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Um comentário sobre Romanos 9

por Artigo compilado - qui jun 12, 12:09 am

MaosdeOleiro

O escritor Laurence Vance comenta o seguinte sobre Romanos 9:

Romanos 9 é o primeiro capítulo em uma mais ampla seção parentética do Livro de Romanos. Enquanto Romanos 1-8 lida com questões doutrinárias, e Romanos 12-16 com questões práticas, Romanos 9-11 é um parêntese onde é revelado o plano presente de Deus em sua relação com a nação de Israel. Por causa de sua importância, Romanos 9-11, e até mesmo Romanos 9, tem sido assunto de muitos livros de diferentes perspectivas.[49] Romanos 9-11 é um parêntese onde o judeu é considerado nacionalmente, ambos sozinho (Rm 9.1-5; 10.1-3; 11.1-10) como em contraste com os gentios (Rm 9.30, 31; 10.12; 11.11, 12). Visto que Romanos 9-11 contém passagens que especificamente dizem respeito a Israel, é de se esperar que, geralmente, os calvinistas irão interpretar mal estas passagens mais do que quaisquer outras. Prova disto será encontrada nas numerosas ocasiões por todo este livro. Mas não apenas a Bíblia será rejeitada, os calvinistas também irão invalidar as interpretações de seus companheiros calvinistas o tempo todo.

Que Israel era uma nação eleita não resta dúvida (Dt 7.6, 7; 1Re 3.8; Sl 135.4; Is 45.4). Todavia, Israel era ignorante da “justiça de Deus” (Rm 10.3). Eles eram “um povo rebelde e contradizente” (Rm 10.21), com o resultado que “a ira de Deus caiu sobre eles até ao fim” (1Ts 2.16). O problema então é este: Como Deus poderia rejeitar aqueles que ele tinha escolhido (Rm 11.1)? E, como conseqüência, o que dizer da fidelidade de Deus e sua palavra? Isto de imediato vai contra a Eleição Incondicional. E não apenas isto, mas a aflição por todos estes capítulos que Paulo mantinha pela salvação do povo judeu como um todo (Rm 9.1-3; 10.1-3; 11.12-14) também abafa a idéia da eleição e reprovação de todos os membros da raça humana. E como em breve veremos, a reprovação de indivíduos não está nem remotamente ligada aos três “pilares da reprovação” que os calvinistas nos dão em Romanos 9: “Amei a Jacó, e odiei a Esaú” (Rm 9.13), “endurece a quem quer” (Rm 9.18), “vasos da ira, preparados para a perdição” (Rm 9.22).

A primeira passagem diz respeito a Jacó e Esaú:

E não somente esta, mas também Rebeca, quando concebeu de um, de Isaque, nosso pai; porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú (Rm 9.10-13).

Esta história familiar foi até assunto de uma peça do século dezesseis intitulada A mery and wittie Comedie or Enterlude, newely imprinted, treating upon the Histories of Iacob and Esau, taken out of the xxij. Chap. Of the booke of Moses entituled Genesis.[50] E o que os calvinistas têm a dizer sobre Jacó e Esaú?

A eleição incondicional de Romanos 9.11 é tão evidente que uma leitura apressada nos força a aceitá-la.[51]

Concluímos, portanto, que a predestinação de Jacó e Esaú é uma eleição e reprovação pessoal para salvação e eterna miséria, respectivamente.[52]

Quanta instrução estas palavras ‘O maior servirá o menor’ contêm, quando colocadas na seqüência em que são citadas! Elas praticamente ensinam as grandes doutrinas fundamentais da Presciência, Providência, Soberania de Deus; Sua Predestinação, Eleição e Reprovação.[53]

O que os calvinistas “praticamente” têm feito é inserir a frase “amei a Jacó, e odiei a Esaú” antes de “não tendo eles ainda nascido” para obter uma eleição ou reprovação individual, eterno, do tipo TULIP. John Piper simplesmente diz que Jacó e Esaú “foram apontados para seus referidos destinos antes de nascerem.”[54] De acordo com Charles Cosgrove: “Deus ama Jacó e odeia Esaú antes de nascerem.”[55] Para reforçar estas interpretações particulares, Herman Hoeksema, sob pretexto de parafrasear uma simples frase de sete palavras, adiciona à palavra de Deus e diz: “Jacó eu eternamente aceitei em amor; Esaú eu eternamente rejeitei como um objeto de Meu soberano ódio.”[56]

O “e não somente esta” do versículo 10 nos leva de volta a um contexto anterior:

Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência. Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um filho (Rm 9.6-9).

