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Um pouco da história dos Papas

por Artigo compilado - seg mar 31, 12:20 am

sucessao papal

E a ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque um só é o vosso Pai, aquele que está nos céus.

Mateus 23.9

Ó Roma, quão digna és de dó, e que espessas trevas suce­deram à suave claridade, que sobre nós derramavas! Em ti elevavam-se os Leões, os Gregórios, os Gelásios… Então podia a Igreja dizer-se universal. Mas hoje, por que hão de tantos bispos conspícuos por ciência e virtude sujeitar-se aos mons­tros, que a desonram. Se o homem que tem assento nesse trono sublime não tem caridade, é um Anticristo; se lhe falecem ao mesmo tempo a caridade e a sabedoria, é um ídolo: consultá-lo seria como recorrer a um pedaço de mármore (…). Arnold, bispo de Orleans, Concílio de Reims.

Como já vimos, os chefes das igrejas regionais, como Bizâncio, Roma, Alexandria, Antioquia e Jerusalém, eram chamados de bispos, pois até 869 AD, não estava definida a supremacia de Roma. Gregório IV (papa de 927 a 844) fora à França para aplacar os ânimos exaltados entre Luiz, o Bondoso, e seus filhos, mas não se mostrou um juiz imparcial. Os bispos da França, que não queriam que ele se intrometesse nos negócios do reino, ameaçaram-no de mandar de volta excomungado; Gregório queixou-se do tratamento, pois o chamavam de irmão. Exigiu ser chamado de “pai”. Desde esse tempo, com efeito, foi substituído o tratamento por “pai”, conforme palavras do insuspeito historiador católico Césare Cantu.”

No elenco dos papas biografados pela Editora das Américas, edição de 1952, estão incluídos os nomes de todos até Pio XII, cuja morte ocorreu em 1958. De Pedro (sic) até Adriano II (827 AD), a lista e as informações são da autoria do Monge Pedro Guilhermina Contudo como já vimos, e ficou sobejamente provado por dados históricos, Pedro jamais esteve em Roma; poder-se-á então deduzir que a lista corre o risco de não ser verdadeira também em outros pontos.

Por outro lado, não podemos aceitar que Lino, Cleto (ou Anacleto, de acordo com certas fontes), Clemente e Evaristo, os quatro primeiros mencionados, pudessem ser papas enquanto estava vivo o último dos apóstolos, o filho de Salomé, o primo do Senhor, o apóstolo amado João, que, segundo alguns, faleceu no princípio do século II.

Vamos, então, às informações. Antes, porém, alguns escla­recimentos para maior aproveitamento do leitor quanto às intenções deste modesto estuda

Dissemos que vamos mostrar o feito de alguns papas em ordem cronológica, mas não necessariamente um elenco completo deles, pois seria desgastante e cansativo, e também fugiria aos objetivos que temos em vista. Veremos como a modificação de humildes bispos em poderosos príncipes foi acontecendo devagar, cada um introduzindo uma heresia maior e chamando suas vítimas de hereges; como se conseguiu o primado de Roma sobre os demais bispos; como surgiram o que os historiadores chamam de “embustes históricos”, as doações de Constantino, a usurpação de Martelo, Pepino e Carlos Magno, com conivência e grande recompensa em troca, feita com a bajulação de Gregório III (cujo pontificado estendeu-se de 731 a 741), terminando com Zacarias (pontífice de 741 a 752);-o poder crescente dos papas, que chegaram a humilhar reis, como Nicolau II, e o “Sínodo Cadavérico”. Veremos, ainda, coma menosprezando a história, o chefe da Igreja Romana arroga a si o privilégio de ser um elo perfeito na corrente “perfeita” de papas que têm reinado na Igreja desde o apóstolo Pedra que dizem ter sido o primeiro papa.

Vem de muito longe a aspiração dos bispos romanos de serem considerados “chefes” de todos os cristãos. Com a queda do Império Romano do Ocidente em 476, com a deposição de Rómulo Augusto por Odoacro e com a expansão da evangelização dos bárbaros nos séculos VI e VII, aumentaram as pretensões e as oportunidades. Assim, começaram a sobrepor-se sobre o catolicismo do Oriente, até que em 869 houve o rompimento definitivo, chamado Cisma dos Gregos ou Cisma do Oriente, quando foi declarada, mas não aceita pelo Oriente, a supremacia de Roma. No entanto, o poder dos bispos romanos já era grande nessa época. Mas o século VIII revela um dos grandes objetivos do catolicismo: fundar ou recons­truir um império que rivalizasse com o do Oriente, e, dessa forma, ter o apoio que precisava para o domínio universal, tanto religioso como político.

