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Uma crítica ao fatalismo divino

por Artigo compilado - qui jun 26, 11:30 am

Figura - Perguntas

Nota do CACP: O texto abaixo faz parte de vários artigos incluídos na coluna de debates evangélicos.

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Hoje, através de Calvinistas rígidos, estamos vivendo a ressurreição de uma dogmática chamada de FATALISMO DIVINO. É uma doutrina que ensina que tudo é determinado e decretado por Deus. Nada, absolutamente nada, acontece sem ter sido decretado, desejado e planejado por Deus – até as coisas más e vis da vida.

João Calvino, um dos mentores dessa concepção equivocada, diz-nos o seguinte na defesa da sua tese:  “Assim se deve entender que todas e quaisquer efetuações que se percebem no mundo provêm da operação secreta da mão de Deus”[1] “Por isso, pois, ele é tido por onipotente, não porque de fato possa agir, contudo às vezes cesse e permaneça inativo; ou, por um impulso geral de continuidade ao curso da natureza que prefixou, mas porque, governando céu e terra por sua providência, a tudo regula de tal modo que nada ocorra senão por sua determinação”[2] “Já que estamos debaixo de sua mão, nada sofremos senão pela ordenação e mandado de Deus. Pois, se o governo de Deus assim se estende a todas as suas obras, é pueril cavilação limitá-lo ao influxo da natureza”[3]

Mas para que tudo ocorra de acordo com o decreto divino previamente estabelecido (de acordo com essa concepção), é necessário intervir diretamente na vontade e nos pensamentos do homem. No fatalismo o homem só age diante de uma força irresistível imposta pelo divino: “E a este ponto se estende a força da divina providência, não somente que sucedam as efetuações das coisas como haja previsto ser conveniente, mas também que ao mesmo se incline a vontade dos homens. Verdade é que, se atentamos para a direção das coisas externas segundo nosso modo de ver, até este ponto nada haveremos de duvidar que estão situadas sob o arbítrio humano. Se, porém, damos ouvidos a tantos testemunhos que proclamam que também nestas coisas externas o Senhor rege a mente dos homens, somos compelidos a sujeitar o próprio arbítrio ao impulso especial de Deus”[4]

Como vemos, para Calvino a própria vontade do homem, embora pareça estar no arbítrio dos homens, na verdade é governada por Deus, que “rege a mente dos homens”. É Deus que nos manipula e nos inclina a vontade para que os eventos que Ele determinou desde a eternidade venham a acontecer. Assim, o Criador governa de maneira manipuladora.

Estes e outros exemplos semelhantes nos mostram que Calvino não abria exceções para o fatalismo divino. Para ele, tudo, tudo mesmo, incluindo pensamentos humanos e coisas inanimadas, foi tudo determinado por Deus por Seu decreto antes da fundação do mundo, de modo que “nada acontece, a não ser por sua determinação”[5], uma vez que “não há nada mais absurdo do que alguma coisa acontecer sem que Deus o ordene”[6].

Que era assim que Calvino via as coisas, isso fica claro em outras analogias que ele faz, como quando diz que os assassinatos são fruto do decreto divino: “Imaginemos, por exemplo, um mercador que, havendo entrado em uma zona de mata com um grupo de homens de confiança, imprudentemente se desgarre dos companheiros, em seu próprio divagar seja levado a um covil de salteadores, caia nas mãos dos ladrões, tenha o pescoço cortado. Sua morte fora não meramente antevista pelo olho de Deus, mas, além disso, é estabelecida por seu decreto”[7]

Portanto, para Calvino, Deus não apenas tem presciência do crime, mas ele também estabelece o crime. Os crimes não são fruto de um livre-arbítrio humano mal utilizado e antevisto por Deus, mas são frutos diretos do decreto divino e tais homens são meramente instrumentos nas mãos de Deus, que não podiam fazer nada a não ser executar o crime. É por isso que ele diz que todo o mal dos ímpios procede do decreto divino que lhes é infligido: “Do quê concluímos que nada de mal eles sustém que não proceda do justíssimo juízo de Deus que lhes é infligido”[8]