Os versículos dez a treze são uma continuação do versículo nove, mostrando que a semente de Abraão devia ser chamada em Jacó, como em Isaque. Podia ser argumentado do versículo oito que Isaque foi escolhido porque Ismael nasceu de uma serva, então Paulo antecipa o que poderia ser sugerido pelos judeus em oposição ao primeiro tipo. Seu argumento que havia um Israel dentro de Israel (Rm 9.6) é ilustrado pelos descendentes de Isaque e Jacó sendo considerados como os filhos da promessa da aliança com a exclusão de todos os outros descendentes de Abraão. Deus fez as mesmas promessas a respeito de “sua semente” e a terra de Abraão (Gn 17.7, 8), Isaque (Gn 26.3, 4) e Jacó (Gn 35.11, 12). O “o propósito de Deus, segundo a eleição” (Rm 9.11) não tinha absolutamente nada a ver com a salvação ou reprovação individual. Dizia respeito à linha messiânica de Abraão-Isaque-Jacó-Jesus Cristo. Como L. S. Ballard corretamente verificou: “Afirmar que esta eleição era para salvação é absurdo, falso, e está tão distante da verdade como o céu do inferno, ou como o leste do oeste. Era uma eleição para preferência nacional ou privilégios teocráticos e não há nada semelhante a salvação nela.”[57]

Esta verdade é ainda mais aparente se examinarmos as menções do Velho Testamento às quais Paulo refere:

E os filhos lutavam dentro dela; então disse: Se assim é, por que sou eu assim? E foi perguntar ao SENHOR. E o SENHOR lhe disse: Duas nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas entranhas, e um povo será mais forte do que o outro povo, e o maior servirá ao menor (Gn 25.22, 23).

Então, embora os meninos não haviam nascidos (Rm 9.11), nada aconteceu antes da fundação do mundo – eles estavam no ventre de Rebeca quando foi dito: “O maior servirá o menor” (Gn 25.23; Rm 9.12). A Escritura também nos contou que os indivíduos não estavam em discussão – as nações estavam: “duas nações,” “dois povos” (Gn 25.23). E não apenas o texto não diz “o maior será condenado e o menor será salvo,” Esaú como indivíduo nunca serviu Jacó; exatamente o oposto aconteceu. Jacó se curvava a Esaú (Gn 33.3), chamava-o de senhor (Gn 33.8), afirmava ser seu servo (Gn 33.5), e solicitava que ele aceitasse presentes (Gn 33.11).

A outra passagem sob consideração foi escrita centenas de anos após:

Peso da palavra do SENHOR contra Israel, por intermédio de Malaquias. Eu vos tenho amado, diz o SENHOR. Mas vós dizeis: Em que nos tem amado? Não era Esaú irmão de Jacó? disse o SENHOR; todavia amei a Jacó, e odiei a Esaú; e fiz dos seus montes uma desolação, e dei a sua herança aos chacais do deserto (Ml 1.1-3).