Reinava na França a decadente dinastia merovíngia. Gregório III fazia interessados obséquios a Carlos Martelo, que desfrutava grande prestígio por ter vencido os sarracenos, salvando a civili­zação cristã e o Ocidente. A morte, porém, surpreendeu o papa, que não pôde assim realizar seus planos. Seu substituto, Zacarias, deu continuidade ao expediente de seu predecessor e consumou a traição aos merovíngios. Fez negócios escusos com Pepino, filho de Martelo, aconselhando-o a assumir o trono, “uma vez que já tinha o poder”, usurpando assim a coroa da França. Em troca, Zacarias recebeu de Pepino o que de direito cabia aos imperadores gregos. Foi uma troca, no mínimo, escandalosa, mostrando as pretensões crescentes dos bispos romanos de se apoderarem também do esfacelado Império Romano, o caminho do poder temporal dos papas.

No intuito de dar uma aparência de legalidade a essa doação, cujo conteúdo, entretanto, não se sabe senão por in­formação de um compilador pouco fidedigno, e mais de 100 anos posterior à assembleia de Guercy-sur-Oise, inventou-se-lhe o título de “restituição” e compôs-se, para justificar essa escandalosa mentira histórica, a famosa “doação de Constan­tino”. 7» Por ocasião de sua “conversão”, Constantino teria doado terras do império ao “papa” Silvestre I, o que, do século XI para cá, tem sido usado como poderoso argumento em favor das pretensões papais, mas também objeto de vigorosa contro­vérsia.79

Em 768, morre Pepino, legando o império ao seu filho Carlos, fiel católico, que veio a se chamar Carlos Magno. Este ampliou os domínios dos francos pelas armas e “converteu” ao catolicismo, pela força, dezenas de tribos pagãs.

No ano de 800, uma revolta obrigou o Papa Leão III a fugir de Roma. Com a intervenção do imperador, o pontífice foi reins­talado em sua sede. Por tão relevante serviço prestado à Igreja, no dia 25 de dezembro desse mesmo ano, Carlos Magno, de joelhos, recebeu das mãos de Leão III a coroa de imperador dos romanos. A multidão, delirante de alegria, recebeu a notícia alvissareira: Estava fundado o Império do Ocidente, para rivalizar com o do Oriente, fato que veio piorar ainda mais as relações entre os “cristãos” de ambos os lados.

Com a morte de Carlos Magno em 814, começou a deca­dência do novo império, ao ponto de, em curto espaço de tempo, não possuir um nome digno para titular. Surgiram então os feuda-listas, que governavam e mantinham a ordem em seus termos. Essa situação não convinha totalmente à Igreja. João XII, em 962, viu-se ameaçado pela população romana e pediu socorro ao impe­rador alemão Otão, que reentronizou o papa. Mais uma troca. Dessa vez, João XII, em gratidão, proclamou o seu protetor impe­rador do Santo Império Romano-Germânico. Os humildes bispos romanos já eram quase senhores do mundo. Enquanto Otão reinava na Alemanha, a Igreja Católica, pela mão do bispo de Reims, coroava Ugo Capeto rei da França.

O poder crescente e a influência dos papas não tiveram limites, e com Nicolau I começa a pretensão dominadora, o direito de julgar os soberanos da Terra, baseado em documentos falsos do pseudo–Isidoro, as falsas decretais, como a elas se referem os historiadores católicos, como Césare Cantu e outros, e de avaliar tais soberanos pelo critério dos cânones e dos interesses dos papas. Diz Janus:

Não cremos que, na história inteira, se possa encontrar segun­do exemplo de uma falsidade que vingasse tão perfeitamente, e que fosse, todavia, tão grosseiramente concertada (…)

Nicolau foi o primeiro papa coroado na presença de um impe­rador. Luiz III assistiu à sua posse da cadeira pontifícia, segurou no freio de sua cavalgadura, e dizem que até lhe beijou o pé. Reinou sobre os reis e sobre os tiranos, sujeitando-os à sua autoridade como se fora o senhor do mundo (…) Terrível e extremamente rigoroso para com os ímpios, e todos aqueles que se desviavam do verdadeiro caminho (sic); por tal sorte que se houve que era possível considerá-lo um Elias ressus­citado à voz de Deus, se não em pessoa, ao menos em espírito e virtude. Intimou Lotário a se unir a Teutberga e com ela viver como esposo e a mandar para a Itália Waldrada, sua amante e pedra de escândalo.

