excomungavam; cada um deles excomungava três papas legítimos, e era declarado excomungado por cada um de seus três colegas Sucessores de São Pedro, infalíveis, Vigários de Cristo, etc, etc… (Veja o II Apêndice).

Responda agora o Leitor: – Será o papa Pio XII legítimo Sucessor de S. Pedro? (Poderá ser legitimamente eleito papa, quem se acha incurso na excomunhão fulminada pelo Canon 2335?
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