Jacó e Esaú estavam mortos há séculos quando a afirmação foi feita: “Amei a Jacó, e odiei a Esaú” (Rm 9.13). Em Gênesis temos uma afirmação profética olhando para a frente e em Malaquias temos uma afirmação histórica olhando para trás. Após a morte de Jacó, o termo Jacó sempre tinha referência a Israel como nação, a menos que mencionado em relação a Abraão e Isaque ou ao recontar algum evento na vida da pessoa de Jacó. Até Calvino admite que é a posteridade de Jacó e Esaú que está em vista.[58] E como deixamos claro no começo de nosso estudo de Romanos 9, os calvinistas não conseguem concordar entre si mesmos quanto ao que é um exemplo de reprovação e o que não é. Berkouwer, junto com seu colega holandês, Herman Ridderbos (1910-1981), sustenta que Romanos 9 não apresenta a eleição e a reprovação de Jacó e Esaú como indivíduos, mas mostra o princípio que a eleição de Deus não é pelas obras e que o destino de Israel como um todo está em vista.[59]

Então, como o calvinista faz Rm 9.13 se referir à eleição e reprovação individual? A primeira manobra é admitir que as referências em Gênesis e Malaquias dizem respeito a Jacó e Esaú nacionalmente mas que Romanos 9 diz respeito a Jacó e Esaú individualmente. Então o calvinista usa dois argumentos para provar a eleição e a reprovação. John Murray concorda com a proposta “nacional” e então insiste: “Não podemos desprezar a importância da mensagem para os próprios indivíduos Jacó e Esaú. Por que houve esta diferenciação entre Israel e Edom? Porque existia diferença entre Jacó e Esaú. Seria tão insustentável desvincular os destinos dos respectivos povos da diferença existente entre os indivíduos, assim como seria insustentável fazer separação entre a diferença dos indivíduos e os destinos das nações que deles procederam.”[60] Mas, pelo raciocínio de Murray, se o estado espiritual dos descendentes de Jacó e Esaú estão sendo confrontados com eles, permitindo a eleição de Jacó e a reprovação de Esaú, todos os descendentes teriam que ser ou salvos ou perdidos respectivamente. Razões poderiam ser apresentadas para a posteridade de Esaú, mas e quanto a de Jacó? Datã, Coré e Abirão foram salvos ainda que Deus tenha aberto a terra e lançado-os no abismo (Nm 16.31-33)? Nadabe e Abiú foram salvos apesar de Deus enviar fogo do céu e consumi-los (Lv 10.1, 2)? Então, afirmar que Deus tratou a descendência de Jacó e Esaú como ele os tratou significaria que a salvação foi automática para os descendentes do primeiro e impossível de ser obtida para os descendentes do último.

A segunda, e mais popular alternativa, é afirmar que Jacó e Esaú não eram somente tipos de sua posteridade, mas de todos os homens. Haldane explica: “Em seu óbvio e literal significado, o que é dito de Jacó e Esaú deve ser verdadeiro de todos os indivíduos da raça humana antes de seu nascimento. Cada um deles deve ser ou amado ou odiado por Deus.”[61] A falácia deste argumento é dupla. Primeiro, admitindo que Jacó e Esaú foram soberanamente eleitos e reprovados respectivamente, como isso prova que todos os homens foram igualmente tratados? Dizer que está implícito e que ajusta logicamente ao sistema TULIP de forma alguma é ensinar doutrina bíblica. E, em segundo lugar, como já foi mostrado, Deus não odiou Esaú na eternidade passada. Diz-se que Ele o odiou nacionalmente após observar suas ações durante séculos.

O calvinista enfrenta também outro problema com sua interpretação amor-ódio eterno, pois diz-se de Jesus Cristo que ele amou o jovem rico que o rejeitou e “retirou-se triste; porque possuía muitas propriedades” (Mc 10.22). O ensino calvinista padrão, conforme afirmado por Owen, é que Deus “odiou os não-eleitos antes de seu nascimento.”[62] Agora, como vimos, há um elemento de verdade em toda confusão do Calvinismo. Pink está seguramente correto em dizer: “Tem sido costumeiro dizer que Deus ama o pecador, embora odeia seu pecado. Mas esta é uma distinção sem sentido. O que há em um pecador senão pecado?”[63] Isto é corroborado pela Escritura – (Sl 7.11; Pv 21.27).