Neste ponto, a crónica refere que uma rapariga da Mogún-cia, educada em Atenas, com trajes de homem, viera residir em Roma, onde se fazia chamar João da Inglaterra (855 AD). Alcançou ali tal reputação de saber e de virtude, que foi elevada ao trono pontifício com o nome de João VIII. No fim de dois anos, cinco meses e quatro dias, seu mau proceder fez com que se descobrisse sua verdadeira identidade e sexo. Para alguns, um conto vulgar; para outros, fatos confirmados até por histo­riadores católicos, citados por Ricardo Mayorga em A vida da Papisa Joana. São eles Mariano Scoto, em Chronica ad annum 854; Teodoro de Niem, bispo de Ferdem; Llorent, em Retrato político de los papas, entre outros. Diz mais sobre o que escreveu este historiador:

O espírito de ambição (…) sugeriu-lhe a ideia de que, auxi­liada pelo seu amante, poderia ocultar gravidez e parto. Porém isto se verificou em março de 855 duma maneira horrível. Caminhando para São João de La trio, foi acometida de dores acerbíssimas na via pública, entre o Coliseu de Nero e o templo de S. Clemente. Procurou resistir e ocultar, mas… deu à luz na rua e lá mesmo morreu de parto, repentinamente. Foi tão público o escandaloso fato, que não se pôde ocultar a infâmia, e resolveram riscar de todos os lugares o nome do Papa João VIII.

Se a Igreja Católica Romana crescia em forca e poder temporal, caía em moralidade. Com Formoso começa o período de grande decadência moral, com predominância do mando de mulheres por um período de mais de 60 anos, quando exerceu grande influência uma prostituta chamada Marózia. Nessa ocasião, um triste acon­tecimento passou à história como “Sínodo Cadavérico”. Quando o Papa Formoso morreu, subiu ao poder Estêvão VI. Eis o que este fez:

Apoderou-se da tiara e deu novo escândalo à Igreja, mandando desenterrar Formoso, o qual, assentado no trono, e vestido como pontífice, foi posto em juízo por ter abandonado por outra mulher a sua primeira esposa. “Condenado”, cortaram–Ihe a cabeça e os três dedos com que dava a bênção, e lançaram os seus restos mortais no rio Tibre, declarando nulas as ordens sacras que dera.

Tão repetidas vezes anularam as consagrações por ele feitas no decurso de cinco anos, que a igreja italiana inteira viu-se abismada na mais completa desordem, sobrevindo geral incer­teza quanto a se saber se a Itália teria ainda sacramentos válidos (…)

Então, os partidários de Formoso revoltaram-se, para o vingar daquelas terríveis violências, e estrangularam, na prisão, o Papa Estêvão, cujos atos o papa seguinte anulou.

No ano de 898 entra em cena Marózia, filha da intrigante Teodora. Casada com o poderoso conde de Túsculo, Marózia tentou elevar ao pontificado seu amante Sérgio, com exclusão de João IX e de seu sucessor, Bento IV. Depois ascendeu ao trono Leão V, que reinou durante dois meses. Este foi preso e teve morte cruel. Por fim, em 904, Marózia conseguiu eleger seu amante Sérgio III, que “levou o vício, a prostituição e o adultério sobre o trono ponti­fício”. Entregou aos seus protetores o castelo de Santo Ângelo, que desse modo tornaram-se os senhores de Roma e continuaram elegendo quem mais lhes pagasse. Sucedeu-o João X, amante de Teodora. João X caiu em desgraça com Marózia, e ela o substituiu por Leão VI, o qual reinou durante sete meses e foi morto a marteladas por um marido traído que o surpreendera em flagrante adultério (ISua vida e serviços, do ex-padre Charles Chiniquy, p. 15). Em seguida, Marózia conseguiu eleger seu próprio filho, que se cha­mou João XI. Alguns historiadores afirmam que era filho legítimo, e outros, que era filho de seu amante, o Papa Sérgio III. João XI foi eleito papa aos 25 anos e morreu aos 30, deixando atrás de si uma lembrança triste. Diz o historiador católico Césare Cantu que entregando-se às paixões de uma mocidade desenfreada, deixava sua ambiciosa mãe e seu irmão Albérico dirigir como queriam as coisas sagradas e profanas, e finalmente foi preso pelo próprio irmão, obrigado a pedir o patriarcado de Cons­tantinopla para seu sobrinho, filho de Albérico, que tinha somente 16 anos de idade.