Que os ímpios são meros instrumentos nas mãos de Deus para praticar suas impiedades, ele deixa claro: “Deus de tal modo usa as obras dos ímpios e a disposição lhes verga a executar seus juízos, que Ele próprio permanece limpo de toda a mácula”[9]

Para ele, Deus obriga os justos e os ímpios à obediência de seus decretos pré-estabelecidos: “Uma vez que a vontade de Deus é a causa de todas as coisas, a providência é estatuída como moderatriz em todos os planos e ações dos homens, de sorte que não apenas comprove sua eficiência nos eleitos, que são regidos pelo Espírito Santo, mas ainda obrigue os réprobos à obediência”[10]

Diante desses argumentos fatalistas, Olson diz: “Como Calvino poderia se colocar de maneira mais direta e mais forte do que essa? Deus compele os réprobos, os ímpios, para obedecer sua vontade. Em outras palavras, até mesmo o mal feito pelas pessoas perversas é preordenado e tornado certo por Deus”[11]

Calvino é ainda mais explícito sobre isso quando diz: Os crimes não são cometidos senão pela administração de Deus. E eu concedo mais: os ladrões e os homicidas, e os demais malfeitores, são instrumentos da divina providência, dos quais o próprio Senhor se utiliza para executar os juízos que ele mesmo determinou. Nego, no entanto, que daí se deva permitir-lhes qualquer escusa por seus maus feitos”[12] “A suma vem a ser isto: que, feridos injustamente pelos homens, posta de parte sua iniqüidade, que nada faria senão exasperar-nos a dor e acicatar-nos o ânimo à vingança, nos lembremos de elevar-nos a Deus e aprendamos a ter por certo que foi, por sua justa adminitração, não só permitido, mas até inculcado, tudo quanto o inimigo impiamente intentou contra nós”[13]

Em suma, Deus não apenas permite ou antevê o pecado por sua presciência (o que o torna passivo na questão do pecado e o livra de toda e qualquer mancha do mesmo), mas ele incita, inculta, determina e ordena tais pecados. Eles fazem parte do decreto divino, e Deus determina que este decreto se cumpra plenamente, de modo que a causa primeira do pecado não é o pecador ou o criminoso, que é meramente um instrumento nas mãos de Deus, mas é o próprio Deus, que determinou que aquilo aconteceria antes mesmo do pecador nascer!

John Wesley uma vez disse: “Agora o que pode, porventura, ser uma contradição mais clara do que esta, não apenas para toda a extensão e tendência geral da Escritura, mas também para aqueles textos específicos que expressamente declaram: ‘Deus é amor?’”[14]

A verdade é a seguinte: se o Deus fatalista é verdadeiro e ele é quem determina todos os pecados e todo o mal moral existente no planeta, então deveríamos repensar o conceito de “amor” que a Bíblia tanto diz e que nós tanto pensamos. Pois não creio que haja um único ser humano nesta terra – nem mesmo o calvinista mais fanático – que sustente que o terrorismo, o estupro, a pedofilia ou a tortura sejam “atos de amor”. Se alguém sustenta isso, não entendo que seja uma lógica sadia. Mas, se tais atos pecaminosos e horríveis são determinados por Deus, então que tipo de amor ele possui?

Pense nisso!

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Fontes:

– “Eleistos, mas livres” de Norman Geisler;

– “Contra o Calvinismo” de Roger Olson;

– “Calvinismo X Arminisnismo” cedido pela comunidade Arminiana do facebook.


[1] Institutas, 1.16.9.

[2] Institutas, 1.16.3.

[3] Institutas, 1.16.3.

[4] Institutas, 2.4.6.

[5] Institutas, 1.17.11.

[6] Institutas, 1.16.8.

[7] Institutas, 1.16.9.

[8] Institutas, 3.23.9.

[9] Institutas, 1.18.

[10] Institutas, 1.18.2.

[11] OLSON, Roger. Contra o Calvinismo. Editora Reflexão: 2013, p. 116.

[12] Institutas, 1.17.5.

[13] Institutas, 1.17.8.

[14] WESLEY, John. “Free Grace”, Works. v. 3, Sermão 3, p. 552.


Cada autor é responsável pelo conteúdo do artigo.

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