Mas, porque este versículo vai contra a idéia de Pink que Deus eternamente odiou os não-eleitos, ele afirma que o jovem rico “era um dos eleitos de Deus, e foi ‘salvo’ algum tempo depois de sua conversa com nosso Senhor.”[64] Escritura? Ele não apresenta nenhuma.

A maior censura que os calvinistas já receberam sobre estes versículos de Romanos 9 que dizem respeito a Isaque, Ismael, Jacó e Esaú, não vem de um arminiano ou outro não-calvinista. Vem de um dos seus. Os extensos comentários do teólogo J. Oliver Buswell, um calvinista de cinco pontos, e ex-presidente do Wheaton College (1926-1940), não apenas porque são verdadeiros, mas completamente contrários à vasta maioria dos calvinistas, são aqui apresentados:

Há inúmeras referências à eleição na primeira parte do nono capítulo da epístola aos Romanos que parecem muito claramente indicar a eleição para a linha de descendência do Messias, antes que para a eterna salvação como tal. Quando lemos (v. 8), … Paulo está referindo ao fato que a linha messiânica devia ser perpetuada em Isaque, não em Ismael. Mas certamente não devemos entender por isto que Ismael estava necessariamente entre os reprovados, no que diz respeito à salvação… A referência em Romanos 9 a Jacó e Esaú é similar…. Neste caso o comentário com que Paulo conclui a referência a Jacó e Esaú coincide com a opinião de que a “eleição” aqui em vista é uma eleição para a linha messiânica, e não uma eleição de um indivíduo para a vida eterna…. Na passagem de Malaquias da qual Paulo cita estas palavras, o profeta está claramente se referindo não ao indivíduo Esaú, mas ao povo de Edom que tinha sido um povo pecador e rebelde, posto que se permitia que fossem, de acordo com as promessas de Deus, considerados dentro da aliança de Deus com Israel. Não há nada no relato de Gênesis que indica que Esaú, quando Jacó retornou para sua terra natal, não era um sincero adorador.[65]

Nosso próximo interesse é a referência a Faraó – do qual Storms afirma: “Este episódio na Escritura figura em segundo lugar, abaixo apenas de ‘amei a Jacó, e odiei a Esaú,’ em termos de desaprovação no qual ele é considerado!”[66] A única desaprovação, entretanto, está nos olhos do cristão fiel à Bíblia que odeia ver a Escritura ser deturpada por um calvinista. A Bíblia diz de Faraó:

Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer (Rm 9.17, 18).

Herman Hoeksema insiste que “Faraó foi soberanamente odiado desde a eternidade, no mesmo tempo que foi Esaú.”[67] Mas, como admitimos sobre Esaú, suponhamos que Faraó foi “soberanamente odiado desde a eternidade.” Como isto prova a condenação de bilhões de outros “reprovados”? Pink supõe que prova: “O caso de Faraó estabelece o princípio e ilustra a doutrina da Reprovação. Se Deus na verdade reprobou Faraó, podemos legitimamente concluir que Ele reprova todos os outros que Ele não predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho.”[68] Mas, por outro lado, se pode ser provado que Deus não reprovou Faraó, então podemos legitimamente concluir que Deus não reprova ninguém, pelo menos não de acordo com a concepção calvinista da reprovação, pois Deus “reprova” todos que ele não predestina para serem conformes à imagem de Seu Filho. Mas ninguém está predestinado a ser conforme a imagem de Cristo a não ser depois que é salvo. Conseqüentemente, todos os homens são “reprovados” a menos que aceitem Cristo – pela fé, não pela Eleição Incondicional e pela Graça Irresistível.