A sucessão de desmandos e imoralidade continuou. Albérico fez papa seu próprio filho Ota viano, que se chamou João XII. Imputam a este papa crimes horríveis. O palácio de Latrão, convertido em lugar de prostituição pelas mulheres que nele residiam; cardeais e bispos mutilados, mandados cegar e matar (…); o capricho do papa de ordenar um diácono numa cocheira; uma criança de 10 (dez) anos promovida ao bispado de Lodi; incêndios feitos de propósito; até beber vinho em honra do diabo e das divindades pagãs (…)

Bento VI foi expulso; João XIV foi preso; João XV foi morto e arrastado pelas ruas de Roma e deixado sem sepultura, talvez por castigo por ter “inventado a canonização”; João XIX foi feito papa sem nunca ter sido padre; Bento IX foi consagrado papa com apenas 12 anos de idade, e alguns dizem que tinha apenas nove anos. Desonrou a Igreja com toda espécie de escândalos. Duas vezes foi expulso e duas vezes recuperou a tiara. Depois vendeu o pontificado a João XX. A seguir, começa um período em que os papas morriam “misteriosamente” e ninguém queria ser papa com medo de ser envenenado.

Como se vê, o catolicismo romano não tem motivos para se orgulhar, mas para não cansar o leitor, citaremos mais três nomes.

Inicialmente, João XXIII, o primeiro desse cognome, “chefe” da Igreja de 1410 a 1417. Esse primeiro João XXIII, um papa devasso, era “o diabo em carne e osso”: tinha 300 concubinas e teve a singular ideia de lançar imposto sobre os lupanares, sobre as casas de jogo e sobre a usura (à semelhança do Imperador Vespasiano, que taxou as latrinas). Em seguida, vem Alexandre VI, da tristemente famosa família Bórgia, que comprou a peso de ouro o pontificado e seduziu a própria filha. Por fim lembra-mo-nos de Paulo VI e do grande perigo que correu o ex-padre Anibal Pereira Reis. Depois de abandonar a batina e de se peni­tenciar dos erros que ensinou durante o sacerdócio, foi ameaça­do pelo referido papa por volta do ano de 1971. Interessante é que esse papa tinha um sobrinho, também ex-padre, que já era pastor protestante na Argentina desde 1961. O resumo de sua conversão consta no capítulo 21.

Com certeza, o ódio do papa pelos evangélicos foi acirrado, e o ex-padre Anibal, agora um vibrante pregador e escritor protes­tante, ficou na mira de Paulo VI. Este mandou um cardeal escrever a um seu colega aqui no Brasil uma carta em que ameaçava Anibal e da qual extraímos alguns trechos:

Tivemos conhecimento da sentença judicial favorável ao Padre Anibal Pereira dos Reis. Certamente ele tomará medidas para proclamar e divulgar amplamente essa decisão porque isso lhe interessa. É lamentável que a sorte lhe haja favore­cido. Agora, por certo, ele se inflamará ainda mais na sua pertinácia de pregador protestante (…) Tememos que essa literatura seja traduzida em outras línguas, o que iria alastrar o mal em outros países.

O Santo Padre, informado de tudo e apreensivo, solicita-lhe, por meu intermédio, que insista nas reuniões da CNBB para que se estudem medidas a serem adotadas para coibir e neutralizar os efeitos do trabalho desse sacerdote (…)0 que fazer? Como já disse, é preciso que se estudem medidas adequadas. Talvez promover alguma coisa para desmorali­zá-lo entre os próprios protestantes.

Os bispos no Brasil devem se convencer de que o Padre Aníbal é o sacerdote que atualmente causa preocupações a Paulo VI, que está sumamente interessado numa urgente solução.

Como se poderá notar, o perigo ainda está presente. Feliz­mente, o mundo evoluiu. A instrução ainda não atingiu um estágio ideal, mas progrediu o suficiente para que possamos tomar conhe­cimento da literatura sem o imprímatur da Igreja. As mazelas vão chegando ao conhecimento público. “Os gatinhos já abriram os olhos.”

Extraído do livro: O Catolicismo Romano Através dos Tempos, Alcides Conejeiro Peres


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