Que o propósito para o qual Faraó foi levantado e o subseqüente endurecimento não tinha nada a ver com o destino eterno de Faraó é perfeitamente claro, tanto de acordo com a Bíblia como com os calvinistas. Diz-se de Faraó que ele foi levantado para mostrar o poder de Deus – não para ser condenado ao inferno por um decreto soberano e eterno. O propósito era que Deus poderia provar para Israel que ele era o Senhor que os libertou (Êx 6.6, 7; 10.1, 2; 13.14-16), para mostrar a Faraó que ele era o único Deus (Êx 9.14), para mostrar aos egípcios que ele era o Senhor (Êx 7.5; 14.4, 18), e que seu nome poderia ser declarado por toda a terra (Êx 9.16). Estes propósitos foram realizados por meio de Israel (Êx 14.31), Faraó e os egípcios (Êx 14.17, 18, 25), e por toda a terra (Js 2.10, 11; 1Sm 4.7, 8). Para uma declaração de um calvinista, nos voltamos para Berkouwer: “É claro que Paulo não quer dirigir nossa atenção para o destino individual de Faraó, mas que ele fala dele a fim de mostrar o seu lugar na história da salvação, e certamente não é permissível – como Calvino fez – tirar conclusões aqui a respeito do ‘exemplo’ de obstinação por causa do decreto eterno de Deus, e a respeito da rejeição dos ímpios.”[69]

Então há a questão de Deus endurecer Faraó. Já vimos casos similares na Bíblia onde se diz que Deus endurece indivíduos. Nenhum deles tinha algo a ver com a salvação ou qualquer decreto eterno, conforme visto pelo fato que Israel – a nação eleita – foi endurecida por Deus (Is 63.17). Portanto, é falacioso o raciocínio de Herman Hoeksema que, como Deus endurece o coração de Faraó para reprová-lo, da mesma forma “Deus endurece o coração de todos os ímpios.”[70] Deve primeiramente ser observado que, antes que Deus tocou Faraó, e antes que Moisés foi vê-lo, Deus em seu pré-conhecimento disse: “Eu sei, porém, que o rei do Egito não vos deixará ir, nem ainda por uma mão forte” (Êx 3.19). A razão por que Deus sabia disto é evidente do primeiro encontro que Moisés teve com Faraó:

E depois foram Moisés e Arão e disseram a Faraó: Assim diz o SENHOR Deus de Israel: Deixa ir o meu povo, para que me celebre uma festa no deserto. Mas Faraó disse: Quem é o SENHOR, cuja voz eu ouvirei, para deixar ir Israel? Não conheço o SENHOR, nem tampouco deixarei ir Israel (Êx 5.1, 2).

Um decreto eterno e soberano da reprovação não tinha nada a ver com isto.

Faraó pronunciou as mais trágicas palavras que alguém poderia dizer: “Não conheço o SENHOR.” Saber disto foi o que levou Deus a determinar endurecer Faraó (Êx 4.21; 7.3). Então se diz que Deus o endureceu (Êx 7.13; 9.12; 10.1, 20, 27; 14.8). Mas também se diz que Faraó endureceu o seu próprio coração (Êx 8.15, 32; 9.34). E duas vezes é dito que o coração de Faraó foi endurecido, não sendo mencionado o agente (Êx 7.22; 9.35). Em seu zelo para enviar Faraó para o inferno, Storms alega que quando Faraó endureceu seu coração e não nos é informado o autor do endurecimento, foi Deus quem verdadeiramente endureceu.[71] Mas há várias coisas a notar sobre este endurecimento. Em primeiro lugar, foi sempre em referência a deixar Israel ir, não crer ou obedecer ao que Deus disse em referência à salvação (Êx 4.21; 7.3, 4; 10.1, 20, 27; 14.8). Em segundo lugar, se o decreto da reprovação era eterno, o que Deus estava fazendo endurecendo o coração de Faraó no tempo e em várias ocasiões se ele já foi predestinado ao inferno? Ele estava fazendo mais firme sua reprovação e condenação? Talvez o maior erro diz respeito à natureza do endurecimento em geral. Quando um tijolo, um pedaço de barro, um cubo de gelo, ou um selador de junta de vedação é endurecido – ele já assumiu seu formato final. O endurecimento o endurece, não o forma. E observe o que nos conta o calvinista John Murray: “O endurecimento de Faraó, não esqueçamos, reveste-se de caráter judicial. Pressupõe a entrega ao mal e, no caso de Faraó, particularmente à entrega ao mal de seu auto-endurecimento.”[72]

Houve uma certa divergência no lado calvinista a respeito de Jacó e Esaú. O assunto Faraó produziu ainda mais divisão. Mas após exame do último baluarte da reprovação em Romanos 9, a maioria dos calvinistas tem abandonado o navio:

Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição; para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou, os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios? (Rm 9.20-24).

Embora haja muitos desertores, ainda há um restante segundo a eleição do Calvinismo. De acordo com Herman Hoeksema, porque o oleiro tem poder sobre o barro, isto prova “a absoluta soberania de Deus para determinar o destino final dos homens, seja para honra ou desonra, para salvação e glória ou para condenação e destruição.”[73] Entretanto, enquanto Hoeksema insiste que o barro não é a humanidade caída,[74] outros calvinistas sustentam que é.[75] Os calvinistas continuamente referem-se aos “vasos da ira, preparados para a perdição” como os reprovados.[76] A respeito destes “vasos da ira,” Pink simplesmente diz: “Ele prepara os não-eleitos para destruição por Seus decretos da preordenação.”[77]

O oleiro e o barro era uma ilustração comum no Velho Testamento (Is 29.16; 45.9; 64.8; Jr 18.1-6). Nunca ela é uma referência à salvação de alguém. Diz-se de Israel ser o barro (Is 64.8; Jr 18.6). O barro é formado, não criado. Não havia barro antes da fundação do mundo, e nem se diz de alguém que é moldado ou preparado antes da fundação do mundo. E embora seja dito dos “vasos de misericórdia” que eles foram “para glória já dantes” preparados por Deus, nenhum agente é citado no caso dos que estavam “preparados para a perdição.” Vasos são feitos vazios, e trazem honra ou desonra (2Tm 2.20) conforme o que é colocado neles. Deus não cria ninguém honroso ou desonroso. Então, embora Cosgrove afirma que “enquanto explica a justiça de Deus em relação a Israel, Paulo afirma uma doutrina da dupla predestinação,”[78] é somente isolando esta passagem do restante de Romanos 9-11 e deduzindo a eleição e reprovação dela que a interpretação calvinista parece plausível.

As diversas interpretações dos comentaristas sobre esta passagem são irrelevantes por duas razões. A primeira é que tudo depende de como alguém interpreta Romanos 9 como um todo. Isto pode ser visto no comentário de Piper:

É claro, portanto, que em 9.21 Paulo ainda tem em mente a questão da eleição incondicional levantada em 9.6-13. Àqueles que não foram convencidos que Paulo estava preocupado com a predestinação de indivíduos para salvação e perdição em 9.6-13, esta observação não irá reforçar o caso para que vejam a predestinação de indivíduos em 9.21.[79]

Piper também apela às “claras e vigorosas afirmações da dupla predestinação em Romanos 9” como prova de que Deus preparou os homens para destruição antes da fundação do mundo em Rm 9.22.[80] John Murray faz a mesma coisa, mas apela a Romanos 8: “Nos versículos 22 e 23, embora não exista nas expressões ‘preparados para a perdição’ e ‘para a glória preparou de antemão’ qualquer alusão direta ao decreto da parte de Deus, não é possível dissociar o versículo 24 da passagem anterior, onde figura a chamada em relação à predestinação (Rm 8.28-30).”[81] Então, ainda que a passagem em questão, em e de si mesma, não ensina a eleição e a reprovação, os calvinistas vêem estas doutrinas de qualquer maneira, porque eles deduzem sua idéia da predestinação que eles a percebem em outro lugar. Mas não poderia tão facilmente ser dito que porque a Eleição Incondicional não é encontrada em outro lugar que ela não é uma opção aqui?

O que, em segundo lugar, torna as interpretações destes versículos irrelevantes é que são os próprios calvinistas que invalidam as interpretações de alguns de seus mais radicais “irmãos.” A humanidade é uma massa de barro que Deus molda para o céu ou para o inferno? Os calvinistas John Murray e Charles Hodge respondem:

Não existe qualquer base para a interpretação de que Paulo tenha apresentado Deus como quem reputa a humanidade como a argila e que trata os homens de acordo com isso. O apóstolo estava utilizando uma analogia, e o significado é simplesmente que, na esfera de seu governo, Deus tem o intrínseco direito de tratar os homens de modo semelhante ao oleiro no âmbito de sua ocupação, ao manusear o barro.[82]

Na soberania aqui afirmada, é Deus como governador moral, e não Deus como criador, que é trazido à tona. Não é o direito de Deus de criar pecadores a fim de puni-los, mas seu direito de lidar com os pecadores conforme lhe apraz, que é aqui e em outro lugar afirmado.[83]

Acerca dos “vasos da ira,” eles foram incondicionalmente “preparados para a perdição” antes da fundação do mundo? Calvino achava que sim, mas e quanto aos seus seguidores?

Deve ser dito, entretanto, que muitos não mais concordam com a exegese de Calvino sobre esta passagem, não porque querem minimizar a soberania de Deus, mas porque reconhecem que as palavras de Deus não podem legitimamente ter esta interpretação.[84]

O pensamento central é que a perdição imposta aos vasos da ira é algo para o que sua anterior condição os torna adequados. Há uma correspondência exata entre o que foram na vida presente e a perdição à qual serão consignados.[85]

Isto, entretanto, não deve ser entendido num sentido supralapsário. Deus não cria os homens a fim de destruí-los.[86]

Os “vasos da ira” são os indivíduos “reprovados” membros da raça humana? Mais uma vez, os calvinistas responderão por nós:

No versículo precedente, Paulo tinha declarado que Deus exercia muita longanimidade com os vasos da ira – aquela parte de Israel que não era de Israel.[87]

Outrossim, o apóstolo tem em vista a incredulidade de Israel e a longanimidade com que Deus tolera esta incredulidade.[88]

Deve ser que Paulo se refere aqui a Israel. Assim como Deus queria revelar Sua ira contra Faraó, da mesma forma também com Israel, mas simultaneamente e através disso, Ele mostra Sua majestade e glória. Novamente, esta não é uma análise independente do destino dos homens individualmente; mostra, antes, os atos do Deus que elege através do curso da história.[89]

Compreender esta passagem de Romanos 9 senão em um sentido supralapsário destrói todo o sistema TULIP. É por isso que há tantos desertores da posição de Calvino. Como em toda parte em Romanos 9, a nação de Israel está em vista. Conforme os próprios calvinistas, os “vasos da ira” são os judeus incrédulos – não os “reprovados” assim decretados desde antes da fundação do mundo. O que é dito sobre Faraó e Deus mostrando seu poder é transferido para o Israel incrédulo. Os “vasos da ira” foram “preparados para a perdição” porque eles “tropeçaram na pedra de tropeço” (Rm 9.32), eram culpados do sangue de Cristo (Mt 27.25) e inimigos do Evangelho (Rm 11.28). Mas assim como a Israel foi mostrado misericórdia no caso de Faraó (Rm 9.15-18), não obstante tornaram-se “vasos da ira” na passagem sob consideração, da mesma forma os judeus individualmente que rejeitaram Cristo podiam tornar-se “vasos de misericórdia” se aceitassem Cristo (1Tm 1.13, 16), pois foram perdoados por ele (Lc 23.34). E muito embora todos os calvinistas fariam de Faraó um vaso “para desonra,” somos informados em Êxodo que o Senhor disse: “Eu serei glorificado em Faraó” (Êx 14.17). Finalmente, por meio de aplicação, todos os homens são “vasos da ira” (Ef 2.3), mas Deus terá misericórdia sobre qualquer um que recebe Jesus Cristo (Rm 11.30, 31; 1Pe 2.10). A falácia por trás de todas as interpretações calvinistas em Romanos 9 está em deduzir a eleição e a reprovação soberana dos argumentos de Paulo sobre a questão de Israel.

Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? diz o SENHOR. Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel. No momento em que falar contra uma nação, e contra um reino para arrancar, e para derrubar, e para destruir, Se a tal nação, porém, contra a qual falar se converter da sua maldade, também eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe. No momento em que falar de uma nação e de um reino, para edificar e para plantar, Se fizer o mal diante dos meus olhos, não dando ouvidos à minha voz, então me arrependerei do bem que tinha falado que lhe faria. (Jeremias 18.6-10)

Vejam o vídeo:


[49] Herman Hoeksema, God’s Eternal Good Pleasure, ed. e rev. Homer C. Hoeksema (Grand Rapids: Reformed Free Publishing Association, 1979); Charles H. Cosgrove, Elusive Israel: The Puzzle of Election in Romans (Louisville: Westminster John Knox Press, 1997); Stephen Motyer, Israel in the Plan of God (Leicester: Inter-Varsity Press, 1989); H. L. Ellison, The Mystery of Israel, ed. rev. e ampl. (Devon: The Paternoster Press, 1968); John Piper, The Justification of God, 2a. ed. (Grand Rapids: Baker Books, 1993); Best, Romans 9.

[50] Helen Thomas, “Jacob and Esau – ‘rigidly Calvinistic’?” Studies in English Literature 1500-1900 9 (Primavera de 1969), p. 200.

[51] Johns, p. 7.

[52] Herman Hoeksema, Good Pleasure, p. 24.

[53] Haldane, p. 462.

[54] Piper, Justification, pp. 203-204.

[55] Cosgrove, p. 28.

[56] Herman Hoeksema, Good Pleasure, p. 19.

[57] Ballard, p. 15.

[58] Calvino, Institutes, p. 930 (III.xxi.7).

[59] Baker, p. 153; Berkouwer, p. 71.

[60] John Murray, Romanos, 1ª edição (São José dos Campos:  Editora Fiel, 2003), p. 383.

[61] Haldane, p. 465.

[62] Owen, p. 227.

[63] Pink, Sovereignty, p. 200.

[64] Ibid., p. 201.

[65] Buswell, vol. 2, p. 149.

[66] Storms, Chosen for Life, p. 87.

[67] Herman Hoeksema, Good Pleasure, p. 46.

[68] Pink, Sovereignty, p. 90.

[69] Berkouwer, pp. 212-213.

[70] Herman Hoeksema, Good Pleasure, p. 46.

[71] Storms, Chosen for Life, p. 88.

[72] John Murray, Romanos, 1ª edição (São José dos Campos:  Editora Fiel, 2003), p. 391.

[73] Herman Hoeksema, Good Pleasure, p. 60.

[74] Ibid., p. 63.

[75] Charles Hodge, Romans, p. 319; Pink, Sovereignty, p. 97.

[76] Patrick H. Mell, A Southern Baptist Looks at Predestination (Cape Coral: Christian Gospel Foundation, n.d.), p. 31; Best, Romans 9, pp. 193-198.

[77] Pink, Sovereignty, p. 96.

[78] Cosgrove, p. 27.

[79] Piper, Justification, p. 204.

[80] Ibid., p. 212.

[81] John Murray, Romanos, 1ª edição (São José dos Campos:  Editora Fiel, 2003), p. 399.

[82] John Murray, Romanos, 1ª edição (São José dos Campos:  Editora Fiel, 2003), p. 394, 395.

[83] Charles Hodge, Romans, p. 319.

[84] Berkouwer, p. 214.

[85] John Murray, Romanos, 1ª edição (São José dos Campos:  Editora Fiel, 2003), p. 398.

[86] Charles Hodge, Romans, p. 321.

[87] Haldane, p. 493.

[88] John Murray, Romanos, 1ª edição (São José dos Campos:  Editora Fiel, 2003), p. 397.

[89] Berkouwer, p. 214.

Extraído do livro “O Outro Lado do Calvinismo”, Laurence Vance


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